Antes de tudo um grande Obrigado a Straccio Carlo e sua maravilhosa pesquisa que inspirou esta “Tertúlia”.
First of all a big Thank you to Straccio Carlo and his wonderful research that inspired this “Tertúlia”.
Don Quixote: Makarova & Zakharova
Sleeping Beauty: Fracci & Zakharova
Swan Lake: Makarova/Dowell & Kolegova/Korsuntev
Vezes me pego pensando com horror sobre a forma como o Ballet está sendo encarado por gerações mais jovens… só testemunho trabalho sendo feito no lado físico, não vejo mais trabalho artístico… Essa situação me enche de horror e me deixa triste, muito triste… e me dá medo!
Sometimes I catch myself thinking with fright about the way Ballet is being faced be younger generations… I just witness work being made on the physical side, I don’t see any artistic work anymore… This situation fills me with horror and makes me sad, very sad… and scares me!
Sleeping Beauty: Makarova/Baryshnikov & Ballet Nacional de Cuba - WHAT IS THAT?
Onegin: Haydée/Cragun & Ciravola/Moreau
Tive o prazer de assistir duas vezes uma Zakharova muito bem ensaiada (e contida) no “Lago”. Suas Odette/Odille foram deslumbrantes… como disse, muito bem ensaiada, “coached”. Porém quando vejo essas fotos, acho-a tristemente circense, uma mestra em ginástica sem respeito à estilo, história… Muito me chateou a foto de “Giselle” na qual toda a ideologia que eu sempre descrevi como “meu coração - não minha barriga - ao centro da terra, meu pé para as estrelas” foi perdida num ataque de malabarismo.
I had the pleasure of watching Zakharova very well-rehearsed (and restrained) on “Lake”. Her Odette/Odille were stunning … as I sad, very well-rehearsed and coached. But as I look at these pictures, I thing of her as terribly “circus-like”, a gymnastics master without any respect to style, history… I got very annoyed about the “Giselle” photo in which all the ideology that I always described as “my heart - not my tummy - towards the center of the earth, my foot to the stars” was lost in a juggling fit.
Giselle: Alonso & Zakharova
Don Quixote: Maxivoma & (for me) unknown - can anyone help me?
Carmen: Plissetskaya & Zakharova
Veja as fotos e construa sua própria opinião sobre o “ontem” e o “hoje”…
Look at the pictures and build your own opinion about “yesterday” and “today”…
Revendo uma cena que é importantíssima para mim e sem me importar que já uma vez a publiquei aqui, volto a tentar descrever (sim, é "tentar" mesmo) o que sinto quando a assisto... Espero que voces compartilhem esta emoção comigo...
Admiro demais as pessoas que possuem o poder, o dom da síntese.
Talento raro e por mim até “invejado” (no bom sentido) pois sou um daqueles que começam uma estória e aí se lembram de 25 outras, todas intercambiadas por algum banal motivo e aí “perdem o fio da meada” por nem saberem mais o porque de estar contando aquilo (e muito menos ainda o porque de terem começado este discurso… sim… sou também um daqueles "contadores cronicos" que, no caminho, se «perdem nos "entretantos" sem chegar aos "finalmentes"»)
Mas grandes artistas me fazem às vezes, raramente, adquirir o dom da síntese…
Porque talvez me inspirem já que eles o possuem... como nesta cena, na qual reúnem uma gama de emoções que vão de A a Z numa única palavra... amor.
No contexto da didática tradicional, a síntese é o ato de abordar as principais idéias e pontos de conexão de uma determinada lição. Ligá-los, por assim dizer...
Que outra palavra poderia descrever o que vejo e sinto quando assisto Gelsey Kirkland e Anthony Dowell na cena do balcão de “Romeo and Juliet” de MacMillan senão pura “PERFEIÇÃO”. Desde a perfeita música de Prokofieff, da coreografia à interpretação dos maravilhosos bailarinos...
Obrigado aos dois por tal momento de arte eternizado em video e no relato no imortal livro “The Shape of Love” (que nome mais apropriado quando penso nesta cena), no qual Gelsey nos fala de suas idéias (quase loucas) sobre a interpretação de Julieta e de sua maneira (quase científica) de trabalhar, ensaiar...
Mas tudo isto talvez pouco importe... é o resultado que conta: “PERFEIÇÃO”!
“Thaïs-Pas de Deux” é um trabalho maravilhosamente rico, denso… também em sua atmosfera exótica… Pensando nos trabalhos em que foi inspirado, gostaria de tentar aqui uma análise mais próxima, já que, apesar de um pouco esquecido e talvez até um pouco “ empoeirado”, é uma maravilha em termos coreográficos, históricos e mais do que digno de uma curta pesquisa.
A Ópera “Thaïs” (1894) de Massenet foi baseada no livro homonimo de Anatole France. Apesar de estar em terceiro lugar como obra mais encenada de Massenet (depois de “Manon” e «Werther») é para muitos desconhecida. Em sua estréia mundial, na Ópera Garnier, chamou mais a atenção do público e crítica pelo simples fato de sua intérprete principal, o soprano californiano Sybil Sanderson, estar extremamente “levemente” vestido, principalmente ao redor dos seios – o que chocou as platéias da época… Só em 1903, no Scala, foi pela primeira vez realmente aceita e de certa forma admirada pela sua genial musicalidade. Sua estréia no Novo Mundo teve lugar em 1907 em N.Y. com o soprano Mary Garden.
“Thaïs” não é realmente parte do repertório “standard” da maioria das casas de Ópera mundo afora. Não é «naturamente conhecida» e "popular" como uma “La Bohéme”, uma “Butterfly”, uma “La Traviata”. Talvez pela sua dificuldade técina (poucas cantoras “atuais” atreveram-se a cantar a parte de Thaïs… Leontyne Price -querida Leontyne!-sucedeu-se maravilhosamente e recentemente em 2008
a maravilhosamente talentosa (e linda) Renée Flemming - foto acima- recebeu belíssimas críticas) mas também talvez pelo seu tema e colocação histórica no tempo, delatando a «suposta» verdade, a «forma oportunista da afirmação» do Cristianismo (como interpretado na época e, talvez, até hoje em muitos países do terceiro mundo), não da religião em si... Um difícil papel… essa „dualidade” entre o passado e o presente, entre o ser profano (e até entre o "crer") e ser (supostamente) religioso…
O enredo de “Thaïs” tem seu lugar no Egito, no quarto século depois de Cristo, durante a ocupação bizantina. Em Alexandria um monge chamado Athanaël tenta, a qualquer preço, converter a linda cortesã (e profanamente devota de Venus) Thaïs ao Cristianismo. Isso só para descobrir que sua obsessão por ela está baseada no simples e primitivo desejo carnal. O “clímax” da Ópera está para mim na cena em que Athanaël reconhece para si mesmo a razão de sua louca obsessão enquanto, ao mesmo tempo, a pureza angelical de coração desta ex-cortesã nos é revelada…
“Thaïs” é uma obra muitas vezes descrita como contendo um certo “eroticismo religioso”. Acho que o “ápice” desta afirmaão está no Entr’acte para Orquestra e solo de violino, o famoso “Méditation” (entre as cenas do segundo ato). Logo falaremos mais sobre ele – pois ele é a real razão deste escrito…
(acima: Viviana Durante e Stuart Cassidy)
Momentos, como no início do segundo ato, nos quais Thaïs expressa uma profunda disatisfação com sua vida, inútil e vazia, e com seu futuro (que acabará qundo perder sua beleza), são de uma eloquencia enlouquecedora e fascinante. Seguem momentos inolvidáveis como quando, por exemplo, Thaïs decide acompanhar o sacerdorte para o deserto e ele lhe pede que destrua todos seus bens queimando seu palácio, como para liberar-se completamente do seu passado, dos seus “pecados”. Ela concorda mas lhe pede um único favor: poder levar uma estátua de “Eros”, Deus do Amor, explicando-lhe que “pecou mais pelo amor do que por causa dele » (uma sutíl diferença, n’est-ce pas?). Ele, radicalmente, não aceita seu pedido e os dois mal tem o tempo necessário para escapar já que estão sendo apedrejados pelo povo “pagão” (que nao quer que ele leve-a ao deserto).
Eles escapam.
Exaustos chegam a um oásis. Os pés de Thaïs sangram, ela está quase morrendo (lembram de como «Manon Lescaut» morre nos braços de Des-Grieux nos desertos de New Orleans ?). Mesmo assim eles se referem a momentos idílicos e platonicos de companheirismo… E assim chegam ao Monastério onde Thaïs será enclausurada para o resto de sua vida…
Um momento, que quase esqueci, e que é de extrema importancia para o entendimento desta obra, é também inesquecível: No primeiro ato Athanaël fala a Thaïs de seu amor. Espiritual. Para a eternidade. Ela discorda e fala do lado carnal de seus desejos… Depois do “Entr’acte” (Méditation) ELA muda de idéia… e para quem quizer saber : o final do terceiro ato nos revela um Athanaël chegando à cama-de-morte de Thaïs. Mudado, arrependido. Ele lhe conta que tudo que lhe ensinou (lembram da viagem pelo deserto?) foi uma mentira. Que na verdade é a vida entre dois seres humanos, o aor carnal, o que conta…
Ela só lhe descreve o que está vendo naquele momento: como os céus estão abrindo suas portas para recebe-la e como os anjos estão voando em sua direção para escortá-la ao paraíso…
para então morrer…
«Thaïs-Pas de Deux» é, para mim, um resumée de toda uma mega de emoções que tem lugar nos dois primeiros atos da Ópera de Massenet e nos primeiros capítulos do livro de De France.
(acima: Nino Gogua e Lasha Kozahshvili)
Sir Frederick Ashton, talvez o maior coreógrafo do século XX, usou brilhantemente “Méditation” ( o já mencionado « Entr’acte ») para o seu «Thaïs-Pas de Deux». Muitos falam que ele reflete de certa forma a imersão de Ashton no “entertaimment” popular de seus jovens anos… Nascido em 1904, Ashton cresceu numa época em que o Ballet também fazia parte das Pantomimas (típicamente inglesas… como p.e na época do Natal “Cinderella”) e programas de Music-Hall. Principalmente os últimos atraíam platéia de diferentes camadas sociais e poder monetário – e por esse motivo tinham que ter temas “da atualidade” (de então) para os espetáculos. Incrívelmente, tanto na infancia/juventude de Ashton até a minha própria infancia/juventude (na década de 60) todos éramos levados por “mundos de sonhos” e estórias do Oriente Médio. Pensem p.e. em Ali Baba… ou na quantidade de véus que caíram ao chão, em algum harém, para revelar lindas e misteriosas mulheres que lá estavam emprisionadas… Idéia, imagens, protótipos do Oriente (médio) povoavam nossas imaginações… e os véus, definitivamente, exerciam um grande papel… principalmente misterioso e sensual…
«Thaïs-Pas de Deux» teve sua premiére mundial em Londres, em março de 1971, com (os lindos) Antoinette Sibley e Anthony Dowell. Inevitávelmente esse Pas de Deux reflete a época e o lugar em que foi criado (por isso a «sugestão» sobre a “imersão de Ashton no Entertaimment popular dos seus jovens anos») por ter eternizado o tempo em que Londres e uma grande parte das capitais européias estavam presenciando uma espécie de «Revival» da) cultura oriental (média), da qual «Thaïs» - seja livro, Ópera ou Pas de Deux – é um «Pastiche» (Detalhe: o Pas de Deux sublinhou e perpetuou o status de «Super Stars» de Sibley e Dowell como «Casal de Sonho» do Royal Ballet das décadas de 60 e 70… já que o Ballet foi concebido por Ashton para eles - foto acima).
Bem… 2011… na nossa atualidade – e não sei se por motivos só políticos, ou éticos, ou influenciados pelo oportunismo (nao sei mesmo e não quero opinar, já que é um tema muito sensível e que não tem realmente lugar nas «Tertúlias») o papel da cultutal oriental (média) está sendo, ou já foi, completamente esquecido. Pensem nos «véus» das estorinhas que lemos como crianças… eram misteriosos e eróticos. Hoje simbolizam, pelo menos nas nossas mentes “ocidentais” opressão sobre o sexo feminino, Fanatismo religioso, Radicalismo… Em França estão proibidos… como nos distanciamos dos valores mais «naïve» e descomplicados de nossa vida de « jovens». Como a amiga Eliana Caminada escreveu comentando minha postagem anterior : «é tão bom relembrar que já fomos ingênuos”
(acima: Lucia Lacarra e Marlon Dino)
Mas esta postagem está transformando.se numa longa estória e esta não é minha intenção… Pensemos só em como Ashton conseguiu resumir uma tendencia da “Swinging London” com música dos Beatles, leituras de Khalil Gibram, do início dos anos 70, com sua curiosidade sobre e cultura do Oriente Médio, num momento de uma beleza patética como aqui em «Thaïs-Pas de Deux».
Fato é que «Thaïs-Pas de Deux», apesar de Thaïs ter sinalizado sua vontade de «cooperar» ao retirar o véu, acaba no momento em que os dois se beijam, como se ela – livre de desejo – não «respondesse» a atitudes tão «humanas, mortais»…
Divirtam-se com Sibley e Dowell (com o "bonus" de testemunhar o magnífico Ashton os ensaiando)
e (numa versão mais atual, na qual me falta infelizmente muito da "mágica" de Sibley e Dowell) Leanne Benjamin e Thiago Soares. Soares não entendeu aqui o que está fazendo. Acho que Roland Petit também coreografou "Médiation" mas não estou muito certo... Senão me engano assisti Dominique Khalfouni uma vez bailando-o... Eliana, voce sabe... conte-nos!
Poucas coisas me deixam tão animado, cheio de energia e excitado como pesquisar, aprender…
„Vibro“ literalmente ao encontrar (ou neste atual caso „reencontro“) um tema ao qual queira me dedicar por um (bom) tempo. A “excitacão” de estar aprendendo, conhecendo, toma conta de mim… fico feliz. Lembro com saudades da época à partir dos meus 14, 15 anos de idade… quando o aprendizado era constante, 24 horas por dia, pois os livros, as peças, os filmes, os ballets, os quadros, os poemas, os pensamentos estavam todos ali esperando por serem descobertos. Com o passar do tempo a gente se torna mais seletivo muitas vezes por uma questão de “gosto”, interesses… Mas mesmo assim…
Nunca tive e nunca terei qualquer ambição didática com este Blog (apesar da postagem de hoje poder dar esta impressão): não estou aqui para ensinar nada a ninguém – senão este Blog não chamaria-se “Tertúlias”, nome que implica numa “troca” de opiniões e acima de tudo na aceitação de opiniões alheias, diferentes das suas. Me disseram que não sei aceitar opiniões diferentes das minhas… Discordo. Questionar opiniões e discutí-las não significa “não aceitá-las” porém “querer compreende-las melhor, sentí-las e até aprender com elas” mas para isto temos que chegar a um ponto de aprendizado e compreensão pessoal no qual estamos completamente livres dos nossos próprios egos, orgulhos e do lado "emocional"…
Estou aqui para dividir com todos coisas que me tocam, coisas das quais gosto, coisas que admiro e coisas que talvez até “abomine” e “convido” todos para deixar aqui seus relatos, discutí-los abertamente...
Infelizmente o tempo torna-se cada vez mais curto para todos e sinto demais a tendencia que muitos tem em “se resumir” num vídeo ou curto pensamento (já li coisas do tipo "estou com calor") que é colocado, sem qualquer outro comentário ou opinião adicional, em plataformas à la “Facebook”. Distancio-me cada vez mais deste tipo de comunicação monologar (e vezes monossílabica) e volto a escrever mais longamente aqui e, quem sabe, talvez um dia me vá até daqui e retorne realmente a escrever só para mim… Coisas d’alma… Não quero a restrição da superficialidade da “obrigação de ser rápido e curto” (“senão ninguém vai ler o que escrevi!”).
Se tudo na vida fosse assim para que existiria o verbo “dissertar”?
Limpando umas prateleiras em casa “caiu” literalmente nas minhas mãos um velho VHS – da montagem de 1992 de Nureyev para a Ópera de Paris de "La Bayadère". Como há anos não assistia nenhum VHS resolvi colocá-lo, mas principalmente (não posso mentir!) para testar se o aparelho ainda funcionava… A febre de “La Bayadère” transformou-se numa "mania", numa epidemia dentro das minhas “quatro paredes”. Há poucos dias comecei a tirar livros de estantes, a imprimir toda e qualquer informação sobre este Ballet (só o relato da Wikipedia tem 28 páginas), a rever outras versões que tinha, estudar um pouco a partitura e cheguei até a encomendar do Amazon algumas outras versões que não conheco. Fascinante como de um momento para o outro nossa mente encontra mais um ponto de “interesse”. Amo estes momentos, estas fases… Claro que descobri muitas coisas interessantes, que se adicionaram ao meu humilde conhecimento deste Ballet – este fato transformou esta postagem um longo relato…
Gosto de contar «estórias» :
Em 1839 uma companhia de autenticas bayadères indianas (e hindus) visitou Paris. Théophile Gautier escreveu inspiradas páginas descrevendo a principal dançarina Amani. Muito depois em 1855 Gautier soube da trágica morte da bailarina que se enforcou num acesso de depressão numa nublada Londres por estar com saudades de sua terra natal… Como homenagem à bayadère ele escreveu o libretto para o Ballet “Sacountala”. O Ballet foi montado em Paris pelo irmão de Marius Petipa, Lucien. Este é o trabalho que muitos consideram como a real inspiração para a “La Bayadère” de Marius Petipa…
Nas últimas semanas “redescobri” para minha extrema satisfação “La Bayadère”, Ballet com música de Ludwig Minkus (que apesar de ter passado 15 anos como compositor oficial do Ballet Imperial Russo, tendo composto “La Bayadère”, “Don Quixote” e “Le Corsaire” - pelos quais ele foi extremamente identificado com a “alma” do ballet russo - era um Vienense que não só nasceu como também morreu aqui).
A linha da estória é simples porém bem melodramática com todos os elementos “amados” pelas platéias de então (La Bayadère estreiou em 1877, no mesmo ano do original "O Lago dos Cisnes", não da versão de Petipa): lugares “exóticos” (India), espíritos (como em Giselle) capazes de coisas sobrenaturais, amor não realizado, intriga, morte, justiça/vingança (no Ballet época muito confundidas...)
A bailarina de templo (a bayadàre) Nikiya e o soldado Solor juram amor e eterna fidelidade. O sacerdote (o Alto Brahmin) está porém apaixonado por Nikiya. O Rajah Dugmanta seleciona Solor para casar com sua filha, Gamzatti, e pobre Nikiya sem desconfiar disso aceita dançar num “noivado”.
O Sacerdote ciumento quer que Solor seja morto e conta ao Rajah a verdade sobre o amor de Nikiya e Solor mas, “o tiro sai pela culatra” e o Rajah ordena a morte de Nikiya. Gamzatti que estava escutando a conversa dos dois ordena que Nikiya venha ao palácio. Quando esta porém descobre sobre o “noivado” de Gamzatti com Solor pega uma faca, numa reação não pensada, e tenta matar Gamzatti, sendo impedida pela Aya desta
Assim como seu pai Gamzatti decide que Nikiya vai morrer.
O segundo ato começa com celebração do noivado na qual Nikiya dança tristemente… quando porém recebe uma cesta de flores, pensa que esta vem de Solor e se alegra. Mal sabe que dentro dessa cesta encontra-se uma víbora, colocada ali por ordem do Rajah e de Ganzatti. Ela coloca a cesta tão próxima ao seu rosto que a cobra a ataca mordendo seu pescoço. O Sacerdote lhe oferece um antídoto mas Nikiya prefere a morte que encontra nos braços de Solor…
No terceiro ato Solor fuma opium e numa euforia de sonho-delírio (ou não?) tem a visão do “Reino das Sombras” (espíritos). Ali ele se reúne a Nikiya.
O quarto ato (ao qual nos referiremos mais tarde) se passa no templo no qual o casamento de Solor e Gamzatti acontecerá. O espírito de Nikiya está presente… Quando o Sacerdote une as mãos do casal em casamento os Deuses se vingam pelo assassinato de Nikiya e destruem não só o templo como também todos seus ocupantes.
FIM
Em algum momento da história, o quarto ato foi “perdido” e o final do Ballet passou a ser o final do III ato, ou seja no “sonho” do “Reino das Sombras” – o que tira muito da dramaticidade desta obra.
Alguns historiadores citaram as possíveis causas para esta drástica mudança: alguns acreditam que depois das enchentes de 1924 em Petrograd (St.Petersburg) a maioria dos cenários e guarda-roupa do IV ato, como encenado no Teatro Mariinsky, foi perdido. Outros dizem que numa Rússia « pós-revolução » não haveriam verbas suficientes para o suntuoso IV ato do Ballet. Uma outra explicação é a falta de técnica nesta fase (pois maquinarias estavam quebradas e não havia dinheiro para consertá-las) para produzir a destruição do templo… Uma última “explicação” sugere que o regime soviético da época não aprovava, por questão de princípios, uma apresentação teatral que incluísse temas como Deuses hindús destruíndo um templo.
Seja qual for a verdadeira razão, só em 1980 o mundo voltaria a ver um quarto ato e o ballet práticamente completamente restaurado…
Eu me lembro que em 1980 Natalia Makarova (acima) recuperou todo o “desaparecido” quarto ato tendo porém que mandar “reconstruir” muito da música pois a partitura se julgava perdida. Ironicamente esta partitura estava na íntegra na Rússia e só Nureyev em 1991 teve acesso a ela para sua versão para a Ópera de Paris em 1992 – apesar dele mesmo ter mantido o que chamou na época de “tradição russa” e ter encenado o Ballet SEM o quarto ato… sem sua “tragédia” final. A ironia é que esta chamada “tradição russa” foi imposta em épocas do comunismo – regime que Nureyev tanto abominava… Eu acho porém que a Nureyev talvez lhe faltaram «forças» - explico depois…
Apesar de « La Bayadére » sempre ter sido considerada um clássico na Russia o “Oeste” não conhecia este Ballet. A primeira apresentação do “Reino das Sombras” (que é na realidade a parte mais conhecida do Ballet e algumas vezes, cada vez mais raramente, encenada independente do Ballet) foi no Palais Garnier em Paris, em 1961. Dois anos mais tarde Nureyev remontou a cena para o Royal Ballet com Margot Fonteyn como Nikiya.
No Brasil muitos bailarinos e público, com exceção daqueles poucos privilegiadaos que tiveram a chance de assistir a montagem de Makarova no ABT, viram pela primeira vez «O Reino das Sombras» no cinema ! Sim, na cena de abertura do filme «The turning Point» (Momento de Decisão, 1977). (Correção do autor em 25.02.2011: Eugenia Feodorova havia montado o terceiro ato no Theatro Municipal com Berta Rosanova e Aldo Lotufo e 16 bailarinas no corpo de baile. Quem tiver a informação do ano desta montagem, por favor entre em contato comigo! Obrigado.)
Eu muito prezo várias partes da crítica que a inteligentíssima crítica de Dança Arlene Croce fez quando comentando a versão de Makarova para o American Ballet Theatre. Aqui um curto pedaço, repleto de percepção e sensibilidade:
“A coreografia, criada 17 anos antes do “definitivo” "Lago dos Cisnes”, é considerada como a maior expressão em grande escala do “sinfonismo” na dança. A matéria do “Reino das Sombras” não é realmente a Morte apesar de que todos, com exceção do herói, estão mortos. É felicidade encenada na eternidade. A sequencia de entrada com seus intermináveis “Arabesques” lentos cria a impressão de um grande «Crescendo» que parece aniquilar o tempo. Não há razão que possa impedir as bailarinas de continuar para sempre… Ballets passaram por gerações como lendas, adquiriram a pátina do ritualismo mas La Bayadère é um ritual real, um poema sobre a dança, a memória e o tempo. Cada dança parece adicionar algo à dança prévia, como um idioma sendo aprendido. O Ballet cresce rápidamente com esta constatação, que no início é sómente uma elocução primordial, e que na “Coda” explode com um explendor articulado” (Livre tradução minha)
Por causa do palco relativamente “pequeno” do Met (em relação ao do Mariinsky) Makarova foi forçada a reduzir o número de bailarinas no “Reino das Sombras” a 24 (originalmente eram 32 – e na “revival” de 1900 de Marius Petipa foram até 48!). O seu maior desafio foi porém o último “perdido” ato já que, como préviamente dito, pensava-se que a partitura original estava perdida. Natalia Makarova não tentou recriar o original de Petipas – apesar deste ter sido mudado infinitas vezes ao passar dos anos, até por Vaganova – e coreografou-o ela mesmo.
A première em 1980 foi triste: Makarova que também dançava o papel de Nikiya, machucou-se durante o primeiro ato e foi substituída por seu “second cast”, Marianna Tcherkassky. Solor foi bailado pelo explendido e incomparável Anthony Dowell e Cyntia Harvey deu vida à Gamzatti.
Makarova encenou «La Bayadère» para o Royal Ballet, para o Ballet do La Scala em Milano, para o Australian Ballet, para o Royal Swedish Ballet, para o Royal Dutch Ballet, para o Ballet do Teatro Colón em Buenos Aires e para o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com Cecília Kerche e Thiago Soares (informação da querida Eliana Caminada, um “dicionário” de Ballet que possuo como querida amiga!). Abaixo Baryshnikov como Solor.
A versão do “Reino das Sombras” que veremos abaixo é da versão de 1992 de Rudolph Nureyev: A administração da Ópera de Paris sabia que esta produção seria o último presente de Nureyev ao mundo, já que sua saúde estava deteriorando-se rápida- e progressivamente pelo seu estado avançado de HIV positivo.
Exatamente por isso, a administração cultural da Ópera deu-lhe uma enorme verba para esta produção com mais fundos vindos de várias doações privadas transformando a produção numa ainda mais suntuosa do que préviamente concebida. Que bonito. Chapeau! Abaixo Sylvie Guillem como Nikiya.
A produção foi um grande sucesso, aclamado pelo público e pela crítica. Apenas tres meses após a estréia Nureyev faleceu.
Aqui o tão comentado “Reino das Sombras”
Mais da próxima vez sobre "O Ídolo de Ouro" (ou como na versão de Makarova "O Ídolo de Bronze").
Tenho que dizer... esta é uma longa postagem... mas para os aficionados ao Ballet... quem sabe?
Roberto Bolle não pertence a lista dos meus bailarinos realmente preferidos. Ele é técnicamente maravilhoso, tem uma linda figura em cena, possui musicalidade… Passa-me porém uma impressão completamente estática. Como se sua dança fosse só o que se encontra entre duas poses… Muito longe daquela fluidez de movimentos que, aliás, os russos dominam maravihosamente, muito longe daquela poesia que é o nunca “congelar-se” numa pose…
Movimento…
Lembro-me de te-lo visto aqui em Viena, na nossa “Staatsoper” e de não ter ficado nada impressionado com aquele bailarino que achei “certinho demais”, com aquele bailarino que tinha cara de ser o “genro dos sonhos de toda mãe” ou de ter sido um “menino exemplar na escola”. Não entendi a publicidade, o marketing que estava sendo feito: onde estava a criatividade de um Baryshnikov? O impacto que um RichardCragun causava ao entrar em cena? O ator “danado” que era um Dowell? O “animal” Nureyev? A presença de um Vassiliev?
Anos depois recebi de uma conhecida "Excelsior"... Uma das grandes jóias do mal-gosto do Ballet italiano (recomendo muito!). Este Ballet reconfirmou não só minha opinião sobre as produções italianas mas também minha primeira impressão sobre Bolle: estático.
Engraçado é que vendo alguns de seus videos no Youtube encontrei uma entrevista muito pessoal. E várias sequencias numa sala de aula com ele à “barra”. Dei-me conta de como bom ele é - na sala de aula.
Mas quase esquecia-me do real motivo desta postagem: a “máquina” chamada Marketing… Aurea Hammerli escreveu-me há pouco tempo estas palavras sobre Antoinette Sibley: “Tem tantas lindas bailarinas que são esquecidas em termos de publicidade..... “.
Nem só isso…
Roberto Bolle-Superstar está “a mil”, fazendo tudo o que pode: bailarino,
modelo de "catwalk",
modelo fotográfico,
objeto de livro de Bruce Weber,
pin-up,
pin-up gay,
símbolo sexual…
A poderosa máquina chamada “Marketing” produz mais uma vez um “Superstar”.
Temos um exemplo bem parecido no nosso Brasil. No Ballet. Uma pura criação da união de publicidade e proteção junta à chamada “flexibilidade” de querer mobilizar toda a “mídia” fazendo o que quer que seja…
O que porém mais me fascina em Roberto é esta insistencia em mostrar o corpo. Gradativamente ele usa menos e menos roupa no palco – o que me faz ponderar se o público italiano vai assistir Ballet pelo Ballet em si ou se, com uma campanha publicitária bem estruturada, está conseguindo levar um “novo público” para os teatros, uma espécie de “following” (groupies?), que só vai assistir espetáculos para admirar Mr.Bolle “sex symbol” e sem roupa. Não o Ballet.
Parece-me que em qualquer material que voce possa ler sobre ele, sempre aparece uma foto dele nu…
Em épocas em que se fala tanto sobre a “humilhação” passada pelas mulheres já que muitas vezes são reduzidas a objetos puramente sexuais na publicidade, Roberto Bolle transforma a imagem do bailarino à uma redução da mesma classe... "Marketizando" o seu corpo.
A "loucura" de tudo isso é que toma-se até uma grandíssima liberdade com os clássicos para acomodar a “imagem” de Bolle.
"Giselle”, numa nova montagem do teatro de San Carlo (Nápoles), conta agora com uma cena de nú para satisfazer o “following” de Bolle. Pelo o que se ve neste video a cena parece estar completamente fora do contexto bem, não consigo imaginar uma razão plausível para Albrecht aparecer no traje de Adão. Qual o motivo na estória para justificar um nu? (Ou será que sua noiva colocou toda sua roupa na máquina de lavar para ele nao poder ir visitar o túmulo de Giselle?). Adeus ao Albrecht de Baryshnikov.
Existem tantos Ballets para bailarinos semi-nús… ou se pelo menos remontassem os Ballets de Ted Shawn para ele… Mas “Giselle”? Qual será o próximo passo? Um nú em “O Quebra-Nozes”?
Sim, Roberto é um belíssimo rapaz que está usando o Ballet como uma escada para chegar a outros lugares. É bom ve-lo pois seu visual é, especialmente quando se fala de uma beleza clássica, muito agradável.
Mas eu me pergunto: o que tem tudo isto que ver com Ballet????????