quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

The Forgotten I : Alla Nazimova

Quero começar esta nova série, "The Forgotten", com uma personalidade nada corriqueira e muito interessante… Nazimova!

Quem se lembra de Leslie Caron interpretando Alla em “Valentino” de Ken Russel? (Vide minha postagem de 22.04.2008, uma das menos lidas...). Alla realmente deve ter sido uma grande diversão para Leslie que parece estar se divertindo, se esbaldando com seu papel... Caricata, genial, louca, com sotaque, dramática, diva... Mas realmente existiu uma Alla assim tão louca?

Adelaida Leventon nasceu na Crimeia (então parte do império russo, hoje parte da Ucrânia) em 1879, parte de uma família judia bem “disfuncional”. Sua infância e juventude foram instáveis: o divórcio dos pais, estadias em colégios internos, em instituições educacionais e em casas de parentes. Parece que sua instabilidade emocional transformou-a ainda bem cedo numa rebelde, que lutava contra qualquer tipo de autoridade; na maioria das vezes porém para obter atenção... Uma criança muito precoce, ela aprendeu a tocar o violino aos sete anos de idade. Como adolescente ela demonstrou um interesse pelo teatro e começou a tomar aulas, para logo depois unir-se ao “Teatro de Arte” de Stanislavsky em Moscou como “Alla Nazimova” (prenome adaptado do seu próprio e “Nazimova” o nome de uma heroína de uma novella russa que muito apreciava). Durante essa época ela manteve-se financeiramente como uma “kept woman”, “ajudada” por homens mais velhos... Por voltas de 1903 a sua carreira tomou um rumo distinguido em Moscou e St.Petersburg. Ela então conheceu Pavel Orlenev, amigo íntimo de Anton Chekhov e Maxim Gorky e ingressou nao só numa relação pessoal com ele mas numa também a nível profissional. Juntos fizeram tournées com muito sucesso pela Europa. Em 1905 mudaram-se para Nova York e fundaram um Teatro russo no Lower East Side (uma parte “russa” da Manhattan da época). O projeto transformou-se num fracasso. Orlenev retornou à Rússia. Nazimova ficou em Nova York.

Ela teve seu “début” na Broadway em 1906 com grande sucesso de crítica e público e transformou-se numa personalidade popular (um teatro levou até seu nome!) no teatro. Continuou na Broadway por muitos anos, muitas vezes com peças de Ibsen e Chekhov (de quem ela, na época, era considerada a maior intérprete). Agora ela só chamava-se “Nazimova”.

Nazimova fez seu primeiro filme em 1916. Tinha feito muito sucesso na peça “War Brides” de 1915 e quando esta foi transformada num filme de 35 minutos, ela recebeu o papel principal. A partir daí ela passou a fazer contínuamente filmes, que lhe trouxeram não só fama mas muito dinheiro. Em 1917 ela já ganhava $ 30.000 por filme, com um bonus de $ 1.000 por cada dia de filmagem. Brevemente passou a receber $ 13.000 por semana – uma quantia absurdamente alta para a época. Imaginem só que a “Namoradinha da América”, Mary Pickford, ganhava na época $ 3.000 por semana...

Em 1918, aos 39 anos, ela decidiu passar a produzir seus filmes e escrever seus próprios roteiros. É sobre esta época, sobre seu valor avant-gardista e sobre o riquíssimo valor visual de seus filmes que queria dissertar um pouco aqui...

Em 1922 “A Doll’s House” (“Casa de Bonecas”), no meio de sua fase mais criativa, foi uma produção de certa forma clássica, formal. Porém seu uso ousado da camera inspirou muitos cineastas.

.....................(Pobre "Nora" bailando a Tarantella)....................

Seus trabalhos mais “apaixonados” e “enlouquecidos” da época foram “Camille” (1921) e “Salomé” (1923). Cercada de grandes talentos, Alla deu realmente “asas” à sua imaginação e embarcou numa louquíssima, alucinada viagem “avant-garde” construíndo (ao seu redor) “sets” que nunca tinham sido vistos, usando guarda-roupas que nunca haviam existido, criando efeitos que nunca foram cogitados...


Em “Camille” ela contracenou com um jovem talento que acabava de chegar ao estrelato depois de “dançar um erótico tango” em “Os quatro cavaleiros do Apocalipse” (“The four horsemen of the Apocalyse”, 1921): Rudolph Valentino. Rudolph foi o “Armand” para a sua “Camille”. A responsável pela “produção artística”, ou seja, pelos sets art-decó e pelos excepcionais guarda-roupas era Natacha Rambova, que havia nascido como Winifred Shaughnessy e que era a amante de Alla na época. Ela ainda faria a produção de “Salomé” para Nazimova mas logo casaria-se com Valentino para abandoná-lo logo depois. Mas isto já é assunto para uma outra postagem!

Detalhe: a magreza quase anoréxica de Nazimova para interpretar a tuberculosa Marguerite e toda sua fragilidade exterior e interior...

Alla – que sabia reconhecer um talento (como tinha feito com Valentino, contratando-o para “Camille”) e também um “scene-stealer”, não titubeou duas vezes, reduziu o número de cenas de Valentino e transformou o final “a dois” de “Camille” (quando Armand volta finalmente aos braços de Marguerite para perdê-la para a morte) num “solo”. Ela morre sózinha, Armand tendo sido substituido pelo livro (!!!) “Manon Lescaut”, e fica com o final lacrimejante do filme só para ela. Nao sei o que Dumas Jr. teria pensado disto...

...lindo "take" que deve ter inspirado Cukor na sua versao de "Camille" com Garbo...

Aqui mais algumas fotos que mostram a linda fotografia e o decór do filme, que só por este motivo já é uma obra interessante.


“Salomé”, sua produção mais ousada, que lhe custaria sua carreira em Hollywood, foi uma homenagem a Oscar Wilde. Por este fato Alla fez questão que a publicidade divulgasse o fato de que sua produção era uma “all homossexual-production of Salome”. Fato este que também sacrificou a carreira de muitos atores e atrizes do filme...



Nazimova e Rambova não pouparam em detalhes – do seu penteado de “pom-pons” (um clássico, imitado por Leslie Caron em “Valentino”) ao robe que era quase a réplica de uma ilustração de Beardsley para a edição original de “Salomé” – e a produção foi caríssima.


Ela com certeza desenvolveu uma técnica própria em suas produções mas estas, apesar de terem sido elogiadas pela crítica, foram consideradas muito “ousadas” pelo público da época. E olhem que estamos ainda dez anos antes do “Hays Code” (censura), numa Hollywood muito “aberta”. Pensem nos filmes (e cenas de orgia) de Cecil B. deMille !!! Ela perdeu práticamente todo seu capital, vendeu sua mansão que havia construído em 1919 e que tinha sido cenário das maiores “debauched parties” da era dourada do cinema mudo (o famoso “Garden of Alla” que em 1927 transformou-se num hotel de Bungalows chamado “Garden of Allah”, onde ela mesmo alugou um pequeno quarto para si).

Por voltas de 1925 ela não tinha dinheiro para investir em filmes, perdeu todo o seu suporte financeiro, não conseguiu levantar um empréstimo e voltou para Nova York para trabalhar no teatro, na Broadway (como por exemplo para estrelar como Natalya Petrovna na versão dirigida em 1930 por Rouben Mamoulian de “A Month in the Country”).

Alla teve uma vida amorosa muito atribulada... Diz-se que seu casamento com o ator Charles Bryant era um “lavender marriage”. O que pode ser, já que ele era assumidamente gay e ela, durante o passar dos anos, teve casos de amor com Jean Acker e Natacha Rambova (AMBAS esposas de Valentino), com a atriz Eva Le Gallienne, com a assumidíssima diretora Dorothy Azner, com a escritora Mercedes de Acosta (amissíssima de Garbo e Dietrich) e com a sobrinha de Oscar Wilde, Dolly Wilde, entre outras.

Nazimova voltou a Hollywood no início dos anos 40 para trabalhar como coadjuvante em filmes como “Escape” (1940, como a mãe de Robert Taylor), “Blood and Sand” (“Sangue e areia”, 1941 como a mãe de Tyrone Power), The Bridge of San Luis Rey (1944) e “Since you went away” (1944, com Claudette Colbert, Jennifer Jones e Shirley Temple!). Mas ela mesmo disse que o único motivo para fazer estes filmes era realmente a necessidade de dinheiro.

Alla sobreviveu a um cancêr de mama mas sucumbiu a uma trombose coronária em 1945 aos 66 anos de idade. Sua contribuição ao cinema, mesmo que desesperadamente avant-gardista e, hoje em dia, nada fácil de ser “catalogada”,"classificada" (e se voce hoje em dia sai da "norma", está perdido... ) foi reconhecida e ela recebeu uma estrêla no “Hollywood Walk of Fame”.

Famosíssima em seus dias, sua fama hoje em dia não chega perto de nomes como Chaplin, Swanson, Keaton, Gish, Pickford, Fairbanks, Lloyd mas esta ilustração da época mostra que Alla esteve lá, e em grande companhia por sinal!!!!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Emily Dickinson: This is my letter to the world


Nossa, me "enamorei" de novo de Emily Dickinson e de sua brilhante forma de escrever: simples, pura, concreta, atingível...


This is my letter to the world,
That never wrote to me,-
The simple news that Nature told,
With tender majesty.

Her message is committed
To hands I cannot see;
For love of her, sweet countrymen,
Judge tenderly of me!



e o inesquecível... como poderia deixar de mencioná-lo?


I'm Nobody! Who are you?
Are you -- Nobody -- Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise -- you know!

How dreary -- to be -- Somebody!
How public -- like a Frog --
To tell one's name -- the livelong June --
To an admiring Bog!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Supporting actors/actresses V: Estelle Winwood


A quinta postagem desta série segue distintos nomes do teatro e cinema como Mary Boland (agôsto de 2008), Gladys Cooper (outubro de 2008), Jean Hagen e Elsa Lanchester (novembro de 2008) é dedicada a outro rosto, um rosto muito interessante por sinal, que vimos e revimos muitas vêzes ao passar dos anos: a deliciosa Estelle Winwood.

Estelle “Goodwin” nasceu em 1883 (algumas fontes dizem 1882) , em Kent/ Inglaterra e “decidiu” aos 5 anos de idade tornar-se atriz! Ela frequentou a escola de teatro da “Liverpool Repertory Company” antes de ir para Londres, trabalhar no West-End. Estamos falando de 1899! Depois de muitos anos de experiência no teatro inglês, ela resolveu ir em 1916, já não mais uma “criança” para a época (33, 34 anos), para os Estados Unidos onde ela debutou na Broadway.

Até o início dos anos 30 ela dividiu sua carreira entre os palcos londrinos e americanos e seus muitos sucessos foram “Why marry?” (1918) que tem a distinção de ser a primeira peça da Broadway a ganhar um Pullitzer Prize, “The Circle” de Somerset Maughan (1921), “The Importance of being Earnest” (que ela também dirigiu em 1939) e “Lady Windermerer’s Fan” (1947), ambos de Oscar Wilde, assim como “O pirata” (“The Pirate”,1942) que depois no cinema viraria um musical com Judy Garland e Gene Kelly dirigido por Minnelli e musicado por Cole Porter, “Ten Little Indians” (1944) e “A louca de Chaillot” (“The Madwoman of Chaillot”, 1948), uma magnífica peça do fantástico Jean Girardoux que muitos anos depois transformou-se num bom (porém esquecido) filme com Katharine Hepburn.
Aqui uma de minhas fotos preferidas de Estelle, como a "Madwoman".

Como uma grande maioria de atores do seu tempo, Estelle expressava uma aversão ao cinema… Tanto que só debutou no cinema em 1933 (já com 50 anos) em “The House of Trent”, apesar de ter-se destacado pela primeira vez só aos 54 anos em “Quality Street” (1937), um veículo para Katharine Hepburn, que estava numa fase muito crítica de sua carreira, tendo sido rotulada “Box-Office-Poison” (ao lado de grandes ilustres da “Silver Srceen” como Garbo, Crawford e vários outros).
Ela, apesar de muito calma, sempre foi conhecida por atitudes muito inesperadas e surpreendentes... como por exemplo trabalhar na televisão ("Blithe Spirit", 1946) numa época em que esta ainda engatinhava... Nos anos 50 ela trabalhou muito na TV em Shows semanais como “Robert Montgomery presents...”, “Alfred Hitchcock presents...”, “Donna Reed presents...”, “Anne Sothern presents...” e o ótimo “Studio One”. Todos programas que lhe davam oportunidade de apresentar-se em vários personagens e mostrar sua versatilidade...

Estamos falando de uma atriz secundária, de muito pêso e carisma, que já estava com seus setenta e poucos anos, quando realmente encantou-nos com uma mágica interpretação da Fada-Madrinha de Cinderella (Leslie Caron) em “The Glass Slipper” (“Sapatinho de Cristal”, MGM 1955) e como a engracadíssima Tia de Grace Kelly no eterno “The Swan” (“O Cisne”, MGM 1956) de Mólnar.

A Fada-Madrinha é uma criação mais do que excepcional. Nela vejo um pouco de uma mendiga, de uma velha Hippie, de uma filósofa, de uma louca de rua, o sopro de uma Diva e muita, muita mágica... Encantadora! E que dimenção ela deu a este personagem!

Mal poderia imaginar-se então que aquela interessante Senhora, com olhos tão grandes e saltados e traços tão finos e marcantes, tinha sido um dia na juventude considerasa uma verdadeira “Beldade”... Nós só a conhecemos mais velha... Mesmo assim, acho-a bonita! É a transparencia com que trata seus papéis...

Mas Winwood nunca parou, sua energia parece ter sido inesgotável. Trabalhou em “Os desajustados” (“The Misfits”, 1961) com Marilyn, Gable e Clift, em “The notorious Landlady” (1962) um maravilhoso (e infelizmente também esquecido) filme de Richard Quine com Kim Novak, Jack Lemmon e Fred Astaire – com roteiro de um jovem Blake Edwards - e que, como sequência final, possui uma “perseguição” na melhor tradição de Mack Sennett... sim, na melhor tradição do cinema mudo... E a perseguição, colina abaixo é toda encenada ao redor de uma cadeira de rodas, na qual Estelle está todo o tempo sentada! Hilariante! Este filme deveria ter uma “Revival”.
Winwood era amissíssima da notória Tallulah Bankhead (vide minha postagem de 01.03.2008, esta eu realmente recomendo se quizerem rir... ). Duas personalidades tão opostas só poderiam ser tão próximas; as duas foram amigas íntimas dos anos 30 (quando bebiam muito no “Algonquin” em NY) até a morte de Tallulah em 1968. Aqui elas duas, ao lado Joan Blondell, no palco da Broadway em “Crazy October” (1958).


Estelle a “lady”, "inglesíssima" (ou como alguém a definiu: prim, soft-spoken and proper) disse uma vez a um amigo que acabara de ver Tattulah (“The outrageous”) andando nua pela casa: “ I don’t know why Tallulah likes to run around naked. She has so many pretty frocks”.
Aos 84 anos trabalhou em “Camelot” (1967, vide minha postagem de 03.03.2008) e aos 85 em “The producers” (1968) de Mel Brooks – filme que depois ela mais ou menos renegou, acentuando que não tinha-o feito senão pelo dinheiro... Hoje é o filme mais “cult” de todos que participou!

Continuou, apesar da idade em seriados da televisão como “Dr.Kildare”, “Perry Mason”, “O agente da U.N.C.L.E.”, “A feiticeira”, “Dennis, o travesso”, “Batman”, “Cannon”, “The Twilight Zone” e “Police Story”. Como disse, de uma energia inacabável!

Seu último papel no cinema foi em 1976, aos 93 anos, no MAGNÍFICO e INTELIGENTÍSSIMO “Murder by Death” de Neil Simon, como a enfermeira de Elsa Lanchester, que na vida real era uma “arqui-inimiga”... as duas sempre se detestaram e se insultavam todo o tempo! Para mais sobre Elsa vide minha Postagem de 14.11.2008. Neste ultimo filme ela dividiu “a ribalta” com nomes como David Niven, Maggie Smith, Alec Guiness, Peter Sellers, Eillen Brennan, Nancy Walker, Peter Falk, Truman Capote e James Coco. Este é um dos meus filmes preferidos... Assisti-o na época com minha mãe no “Bruni Copacabana” e já revi-o muitas (muitas mesmo) vêzes... e rio sempre!

Winwood foi casada seis vêzes e nunca teve filhos. Alguns desses casamentos foram considerados “lavender marriages”, ou seja, casamentos de conveniência, já que alguns dos maridos eram abertamente “gays” (um deles, Guthrie McClintic, tinha sido casado com Katherine Cornell, famosíssima no teatro em sua época e abertamente lésbica).
Quando ela apareceu pela última vez na televisão em 1979, na série “Quincy”, tornou-se, com 96 anos, a atriz mais velha ainda ativa nos Estados Unidos.
Ao completar 100 anos um jornalista perguntou-lhe como “se sentia” em ter 100 anos? Ela respondeu: “”Que rude de voce lembrar-me!” (“How rude of you to remind me!”).
Winwood alcancou 80 anos de carreira – dos 16 aos 96 anos - e quando morreu, dormindo, aos 101 anos de idade era o membro mais velho do Screen Actors Guild.

No livro inacabado de Truman Capote, “Answered Prayers”, ela aparece como ela mesma: ela vai à uma festa, onde todos estão bêbados, inclusive Tallulah Bankhead, Dorothy Parker e Montgomery Clift!

No último 24 de Janeiro, ou seja, seis dias atrás, Estelle haveria completado 126 anos. Querida Estelle, onde voce esteja: HAPPY BIRTHDAY, LOVE!!!!!!!!

sábado, 17 de janeiro de 2009

Os sapatinhos de rubi – The rubby slippers


Os célebres sapatinhos usados por Dorothy no País de Oz (Judy Garland, The Wizard of Oz, MGM 1939) ainda são muito disputados.
Num leilão da prórpria MGM em 1970 um par foi vendido por $ 15,000 (este par está até hoje em exposição permanente na ala de cultura popular do American History Museum). Um outro par pertencia originalmente à Roberta Baumann, uma moradora de Tenessee que ganhou-o em 1939 num concurso chamado “Name the best Movies of 1939” no seu colégio. Ela foi dona deles até 1988 quando então vendeu-os para a casa de leilões “Christie’s East” por $ 165,000 + comissão. Anthony Londini comprou este par e imediatamente colocou-os em exposição nos Disney Studios de Orlando/Florida.

Duas semanas depois de Landini ter comprado o par, um outro par autêntico apareceu: préviamente propriedade de Kent Warner, que encontrou a maioria dos pares ainda existentes enquanto trabalhou em Hollywood na área de guarda-roupas. Este par foi oferecido, sigilosamente, ao perdedor do leilão do par de Roberta Baumann. Este Senhor, chamado Philip Samuels de St.Louis/Missouri comprou-os pelo mesmo preço que Anthony Londini comprou seu par : $ 165,000. Mr.Samuels até hoje usa seu par para levantar verbas para fins caritativos. Anthony Landini leiloou seu par mais uma vez em Christie’s East em 24.05.2000 e conseguiu $ 666,000, preço este que incluiu também a comissão para a casa de leilões. O comprador foi David Elkouby, que tem lojas de «memorabilia » em Hollywood. Elkouby porém foi preso por vender peças roubads de guarda-roupas de filmes! Então foi obrigado a se desfazer do seu par, que ainda não foi leiloado.
Por incrível que pareça, um outro par, propriedade de Michael Shaw, ía ser colocado numa exposição no « Judy Garland Museum » (que é parte de um museu de crianças em Minnesota). Pouco antes da Vernissage, em agosto de 2005, este par foi roubado e até hoje não recuperado. Para mais estórias sobre este ilustre par de sapatos, que nos encantou na infância e que levou Dorothy de volta a Kansas, leiam : The Ruby Slippers of Oz, por Rhys Thomas (1989).

Marília Pêra e Pippin (1974)

No pequeno mundo do teatro musical carioca sempre constou que, sendo voce bailarino, era um horror trabalhar com Marília Pêra… Muitos reconfirmaram-me isto, de atores e bailarinos a produtores de várias produções como “Pippin”, “Deus lhe pague” e “A estrêla Dalva”. Ela parece ter “infernizado” a vida de muita gente. Porque? Dizem que ela é uma bailarina frustrada… será? Bem… analizemos esta afirmação:
Eu lembro-bem daquele « Show « chamado « Deus lhe pague » (1976) no Canecão com Marília, Marco Nanini e Valmor Chagas… Nao pode-se realmente chamar aquela produção de uma peça, melhor chamá-la de Show… No final das contas, não estávamos todos nós comendo e bebendo enquanto o cast atuava? Bem… A música era ótima (Vinícius e Edu Lobo) e o personagem de Marília apoiava-se em três canções, por sinal muito boas. Naquela época (o bom tempo de Dona Fernanda, grande professora de canto que colocou não só Marília mas também Marco Nanini e Ronaldo Resedá “tinindo”) Marília estava muito “de bem” com seu instrumento (voz), muito diferente da voz irritante, gasguita e fanhosa que hoje tem (como demonstrou naquela horrível produção sobre Carmen Miranda). Por este motivo o público não incomodava-se muito em vê-la “lutando”, realmente suando e esforçando-se loucamente para acompanhar os bailarinos. Numa certa cena, chamada “Labirinto” (um horror!) ela era levantada todo o tempo por dois ótimos bailarinos, numa boa tradição Zizi JeanMaire, que à partir de um certo ponto de sua vida, não conseguia mais fazer muito e todos faziam tudo AO REDOR dela (Mas Zizi entrou neste esquema aos 60 e tantos de idade, depois de ter dancado muito). Estes dois bailarinos chamavam-se Nestor Ragadale, um argentino que sumiu, e Ronaldo Resedá, que faleceu já há muitos anos (Ronaldo, na época ficou furioso com uma crítica que ignorou completamente o seu “número” que chamava-se “Samblues do Dinheiro” e no qual ele cantava, pela primeira vez – o coitado também estava com faringite na época da estréia – e só se referiu aos dois bailarinos que levantavam Marília como “Dois garbosos bailarinos”).

Bem, de volta à Marília… Um dia destes lembrei-me de uma coisa interessante: Marília Pêra trabalhou na produção do incrível espetáculo, vencedor de muitos "Tonys", de Bob Fosse; “Pippin” (Teatro Adolpho Bloch, 1974, direção Flávio Rangel, com quem eu trabalharia em 1978 no “O rei de Ramos” – vide minha postagem de 18.08.08) também com Marco Nanini assim como Carlos Kleber, Tete Medina, Ariclê Perez, Carlos Koppa entre outros e um “corpo de baile” que incluía Ronaldo Resedá, a linda Rosane Maia, Cecília Badasi (Barbosa da Silva), Cecília Salazar (Muitos que trabalhariam no « Rei ») entre outros.
A verdade é uma : Maríília abandonou a produção poucos tempo depois da estréia – Na época alegou-se que ela não considerava o espetáculo bom… (ou que tinha se acidentado?). Eu particularmente acho que ela estava completamente "perdida" neste producao e que na verdade não deu conta da coreografia de Bob Fosse (trazida para o Rio pelo bailarino e dance-captain Gene Foote), afinal de contas… Não é nada fácil seguir nas pegadas de um papel que foi estrelado na Broadway por Ben Vereen… Realmente não é o “calibre” de Marília Pêra, que como bailarina deveria estar mais à vontade como “corista” de My Fair Lady (Postagem de 17.12.2008). Uma parte linda de Pippin é o "Manson-Trio". Lembro-me de Marília nada à vontade tentando... embarassing!


Um ano depois eu estava no Teatro Casa Grande assistindo um Show seu chamado “Feiticeira” (Muito bonzinho por sinal) quando umas três “tiétes” jogaram uma entrada de “Pippin” no chão do palco… acho que provávelmente para irritar Marília (“tiéte”… ainda usa-se esta expressão? Bem, uma delas virou atriz… veja a postagem à qual me referi acima… ela trabalhou no “Rei” e suas iniciais são MT… Quem solucionará esta charada?). Marília apanhou a entrada, olhou e disse “Cruzes, Pippin…” e fez uma cara de nojo enquanto jogou a entrada para fora no palco, em cima das “tiétes"… Aqui a capa da Manchete da época – mais uma das lembranças da maravilhosa caixinha de recortes que encontrei, que voltam para nos divertir (ou para assombrar Marília, que, nao me compreendam mal, considero uma atriz adequada - apesar de muito repetitiva -, que porém nunca deveria ter tentado um musical).

Marília foi substituída em "Pippin" da noite para o dia por Suely Franco que arrasou como a “Conferencier” num estilo bem “Fosseesco”. E por favor nao esqueçamos do jovem Nanini que foi um excelente Pippin!!!!!

Stop buying Israeli goods! Boycott now!

"Tertúlias" lida normalmente com artes em várias formas. Devido porém aos fatos que nos assombram no momento, sinto como meu dever publicar esta postagem - que é na realidade "emprestada" do blog amigo "Robinson em Ithaca" e traduzida do gallego para o portugues! Obrigado!






Pelas criancas assassinadas sem piedade. Pelos bombardeamentos indiscriminados contra a povoamento civil. Porque tréguas tem que ser respeitadas. Por tentar conseguir votos com as vidas dos demais. Porque todos os povos tem direito a existir. Pels casinhas levantadas com o esforco de uma vida e que agora estao destruídas. Por ignorar que o diálogo é um caminho. Por cortar a entrada de remédios e provisoes numa cidade sitiada.
E acima de tudo, porque nem sempre vencem as balas.

Ajudem boicotando os produtos de Israel. Um boicote á a forma mais pacífica de dizer: NAO!
Passem esta mensagem para seus amigos, sua família... Ajudem! Obrigado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

"Candide": de Voltaire a Leonard Bernstein


Ah, “Candide”...
Há dois anos, eu finalmente coloquei o meu exemplar de Candide de Voltaire na minha mala de viagem (vide acima) e, depois de vários anos na minha estante (tenho uma prateleira que acumula os livros que ainda não foram lidos) levei-o para umas férias que passei no Algarve/Portugal.
E que pena que não tinha lido este livro antes... Um dos trabalhos mais cheios de humor e graça que li na minha vida. Devo ter apresentado uma figura muito estranha para os outros clientes do hotel... Eu normalmente tenho que proteger-me muito do sol... e com toda a idumentária “anti-sol” e chapéu e óculos, lá estava eu sentado debaixo de uma barraca gigante, simplesmente às gargalhadas, altas gargalhadas... morrendo de tanto rir... sem poder controlar-me!
“Candide” é a estória de um homem muito gentil, que é dragado, sugado, levado e esbofeteado pela vida e suas eventualidades como catástrofes, guerras, roubos, intrigas, mentiras e desilusões. Mesmo assim ele acredita viver “no melhor de todos os mundos possíveis” (“It’s the best of all possible worlds!”). Superficialmente poderia-se interpretar esta Novella como uma “estorieta” do século 18 mas abaixo da superfície se encontra uma reposta bem satírica à certas interpretações e tentativas filosóficas da época (também da igreja católica) que pregavam que qualquer desgraça e sofrimento são partes “benevolentes do plano cósmico” e necessárias para nossa vida e desenvolvimento espiritual. Como aquela séria besteira que muita gente diz até hoje: é necessário sofrer...
A narrativa de Voltaire, o mestre imortal, é rápida, fácil de ler, digerível, ousada e muito, muito engraçada. Na verdade hilariante! Candide cruza o mundo... da Westphalia (onde morava num Castelo, o “Schloss Thunder-ten-thronckh") à Franca, depois Lisboa durante o terremoto... cruzando o mundo para Montevideo, Buenos-Aires e toda a América-do-Sul até encontrar “Eldorado” para voltar à Europa riquíssimo e depois ir para Constantinópola e ficar palpérrimo... sómente para estar junto de sua amada Cunigunde e para para descobrir (ao contrário dos ensinos de seu mestre Dr.Pangloss) que nem sempre “tudo acontece para o melhor” (“It all happens for the best”!).

“Candide” de Voltaire é uma pequena Novella e obra-prima que insiste em nos divertir e fazer rir. “Candide” de Bernstein, além de uma abencoada idéia, é uma Operetta na qual todos ensistem em cantar – e muito – para nosso deleite! E nao deixem-se irritar pelo “rótulo” Operetta... A música é fascinante!

Um título musicalmente realmente muito considerado e respeitado, “Candide” não teve em 1956 nem o sucesso nem uma recepção como merecia. Talvez pelo fato da sua ironia e ousadia não terem sido muito bem captadas, entendidas ou até aceitas pela América do Norte dos anos 50, tão cheia de pudores. E imaginem só logo quem contribuiu “palavras” para as lyrics: as ousadas e política- e ideológicamente corajosas Lillian Hellman e Dorothy Parker e também Stephen Sondheim entre outros!!!!!!

Em 2005 “Candide” teve finalmente uma belíssima recepcao: No Lincoln Center.
A produção “concertante” atreveu-se com seis intérpretes principais, vários secundários, dois côros (um bem “clássico”, o Westminster Chorus e outro, The Julliard Student Chorus, que se movimenta mais e faz vários papéis) e a New York Philarmonic (conduzida pela “elétrica”, incrívelmente musical Marin Alsop) a dar uma nova “leitura” desta Operetta.

Candide é interpretado pelo fantástico e internacionalmente aclamado tenor Paul Groves, com um timing comico pouco comum em cantores líricos. Que voz...

Cunegunde é um prato cheio para a incomparável Kristin Chenoweth. Não só para divertir-se (e como ela se diverte...) como também para nos encantar, deleitar, impressionar, fazer rir e deixar completamente estonteados com tanto talento. Ela é – desculpe-me Barbara Cook (a primeira Cunegunde de Bernstein) a definitiva encarnação de Cunegunde já que a interpreta nao só “bonita” e "straight" (como geralmente numa operetta) mas extremamante cômica! Kristin, mais uma vez, consegue aqui, no puro sentido da palavra, “arrasar”. Uma maravilha! ( Sua ária “Glitter and be gay” é recebida por um tao longo aplauso que este teve que ser reduzido no DVD pois durava muito!).

A “Old Lady” (with one buttock...) é interpretada por ninguém menos do que Patti LuPone – O que mais posso dizer? Uma jóia de interpretação. Tenaz, exuberante, excitante...

Também Dr. Pangloss (Sir Thomas Allen, que é também o narrador), Maximiliam (Jeff Blumenkrantz) e Paquette (Janine LaManna) nao deixam-se intimidar pelo grande talento dos três primeiros citados e são maravilhosos.
Um detalhe interessante é que protagonistas, secundários, coros e orquestra encontraram-se pela primeira vez quatro dias antes do primeiro espetáculo (ao todo foram só quatro espetáculos!).

A coreografia é precisa e ideal para os protagonistas (que não são bailarinos), o guarda-roupa é perfeito... “cheira” a Voltaire! A direção é animada, dinâmica, engraçada, ousada (só o fato do padre “gay” e da crítica aos judeus é em si, hoje em dia ainda (e de novo), uma ousadia!), cômica, propositalmente exagerada e depois de mais de duas horas um se pergunta: “Mas já acabou? Já? Ohhh... Que pena!”

Na noite da Premiére o filho de Bernstein, Alexander Bernstein, correu para Lonny Price (Direção) e disse: “This is exactly what my father would have wanted”. Mais tarde suas duas irmãs Jamie e Nina, articularam semelhantes pensamentos.

Divertimento de altíssimo nível...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sally Bowles: a wonderful picture for Cláudio

Procurei como um louco, entre as minhas coisas, algumas fotos para colocar na minha última postagem (A matter of Time) já que no Internet nao encontrava bom (ou quase nennhum) material... acabei encontrando esta foto de Sally Bowles - e a dedico ao Cláudio, criador de Sallies... Just a bit of inpiration!

A matter of Time („Uma questão de tempo“, 1976)




„Uma questão de tempo“ (Vincente Minelli, 1976) é, para mim, um filme inacabado... Uma pena pois poderia ter sido muito brilhante... Eu o assisti na época no Cine Caruso (Copacabana, pôsto seis) e me lembro da crítica ter comentado irônicamente o seguinte fato, mais ou menos com as seguintes palavras: “O “velho” saiu de moda. O público nao correrá aos cinemas para assistir “Uma questão de tempo”. A América (do Norte) só se preocupa com o novo, o jovem. Filmes como este são desagradáveis para os expectadores que só se fixam na juventude”. Incrível como este processo, o culto pela juventude, hoje em dia, 32 anos depois, se “aprimorou”. Pensem nisso.

Baseado no livro “Film of Memory” de Maurice Druon (um pequeno trabalho, sensível, as vezes até cheio de uma poesia triste), êle conta a estória de “Nina” (Liza Minnelli), uma mocinha do interior da Itália que vai trabalhar em 1949 como camareira num hotel em Roma. Lá ela conhece uma hóspede fixa do hotel: Contessa Sanziani (Ingrid Bergman), que na sua juventude foi uma das mulheres mais belas, famosas e ricas da Europa, foi retratada por todos os impressionistas (!!!), abandonou o marido (Charles Boyer) para viver seu/seus amor/amores... Hoje ela está à beira da miséria num quarto sujo deste hotel de terceira classe. Confusa...
A Condessa, para quem o tempo nunca significou nada, perdeu totalmente a noção dêle. As vezes não sabe que seu grande amor “Doraccio” morreu, que sua antiga criada é hoje a grande figurinista de um Ballet russo, que é pobre, que envelheceu e que foi esquecida ("Nós deixamos as pessoas morrerem quando esquecemos dela" diz no filme).
Ela começa a contar suas memórias à Nina, que inicialmente fica fascinada por elas. Com o passar do tempo a fascinação cresce, transforma-se quase numa obsessão e Nina começa à “viver” as memórias da Contessa como suas próprias fantasias... da conquista de Maharajahs, às mesas de jogo de Monte Carlo...


Minha cena preferida, uma das poucas com um certo élan: um canal em Veneza. A Contessa (neste caso como é uma memória/fantasia, interpretada por Liza) despede-se de seus convidados de uma festa de fantasias. Ela diz adeus ao “Kaiser” (“Chame-me de Wilhelm, por favor!”) e ao entrar no seu Palazzo vai deixando a roupa cair até o ponto de estar práticamente só de combinação. Ela não deixa os cinco músicos negros pararem de tocar e canta “Do it again!” de Gershwin. Nao é a Contessa, nao é Nina... porém Liza.
As filmagens começaram num clima entusiástico, com grandes esperanças para um sucesso. Mas vamos ser sinceros, tudo indicava: Minnelli & Minnelli (êle, a lenda que é, com toda a sua técnica. Ela, apesar de ter tido alguns fracassos como por exemplo “Lucky Lady” com Burt Reynolds e Gene Hackman, ainda muita considerada por sua recente Sally Bowles de “Cabaret”), a grande Ingrid Bergman num de seus últimos filmes, Charles Boyer (êste em seu último filme. Êle e Ingrid, além de serem muito amigos, já haviam trabalhado duas vêzes juntos na juventude: no fabuloso “Luz de Gás” de George Cukor – veja minha postagem de 23.05.2008 – e no, quase traumatizante, “Arco do Triunfo”, baseado na novela de Erich Maria Remarque). No elenco secundário Fernando Rey, Tina Aumont e, na sua primeira aparição no cinema, Isabella Rossellini, como a freira que cuida da Contessa antes de sua morte (Quando ela pergunta: foi isso? Isso foi a vida?)

Grandes figurinos, duas novas canções de Kander & Ebb (a canção título do filme e “The me I haven’t met yet” que se passa “na cabeça” de Nina: êste nao é de nenhuma forma um musical) e filmagens “in loco” em Roma e Veneza. Todos estes ingredientes contribuíram para uma grande expectativa!

MAS a American International Pictures, muito consciente dos gastos, tirou o filme das mãos de Minnelli quando êste ficou “over budget”. O resultado não poderia ter sido mais patético – e trágico! O filme, além de ser todo o tempo interrompido por cenas à la “cartao postal” de Roma (horríveis... com turistas que definitivamente não são de 1949), foi revelado da forma mais barata possível (Mesmo assim existem aqui e acolá cenas de um grande poder visual, a marca registrada de Vincente). A música de fundo é uma catástrofe assim como a forma na qual o filme foi cortado. Uma vergonha! Martin Scorcese deu vários depoimentos criticando a forma como a AIP maltratou e humilhou uma lenda cinematográfica como Minnelli. Numa conferência para a imprenssa, Vincente rompeu oficialmente a sua relacao, ligacao com este filme, já que não mais o considerava “seu”.

Triste pensar que este foi sua “canção de cisne”, já que nunca mais voltaria a dirigir um filme.