Como meus pais eram loucamente apaixonados pelas tramas da "Grand Dame" do crime, Agatha Christie, ainda existem nas estantes do apartamento no Rio de Janeiro vários exemplares de livros que levam em sua capa esta forma de ilustrações tão popular na época...
Livros amarelados pelo sol, livros porém que "vivem", com frases sublinhadas, anotações, flores secas, contas ou recortes de jornais que serviam para marcar as páginas - tão ao contrário dos frios "readers" de hoje em dia...
Olhá-las, digo, olhar estas capas me faz lembrar de "casa", da minha infancia, de férias e fins-de-semana em Penedo... Adoro estas ilustrações...
...e, last but not least: Vincente Minnelli soube captar a essencia deste "kitsch" no seu "The girl hunt Ballet" (MGM 1954, The band Wagon)
Never gonna dance… 1936, Swing Time… Astaire & Rogers…
Fred impeccable, Ginger beautifully dressed.
Can you believe that this was the 47th take of it?
In fact there is only a single cut during the “big” dance scene…
Everyone was mad wanting to go home, Ginger’s feet were bleeding but Fred’s sense of perfection was stronger…
Thank you, Fred, for this living remembrance…
Perfect!
Never gonna dance… 1936, Swing Time… Astaire & Rogers…
Fred impecável, Ginger lindamente vestida.
Podem imaginar que esta foi a quadragézima sétima tomada desta cena?
Na realidade só há um corte na “grande” cena de dança…
Todos estavam loucos com ele, querendo ir para casa, os pés de Ginger sangravam mas o senso de perfeição de Fred era mais forte…
Obrigado, Fred por esta memória tão viva…
Perfeito!
Everyone has his favourite Fred Astaire scene… this is mine!
Very far way from his debonair and extremely elegant image...
Mad, delirious Fred not only showing his precision and musicality but also pure geniality…
From the forgotten (and forgetful) “Let’s Dance” (1950) which was made at a very low point of his career… Can you believe that Betty Hutton had top billing?
Curtains up for marvelous, unique Fred…
Todos tem sua cena preferida de Fred Astaire… esta é a minha!
Bem longe de sua imagem debonair e extremamente elegante...
Louco, delirante Fred não só mostrando sua precisão e musicalidade mas também pura genialidade!
Do esquecido (e esquecível) “Let’s Dance” (1950) que foi feito num ponto bem baixo de sua carreira… Podem imaginar que Betty Hutton teve top billing?
„Hair“ (Miloš Forman, 1979) é um filme que em partes me fascina, em outras me cansa…
A linguagem, para a época, tão conteporanea de Forman se perde num estilo que às vezes muito carece de criatividade… As cenas de dança, porém, coreografadas por Twyla Tharp, são momentos de puro prazer – extremamente bem fotografadas por Miroslav Ondříček (o que é muito raro num cinematógrafo que não é especializado em “dança”) elas são exatamente a melhor moldura possível para o trabalho de Tharp. Apesar de certa forma achar que a palavra “moldura” não é exatamente muito adequada… em si o trabalho de Twyla Tharp, apesar de rigorosamente ensaiado e metódicamente interpretado por bailarinos com grande formação técnica (também clássica), nos passa a impressão de pura liberdade… e porque emoldurá-la e não deixá-la livre? Mas esta é só a impressão que seu trabalho passa...
A mesma que nos deixava acreditar que tudo que Fred Astaire fazia era tão fácil…
Muitas de suas ex-bailarinas sofrem até hoje de artrose... ou seja, nada daquele "bom trato" ao corpo que muitos "contemporaneos" pregam...
Gosto de, à vezes, frisar certos comentários: por acaso um dia destes, comentando uma foto minha que havia encontrado há pouco tempo, reclamei de nela não “ter esticado o pé um milésimo de segundo antes”!!! Uma pena. Um ex-bailarino do meu tempo se referiu então à uma coreógrafa que na época andava pelo Rio (e que até trabalhou com Twyla nos anos 60) e disse que “ela nunca exigia que ninguém esticasse nenhuma parte do corpo”.
Este é o “pointe” pois aí está a diferença: Twyla exigia, exige. E este é o grande abismo entre os bailarinos contemporaneos com técnica e outros que não a possuem e usam este cliché de “ser contemporaneo” como uma boa desculpa para dançar de forma “desmazelada” sem a menor consideração técnica. Já vi muitos deles e cansei… que coisa mais envelhecida.
“Hare Krishna” é uma cena altamente inteligente. Isto podemos constatar no simples fato dela não ter „envelhecido“ 34 depois de ter sido filmada. Os hippies não parecem figuras caricatas de outros tempos, a camera é dinamicamente veloz, os cortes precisos dando o ritmo perfeito à linguagem de Forman/Tharp, a coreografia de Twyla é imortal, jovem, dinamica, criativa – como tantos dos seus primeiros trabalhos para o palco: Eight Jelly-Rolls, Push comes to Shove, Sue’s Leg, 9 Sinatra Songs e por aí vai a lista.
Mas o mais importante ainda deve ser dito: nesta cena dois movimentos culturais de duas diferentes geracões se derretem um no outro, transformando-a num delicioso “Mèlange”.
De um lado a música que nos fascinou nos anos 60, hinos de toda uma geração… do outro os movimentos de Twyla que se transformaria numa verdadeira sacerdotisa da dança nos anos 80, antes de ter caído no cliché que criou para si mesma e ter passado a acreditar nele. A música não se “adapta” à imagem que Tharp dá ao filme, Twyla não se adapta à música dos anos 60. As duas, numa maravilhosa simbiose, existem ao mesmo tempo individalmente e paralelamente unidas.
Momento único que nos faz, lá no fundo do escurinho do cinema, viver estes momentos loucamente – sem ter que, como John Savage na tela, tomar um ácido para alucinar…
Momentos mágicos e alucinates: a sacerdotisa (alguém me ajude: é Rose Marie Wright?) , o “ballet” na igreja e Beverly D’Angelo (que depois seguiria uma carreira tão insignificante) como a noiva grávida, de cócoras, “ciscando” o chão da Índia… Brilhantes imagens!
Existe em Alemão uma expressão que é “Not macht erfinderisch” (A emergencia provoca a criatividade). Gosto disso… desde os “Old-Timers” que ainda são conduzidos pelas ruas de Cuba ao “jeitinho” brasileiro que é de uma criatividade impressionante… Mas não usamos dizer em portugues “emergencia criativa”?
Adoro uma canção de Jerome Kern que sobrevive a difícil prova que o tempo sempre coloca em qualquer obra de arte: “Look for the silver lining”. Ela foi composta em 1919 para um musical que foi um fracasso, chamado “Zip, Goes a Million”.
Só publicada no ano seguinte ela foi reusada num musical de Ziegfeld feito especialmente para Marilyn Miller, “Sally”, que a transformou num popular sucesso!
Talvez por falar de sonhos, fantasias… ou esperanças... talvez... Tento explicar: "silver lining" (na realidade o "forro" prateado) é uma expressão idiomática que significa tanto quanto "um sinal de esperança numa situação difícil, ameaçadora".
Como por exemplo em Every Cloud has a silver lining... Uma versão mais antiga de "Always look on the bright side of life!"
Usada em vários filmes ela deu o nome para um veículo de June Harver na 20th Century Fox em 1949; uma biografia da própria Marilyn Miller, estrela de grande magnitude de Florenz Ziegfeld: „Look for the silver Lining“.
Chat Baker transformou-a num número de Jazz em 1954 e, notávelmente, esta melodia é usada até hoje, como no caso da famosa série da atualidade “Downton Abbey” na qual foi cantada pelos personagens Lady Mary e Matthew Crawley. Infelizmente e por azar a cena se passou no Natal de 1918, ou seja, um ano antes de ter sido composta por Kern…
Talvez sua interpretação mais conhecida seja de Judy Garland, no palco, em “Till the clouds roll by”, biografia bem “livre e criativa” de Kern.
Neste filme ela também aparece como Marilyn Miller e canta não só “Silver Lining” como também a eterna “Who?”.
Judy insistiu na época que seus numeros fossem dirigidos por seu então marido, Vincente Minnelli. A producão se atrazou um pouco e quando chegou finalmente a hora de se filmar “Silver Lining” a barriguinha de uma grávida Judy já estava mais protuberante do que poderia ser aceito pela MGM (Liza estava a caminho!).
Genialmente Minnelli mudou todo o conceito do número e o baseou 100% na atuação de Marilyn Miller dos anos 20. Estando atrás de uma pia cheia de pratos empilhados Judy não estaria totalmente exposta às cameras….
“A emergencia provoca a criatividade”.
Judy está um “mimo” neste número. Abusando do direito de ser talentosa, sonhadora, emocionada, afinada e fazendo muito amor com a camera que tanto bem lhe queria…
Por "coincidencia" a direção musical deste número, o arranjo em si, foi composto pela fabulosa Kay Thompson - atriz, cantora, bailarina, compositora, arranjadora, vocalizadora, professora - talvez por muitos lembrada só por sua participação em "Funny face" (1957) ao lado de Fred Astaire e Audrey Hepburn e no qual ela recebeu uma distinção única no Cinema: Ela roubou descaradamente uma cena na qual contracenava com Astaire.
Sempre penso em Kay quando ouço a expressão "She's bigger than Life". She was. Quer personalidade!
Amissíssima de Minnelli, tornou-se amiga íntima de Judy, virou madrinha de Liza que levou-a para morar com ela na velhice e que lhe dedicou um show, há poucos anos, no qual "cantarola" emotivamente "Silver Lining"... sim, este "cantarolar" era marca registrada da magnífica Thompson e Judy aqui cantarola triunfantemente! Reparem...
Além disto tudo e de uma longa carreira, Kay ainda criou um dos personagens um dos personagens mais simpáticos da história: Eloise! Mas como eu sempre digo: isto já uma outra estória que ficará reservada para uma futura Tertúlia!
Levantemos a cortina para Judy, sua voz, sua emoção, seu talento!
As I wash my dishes, I'll be following a plan,
Till I see the brightness in ev'ry pot and pan.
I am sure this point of view will ease the daily grind,
So I'll keep repeating in my mind.
Look for the silver lining
When e'er a cloud appears in the blue.
Remember some where the sun is shining,
And so the right thing to do,
Is make it shine for you.
A heart, full of joy and gladness,
Will always banish sadness and strife.
So always look for the silver lining,
And try to find the sunny side of life.
Hoje há exatamente 25 anos o mundo despediu-se de um dos maiores talentos do século XX: Frederick Austerlitz...
Um menino que nasceu em Nebraska, filho de um imigrante austríaco e de uma senhora, já nascida nos U.S.A., de descendencia alemã.
Quem diria que este menininho nos encantaria no cinema a partir dos anos 30?
Encanto este que dura até hoje e que, no caso de seus admiradores, cresce a cada dia com o contínuo estudo de seus números musicais… sempre perecebendo-se algo a mais em sua dança, agilidade, precisão, coordenação, musicalidade, elegancia e… talento!
Lembro-me de como, há 25 anos atrás, muitos amigos me telefonaram… muitos deles bailarinos tristíssimos com esta perda. Em especial lembro-me de um telefonema de Tenerife dando-me literalmente os “pesames” pelo falecimento de Fred.
Não há palavras para descrever tal talento. Nao há palavras para definir a grandeza de sua contribuição ao mundo. E não refiro-me somente ao mundo das Artes.
Há porém uma palavra que neste momento me vem à cabeça: OBRIGADO.
Obrigado, dear Fred, por tudo o que voce nos deu!
Aqui uma cena que amo especialmente e uma com a qual o meu pai muito se divertia. Do esquecido "Let's Dance" com Betty Hutton, que não faz parte da lista de seus filmes "ilustres". Porém... vejam, comprovem e julguem voces mesmos!
Para mim um trabalho de pura, endiabrada genialidade! Viva!
Lembrando-me um dia desses da falecida atriz bahiana Isabela (A “Capitú” de 1967 de Sarraceni) , recordei-me que ela uma vez contou-me que tinha sido a criadora da expressão “Caras e Bocas”. Só que na época, ainda em Salvador, ela se referia à “carinhas e boquinhas”… Bem, não é relevante se isto é verdade ou não. Tenho porém que confessar este pensamento me levou a vários pensamentos e de volta à uma maravilhosa, eterna capa do “Vogue” dos anos 50.
Do ícone de um “Chic” que hoje em dia quase não mais existe…
…à forma como ele influenciou Hollywood.
Como por exemplo neste memorável «Still» de Judy Garland em «A Star is born» (1954), no qual ela mesma, simbólicamente, exclui o resto do seu rosto para "O" Close-Up da cena que está "atuando" para James Mason...
ou até neste “Portrait” de Lucille Ball, nossa queridíssima «Lucy Ricardo».
Isto tudo sem pensar nas capas de CDs de Callas (um apanhado geral de sua carreira) e livro de receitas criados há poucos anos…
Mas este “ícone da Arte gráfica” talvez tenha sido imortalizado de forma mais decisiva no filme “Funny Face” (20th Century Fox, 1957) com a ajuda fotográfica de um verdadeiro “ícone da fotografia” Richard Avedon…
…o que não só diz respeito à cena na qual Fred fotografa Audrey e sua “Funny face”. Assistam a abertura do filme…
„Easter Parade“ (MGM 1948) é um filme realmente delicioso.
Pertence, dentro da minha memória afetiva, à uma fase da minha vida na qual – já um pouco mais livre dos cursos e cursos nos quais meus pais me colocavam – eu algumas vezes chegava em casa para almoçar e podia da-me ao luxo de assistir a “finada” “Sessão das Duas” da Globo (que invariávelmente, e de acordo à mentalidade do nosso país, começava bem depois do horário marcado…).
Amo recordar-me de filmes durante uma tarde chuvosa do Rio de Janeiro…
Foi nessa época que o meu grande vínculo (paixão, admiração, respeito, amor… ) pelo cinema musical realmente nasceu. Tudo isso acompanhado das “lições de cinema” que meus pais espontaneamente me davam… Tempos bons.
Intermission:
Foi assim que aos poucos vim descobrindo talentos e talentos… Músicas, coreógrafos, autores, diretores, figurinistas, atores e bailarinos não só principais como também muitos deles excelentes coadjuvantes do “stock” de vários estúdios cinematográficos.
A Metro, a 20th Century Fox, a Warner… todas tinham seus atores “da casa” baixo contrato (normalmente de 7 anos) e era uma diversão assistí-los em vários diferentes papéis. Como se os estúdios estivessem fazendo um constante teste com eles, até acertar seu “tipo” com o público.
Um exemplo: Don Ameche oportunista em “In old Chicago” lutando contra Tyrone Power ou cantando e bailando ao lado de Carmen Miranda e com Alice Faye em “That Night in Rio”. Assassino perigoso em “Sleep my love” com Claudette Colbert, comico e irônico ao lado de Gene Tierney em “Heaven can wait”, intrépido em “The three Musketeers”, romantico em “Lillian Russel” outra vez ao lado de Faye e por aí vai a lista… Viva sua versatilidade coroada por um Oscar (aos seus 78 anos de idade) pelo delicioso “Cocoon” – onde sua “namorada” era uma anciã chamada Gwen Verdon… maravilhosa Gwen!
A Fox nunca conseguiu encontrar o “tipo” de Ameche – por isso ele era tâo querido pelo estúdio: o público o aceitava em tudo o que fazia!
Bem, esta quase virou já uma nova "Tertúlia"... Bye-Bye 20th Century Fox!!!Voltemos a "Easter Parade" e à MGM!!!
Foi nessa época que descobri “Easter Parade” com Judy Garland, Fred Astaire, Ann Miller e Peter Lawford. Esse dia deveria ser um feriado na minha vida!
“Parade” tem uma razoável “estorinha”… ou seja um roteiro simples que dá à Judy muitas oportunidades para cantar, a Fred muitas para dancar e à Miller muitas para fazer incessáveis piruetas (estou sendo sarcástico… mas, sinceramente, “Anny” com toda sua simpatia, jamais pertenceu à minha lista de queridos…).
Na realidade o filme é uma sucessão de números musicais de Irving Berlin.
Alguns deles bastante necessários à narrativa da estória ( welll more or less), outros completamente descartáveis em termos dramáticos pois nada contribuem ao roteiro, à linha central da estória… mas se os cortássemos o filme ficaria resumido à uns 60 minutos… sim seis números musicais (de doze) não tem nada que haver com o filme em si. São só números musicais no palco!
Mesmo assim, Graças a Deus, não foram cortados.
12 números maravilhosos. Cada um por si uma pequena obra de arte!
(Só "Mr. Monotony" foi cortado… vide minha postagem de 4 de junho de 2010).
Terminando a primeira “trilogia” de “ceninhas sem importancia” tive que escolher um numerozinho de Judy: o esquecido e ignorado "Michigan" (e assim posso homenagear minha trinca predileta “Gene, Judy & Fred” – claro que ao falar de Gene e Fred estou referindo-me à duas postagens passadas!).
Judy está deliciosa em “Michigan”. Ainda numa (recente) fase “pós-Minnelli” ela mantinha uma certa magreza, o rosto fino e um bom visual (ainda não alterado pelos excessos que depois transformariam sua vida num inferno).
Liberada por Vincente dos “trejeitos de Garland” (desde 1944 quando fizeram “Meet me in St. Louis”) ela tem aqui uma transparencia especial e uma intimidade total com a camera. Judy está até em momentos bonita….
Ainda muito distante do seu ápice (cinematográfico) em termos vocais (que é para mim “A Star is born” de 1954) acho-a aqui encantadora e gosto particularmente de seu olhar distante, sonhador, longínquo quando nos “conta” de Michigan ao lad do trompetista… Reminicencias de “Over the Rainbow”?
De qualquer forma: VIVA a ingenuidade desses tempos!