sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Profissão: Doméstica

Vivendo desde 1981 na Europa aprendi, no que diz respeito à „casa“, não só a fazer mil coisas que jamais teria aprendido no Rio de Janeiro mas também a dar um grande valor às empregadas, às domésticas, às "escravas" do século XXI, como bem documentado em „Profissão: Doméstica“, um fantástico documentário de 1993 de Sérgio Goldenberg, que recebeu o „North-South Award“ no Festival Nord-Sud em Genebra (Se alguém o tiver e tiver como fazer-me uma cópia… Um filme com muito humor e de uma sensibilidade fora do comum).

As pobrezinhas que chegaram de algum lugarejo do interior (onde deveriam ter permanecido), com uma trouxa ou, na melhor das hipóteses, com uma malinha, os sonhos de Cinderella, de „cidade grande“ dentro da bolsa a tiracolo de matéria plástica ao lado da revista „Amiga“… Muitas querem ser „artista da Globo“ ou até "modelo", mas com o passar do tempo e com a perda dos dentes, passam a ter um orgulho das casas onde trabalham, como se fossem suas… Maravilhosos diálogos deste documentário nos mostram como estes anjos pensam. Sim, estes „anjos“ que estão alí, dia após dia, com uma folga talvez por quinzena, limpando, arrumando, lavando, passando, levando as crianças à escola, tomando conta delas, levando o cachorro para passear, indo buscar cigarro no bar da esquina, fazendo compras e às vezes até cozinhando. Por um salário de fome. Como uma coitadinha, chamada Selma, que conheci uma vez numa casa da Urca. Nessa casa de classe média alta falida, onde tudo é de „razoável“ bom-gosto, leva-se um choque no momento em que se sai da sala e entra na cozinha: à partir d’aí tem-se a impressão de estar numa „Senzala“. Assim moram muitas destas pobrezinhas. E mesmo assim sabem sorrir.

E as „empregadas“ do Cinema?

Fico pensando nas atrizes que ao longo dos anos foram as „domésticas“ da sétima arte.
Durante uma longuíssima época a cor da pele definia quem faria os papéis das empregadas.

Hattie McDaniel foi uma destas atrizes que (apesar do Oscar que recebeu em 1939 por sua „Mammy“ servindo Vivien Leigh em „Gone with the Wind“ „…e o Vento levou!“) foi sempre condenada aos papéis de doméstica.

A engracadíssima Butterfly McQueen (Prissy, que também servia Vivien Leigh em GWTW)
foi outra que nunca conseguiu libertar-se deste tipo de papel. Aqui em „Mildred Pierce“ (Warner, 1944) filme no qual servia Joan Crawford.
E até Billie Holiday (em 1947 em seu único papel cinematográfico no esquecido „New Orleans“, junto a Louis Armstrong) deu vida à uma empregada: neste filme a tristeza de Billie é quase palpável. Ela estava completamente indignada com seu papel…
Em 1944 Marjorie Main servia a família de Judy Garland em „Meet me in St. Louis“ – uma engraçada, decidida e meio mal-humorada doméstica…
Mas foi a magnífica atriz Judith Anderson que elevou um „papel de doméstica“ a um papel secundário de vital importancia – mesmo que maléfico – em „Rebecca“ (1940), servindo (e odiando) Joan Fontaine.
Alguem ainda se lembra da eficiente "Rosinha" dos Jetsons?

e da Anastácia (Jacira Sampaio)de Monteiro Lobato no "Sítio do Picapau Amarelo"?

Para mim a doméstica eterna sempre será Thelma Ritter que deu vida à várias... Sempre engraçadas, espirituosas.

Como em „All about Eve“ (A Malvada, 1950) servindo Bette Davis

Ou em „Janela Indiscreta“ (The rear Window, 1954) servindo James Stewart e investigando ao lado de Grace Kelly
Ou até como uma doméstica bebada inveterada (ela sempre chegava pela manha de ressaca) em „Pillow Talk“ (Confidencias à meia-noite, 1959) ao lado de Rock Hudson e servindo Doris Day (que sempre lhe servia um Bloody Mary de manha!)

E para finalizar duas „domésticas“ de uma outra categoria: Glenda Jackson e Susannah York (duas das minhas atrizes preferidas) como Solange e Claire, no mórbido porém grande filme „The Maids“ (1974) baseado na peça de Jean Genet. Duas empregadas irmãs, completamente alucinadas que acabaram matando a patroa, Vivien Merchant
Admiro-me como isto não acontece com mais frequencia…

domingo, 15 de novembro de 2009

A Month in the Country

Um belíssimo, sensível Ballet de Sir Frederick Ashton, baseado na peça homônima de Ivan Turgenev, escrita em França entre 1848 e 1850, publicada em 1855 e só produzida pela primeira vez em 1872. E isto só porque uma famosa atriz de St. Petersburg, Vasilyeva, queria interpretá-la.
O personagem principal, Natalya Petrovna, uma mulher casada, que está “bored” de sua vida e encontra finalmente um certo divertissement no fato de flertar com Mikhailo Rakitin, um admirador seu, e num “affair” com o estudante de 21 anos Aleksei Belyaev. As coisas se complicam. Sentimentos nascem.

Natalya era uma mulher – para a época – já bastante “madura”. Sim, ela já tinha 29 anos (Não esqueçamos que Balzac tinha publicado “Mulher de trinta anos” – La Femme de trente ans - em 1842… o que gerou a, de certa forma depreciativa, expressão “a Balzaquiana”. Ainda usada no Brasil? ).

Por « truques » do destino Natalya acaba só (bem, ela tem um marido, sete anos mais velho do que ela) e volta ao seu estado completo de “boredom”, no campo, onde mora. Sua “vida” acabou.
Aqui interpretando Natalya outra Natalia: Makarova. Como Aleksei o inesquecível Anthony Dowell. O Ballet de um ato, foi concebido para O Royal Ballet em 1976. Natalya foi criada por Lynn Seymour (para quem o Ballet foi feito – vide minha postagem de 06.03.2009 “ Romeo & Juliet, Lynn Seymour, Christopher Gable, Dame Fonteyn e a Generosidade dela...“. Lynn inspirou muito e muitos!), Aleksei foi criado pelo próprio Dowell, para mim uma pérola do Royal Ballet. Os dois aparecem na foto acima.

Sit down, relax, put you feet up and enjoy!

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sábado, 14 de novembro de 2009

"Apareceu a Margarida" e Miss Jean Brodie...

Recebi do Brasil um livro das peças „precoces“ de Roberto Athayde. Entre elas seu grande sucesso „Apareceu a Margarida“ (que para ele deve representar mais ou menos a „praga“ que „Night and Day“ significou para Cole Porter… por mais que ele escrevesse maravilhosas composições, estas sempre seriam comparadas ao seu primeiro grande sucesso).
Comecei a ler todo entusiamado esta peça que tinha há muitos (muitos mesmo) visto com Marília Pera (num Teatro na Av. Rio Branco… não mais me recordo do nome dele). Minhas lembranças eram super positivas: Eu sabia que tinha adorado a peça na época e estava disposto a me deliciar relendo o livro. Nada disso aconteceu.
“To make a long story short”: achei „Margarida“ um trabalho envelhecido e de uma chatice fora do comum. Muito bem, os tempos mudaram, o tema da peça não é uma coisa nem atual nem que transtorne nossa realidade como nos anos 60, 70. Deste fato estava plenamente consciente. Mas tudo isto, unido à „ aquela fórmula de humor“ que já tanto nos cansou (palavrões, palavrões e mais palavrões…) foi mais do que eu precisava para perder meu bom-humor. Que coisa mais chata! Sente-se a preocupação contínua do autor em querer „chocar“. Que coisa mais fora de moda!
Eu particularmente não entendo como num país onde (infelizmente) as pessoas falam tantos palavrões esta “fórmula“ ainda „choca“ ou causa risos… No final das contas devemos mesmo ser muitos preconceituosos e „pudicos“ – não há outra explicação. Pensem só em peças e até carreiras que foram construídas em cima de „falar palavrões“.

Fiquei pensando porém em uma outra professora que (no cinema) surgiu só poucos anos antes de Margarida e que, acredito, deve ter influenciado muito Athayde na composição de seu personagem Margarida: Miss Jean Brodie de „The Prime of Miss Jean Brodie“ (A primavera de uma Solteirona, 1969) que trouxe à incrível atriz Maggie Smith (sou um grande fã até hoje) um Oscar de melhor Atriz!

Miss Jean Brodie, apesar de defender políticamente o que "Apareceu a Margarida" critica (Ela é fã de „Il Duce“… Mussolini!!!! Uma estudante sua, Mary MacGregor, morre lutando na Guerra Civil Espanhola – mas do lado „errado“, do lado que apoiava Franco!!!), é feita da mesma matéria dura que Margarida: forte, ameaçadora, dominante, alucinada, emocional… mas com os mesmos momentos de fraqueza de Margarida, quando, dentro de sua própria „loucura“ percebe quem é… e como vulnerável é.
„Primavera“, baseado no livro de Muriel Stark, é um „tour-de-force“ para uma grande atriz. Além do Oscar para Maggie Smith o filme causou um grande impacto no Festival de Cannes.
As „concorrentes“ pelo Oscar de 69 foram Jane Fonda („Mas eles não matam cavalo?“ do livro de Horace MacCoy), Geneviéve Bujold („Anna dos mil dias“), Jean Simmons („The happy Ending“) e Liza Minelli ( „The sterile Cuckoo“, só tres anos antes de vencer por „Cabaret“). Que bela companhia, que atrizes…

Muriel Spark revelou que Miss Brodie foi baseada numa professora sua, uma mulher chamada Christina Kay, arrasada e aniquilada pela forma agressiva e descontrolada que tinha em querer „dividir“ seus ideais. Quase um Obsessão. Grande filme!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Algumas Estórias sobre "Casablanca" (Warner, 1942)

Umas estórias que juntei e guardei sobreCasablanca“.


„Everyone comes to Rick’s“, uma peça teatral criada por Murray Bennett e Joan Allison, foi a inspiração para o filme „Casablanca“ (Warner, 1942). Apesar de ser em vários pontos completamente diferente do roteiro final do filme, a maioria dos personagens e o „plot“ básico são os mesmos. Bennett e Allison receberam $ 20.000 da Warner pela sua peça - que nunca foi produzida – e até o final de suas vidas arrependeram-se amargamente por terem vendido os direitos autorais por tão pouco.

“Casablanca”, um filme eterno, que não envelhece (e pelo menos no momento, ainda um filme sobre o qual não se está planejando um “remake”). Alguém pode esquecer do "Rick's Café Américain"????

Difícil escrever sobre este clássico. Aqui alguns detalhes sobre a estória deste eterno milagre cinematográfico, que ainda nos fascina.
Rick Blaine (no original um advogado expatriado, divorciado, que não é uma figura nada heróica, possui um Night Club em Casablanca, no qual se apresenta uma "Band“ de jazz composta por negros, e que tem uma amizade bem cínica com o chefe da polícia) transformou-se, no filme, num homem íntegro que se envolvia em causas políticas liberais, que lutava pela paz – um ativista político que até lutou na Guerra Civil Espanhola contra Francisco Franco. Um papel definitivo para Humphrey Bogart, que transformou-se num Astro de primeira magnitude depois deste filme.
Lois Marshall, uma „aventureira com um passado“, uma mulher americana, cínica e amoral, que estava disposta a dormir com Rick para obter os „vistos de saída“ para ela e seu marido, Victor Lazlo, transformou-se em Ilsa Lund – óbviamenrte uma européia – uma mulher correta, não tão engajada políticamente mas óbviamente corajosa. Personagem perfeito para a jovem Ingrid Bergman (Detalhe: no original Rick havia-se divorciado por causa de Lois – esta depois deixou-o por Lazlo… Rick a amava e a odiava por isto. Nada daqueles personagens com “mais moral” como conhecemos do filme…).
O original Victor Lazlo, um homem sem força foi transformado num brilhante e corajoso trabalhador da Resistencia – interpretado pelo austríaco Paul Henreid (Mas se ele era tão respeitado e admirado, qual a razão dos franceses terem começado a cantar „La Marseillaise“ – para abafar o „Die Wacht am Rhein“ dos Nazistas – só depois de Rick ter dado seu „OK“? Henreid reclamou muito desta cena, tirava a credibilidade de seu personagem).

O “Comissário” foi extremamente desenvolvido para o filme – um papel cheio de sarcasmo e ironia. Claude Rains deu “um banho” como Louis (que no original seria « Rinaldo »).
O Strasser (o comandante “Nazi”) da peça não era tao antipático como no filme. Quando a peça foi escrita os U.S.A. ainda não tinham entrado na II Guerra Mundial e a necessidade de uma propaganda anti-nazista ainda não existia (incrível pensar que Hitler foi votado “O Homem do Ano” nos U.S.A. pelo "Times Magazine" em 1938… Fato este que não é tocado mais hoje em dia... mais um capítulo esquecido da história americana, como tantos outros). Engraçado pensar que este protótipo do Nazista (Strasser) foi interpretado justamente pelo alemão Conrad Veit, grande ator por sinal, que era um grande oponente, na realidade um inimigo, do Nacional Socialismo e tinha deixado a Alemanha exatamente por este motivo. Na foto acima o sarcasmo deste filme: o alemão e o frances – quando é hora de ser oportunista esquece-se até de que lado se está…


Num pequeno papel, daqueles inesquecíveis, o magnífico ator Peter Lorre (outro austríaco) interpretando um “pequeno ladrão” – Lorre comecou sua carreira internacional na Alemanha no (assustante) “M, o Vampiro de Düsseldorf” e já tinha trabalho com Bogart em “The Maltese Falcon” (Adoro-o bailando no número "Siberia" do maravilhoso “Silk Stockings” como um dos “camaradas”).

Um terceiro austríaco trabalhou neste filme: o incrível e simpático comico S.Z.Sakall que tem uma cena inesquecível... Falando um péssimo ingles (como a maioria dos austríacos e alemaes que jamais perdem o "acento" e falam como que com uma batata quente na boca; isto além dos erros gramaticais... imperdoáveis! ), ele explica a Rick que já fala muito bem e que nao terao problemas na América, para onde querem imigrar - e pergunta demonstrativamente à sua esposa, indicando com o dedo o relógio: "Mama, which watch?" e ela responde, super orgulhosa: "Papa, four watch"...


Quase que o personagem de Sam (Dooley Wilson, que canta “As times goes by” – uma canção aliás ODIADA por Max Steiner, compositor do fundo musical), transformava-se numa “Samantha”. A Warner pensava em colocar esta canção interpretada por uma cantora negra e considerou Lena Horne e até Ella Fitzgerald para o papel. Imaginem…

Interessantíssimo detalhe:
Acima mencionei os « vistos de saída » (Exit Visas) : este detalhe passa quase desapercebido mas Exit Visas nunca existiram, em nenhum lugar do mundo!!! Isto é só uma “invenção” hollywoodiana para ajudar o plot do filme a desenvolver-se.


Bergman não foi a primeira atriz a ser considerada para Ilsa:
Hedy Lamarr, atriz austríaca que tinha, escandalosamente, aparecido nua no filme tcheco “Extase” (1938) e que na época era chamada „The most beautiful Woman in the World“ – invenção de Louis B.Mayer - foi a primeira opção mas não aceitou o papel (Lamarr não aceitaria no futuro outro filme que foi depois passado para Bergman e no qual esta recebeu um Oscar: Luz de Gás -vide minha postagem de 23.05.2008 sobre um “Drama vitoriano e claustrofóbico” - Pobre Hedy… nunca foi muito bem aconselhada). A bela bailarina Tamara Toumanova (que não fotografava bem e por ser péssima atriz nunca alcançou nenhum sucesso em Hollywood) e até Ann Sheridan, a „Ooohmph-Girl“ (ninguém até hoje conseguiu exlicar-me o que significa isto) foram também consideradas No último momento a francesa Michele Morgan quase ficou com o papel de Ilsa mas como pediu US$ 55.000 a Warner decidiu-se rápidamente por Ingrid Bergman que por meros US$ 25.000 estava à disposição (ela era contratada de Selznick que emprestou-a à Warner. e deve ter ficado com metade do salário dela).

O roteiro nunca foi realmente finalizado. Ninguém sabia como o filme acabaria. Os atores estavam criando seus personagens de um dia para o outro – como na vida real… Também não sabemos o que nos vai acontecer amanha, não é? Bergman reclamou muito do fato de não saber se teria seu „Final feliz“ com Rick ou com Victor Lazlo. Eu acho que este fato é um fator decisivo na finalização deste filme e de sua interpretção. Nao há „hints“ de nenhuma forma – Nem os expectadores nem os atores estão sabendo, escondendo alguma coisa uns dos outros. Os atores recebiam páginas de roteiro, escritas à mão, quase que diáriamente… Um processo de criação em conjunto, vital !
O final original (Rick seria preso) era muito súbito para Hollywood. O final no qual Ilsa deixaria seu marido para ficar com Rick nada “bem-vindo” pelo Hayes-Code. Já o final no qual Victor Lazlo era morto (para possibilitar o “Happy-End” de Ilsa e Rick) não seria ideal, principalmente numa época em que o mundo passava pela ameaça do Nazismo era necessário divulgar grandes homens: os “Victor Lazlos” da vida, os lutadores pela paz, os queperderam a vida lutando.
Na realidade foi David O.Selznick (…e o vento levou!) que aconselhou o húngaro Michael Curtiz a manter o final no qual Ilsa vai embora com Lazlo e Rick, conversando com o chefe de policia (o magnífico Claude Rains), diz: "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship."


Estou destruindo aqui várias lendas e estórias sobre um segundo final, no qual Ilsa ficava em Casablanca com Rick e Victor Lazlo voava só e que foi recusado pelo público. Nunca foi filmado.
Quando, finalmente, algumas decisões foram tomadas para filmar sequencias extras e refilmar outras, Ingrid Bergman já tinha cortado seus cabelos para intepretar Maria no clássico “Por quem os sinos dobram” (For whom the Bell tolls, 1943).
Este corte de cabelo também salvou outra cena: a sequencia em que a eterna “As Time goes by” era cantado por Sam, por exigencia de Max Steiner, teria que ser refilmada com outra canção. Ingrid, voce destruiu a vida de muitas mulheres com seu penteado (Vide minha postagem de 08.10.2009) mas, do fundo do meu coração : OBRIGADO!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

The Trolley Song - A arte de transformar banalidades em momentos eternos!


Judy Garland conheceu seu futuro marido, o grande diretor Vincente Minelli, durante as filmagens de Meet me in St.Louis („Ainda seremos felizes", MGM 1944 – aliás, uma boa dica para a época do Natal!).
Minelli, num de seus primeiros trabalhos cinematográficos (Ele vinha da direção dos Shows no Radio City Music Hall, onde criava também os cenários e os figurinos e este era seu terceiro filme, seu primeiro em cores) com uma linguagem cinematográfica toda especial, usava angulos até então desconhecidos na „sétima arte“ (vide minha postagem de 14.10.2009).

Seu uso dos cenários era fenomenal e único – os tetos dos aposentos eram vistos (em Hollywood só usados anteriormente em „Citizen Kane“ de Orson Welles), os atores (e a camera) passavam de sala para sala. Enfim, uma linguagem dinamica, cheia de um „Grandeur“ visual, cheia de „visões“, sofisticada e natural ao mesmo tempo.
E „Meet me in St.Louis“ foi só o começo.

Seu uso da cor tornaria-se inesquecível como em „O Pirata“ (MGM, 1948), „An Americam in Paris“ (Sinfonia em Paris, MGM 1951), em „Gigi“ (MGM, 1958), alcançando porém sua melhor e mais densa expressão em „Some came Running“ (1958) durante a cena em que Shirley MacLaine, mais uma vez como uma prostituta, é assassinada enquanto defende Frank Sinatra, num parque de diversões! Uma festa visual que „joga“ com nossos nervos!

Judy contou que uma vez, durante as filmagens de „Meet me…“, a MGM entregou-lhes uma música muito boba sobre um Bonde. Ela e Minelli ficaram desanimadíssimos pensando: „Um Bonde? Um Bonde????? O que vamos fazer com uma canção boba sobre um Bonde? Como transformar uma coisa tão banal como um Bonde em „Cinema“? E logo com estas letras, que não tem o mínimo que ver com a estória, com o roteiro do filme?“

Final da estória – ter talento é realmente uma dádiva:
aqui uma das mais brilhantes cenas musicais deste filme, e talvez da história da grande MGM e do cinema, pela qual Judy e Minelli nutriam um imenso e profundo orgulho! Também não é para menos!

Falando das cores e de como dinamica era sua direção… e sobre uma boba canção sobre um Bonde.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A „Folhinha“, a „Sessão das Duas“ e vários filmes esquecidos.

Gostei muito quando a querida Márcia (a "Paçoca") comentou que tinha gostado da postagem „tipo Sessão da Tarde“ (Judy e Mickey dançando a „Conga“). Esta sua exclamação espontânea trouxe-me, como um presente, boas lembranças.

Remexendo em recortes velhos de jornal, artigos de revistas, programas de teatro, fotos de cinema e muitas recordações dos anos 60, 70 da „famosa caixinha“ encontrei este recorte (acho que do „Jornal do Brasil“) que, creio eu, é dos anos 70: „Star!“ com Julie Andrews foi/ é um filme que adoro – apesar de ter sido um dos maiores fracassos da história do cinema e ter catapultado a carreira de Andrews para um poço de esquecimento durante muitos anos. Um dia falaremos sobre ele.

Deixando tantas recordações passarem por minhas mãos, lembrei-me de um fato gostoso: já nos anos 60 – digamos que com uns 8, 9 anos de idade – eu „colecionava“ estes „quadradinhos“ do jornal sobre os filmes que assistia e gostava. Cliquem no recorte de jornal para ve-los. Naquela época minha principal fonte de informação cinematográfica eram os maravilhosos cinemas do Rio (vide minha postagem de 17.12.2008) e a „Sessão das Duas“ (que sempre começava atrasada) muitos anos antes de ter-se transformado na „Sessão da Tarde“. Lembro-me de uma folhinha de papel (sim só uma) na qual eu colecionava e colava (dos dois lados) estes quadradinhos com o nome do filme (muitas vezes o título original em ingles estava mal escrito, com erros), elenco, a data e uma pequena descrição da estória. Eu colava aqueles recortezinhos de jornal com todo cuidado para nem sujar nem lambusar minha preciosa folhinha importante (usando cola „Polar“, lembram? Era branca, nada parecida à „Goma arábica“ ou „Araldite“ – tirei esta agora do fundo do baú, hein?). Se penso bem, há quarenta anos atrás, aquela folhinha foi o início da minha vida de colecionador, catalogador de coisas em referencia a cinema. Meu primeiro real „Arquivo“. Naquela idade eu já era descaradamente um amante do cinema! Não mudei muito... Este "state of mind", melhor, este "Love Affair" existe até hoje. Raras vezes quando revejo um filme que não "leio" alguma coisa nova nele.

Hoje em dia tenhos meus filmes, meus DVDs (alguns vídeos ainda), CDs (Long-Plays e compactos também; nunca me desfiz deles) e ainda recortes, programas, fotos etc.etc. minuciosamente organizados e catalogados. Encontro tudo.

Mas, aqui entre nós, fiquei com saudades daquela folhinha que foi perdida. Como seria bom te-la ainda… Saudades daquela simplicidade e ingenuidade de criança. Saudades do orgulho que tinha em ter uma folhinha dos MEUS filmes prediletos. Saudades dos tempos em que cada filme de Fred & Ginger era uma emocionante surpresa e descoberta. Saudades do dia em que descobri que já tinha assitido 9 dos 10 filmes que esta dupla tinha feito e de como fiquei orgulhoso. Saudades de chegar em casa do colégio e as vezes almoçar vendo um filme (na TV „Philco“, ainda em preto-e-branco). Saudades de não entender porque todos meus amiguinhos gostavam mais de Ié-ié-ié do que das baladas de Nat „King“ Cole, das Chansons de Jacqueline François, da música de Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin ou dos sucessos mais populares de Doris Day. Ou porque preferiam assistir „Se meu Fusca falasse“ em vez de „Cantando na Chuva“…

Lembro-me ainda de alguns recortes que enchiam aquela folhinha:

Filmes antiquíssimos - quase que invariavelmente da RKO (porque?) – alguns dos quais nunca voltei a rever, como por exemplo:

„Em Pessoa“ (In Person, RKO 1935) com Ginger Rogers - foi dificílimo encontrar uma foto deste filme,

„O Corcunda de Notre Dame“ (RKO, 1939) com Charles Laughton e Maureen O’Hara como „Esmeralda“,
„O céu é o limite“ (The Sky’s the Limit, Columbia, 1943) com Fred Astaire e Joan Leslie,
„No Teatro da Vida“ (Stage Door, RKO, 1937) um „clássico“ de Gregory LaCava com Ginger, Katherine, Ann Miller, Eve Arden, Lucille Ball entre várias outras,
„Espelho d’alma“ (Dark Mirror, 1946) no qual Olivia de Havilland interpretava gêmeas. Um bom film-noir,
„O Covil das Serpentes“ (The Snake Pit, 1948) mais uma vez Olivia, desta vez num hospício (aqui na foto com a adorável Celeste Holm),
„A Mestiça“ (Spitfire, RKO 1934) – um dos mais ridículos títulos em português para um péssimo filme – com Katherine Hepburn,
„Dance, Girl, Dance“ (RKO, 1940) com O’Hara e Ball. Ótimo filme sobre Stripers... (veja minha postagem de 02.06.2008
e „Cleopatra“ (RKO, 1934), com a deliciosa Claudette Colbert no mesmo ano de "Aconteceu naquela Noite" (It happened one Night) e com muita „ousadia“ de Cecil B. de Mille (numa era anterior ao Hays-Code de censura – e isto na „Sessão das Duas“!).


Pena eu não lembrar-me de outros títulos... Sim havia um filme chamado "Stella", sobre uma mulher que foi presa... Do resto nao me lembro... quem eram os atores? Quando foi feito? Nenhuma idéia mais...

- Será que voces conhecem ou lembram-se de algum destes filmes acima?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Londres & Chicago & meu amigo Antonio

Passar um prolongado fim-de-semana em Londres é uma coisa muito gostosa que já não fazia há mais de 10 anos apesar do voo ser realmente curtíssimo. Ter tempo para passear e fazer compras no „Harrods“ ou (para mim melhor) no „Selfridges“ é uma delícia. Encontrar um amigo querido e do coração como o bailarino Antonio Negreiros e passar o tempo conversando, „fofocando“, passeando, jantando, matando as saudades e rindo é um presente ainda maior. É como estar em casa fora de casa. Amizade sincera é assim.
Para dar uma „nota especial“ extra ao fim-de-semana assisti pela primeira vez (pasmem, 34 anos depois da estréia!) „Chicago“ – espetáculo musical original de 1975 que, nesta nova versão „supervisionada“ por Ann Reinking (100% a coreografia original de Fosse), voltou às luzes da Broadway e desde 1997 está no West-End!
Eu, já nos anos 70, tinha o disco, sabia as músicas, as falas de cor e salteado mas NUNCA tinha tido a oportunidade de ve-lo completo, ao vivo. A coreografia de Bob Fosse foi, é e sempre será um dos meus elementos preferidos num Show. Talvez este tenha sido um dos motivos de não ter gostado da versão cinematográfica. Não foi baseada no original de Fosse.

Fiquei deslumbrado com a „diversão e animação“, com o „tempo“, com o „pique“ que este Show tem. O tempo literalmente „voou“ e quando me dei conta o Show tinha acabado. Tudo perfeito com uma maravilhosa orquestra, elenco secundário e bailarinos/cantores (apesar de achar os bailarinos no West-End muito musculosos, muito "body-builders". Mas esta parece ser agora a „moda“. Todos porém com extensoes incríveis… Que pernas!).

Descobri uma nova „Roxie Hart“ e me apaixonei por ela. Linzi Hateley. Sensacional. Lembrem-se deste nome. Uma ótima cantora., ótima bailarina, ótima atriz e por cima de tudo engraçadíssima! Ela de certa forma (além do fato de ser mignon e ter a cabeça um pouco grande para o corpo), tem aquela qualidade elétrica e energética, quase neurótica que Judy Garland tinha. Como se tivesse acabado de tomar uma xícara de chocolate com anfetaminas… Uma daquelas pessoas que nos faz pensar: Tanto talento e energia dentro de um tão pequeno corpo!

Eu saí do teatro em „extase“ (apesar da cena final com Roxie e Velma ter sido "fraca"): como faz bem ver-se tanto talento, tanta inventividade, tanta disciplina numa só noite – e isto num pequeno espaço de 2 horas e meia, durante as quais nem por um segundo perdi a atenção ou me desprendi do palco, de cada detalhe, de cada passo, de cada nota… Que noite maravilhosa. Batemos papos até as altas horas num restaurante italiano no West-End… „digerindo“ o Show (Antonio veio da nova produção de „La Cage“ e nos encontramos para jantar).

(Para finalizar o fim-de-semana, antes do embarque no aeroporto de Heathrow, sentou-se ao meu lado na Sala VIP ninguém mais nem menos do que Susan Boyle, que há alguns meses atrás comoveu o mundo inteiro quando apareceu naquele programa ingles de „calouros“ chamado „Britain’s got Talent“.

Uma pessoas simpática e faladora – falava simplesmente com todo mundo! E como sorria... Adoro pessoas que sorriem...)

Aqui Linzi em 2003, num vídeo amador, no West-End como Roxie... nestes seis anos ela mudou: Sua Roxie ficou loira e ainda melhor!
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