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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Tonight at 8:30

Relendo „Tonight at 8:30“ de Noël Coward, voltei a ficar encantado com o conceito usado e com o árduo exercício teatral que ele compos e impos para Gertrude Lawrence e para si próprio… Incrível!


“Tonight at 8:30” é uma série de dez peças de um só ato (muitas delas com várias cenas) escritas em 1935. Dramas, comédias, até uma comédia musicada etc. que eram apresentadas de tres em tres todas as noites, primeiro no West End, depois em 1936 na Broadway (Na realidade o publico só descobria quais peças iria assistir quando já estava dentro do teatro!). A partir deste momento um fato foi definitivamente constatado: O público queria ver Gertie e Noël juntos no palco...

Hoje em dia seria muito trabalhoso ter-se num teatro dez cenários distintos, dez guarda-roupas completos diferentes, música orquestrada em algumas noites sim, em outras não e acima de tudo: dois atores que “dessem conta” de fio a pavio de dez diferentes personagens variados… dominando a escala de comédias romanticas à musicais, de dramas à peças de caráter mais realista… e tudo isso ao sabor das linhas extremamente ironicas e inteligentes de Coward, que exigem uma precisão milimétrica dos atores…


Noël, genio do teatro e cinema ingleses, rapaz de família de trabalhadores rudes e muito pobres que foi literalmente adotado pela “Upper Crust” Londrina em tenra juventude e que assimilou muito bem a maneira de pensar e agir dela ("I'll go through life either first class or third, but never in second")

E Gertie… Oh, Gertie! (que havia debutado na Broadway em 1924 e que em 1925 conquistou definitivamente o mundo em "Oh, Kay!" cantando "Someone to watch over me" de Gershwin - que épocas!).

Gertie em 1928 uando e abusando do seu (realmente) inimitável "chic".

Muitos contaram que, em seus dias, existiram mulheres muito mais bonitas, melhores atrizes, melhores cantoras, melhores dançarinas do que ela mas a combinação de seus talentos e extremos, fascinante charme foi o que tranformou Gertrude Lawrence no epítome do glamour e do «chic» de seus dias. Muitos dizem que ela simbolizava completamente o termo „Star“.

Gertie & Noël foram amigos de toda uma vida… desde a infancia até sua trágica morte quando foi afastada em 1952 do elenco de “The King and I” (ela descobriu Yul Brinner) na Broadway para morrer sómente dias depois.
Cancer.

Noël escreveu um comovente e emocionado «Obituário» para o Times…
Uma época de muito “chic” havia terminado para sempre e o início desde mundo no qual habitamos, mundo desta incansável jornada rumo à vulgaridade, começou… Coincidencia?

Aqui, algumas fotos de algumas das peças de „Tonight at 8:30“.

„Family Album“

Ensaiando „Red Peppers“

„Red Peppers“

„Shadow Play“

mais uma de “Shadow Play” (magnífica, por sinal!)

“Ways and Means”

e, minha predileta, a biruta, aloprada “We were dancing”.

Para finalizar esta Tertúlia seria mais que perfeito colocar aqui a cena inicial de "We were dancing" (na qual ela entra em cena num estado de extase, jurando amor eterno, beijando, acariciando, fazendo amor com um jovem, lindo rapaz... para ser interrompida por um homem que pigarra e a chama pelo nome. Ela se afasta do rapaz e pergunta "Qual é seu nome?" para logo completar bem "as a matter of fact": "Querido, este é meu marido.")

Infelizmente só encontrei cenas destes lindos trabalhos de Coward com Joan Collins (Ave-Maria!!! Of all people!!!!). Seria dar um banho de vulgaridade e maquiagem à memória deste charme de pessoa que se chamou Gertrude Lawrence.

Mas existem ainda gravações de suas músicas... que juntas às imagens que youtube nos proporciona, darão a voces certamente uma idéia do que Gertie simbolizou nos seus dias... como, por exemplo "Someone to watch over me" que ouvimos aqui juntos, há poucas semanas numa Gala para Gershwin. Bem; técnicas e tempos mudaram, mas elegancia ainda é "a state of mind".

Enjoy!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Private Lives (Noël Coward)


Invariávelmente chega-se a um certo momento do inverno na qual o frio, o vento, a neve ficam tao intensos que nosso único desejo, além de querer que a primavera logo chegue, é o adicional calorzinho gostoso de uma lareira, o aconchego de uma manta de lã sobre nossas pernas e velas, velas e ainda mais velas por toda a casa.
Este „temido“ ponto do inverno chegou. De terça para quarta-feira (27.01.) foram registrados em Viena 18 graus negativos (numa cidadezinha do norte da Austria a temperatura chegou à -27 graus), saí de casa para o escritório na quarta à 08.30 da manhã com 14 abaixo de zero e meu carro demorou tanto para se aquecer que eu já estava práticamente no escritório quando a temperatura interna ficou boa. À Noite cheguei feliz em casa. Sim, no momento, voltar-se à privacidade da própria casa é o momento mais gostoso do dia. Voltar à vida privada e ficar à vontade com uma roupa quentinha, e casual, de flanela e meias de lã depois de um gostoso banho quente…
Nestes particulares dias alegro-me muito quando uma encomenda qualquer chega. Na quinta-feira, dia 28, como que para iluminar minha noite, abri a caixa do correio e encontrei o esperado pacote da „Amazon“ com „Private Lives“ (MGM, 1931).

A peça de Noël Coward (a primeira foto desta postagem è de uma “revival” de 1936 com o Mestre Coward e sua querida amiga Gertrude Lawrence) é uma das minhas „all-time-favourites“ desde que comprei este livro numa second-hand bookshop da Broadway chamada „Theatre Books“ em N.Y. em 1983 (Não esqueço da cara do dono da loja e do fato dele ter-me contado que Joan Fontaine tinha ido ao seu casamento!?! Não sei mais porque ela foi ao seu casamento e o porque dele me contar isto… ). Nunca assisti „Private Lives“ mas o trabalho em conjunto e a grande amizade entre Noël e Gertie (Gertrude Lawrence), para quem a peça foi concebida, começou a fascinar-me já em 1989 quando numa outra „second-hand bookshop“ (desta vez em Singapura) comprei uma biografia chamada „A bright particular Star“ – que como toda BOA biografia inglêsa exerce sobre nós o charme do „low profile“ britanico (bem em contraste com as biografias „flamboyant“ americanas, que dominam o mercado): Como que, se perguntando sobre o porque do talento imenso destas imensas personalidades, a biografia simplesmente respondesse: „Of course, my Deah… What else could you have expected?“

Eu tinha assistido duas cenas, relativamente curtas e bastante „condensadas“ de „Private Lives“ com Julie Andrews (como Gertrude Lawrence interpretando Amanda) e Daniel Massey (como Noël Coward interpretando Elyot) no (infelizmente) fracassado „Star!“ (20th Century Fox, 1968), uma biografia sobre Gertie. Amanda e Elyot são divertidíssimos personagens!

Outras „Amandas“ no palco foram Tallulah Bankhead, Tamy Grines, Joan Collins, Elizabeth Taylor (com Burton como Elyot), Elaine Stritch e minha querida Dame Maggie Smith. Lembro-me bem do dia em que, em Londres no início dos anos 80, não consegui entradas para esta produção (ou eu não tinha dinheiro?) e fiquei na porta esperando Maggie e Michael Caine entrarem no teatro. Que pena que não os vi no palco.



Não sei exatamente o que estava esperando desta versão da MGM de 1931 (feita só meses após a fulminante estréia da peça na Broadway, com Gertie e Noël, depois de terem terminado a temporada londrina), não sei o que esperava de Norma Shearer (que como esposa de Thalberg era na época, junto à Garbo, „rainha da MGM“) e do estático Robert Montgomery. Sabia que nem Reginald Denny nem Una Merkel me convenceriam como Victor e Sybil. Ele por estar „no lugar“ de Laurence Olivier (que fez este papel secundário no início de sua carreira – vide foto abaixo) e Douglas Fairbanks Jr., ambos bonitos rapazes. Ela por não ser uma „comediante“ (Sempre penso na fabulosa e sofisticada Rosalind „Roz“ Russell quando penso em comédia sofisticada) porém uma „cômica“.
A decepção com Shearer foi imensa (gosto muito de vários trabalhos dela e acho-a uma das mulheres mais bonitas do cinema mas ela é a atriz errada para Amanda. Falta-lhe um certo „glamour“. Qualidade que Gertie tinha de sobra), a com Montgomery mais ou menos esperada – ele estava ainda mais estático do que de costume. Em resumo: dois ingleses com sotaques americanos? (Grande falha da produção – quando Victor pergunta a Elyot „Are you English?“, me perguntei o porque dele ter feito tal indagação). Duas pessoas, que deveriam emanar „Savoir-faire“ e classe, resumidos a dois personagens que não mostram o menor vestígio de ser „upper crust“ e de ter experiencia „continental“? Dois atores trabalhando na mais sofisticada de todas as comédias com um ar monótono e estereotipado? Dois atores numa engraçadíssima comédia com ares de quem estão com dor de cabeça e achando a situação muito „aborrecida“?

Fiquei refazendo o filme, a peça na minha cabeça (onde estava de certa forma já há anos „pronta“) com Gertie e Noël e todo seu „wit“, charme, sofisticação e british manners and accents… Um desejo? Sim, adoraria dirigi-los…
„Private Lives“, uma declaração de amor, ainda é uma das grandes comédias sobre o amor que nos mostra que toda e qualquer „decisão“ pode ser reconsiderada e modificada – se deixar-mos nosso coração (e instinto) falar mais alto do que nossa racionalidade.
Como a própria música, tema central da "trama" (composta por Noël) nos explica:

♫ ♪ Someday i'll find you
Moonlight behind you
True to the dream i am dreaming
As i draw near you
You'll smile a little smile;
For a little while
We shall stand
Hand in hand
I'll leave you never
Love you for ever
All our past sorrow redeeming
Try to make it true
Say you love me too
Someday i'll find you again
♪ ♫

sábado, 9 de agosto de 2008

Parisian Pierrot (1923), Noël Coward , "Star!", Julie e Ju...

Há muitos anos atrás, uma amiga minha (Ju, minha querida amiga que reencontrei depois de 30 anos... Ahhh, estas coisas mágicas do internet às quais eu sou tao grato!) deu-me êste recorte de presente… Ju sempre soube como inspirar... sempre soube reconhecer pequenos detalhes da alma das pessoas. Ela é uma pessoa de extrema sensibilidade; muito especial. A danca que eu deveria ter um dia criado (esta era sua intencao), nunca aconteceu... e eu até hoje nao sei se Ju percebeu que Julie Andrews está sentada numa cadeira, como eu num solo que na época (1977, Rio, Sapateatro) fazia e que nao era nada mais do que uma reflexao muito grande do que eu era...

Em 1977 este recorte já era bem velhinho… Hoje, 31 anos depois êle ainda existe mas sua frágil existência só é prolongada pelo meu extremo cuidado com êle... Engraçado... uma folhinha de papel, e tão importante para mim... Ju já recebeu o lado detrás dele, com sua dedicatória... mas isto é uma coisa privada e nao vou colocá-lo aqui. Durante anos este recorte ficou prêso ao meu affichée no meu quarto no Rio, depois eu o trouxe para Viena; uma longa estória... Mal sabia eu que iria um dia amar êste filme com (a minha sempre favorita) Julie Andrews: “Star!” (1968, Robert Wise). Um musical que representou o maior fracasso da carreira de Julie (hoje em dia cultuado, que bom!) e cheio de maravilhosos números musicais coreografados por Michael Kidd... de Gershwin a Cole Porter, de Noël Coward a Kurt Weill... Entre êles este número quase já esquecido, que foi o primeiro grande sucesso de Noël Coward (escrito para a revista inglêsa de André Charlot “London calling” de 1923 especialmente para Gertude Lawrence) e que Ju me presenteou, como um pequeno recorte de uma revista, como inspiracao numa época em que nao tínhamos nem vídeos nem DVDs: Parisian Pierrot.

Que arquétipo tão real... Todos nós conhecemos um Parisian Pierrot em alguma época.

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, fomos um Parisian Pierrot, escondendo atrás da máscara de um sorriso nossos sentimentos verdadeiros, inclusive nossas tristezas e desilusões...

Parisian Pierrot,
Society's hero,
The Lord of a day,
The Rue de la Paix
Is under your sway,
The world may flatter
But what does that matter,
They'll never shatter
Your gloom profound.
Parisian Pierrot,
Your spirit's at zero,
Divinely forlorn,
With exquisite scorn
From sunset to dawn,
The limbo is calling,
Your star will be falling,
As soon as the clock goes round…

Noel Coward e seu talento, sua eloquencia, seu brilho… Um dos meus favoritos; ALWAYS...

terça-feira, 18 de março de 2008

Sir Noël Coward - o fantástico Noël Peirce Coward 1899 - 1973


É muito difícil falar de um genio e de suas criacoes, suas pecas de teatro, suas músicas, sua articulacao, seu poder verbal, seu mérito, sua heranca... nenhuma palavra pode substituir o que os ingleses chamam de "wit" mas Coward nao é so "wit".

Ele (e Gertrude Lawrence - vide minha postagem "Lady (really) in the dark") simbolizaram tudo que os ingleses achavam "most charming and amusingly gay" durante o final dos anos vinte e nos anos trinta. Marcantes foram duas producoes nas quais os dois trabalharam juntos: a inesquecícel "Private lives" (c/ um jovem Laurence Olivier num papel coadjuvante) e a complicadíssima "Tonight at 8:30". Por que complicadíssima? Estas "noites de teatro" eram compostas de 10 pecas de um ato... à cada noite eram encenadas tres... O público nunca sabia quais, às vezes a decisao era tomada duas horas antes das performances... Nada fácil para os atores, de acordo, mas imaginem só os coitados atrás dos bastidores... camareiras, técnicos, iluminadores...

Nos anos 40, durante a guerra, Coward embarcaria em águas mais sérias e profundas como com o seu filme imortal "In Which we serve" (1943) para o qual ele compos todas as músicas e também, além de estrelar, co-dirigiu com um jovem diretor que se transformaria num nome muito importante no cinema: David Lean. Este filme recebeu uma mencao honrosa durante a cerimonia do Oscar.

George IV, um amigo pessoal, quiz que o governo presenteasse Coward com um título de "Knight"... Winston Churchill, apesar de ser um amigo pessoal de Coward, bloqueou esta decisao por achar o estilo de vida de Coward "too flamboyant"... o que nao era segredo em Londres.

Nao é à toa que foi descoberto, que Coward, talvez por seu homossexualismo, estava na lista negra dos alemaes e que se Inglaterra tivesse sido invadida, ele junto à muitos outros, teria sido preso e executado.

O que nao se sabia porém até pouco tempo: Coward trabalhou durante toda a guerra para o Secret Service ingles. Gosto de coragem!!!!!!

Uma de suas contribuicoes, para mim, mais marcantes para o mundo é uma pequena composicao baseada numa "lavender selling song", cuja melodia tinha sido "roubada" pelos alemaes e usada como base para o hino "Deutschland, Deutschland über alles". Coward decidiu durante a guerra que esta cancao deveria voltar "para casa", para suas raízes, para seu povo e escreveu este canto de amor para sua cidade, da qual ele estava muito orgulhoso... e é verdade: como o londrino foi bravo e corajoso durante a II guerra mundial... aqui o texto da cancao que foi, genialmente intitulada "London pride" - Orgulho de Londres - uma florzinha amarela que nasce louca- e desvairadamente durante um curto período da primavera em qualquer canto de Londres... ela é frágil e delicada de aspecto mas como ela é forte!


London Pride has been handed down to us.
London Pride is a flower that's free.
London Pride means our own dear town to us, And our pride it for ever will be.
Woa, Liza, See the coster barrows, Vegetable marrows And the fruit piled high.
Woa, Liza, Little London sparrows, Covent Garden Market where the costers cry.
Cockney feet Mark the beat of history. Every street Pins a memory down.
Nothing ever can quite replace The grace of London Town.

There's a little city flower every spring unfailing Growing in the crevices by some London railing, Though it has a Latin name, in town and country-side We in England call it London Pride.

London Pride has been handed down to us.
London Pride is a flower that's free.
London Pride means our own dear town to us, And our pride it for ever will be.
Hey, lady, When the day is dawning See the policeman yawning On his lonely beat.
Gay lady, Mayfair in the morning, Hear your footsteps echo in the empty street.
Early rain And the pavement's glistening. All Park Lane In a shimmering gown.
Nothing ever could break or harm The charm of London Town.
In our city darkened now, street and square and crescent,
We can feel our living past in our shadowed present,
Ghosts beside our starlit Thames Who lived
and loved and died Keep throughout the ages London Pride.

London Pride has been handed down to us.
London Pride is a flower that's free.
London Pride means our own dear town to us, And our pride it for ever will be.
Grey city Stubbornly implanted, Taken so for granted For a thousand years.
Stay, city, Smokily enchanted, Cradle of our memories and hopes and fears.
Every Blitz Your resistance Toughening, From the Ritz To the Anchor and Crown,
Nothing ever could override The pride of London Town.