Relendo „Tonight at 8:30“ de Noël Coward, voltei a ficar encantado com o conceito usado e com o árduo exercício teatral que ele compos e impos para Gertrude Lawrence e para si próprio… Incrível!
“Tonight at 8:30” é uma série de dez peças de um só ato (muitas delas com várias cenas) escritas em 1935. Dramas, comédias, até uma comédia musicada etc. que eram apresentadas de tres em tres todas as noites, primeiro no West End, depois em 1936 na Broadway (Na realidade o publico só descobria quais peças iria assistir quando já estava dentro do teatro!). A partir deste momento um fato foi definitivamente constatado: O público queria ver Gertie e Noël juntos no palco...
Hoje em dia seria muito trabalhoso ter-se num teatro dez cenários distintos, dez guarda-roupas completos diferentes, música orquestrada em algumas noites sim, em outras não e acima de tudo: dois atores que “dessem conta” de fio a pavio de dez diferentes personagens variados… dominando a escala de comédias romanticas à musicais, de dramas à peças de caráter mais realista… e tudo isso ao sabor das linhas extremamente ironicas e inteligentes de Coward, que exigem uma precisão milimétrica dos atores…
Noël, genio do teatro e cinema ingleses, rapaz de família de trabalhadores rudes e muito pobres que foi literalmente adotado pela “Upper Crust” Londrina em tenra juventude e que assimilou muito bem a maneira de pensar e agir dela ("I'll go through life either first class or third, but never in second")
E Gertie… Oh, Gertie! (que havia debutado na Broadway em 1924 e que em 1925 conquistou definitivamente o mundo em "Oh, Kay!" cantando "Someone to watch over me" de Gershwin - que épocas!).
Gertie em 1928 uando e abusando do seu (realmente) inimitável "chic".
Muitos contaram que, em seus dias, existiram mulheres muito mais bonitas, melhores atrizes, melhores cantoras, melhores dançarinas do que ela mas a combinação de seus talentos e extremos, fascinante charme foi o que tranformou Gertrude Lawrence no epítome do glamour e do «chic» de seus dias. Muitos dizem que ela simbolizava completamente o termo „Star“.
Gertie & Noël foram amigos de toda uma vida… desde a infancia até sua trágica morte quando foi afastada em 1952 do elenco de “The King and I” (ela descobriu Yul Brinner) na Broadway para morrer sómente dias depois.
Cancer.
Noël escreveu um comovente e emocionado «Obituário» para o Times…
Uma época de muito “chic” havia terminado para sempre e o início desde mundo no qual habitamos, mundo desta incansável jornada rumo à vulgaridade, começou… Coincidencia?
Aqui, algumas fotos de algumas das peças de „Tonight at 8:30“.
„Family Album“
Ensaiando „Red Peppers“
„Red Peppers“
„Shadow Play“
mais uma de “Shadow Play” (magnífica, por sinal!)
“Ways and Means”
e, minha predileta, a biruta, aloprada “We were dancing”.
Para finalizar esta Tertúlia seria mais que perfeito colocar aqui a cena inicial de "We were dancing" (na qual ela entra em cena num estado de extase, jurando amor eterno, beijando, acariciando, fazendo amor com um jovem, lindo rapaz... para ser interrompida por um homem que pigarra e a chama pelo nome. Ela se afasta do rapaz e pergunta "Qual é seu nome?" para logo completar bem "as a matter of fact": "Querido, este é meu marido.")
Infelizmente só encontrei cenas destes lindos trabalhos de Coward com Joan Collins (Ave-Maria!!! Of all people!!!!). Seria dar um banho de vulgaridade e maquiagem à memória deste charme de pessoa que se chamou Gertrude Lawrence.
Mas existem ainda gravações de suas músicas... que juntas às imagens que youtube nos proporciona, darão a voces certamente uma idéia do que Gertie simbolizou nos seus dias... como, por exemplo "Someone to watch over me" que ouvimos aqui juntos, há poucas semanas numa Gala para Gershwin. Bem; técnicas e tempos mudaram, mas elegancia ainda é "a state of mind".
Enjoy!
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quinta-feira, 18 de julho de 2013
Tonight at 8:30
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Cortesia e Respeito… God save our King, o Teatro!
Tenho conversado (será por coincidencia?) com diversos amigos sobre o tema “Respeito/Comportamento” nos teatros brasileiros e sobre fato do público (pelo menos o carioca) ter-se, ao longo dos anos, transformado num publico descortes, grosseiro…
É óbvio que não podemos e não devemos generalizar esta afirmação… mas a impressão geral “que fica” é esta… Infelizmente pessoas descortesas e grosseiras dão muito mais na vista, chamam muito mais atenção, mesmo que negativamente, do que pessoas educadas… Infelizmente esta é uma verdade.
Relatos da nossa grande Primeira Bailarina (e minha querida amiga) Cristina Martinelli me dizem de como as pessoas agora “gritam” nos teatros, nos Ballets… Uma outra amiga, a adorável cantora Marília Barbosa, simplesmente abandonou os palcos brasileiros por não aguentar mais o desrespeito do público… falando, conversando, telefonando e – o pior de tudo – “tentando” até cantar junto com a cantora… Uma coisa é falta de respeito... mas ainda uní-la à falta de talento... Haja!
Incrível como este tema é frequentemente abordado: meus amigos me contam de Celulares ligados, tocando ou recebendo SMSs, gente conversando, falando alto, desrespeitando os artistas no palco… isto sem levar em conta a forma inadequada de como se” vestem” para ir a um teatro… Jeans, camisetas… até Bermudas já foram vistas no Theatro Municipal! Não sou realmente uma pessoa conservadora mas neste ponto sim…
Os Teatros, as Óperas do mundo tem para mim o mesmo significado que “um Templo”.
E num Templo é necessário respeito, saber comportar-se.
Lugar de veneração às Artes cenicas… Lugar cheio de fantasmas do passado, de história e estórias, de magia, de mistérios… Lugar magnífico.
Como é bom sentir um "cheiro de teatro"...
Graças a Deus existe – ainda – um outro “trato” aos que estão no palco na Europa… claro que a platéia pode ser “má” mas estas atitudes são tomadas por outras razões… Já passei por apresentações aqui na Ópera nas quais o público, ao final, simplesmente se levantou e foi embora. Em silencio. Não vaiou (como na Itália) mas também não aplaudiu… Mesmo assim não desrespeitou o artista. Simplesmente não mostrou emoções…
Deixo-os aqui com uma curta imagem de 1948… Época na qual, apesar do severo racionamento de comida na Inglaterra, o povo de novo se «arrumava» para ir ao teatro. Por sinal de respeito à "ocasião" os homens colocavam de novo seus ternos e as Senhoras ainda usavam “violetas” (“a bunch of violets”) para ir ao Teatro.
Gosto desta noção de "ocasião".
Ela parece transformar-se porém aos poucos num fóssil pré-histórico...
Numa Royal Command Performance no London Palladium para King George VI, sua esposa a Rainha Elizabeth (depois Rainha-Mãe) e suas filhas Elizabeth e Margaret, uma menina desengonçada de pernas compridas e dentes tortos, termina a “Performance” cantando “God Save our King”.
Atrás dela, se voces bem repararem, se encontra Danny Kaye.
Momento de respeito.
Concentração.
Amor.
Momento repleto de sentimentos de Honra, Gratidão, Agradecimento.
Bonito.
Homenagem ao soberano que levou esta Nação com tanta força e coragem através da II Guerra Mundial (como admiro os Ingleses e sua bravura durante os anos de guerra).
Neste ano a menina de doze anos despontava nos palcos londrinos num “Vaudeville” (no London Hypodrome) chamado “Starligt Roof”, espetáculo no qual cantava a difícil ária de de Coloratura “Je suis Titania”.
Anos depois se transformaria em «Everybody’s darling», mas isto já é uma outra estória/Tertúlia:
Julie Andrews
E eu não poderia deixá-los aqui sem ouvir «Je suis Titania»… Como a própria Julie disse, suas quatro escalas eram quase “freaky”.
Uma Maravilha!
Vale a pena ouví-la!
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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Nossa Cidade...
Nunca assisti „Nossa Cidade“ (Our Town) no teatro e só há poucas semanas tive a oportunidade de ver esta maravilhosa peça, pela primeira vez, como um filme de 1940…
Considero “Nossa Cidade” “that kind of stuff” do qual são feitas obras de arte. Já a li e reli tantas vezes desde 2006 que a tenho toda "encenada" dentro da minha cabeça... Quem sabe um dia?????

Minha relação com “Nossa Cidade” (Our Town) é meio oblíqua. Li esta peça pela primeira vez há muitos, muitos anos no Brasil quando ainda era adolescente. Não devo te-la realmente entendido pois nunca dei-lhe o devido valor… Coisas da idade?

Muito, muitos anos depois (para ser preciso 2006) eu estava passando uma longa temporada de 12 semanas no hospital e pedi para minha mãe levar-me a versão original em ingles que tinha comprado numa loja de livros usados algumas semanas antes de me internar. Eu sabia que este livro estava no meio de uma pilha que mantenho na minha mesa de cabeceira: os ainda “não lidos”.
Logo nas primeiras páginas dei-me conta que começava a reler algo importante, algo maravilhosamente bem composto…
Thorton Wilder mais uma vez me fascinou completamente: considero “The Skin of our Teeth” (A Pele dos nossos Dentes) uma das grandes obras do teatro Americano (um dia, com certeza, tertuliaremos sobre “Skin”) mas senti-me mais próximo, mais identificado com o questionamento de “Our Town”. Não é à toa que “Nossa Cidade” recebeu o Pulitzer Prize de 1938; não é à toa…

O “narrador” de “Town” é o “Stage Manager” (o "diretor de Cena"). A particularidade dele é que ele é o único no palco que está ciente da não existencia da “quarta parede” e fala com a platéia diretamente. Em 1969 Henry Fonda fez o "Diretor de Cena"... Junto à Mrs. Gibby da talentosíssima Joan van Fleet)

A peça nos mostra a rotina diária de uma pequena cidade e das casas de duas famílias nos princípios do século XX. Na “Nossa Cidade” a vida ainda é perfeita apesar de tudo estar mudando rápidamente (Em 1938 grande parte da platéia ainda lembrava-se de como a vida tinha sido diferente “só” trinta anos antes), a grama é verde, ninguém tranca suas portas à noite, o leiteiro (que aparece nos tres atos) é tratado como se fosse parte das famílias.
Wilder, sempre inovador, colocou atores na platéia… em certa parte o Diretor de Cena até traz personalidades da “ciencia” para descrever “científicamente” a cidade. Seu uso de cenários foi bem escasso - quase espartanico. Em uma cena onde os dois atores principais, ainda adolescentes, conversam das janelas de seus respectivos quartos enquanto fazem seus "deveres" para a escola, só existe uma única indicação: duas escadas altas e os dois no alto delas.

O plot central se estabelece no primeiro ato entre o filho, George Gibbs, de uma casa e a filha, Emily Webb, da casa ao lado.

No segundo ato eles se casam.

O terceiro ato começa no cemitério da cidade. Ao lado esquerdo do palco um grupo de pessoas assiste um enterro. Do lado direito várias cadeiras, muitas delas vazias. Reconhecemos logo Mrs. Gibbs, mãe de George. Túmulos (Aqui a única foto que encontrei da produção original de 1938. O preciso momento em que George se joga sobre o túmulo de Emily... Em primeiro plano o "Stage Manager").

Do grupo do enterro aparece Emily e se dirige às cadeiras. Ela está morta. Este é o seu espírito que, como todos os que ali estão sentados, ainda não se liberou da vida terrestre.
Os mortos lhe contam que estão ali sómente esperando… esperando esquecer a vida anterior… mas Emily se recusa a aceitar isso. Como poder esquecer? Logo descobre que é possível “re-viver” partes do passado. Apesar de várias advertencias Emily decide “voltar”. Concorda porém voltar num dia “normal” (não de grandes festas!) e escolhe o seu aniversário de 12 anos! Vendo seus pais, seu irmão e George ela se dá conta que as pessoas não “vivem” os momentos, não os prezam, não dão o devido valor à cada situação. Pois cada momento na vida é especial. Tudo nos parece ser “comum e óbvio” – só quando perdemos estes momentos para sempre nos damos conta do quão preciosos eram.
Ela perde sua compostura e começa até a gritar com ela mesma (com a menina de doze anos) e com os outros (que não a vem nem ouvem) dizendo: “Olhem-se, Olhem-se nos olhos! Voces não se dão conta da importancia deste momento?”. Muito angustiante sua impotencia neste momento.
De volta “às cadeiras” ela pergunta ao Narrador se alguém compreende e valoriza a vida enquanto está vivo… ele responde “Não. Talvez os Santos e os poetas. Talvez”. Ela volta para o seu túmulo. O Narrador termina a peça com um curto monólogo e deseja uma boa-Noite ao público.
Wilder nos ilustra a importancia para o Universo das vidas simples, porém significativas como as dos Gibbs e dos Webb, para demonstrar o real valor da apreciação à vida… e como túmulos são na realidade vazios pois as almas já estão em outro lugar depois de "esquecer" a “vida”. Wilder alcança em seus diálogos um nível alto de espiritualidade que em nenhum momento transforma-se em barato esoterismo. Muito pelo contrário. De sua forma também nos mostra como devemos deixar os espíritos "irem", "desprenderem-se" daqui. Deixemos-los em paz.

Há algumas semanas atrás recebi o DVD de “Our Town”, filme de Sam Wood de 1940 com Martha Scott como Emily, Fay Bainter como Mrs. Gibbs e um jovem, bonito e talentoso rapaz de 21 anos chamado William Holden (como voces já devem ter percebido nas fotos acima), de quem muito iríamos ainda ouvir...
Decepcionante é o fato do “Happy-End”. Emily não morreu dando luz à uma criança… Tudo foi “só um sonho”. Infelizmente não foi isso o que Wilder escreveu.
Mesmo assim – com exceção da cena final – tive uma experiencia maravilhosa ao assistir esta peça que tanto me impressionou numa época em que me recuperava de uma grave operação e sentia ter recebido “mais uma chance” para viver. Foi uma coisa muito positiva que vicenciei. Assistir este filme foi para mim como rever antigos amigos. Obrigado por este presente, Mr.Wilder!.

Uma curiosidade: já por outro lado o governo soviético proibiu uma produção de Our Town em 1946, no setor ocupado pelos russos em Berlin por considerar o “drama muito deprimente e capaz de poder inspirar uma onda de suicídios entre os alemães na época pós-guerra”.
Considero “Nossa Cidade” “that kind of stuff” do qual são feitas obras de arte. Já a li e reli tantas vezes desde 2006 que a tenho toda "encenada" dentro da minha cabeça... Quem sabe um dia?????

Minha relação com “Nossa Cidade” (Our Town) é meio oblíqua. Li esta peça pela primeira vez há muitos, muitos anos no Brasil quando ainda era adolescente. Não devo te-la realmente entendido pois nunca dei-lhe o devido valor… Coisas da idade?

Muito, muitos anos depois (para ser preciso 2006) eu estava passando uma longa temporada de 12 semanas no hospital e pedi para minha mãe levar-me a versão original em ingles que tinha comprado numa loja de livros usados algumas semanas antes de me internar. Eu sabia que este livro estava no meio de uma pilha que mantenho na minha mesa de cabeceira: os ainda “não lidos”.
Logo nas primeiras páginas dei-me conta que começava a reler algo importante, algo maravilhosamente bem composto…
Thorton Wilder mais uma vez me fascinou completamente: considero “The Skin of our Teeth” (A Pele dos nossos Dentes) uma das grandes obras do teatro Americano (um dia, com certeza, tertuliaremos sobre “Skin”) mas senti-me mais próximo, mais identificado com o questionamento de “Our Town”. Não é à toa que “Nossa Cidade” recebeu o Pulitzer Prize de 1938; não é à toa…

O “narrador” de “Town” é o “Stage Manager” (o "diretor de Cena"). A particularidade dele é que ele é o único no palco que está ciente da não existencia da “quarta parede” e fala com a platéia diretamente. Em 1969 Henry Fonda fez o "Diretor de Cena"... Junto à Mrs. Gibby da talentosíssima Joan van Fleet)

A peça nos mostra a rotina diária de uma pequena cidade e das casas de duas famílias nos princípios do século XX. Na “Nossa Cidade” a vida ainda é perfeita apesar de tudo estar mudando rápidamente (Em 1938 grande parte da platéia ainda lembrava-se de como a vida tinha sido diferente “só” trinta anos antes), a grama é verde, ninguém tranca suas portas à noite, o leiteiro (que aparece nos tres atos) é tratado como se fosse parte das famílias.
Wilder, sempre inovador, colocou atores na platéia… em certa parte o Diretor de Cena até traz personalidades da “ciencia” para descrever “científicamente” a cidade. Seu uso de cenários foi bem escasso - quase espartanico. Em uma cena onde os dois atores principais, ainda adolescentes, conversam das janelas de seus respectivos quartos enquanto fazem seus "deveres" para a escola, só existe uma única indicação: duas escadas altas e os dois no alto delas.

O plot central se estabelece no primeiro ato entre o filho, George Gibbs, de uma casa e a filha, Emily Webb, da casa ao lado.

No segundo ato eles se casam.

O terceiro ato começa no cemitério da cidade. Ao lado esquerdo do palco um grupo de pessoas assiste um enterro. Do lado direito várias cadeiras, muitas delas vazias. Reconhecemos logo Mrs. Gibbs, mãe de George. Túmulos (Aqui a única foto que encontrei da produção original de 1938. O preciso momento em que George se joga sobre o túmulo de Emily... Em primeiro plano o "Stage Manager").

Do grupo do enterro aparece Emily e se dirige às cadeiras. Ela está morta. Este é o seu espírito que, como todos os que ali estão sentados, ainda não se liberou da vida terrestre.
Os mortos lhe contam que estão ali sómente esperando… esperando esquecer a vida anterior… mas Emily se recusa a aceitar isso. Como poder esquecer? Logo descobre que é possível “re-viver” partes do passado. Apesar de várias advertencias Emily decide “voltar”. Concorda porém voltar num dia “normal” (não de grandes festas!) e escolhe o seu aniversário de 12 anos! Vendo seus pais, seu irmão e George ela se dá conta que as pessoas não “vivem” os momentos, não os prezam, não dão o devido valor à cada situação. Pois cada momento na vida é especial. Tudo nos parece ser “comum e óbvio” – só quando perdemos estes momentos para sempre nos damos conta do quão preciosos eram.
Ela perde sua compostura e começa até a gritar com ela mesma (com a menina de doze anos) e com os outros (que não a vem nem ouvem) dizendo: “Olhem-se, Olhem-se nos olhos! Voces não se dão conta da importancia deste momento?”. Muito angustiante sua impotencia neste momento.
De volta “às cadeiras” ela pergunta ao Narrador se alguém compreende e valoriza a vida enquanto está vivo… ele responde “Não. Talvez os Santos e os poetas. Talvez”. Ela volta para o seu túmulo. O Narrador termina a peça com um curto monólogo e deseja uma boa-Noite ao público.
Wilder nos ilustra a importancia para o Universo das vidas simples, porém significativas como as dos Gibbs e dos Webb, para demonstrar o real valor da apreciação à vida… e como túmulos são na realidade vazios pois as almas já estão em outro lugar depois de "esquecer" a “vida”. Wilder alcança em seus diálogos um nível alto de espiritualidade que em nenhum momento transforma-se em barato esoterismo. Muito pelo contrário. De sua forma também nos mostra como devemos deixar os espíritos "irem", "desprenderem-se" daqui. Deixemos-los em paz.

Há algumas semanas atrás recebi o DVD de “Our Town”, filme de Sam Wood de 1940 com Martha Scott como Emily, Fay Bainter como Mrs. Gibbs e um jovem, bonito e talentoso rapaz de 21 anos chamado William Holden (como voces já devem ter percebido nas fotos acima), de quem muito iríamos ainda ouvir...
Decepcionante é o fato do “Happy-End”. Emily não morreu dando luz à uma criança… Tudo foi “só um sonho”. Infelizmente não foi isso o que Wilder escreveu.
Mesmo assim – com exceção da cena final – tive uma experiencia maravilhosa ao assistir esta peça que tanto me impressionou numa época em que me recuperava de uma grave operação e sentia ter recebido “mais uma chance” para viver. Foi uma coisa muito positiva que vicenciei. Assistir este filme foi para mim como rever antigos amigos. Obrigado por este presente, Mr.Wilder!.

Uma curiosidade: já por outro lado o governo soviético proibiu uma produção de Our Town em 1946, no setor ocupado pelos russos em Berlin por considerar o “drama muito deprimente e capaz de poder inspirar uma onda de suicídios entre os alemães na época pós-guerra”.
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segunda-feira, 17 de maio de 2010
"Chéri", Colette, Pfeiffer e (O doce Pássaro da) Juventude...
O que? Ricardo tertuliando sobre um filme feito “depois de 1945”? E ainda por cima deste século? Um item assim “tão” moderno? O que????? Mas... (Digam o que digam de mim: jamais perderei meu senso de humor e nem deixarei de rir sobre mim mesmo…
Mas como diz a música de Jacques Prévert: «Je suis comme je suis, je suis faite comme ça…»).
Na última semana assisti em duas noites consecutivas «Chéri» filme de 2009 de Stephen Frears e com a linda Michelle Pfeiffer no papel principal (Explicação: assisti o filme na primeira noite e o reassisti na noite seguinte!). Baseado no romance homonimo de Colette, o filme é mais uma outra «excursão» no pequeno (demi)monde das cortesãs parisienses (que em sua época “governaram” de certa forma o país, arruinaram homens – como o rei da Bélgica – e por nunca conseguirem um “status” de mulher casada, exigiam “muito” e tornavam-se riquíssimas… bem, uma grande parte, pelo menos).
O filme, sem dúvida, aborda o tema de forma um pouco mais «real» do que as cortesãs que vimos ao lado de Leslie Caron em «Gigi» e mais fiel à (picante) obra de Colette.

Sim, as cortesãs... Léa (Pfeiffer) é uma delas. Já um pouco mais madura, ela comete um pequeno malheur: se apaixona por um jovem rapaz (Chéri). Ainda bonita, ela leva corajosamente à frente um relacionamento que (do ponto de vista de Colette) mostra como frágil o homen é quando comparado à mulher. Ela paga todas as despesas de Chéri. Ela lhe compra presentes. Ele usa sua pérolas. Ele dorme em pijamas de seda. Ele é o «brinquedo» e ela, em sua (provávelmente última) «paixão», esquece-se que ele um dia deveria transformar-se num homem. Ele permanece emocionalmente um menino de 12 anos. O egoísmo de Léa, que alimenta o seu medo da idade, consome Chéri.

Num certo ponto do filme, o «tempo», cruel com Léa, finalmente chega. Nós, como público, notamos alguma coisa, alguma coisa muito sutil. Eu não consegui descrever, articular o que via. Não soube definir o que Stephen Frears me mostrava.
Quando Léa disse porém a frase «E o que voce encontrou quando voltou? Uma mulher velha…”, entendi o que via.
Sim.


A sutileza da camera, da maquiagem, da iluminação não nos contou aberta- e óbviamente o que tinha acontecido. Não transformou Léa de um momento para o outro em uma velha.
Muito sutilmente nos mostrou como ela envelheceu. Como num encontro com um amigo que não se ve há muito tempo. Como demora-se a perceber o que o tempo pode devastar… O filme trata com extrema delicadeza, sensibilidade e respeito, não só no plano emocional como também no cênico, o preciso, fragilíssimo momento em que a juventude abandona o rosto de Léa. Bem ao contrário da forma brutal e quase grotesca com que “Alexandra del Lago” (heroína de Tennessee Williams) é tratada em “ O doce Pássaro da Juventude”. Mas esta é uma outra estória que ficará para outra vez...

O que impressiona é esta colaboração íntima entre Pfeiffer e Stephen Frears, já datada das filmagens de “Les Liaisons dangereuses” (abaixo com Malkovich).
Muito pode ser lido sobre a falta de «vaidade» de Pfeiffer durante as filmagens de "Chéri", como todo o efeito de “velhice” foi conseguido só com o efeitos de luz, etc. etc.… O que importa? O resultado é belo. Digno. Bom cinema.
Colette escreveu uma continuação para Léa e Chéri (“Le fin de Chéri”) e a última cena do filme explica em questão de segundos todo o segundo livro (inclusive seu final). Todo um livro estampado em um take, no rosto de Pfeiffer. Mais uma vez a “filosofia” de Colette que a mulher é bem mais forte que o homem. Custe o que custe. “Take” genial. Direção soberba!

(E, detalhe, que produção, que excursão pelo mundo da Art nouveau… de cenários a figurinos… )
Cinema de altíssima qualidade emocional e artesanal. Ótimos atores (a grande Kathy Bates quase “rouba” o filme). Digam os críticos o que quiserem. Eu amei este filme e o recomendo a todos que não o assistiram… É “daqueles” que nos movem e incentivam a ler livros… E - posso ser sincero? - Pfeiffer é absolutamente linda (e muito "apart") em qualquer idade!
Mas como diz a música de Jacques Prévert: «Je suis comme je suis, je suis faite comme ça…»).

Na última semana assisti em duas noites consecutivas «Chéri» filme de 2009 de Stephen Frears e com a linda Michelle Pfeiffer no papel principal (Explicação: assisti o filme na primeira noite e o reassisti na noite seguinte!). Baseado no romance homonimo de Colette, o filme é mais uma outra «excursão» no pequeno (demi)monde das cortesãs parisienses (que em sua época “governaram” de certa forma o país, arruinaram homens – como o rei da Bélgica – e por nunca conseguirem um “status” de mulher casada, exigiam “muito” e tornavam-se riquíssimas… bem, uma grande parte, pelo menos).
O filme, sem dúvida, aborda o tema de forma um pouco mais «real» do que as cortesãs que vimos ao lado de Leslie Caron em «Gigi» e mais fiel à (picante) obra de Colette.

Sim, as cortesãs... Léa (Pfeiffer) é uma delas. Já um pouco mais madura, ela comete um pequeno malheur: se apaixona por um jovem rapaz (Chéri). Ainda bonita, ela leva corajosamente à frente um relacionamento que (do ponto de vista de Colette) mostra como frágil o homen é quando comparado à mulher. Ela paga todas as despesas de Chéri. Ela lhe compra presentes. Ele usa sua pérolas. Ele dorme em pijamas de seda. Ele é o «brinquedo» e ela, em sua (provávelmente última) «paixão», esquece-se que ele um dia deveria transformar-se num homem. Ele permanece emocionalmente um menino de 12 anos. O egoísmo de Léa, que alimenta o seu medo da idade, consome Chéri.


Num certo ponto do filme, o «tempo», cruel com Léa, finalmente chega. Nós, como público, notamos alguma coisa, alguma coisa muito sutil. Eu não consegui descrever, articular o que via. Não soube definir o que Stephen Frears me mostrava.
Quando Léa disse porém a frase «E o que voce encontrou quando voltou? Uma mulher velha…”, entendi o que via.
Sim.


A sutileza da camera, da maquiagem, da iluminação não nos contou aberta- e óbviamente o que tinha acontecido. Não transformou Léa de um momento para o outro em uma velha.
Muito sutilmente nos mostrou como ela envelheceu. Como num encontro com um amigo que não se ve há muito tempo. Como demora-se a perceber o que o tempo pode devastar… O filme trata com extrema delicadeza, sensibilidade e respeito, não só no plano emocional como também no cênico, o preciso, fragilíssimo momento em que a juventude abandona o rosto de Léa. Bem ao contrário da forma brutal e quase grotesca com que “Alexandra del Lago” (heroína de Tennessee Williams) é tratada em “ O doce Pássaro da Juventude”. Mas esta é uma outra estória que ficará para outra vez...

O que impressiona é esta colaboração íntima entre Pfeiffer e Stephen Frears, já datada das filmagens de “Les Liaisons dangereuses” (abaixo com Malkovich).

Muito pode ser lido sobre a falta de «vaidade» de Pfeiffer durante as filmagens de "Chéri", como todo o efeito de “velhice” foi conseguido só com o efeitos de luz, etc. etc.… O que importa? O resultado é belo. Digno. Bom cinema.
Colette escreveu uma continuação para Léa e Chéri (“Le fin de Chéri”) e a última cena do filme explica em questão de segundos todo o segundo livro (inclusive seu final). Todo um livro estampado em um take, no rosto de Pfeiffer. Mais uma vez a “filosofia” de Colette que a mulher é bem mais forte que o homem. Custe o que custe. “Take” genial. Direção soberba!
(E, detalhe, que produção, que excursão pelo mundo da Art nouveau… de cenários a figurinos… )
Cinema de altíssima qualidade emocional e artesanal. Ótimos atores (a grande Kathy Bates quase “rouba” o filme). Digam os críticos o que quiserem. Eu amei este filme e o recomendo a todos que não o assistiram… É “daqueles” que nos movem e incentivam a ler livros… E - posso ser sincero? - Pfeiffer é absolutamente linda (e muito "apart") em qualquer idade!
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