„Easter Parade“ (MGM 1948) é um filme realmente delicioso.
Pertence, dentro da minha memória afetiva, à uma fase da minha vida na qual – já um pouco mais livre dos cursos e cursos nos quais meus pais me colocavam – eu algumas vezes chegava em casa para almoçar e podia da-me ao luxo de assistir a “finada” “Sessão das Duas” da Globo (que invariávelmente, e de acordo à mentalidade do nosso país, começava bem depois do horário marcado…).
Amo recordar-me de filmes durante uma tarde chuvosa do Rio de Janeiro…
Foi nessa época que o meu grande vínculo (paixão, admiração, respeito, amor… ) pelo cinema musical realmente nasceu. Tudo isso acompanhado das “lições de cinema” que meus pais espontaneamente me davam… Tempos bons.
Intermission:
Foi assim que aos poucos vim descobrindo talentos e talentos… Músicas, coreógrafos, autores, diretores, figurinistas, atores e bailarinos não só principais como também muitos deles excelentes coadjuvantes do “stock” de vários estúdios cinematográficos.
A Metro, a 20th Century Fox, a Warner… todas tinham seus atores “da casa” baixo contrato (normalmente de 7 anos) e era uma diversão assistí-los em vários diferentes papéis. Como se os estúdios estivessem fazendo um constante teste com eles, até acertar seu “tipo” com o público.
Um exemplo: Don Ameche oportunista em “In old Chicago” lutando contra Tyrone Power ou cantando e bailando ao lado de Carmen Miranda e com Alice Faye em “That Night in Rio”. Assassino perigoso em “Sleep my love” com Claudette Colbert, comico e irônico ao lado de Gene Tierney em “Heaven can wait”, intrépido em “The three Musketeers”, romantico em “Lillian Russel” outra vez ao lado de Faye e por aí vai a lista… Viva sua versatilidade coroada por um Oscar (aos seus 78 anos de idade) pelo delicioso “Cocoon” – onde sua “namorada” era uma anciã chamada Gwen Verdon… maravilhosa Gwen!
A Fox nunca conseguiu encontrar o “tipo” de Ameche – por isso ele era tâo querido pelo estúdio: o público o aceitava em tudo o que fazia!
Bem, esta quase virou já uma nova "Tertúlia"... Bye-Bye 20th Century Fox!!!Voltemos a "Easter Parade" e à MGM!!!
Foi nessa época que descobri “Easter Parade” com Judy Garland, Fred Astaire, Ann Miller e Peter Lawford. Esse dia deveria ser um feriado na minha vida!
“Parade” tem uma razoável “estorinha”… ou seja um roteiro simples que dá à Judy muitas oportunidades para cantar, a Fred muitas para dancar e à Miller muitas para fazer incessáveis piruetas (estou sendo sarcástico… mas, sinceramente, “Anny” com toda sua simpatia, jamais pertenceu à minha lista de queridos…).
Na realidade o filme é uma sucessão de números musicais de Irving Berlin.
Alguns deles bastante necessários à narrativa da estória ( welll more or less), outros completamente descartáveis em termos dramáticos pois nada contribuem ao roteiro, à linha central da estória… mas se os cortássemos o filme ficaria resumido à uns 60 minutos… sim seis números musicais (de doze) não tem nada que haver com o filme em si. São só números musicais no palco!
Mesmo assim, Graças a Deus, não foram cortados.
12 números maravilhosos. Cada um por si uma pequena obra de arte!
(Só "Mr. Monotony" foi cortado… vide minha postagem de 4 de junho de 2010).
Terminando a primeira “trilogia” de “ceninhas sem importancia” tive que escolher um numerozinho de Judy: o esquecido e ignorado "Michigan" (e assim posso homenagear minha trinca predileta “Gene, Judy & Fred” – claro que ao falar de Gene e Fred estou referindo-me à duas postagens passadas!).
Judy está deliciosa em “Michigan”. Ainda numa (recente) fase “pós-Minnelli” ela mantinha uma certa magreza, o rosto fino e um bom visual (ainda não alterado pelos excessos que depois transformariam sua vida num inferno).
Liberada por Vincente dos “trejeitos de Garland” (desde 1944 quando fizeram “Meet me in St. Louis”) ela tem aqui uma transparencia especial e uma intimidade total com a camera. Judy está até em momentos bonita….
Ainda muito distante do seu ápice (cinematográfico) em termos vocais (que é para mim “A Star is born” de 1954) acho-a aqui encantadora e gosto particularmente de seu olhar distante, sonhador, longínquo quando nos “conta” de Michigan ao lad do trompetista… Reminicencias de “Over the Rainbow”?
De qualquer forma: VIVA a ingenuidade desses tempos!
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
domingo, 9 de outubro de 2011
Uma bailarina inesquecível: Gwen Verdon
Nada de muitas palavras: para quem esqueceu ou nunca soube... Gwen Verdon foi quem insinou Marilyn a ser Marilyn em "Os homens preferem as Louras".
Sim... ela foi quem ensinou MM a movimentar-se, a articular-se... uma espécie de "coach" para "estrelas". Casada com Bob Fosse, musa de muitas obras suas, aqui Gwen em épocas em que era "só" a assistente de Jack Cole e nem pensava nem numa carreira cinematográfica (que realmente nunca teve) nem numa da Broadway (que realmente teve!). Um charme de pessoa! E que carreira teve...
Chicago,
Redhead,
Can-Can,
Damm Yankees,
Sweet Charity...
Broadway's darling - ever!
Seu último filme foi "Coccon" ao lado de Don Ameche... alguém se lembra?
Aqui em "A viúva alegre" (a "viúva" era a péssima e chata Lana Turner), a ruiva com mais "temperamento" (e tempero) da história do musical! Ladies and Gentlemen, Gwen Verdon! (Ainda numa época "pré-Fossiana")
E como seria possível resistir a colocar aqui Gwen, já estrela, como "Lola" (a secretária do diabo) na linda produção cinematográfica de "Damm Yankees" ??????? Aqui Gwen ao lado do meu amigo Tab Hunter (depois explico) , numa de suas raríssimas aparições no cinema (coreografia de Fosse)!
Quanto talento...
Leiam mais sobre Gwen em: http://tertulhas.blogspot.com/2009/04/remembering-gwen-verdon.html
Sim... ela foi quem ensinou MM a movimentar-se, a articular-se... uma espécie de "coach" para "estrelas". Casada com Bob Fosse, musa de muitas obras suas, aqui Gwen em épocas em que era "só" a assistente de Jack Cole e nem pensava nem numa carreira cinematográfica (que realmente nunca teve) nem numa da Broadway (que realmente teve!). Um charme de pessoa! E que carreira teve...
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Redhead,
Can-Can,
Damm Yankees,
Sweet Charity...
Broadway's darling - ever!
Seu último filme foi "Coccon" ao lado de Don Ameche... alguém se lembra?
Aqui em "A viúva alegre" (a "viúva" era a péssima e chata Lana Turner), a ruiva com mais "temperamento" (e tempero) da história do musical! Ladies and Gentlemen, Gwen Verdon! (Ainda numa época "pré-Fossiana")
E como seria possível resistir a colocar aqui Gwen, já estrela, como "Lola" (a secretária do diabo) na linda produção cinematográfica de "Damm Yankees" ??????? Aqui Gwen ao lado do meu amigo Tab Hunter (depois explico) , numa de suas raríssimas aparições no cinema (coreografia de Fosse)!
Quanto talento...
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sábado, 15 de maio de 2010
"Can-Can" (1960): uma dança desenfreiadamente contagiante (mas óbviamente não para Nikita Kruschev!)
„Can-Can“ (1960), um maravilhoso e divertidíssimo musical (Cole Porter) que em 1953 não só fez de Gwen Verdon uma estrela (ela roubou o show de uma cantora chamada “Lilo”) como foi o grande causador do seu longo “love affair” com a Broadway (vide a tertúlia de 23.04.2009).
O personagem de Lilo “La Mome” foi “fundido” com a dançarina (personagem de Verdon) dando vida à “Simone Pistache” (um nome hilário, que adoro), interpretada no filme por Shirley MacLaine (apesar de “Claudine” uma outra bailarina, interpretada por Juliet Prowse, na época a “noiva” de Sinatra, ter sido mantida no Script). Mais um “amálgama” hollywoodiano… do qual Shirley bastante lucrou!
A 20th Century Fox começou a vasta produção em 1959 e as expectativas eram grandes.
Shirley chegava de um grande sucesso chamado “Some came running” (na MGM, de Vincente Minnelli e pelo qual recebeu sua primeira nominação – foram cinco ao total – para um Oscar por sua "primeira prostituta" nas telas – foram mais de cinco!) e lutou para voltar “à forma” para este musical (Na foto abaixo uma visívelmente cansada e esbaforida Shirley - o figurino, de veludo, não era só quentíssimo como também pesadíssimo - recebendo uma visita de seu irmão Warren Beatty e de sua namorada da época: ninguém menos do que uma elegante Joan Collins!).
Mas uma outra visita foi bem mais divulgada e trouxe grande publicidade para o filme: no auge da "guerra fria", o presidente da antiga U.D.S.S.R., Nikita Kruschev não só visitou os U.S.A. (acompanhado de Mme.Kruschev “himself”) como “deu um pulinho” a Hollywood e aos estúdios da Fox.
Neste dia Sinatra fez-se de “Emcee” e cantou para o casal Kruschev (que foi bem acomodado num “camarote”). Eles assistiram alguns ensaios com Jourdan e Chevalier e a “performance” de Shirley e Prowse dançando o endiabrado “Can-Can”, que é o real motivo desta postagem.
Numa entrevista depois, foi perguntado a Kruschev o que achara do “Can-Can”. No jornal do dia seguinte foi publicada sua lacônica e ao mesmo tempo reticente resposta em letras garrafais: "The face of humanity is prettier than its backside". A imprensa perguntou imediatamente a Shirley o que opinava e ela disse espontaneamente (sera que ela é áries como eu?): “Ora, ele está chateado porque estávamos usando calcinhas!”
Nota: Kruschev deve ter nutrido uma extrema antipatia por Shirley… Um ano depois, numa outra visita aos U.S.A., os dois estiveram, por coincidencia, ao mesmo tempo no mesmo restaurante (o famoso “Sardi’s”). Ela tinha acabado de filmar “The Appartment” (Se meu apartamento falasse) de Billy Wilder e se encontrava numa fase muito produtiva como atriz, sendo aclamada pela crítica e pelo público. Kruschev enviou-lhe uma mensagem: “Assisti “The appartment”. Voce melhorou.”
De volta a “Can-Can”:
Além de números maravilhosos e eternos de Cole Porter como “I love Paris”, “C’est Magnifique”, “Montmartre”, “Let’s do it!”, o filme ainda conta com um cast maravilhoso e harmonioso: Sinatra, MacLaine, Louis Jourdan, Chevalier e a incrível Juliet Prowse numa de suas poucas aparições cinematográficas. A direção de Walter Lang é impecável com um “ritmo” gostoso, vezes surpreendente, muito dinamico. Mas a coreografia do mestre Hermes Pan e a execução dos números musicais literalmente “roubaram” o filme e são um grande motivo de sua popularidade até hoje:
- O “Apache”, com esta “garota” de 25 anos (MacLaine), solta, sem medo de cair, de se bater e de se machucar, é hilariante e prende nossa atenção.
- “I love Paris” (o “Ballet” no “Jardim do Eden”) é uma pequena obra prima (Shirley é Eva, Juliet “a Serpente”) – a iluminação é sútilmente fascinante já que as “cores” trazem à tona a “Mood interior” dos personagens (e a “picante descoberta” que estão fazendo por causa da serpente e da Maçã…). Mais sobre este número numa próxima postagem.
- Finalmente o “Can-Can”, o tema título que finaliza o filme (ao contrário de um “Hello Dolly”, com coreografia de outro mestre, Michael Kidd, no qual a canção título é interpretada no meio do filme e faz que nosso interesse diminua a partir deste ponto) que simplesmente vem encontrar todas nossas expectativas e até mais: um número maravilhoso, divertido, dinamico, fervilhante, endiabrado e contagiosamente, desenfreiadamente animado! Contrário à “tradição” do Can-Can, ele “usa” também também bailarinos, o que dá um ar mais universal à Dança, além de criar boas “figuras”. Muito boa idéia!
Nunca vi ou voltei a ver um Can-Can como este! Tenho sempre um certo receio em dar opiniões muito “temporalmente decisivas” , finais mas hoje, não podendo resistir, farei uma exceção: este certamente é o melhor Can-Can que já assisti até hoje! (aumentem um pouco o som...)
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sábado, 24 de abril de 2010
Viúvas (menos e mais) alegres: revisitando uma Opereta.
Minha relação com „A viúva alegre“ (Die lustige Witwe) é muito especial, até sentimental…
Nos anos 80, quando dancei no Theater an der Wien, lembro-me muito bem de uma maravilhosa “Hannah” (a viúva): Mirjana Irosch, um soprano austríaco de origem jugoslava.
“Frau” Irosch estava perfeitamente no seu elemento nesta opereta e, por assim dizer, no ápice de sua carreira. Naquela curta fase em que uma artista “desabrocha” por completo, no momento em que a beleza chega à sua fase mais resplandecente (Ela foi uma mulher de singular beleza e charme) e que a voz e a técnica alcançam uma maturidade antes não ouvida… Um belo momento. Curto porém muito belo! Eu estava lá. Presenciando todas as noites este milagre que acontece no palco chamado magia.
Lembro-me de ficar parado na coxia, noite após noite, ouvindo-a cantar “Vilja” reticente, como que envolvida num sonho, como num pensamento, como no espaço entre duas virgulas. Eu sentia-me completamente fascinado com aquela voz, com aquela presença cenica… eu me “recolhia” no escuro da coxia e gozava aquele instante. Seis vezes por semana… Ficava exatamente como no texto de uma musiquinha antiguinha de Rita Lee: “No escurinho do cinema, chupando drops de anil, longe de qualquer problema. Perto de um final feliz…” (Desculpem-me esta mistura tao eclética entre Franz Lehár e Rita Lee… mas não resisti!).
É exatamente esta qualidade que hoje em dia falta em “Witwe”. Novas produções aparecem contínuamente mas, apesar desta viúva ter passado a ser residente dos palcos “de Ópera”, o que ela realmente necessita são menores “salas”. A produção de 2000 no Metropolitan foi um fracasso. O tamanho do palco “comeu” a Opereta. Esta Viúva foi e é ainda uma criatura para palcos mais populares, na essencia da tradição da Opereta (A “mãe” dos Musicais)
Composta pelo austríaco Franz Lehár ,“Witwe” (A Viúva) estreiou em 1905 no “meu” Theater an der Wien aqui em Viena (Cliquem no arquivo aqui à direita e vejam minhas postagens de 09.04.2010 e de 28.08.2009 – que sorte tive de aparecer na “Viúva” no teatro onde estreiou mundialmente! ) e sua primeira “Hannah” foi um soprano chamado Mizzi Günther! Logo a obra foi traduzida para o ingles e estreiou em Londres com Lily Elsie (adoro este nome!).
De lá foi só um “pulo” para a Broadway. E em pouco tempo “A viúva” se alastrou pelo mundo (conta-se que em Buenos Aires em 1907 cinco produções em 5 diferentes idiomas estiveram em cartaz ao mesmo tempo!). Foram feitas certas adaptações (inclusive em Londres foram adicionadas duas novas músicas) mas a versão original ainda é a da língua alemã!
“Witwe” não tinha uma Ouverture. Lehár a compos 35 anos depois da estréia para a Filarmonica de Viena tocar no seu próprio aniversário de 70 anos em 1940!
As tres versões cinematográficas (todas da Metro) foram só muito longínquamente baseadas no original…
A primeira de 1925 (Imaginem um Opereta como filme mudo !) foi dirigida pelo genial, intelectual, complicado, temperamental e neurótico (austríaco) Erich von Stroheim (lembram do Chauffeur de Norma Desmond em “Sunset Boulevard”? Voilá !).
Ele transformou « Hannah » (que tinha um passado pobre, de camponesa) numa « bailarina » chamada Sally O’Hara ( !?!) e ex-prostituta (muito para o desgosto do produtor, o menino prodígio da Metro, Irving Thalberg e para a ex-atriz da Broadway, Mae Murray, aqui no seu único trabalho cinematográfico que foi relacionado à palavra “Arte”). As cenas de orgia são até hoje bastante fortes visualmente. Diz-se que Franz Lehár « was not amused ».
Mesmo assim o público adorou a “Valsa” e esta foi a única razão deste filme ter tido uma boa bilheteria… A orquestra tocando alguns pedaços da partitura original! O filme consolidou porém a fama de John Gilbert – que interpretava “Danilo” – como símbolo sexual!
A segunda versão, só alguns anos mais tarde (1934) com Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier também tem pouco que ver com a estória original e (apesar de todo meu respeito por Miss MacDonald) é na realidade chatérrima (interessante notar-se que o personagem pivot de « Valencienne » simplesmente sumiu nas tres versões !), possui porém um “Grandeur” e uma fotografia de dar inveja a jovens cineastas. Sim, o “segredo” do preto-e-branco e de inventivos truqes que foram completamente perdidos depois dos anos 40… Aqui Jeanette numa foto que considero simplesmente linda! Uma de suas melhores! A direção desta vez foi mais “clássica”: Ernst Lubitsch.
A terceira (MGM, 1952) é a pior das tres. Lana Turner (um “desafeto” cinematográfico meu) não cantava, seus (reduzidos) números foram dublados…
Esta produção só teve dois pontos positivos: Fernando Lamas provou que podia cantar (e muito bem por sinal) e na cena de Can-Can no “Maxim’s” (no original existe uma réplica do Maxim’s na casa de Hannah) o grupo de bailarinas é liderado por ninguém mais nem menos do que a fabulosa Gwen Verdon (Vide minha postagem de 23.04.2009) dançando loucamente! Quanta energia! Uma maravilha!
E falando-se em dança, devemos comentar que vários Ballets foram feitos sobre “A viúva alegre” e, senão me engano, o primeiro foi coreografado para Alicia Markova e chamou-se “Vilia”.
Lembro-me de Fonteyn dançando “The merry Widow”, que foi coreografado em 1975 por Robert Hellpman para o Australian Ballet, mas nunca ouvi nem detalhes nem críticas sobre ele!
Até Maurice Bejárt fez uma versão em 1963 que desapareceu e a linda Patricia MacBride e Peter Martins dançaram numa esquecida versão feita para a televisão em 1982.
Em 1980 falou-se muito de um projeto, precisamente de um filme, sobre “A Viúva” com Julie Andrews e Placido Domingo. Que pena este projeto nunca ter-se concretizado!
Elizabeth Schwarzkopf , uma das mais lindas "pequenas vozes" do século passado, nunca deu vida à „Hannah“ nos palcos. Gravou porém uma maravilhosa “Witwe” que é até hoje vendida. Aqui uma interpretação concertante de « Vilja », minha parte favorita… Recostem-se, coloquem os pés para cima e deixem-se levar… com Schwarzkopf, com a melodia… Lehár at his very best!
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Danielle querida, para voce! Sua sugestão desenvolveu-se e virou esta postagem! Obrigado!
Nos anos 80, quando dancei no Theater an der Wien, lembro-me muito bem de uma maravilhosa “Hannah” (a viúva): Mirjana Irosch, um soprano austríaco de origem jugoslava.
“Frau” Irosch estava perfeitamente no seu elemento nesta opereta e, por assim dizer, no ápice de sua carreira. Naquela curta fase em que uma artista “desabrocha” por completo, no momento em que a beleza chega à sua fase mais resplandecente (Ela foi uma mulher de singular beleza e charme) e que a voz e a técnica alcançam uma maturidade antes não ouvida… Um belo momento. Curto porém muito belo! Eu estava lá. Presenciando todas as noites este milagre que acontece no palco chamado magia.
Lembro-me de ficar parado na coxia, noite após noite, ouvindo-a cantar “Vilja” reticente, como que envolvida num sonho, como num pensamento, como no espaço entre duas virgulas. Eu sentia-me completamente fascinado com aquela voz, com aquela presença cenica… eu me “recolhia” no escuro da coxia e gozava aquele instante. Seis vezes por semana… Ficava exatamente como no texto de uma musiquinha antiguinha de Rita Lee: “No escurinho do cinema, chupando drops de anil, longe de qualquer problema. Perto de um final feliz…” (Desculpem-me esta mistura tao eclética entre Franz Lehár e Rita Lee… mas não resisti!).
É exatamente esta qualidade que hoje em dia falta em “Witwe”. Novas produções aparecem contínuamente mas, apesar desta viúva ter passado a ser residente dos palcos “de Ópera”, o que ela realmente necessita são menores “salas”. A produção de 2000 no Metropolitan foi um fracasso. O tamanho do palco “comeu” a Opereta. Esta Viúva foi e é ainda uma criatura para palcos mais populares, na essencia da tradição da Opereta (A “mãe” dos Musicais)
Composta pelo austríaco Franz Lehár ,“Witwe” (A Viúva) estreiou em 1905 no “meu” Theater an der Wien aqui em Viena (Cliquem no arquivo aqui à direita e vejam minhas postagens de 09.04.2010 e de 28.08.2009 – que sorte tive de aparecer na “Viúva” no teatro onde estreiou mundialmente! ) e sua primeira “Hannah” foi um soprano chamado Mizzi Günther! Logo a obra foi traduzida para o ingles e estreiou em Londres com Lily Elsie (adoro este nome!).
De lá foi só um “pulo” para a Broadway. E em pouco tempo “A viúva” se alastrou pelo mundo (conta-se que em Buenos Aires em 1907 cinco produções em 5 diferentes idiomas estiveram em cartaz ao mesmo tempo!). Foram feitas certas adaptações (inclusive em Londres foram adicionadas duas novas músicas) mas a versão original ainda é a da língua alemã!
“Witwe” não tinha uma Ouverture. Lehár a compos 35 anos depois da estréia para a Filarmonica de Viena tocar no seu próprio aniversário de 70 anos em 1940!
As tres versões cinematográficas (todas da Metro) foram só muito longínquamente baseadas no original…
A primeira de 1925 (Imaginem um Opereta como filme mudo !) foi dirigida pelo genial, intelectual, complicado, temperamental e neurótico (austríaco) Erich von Stroheim (lembram do Chauffeur de Norma Desmond em “Sunset Boulevard”? Voilá !).
Ele transformou « Hannah » (que tinha um passado pobre, de camponesa) numa « bailarina » chamada Sally O’Hara ( !?!) e ex-prostituta (muito para o desgosto do produtor, o menino prodígio da Metro, Irving Thalberg e para a ex-atriz da Broadway, Mae Murray, aqui no seu único trabalho cinematográfico que foi relacionado à palavra “Arte”). As cenas de orgia são até hoje bastante fortes visualmente. Diz-se que Franz Lehár « was not amused ».
Mesmo assim o público adorou a “Valsa” e esta foi a única razão deste filme ter tido uma boa bilheteria… A orquestra tocando alguns pedaços da partitura original! O filme consolidou porém a fama de John Gilbert – que interpretava “Danilo” – como símbolo sexual!
A segunda versão, só alguns anos mais tarde (1934) com Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier também tem pouco que ver com a estória original e (apesar de todo meu respeito por Miss MacDonald) é na realidade chatérrima (interessante notar-se que o personagem pivot de « Valencienne » simplesmente sumiu nas tres versões !), possui porém um “Grandeur” e uma fotografia de dar inveja a jovens cineastas. Sim, o “segredo” do preto-e-branco e de inventivos truqes que foram completamente perdidos depois dos anos 40… Aqui Jeanette numa foto que considero simplesmente linda! Uma de suas melhores! A direção desta vez foi mais “clássica”: Ernst Lubitsch.
A terceira (MGM, 1952) é a pior das tres. Lana Turner (um “desafeto” cinematográfico meu) não cantava, seus (reduzidos) números foram dublados…
Esta produção só teve dois pontos positivos: Fernando Lamas provou que podia cantar (e muito bem por sinal) e na cena de Can-Can no “Maxim’s” (no original existe uma réplica do Maxim’s na casa de Hannah) o grupo de bailarinas é liderado por ninguém mais nem menos do que a fabulosa Gwen Verdon (Vide minha postagem de 23.04.2009) dançando loucamente! Quanta energia! Uma maravilha!
E falando-se em dança, devemos comentar que vários Ballets foram feitos sobre “A viúva alegre” e, senão me engano, o primeiro foi coreografado para Alicia Markova e chamou-se “Vilia”.
Lembro-me de Fonteyn dançando “The merry Widow”, que foi coreografado em 1975 por Robert Hellpman para o Australian Ballet, mas nunca ouvi nem detalhes nem críticas sobre ele!
Até Maurice Bejárt fez uma versão em 1963 que desapareceu e a linda Patricia MacBride e Peter Martins dançaram numa esquecida versão feita para a televisão em 1982.
Em 1980 falou-se muito de um projeto, precisamente de um filme, sobre “A Viúva” com Julie Andrews e Placido Domingo. Que pena este projeto nunca ter-se concretizado!
Elizabeth Schwarzkopf , uma das mais lindas "pequenas vozes" do século passado, nunca deu vida à „Hannah“ nos palcos. Gravou porém uma maravilhosa “Witwe” que é até hoje vendida. Aqui uma interpretação concertante de « Vilja », minha parte favorita… Recostem-se, coloquem os pés para cima e deixem-se levar… com Schwarzkopf, com a melodia… Lehár at his very best!
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Danielle querida, para voce! Sua sugestão desenvolveu-se e virou esta postagem! Obrigado!
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
REMEMBERING: Gwen Verdon
Bom, poder escrever hoje sobre um talento tao grande...
Gwyneth Evelyn Verdon ou melhor, Gwen Verdon , filha de imigrantes inglêses, nasceu na Califórnia em 1925. Seu pai era um eletricista da MGM e sua mãe tinha dançado no Vaudeville com Denishawn (o legendário grupo de “Miss” Ruth St. Dennis e Ted Shawn).
Durante a infância ela sofreu muito pelas consequências de um fortíssimo raquitismo que deixou suas pernas completamente deformadas. Tendo que passar toda sua infância usando botas ortopédicas e muletas, sua mãe inscreveu-a para tomar aulas de dança – o que realmente ajudou-a em sua recuperação. Quem diria que aquela menina que puxava a perna e que era, maldosamente, chamada de “Gimpy” por seus coleguinhas de escola, transformaria-se numa das mais famosas bailarinas da Broadway?
Ela apaixonou-se pelo mundo da dança e comecou a aprender, além do Ballet, Jazz, Sapateado, Dança de Salão, Flameco, Danças Balinêsas e até Malabarismo!!!! Aos 11 anos estreiou como bailarina num filme dirigido por Josef von Sternberg (“The Blue Angel”) no qual tinha seu próprio solo. Seu nome não foi mencionado nos créditos do filme.
Em 1942 ela chocou seus pais. Abandonou de um dia para o outro sua carreira e fugiu, aos 17 anos, para casar-se. Ela voltou a trabalhar em 1945 aparecendo no filme “A Blonde from Brooklyn”. Depois do seu divórcio ela deixou seu filho (que nascera em 1943) para ser criado por seus pais. Foi então que ela conseguiu um emprêgo como assistente de coreografia para o notório Jack Cole (vide minha postagem de 18.02.2009 sobre Carol Haney, que também foi assistente de Cole). Nesta época ela apareceu como bailarina em muitos filmes (devemos mencionar aqui que todas suas aparições no cinema até 1953, como specialty dancer, foram “uncredited”, ou seja, seu nome nunca apareceu !). Uma de suas mais brilhantes aparições foi em “A viúva Alegre” (The Merry Widow, MGM 1952) num incrível, rápido, dinâmico, alucinante Can-Can. Esta dança ainda lhe traria muita sorte...
Durante este período com Jack Cole ela deu muitas aulas para atores e atrizes, sendo até responsável pelo primeiro grande sucesso de Marilyn Monroe em “Gentlemen prefer Blondes” (20th Century Fox, 1953) já que ela “criou” a forma de Marilyn movimentar-se (que era a forma instintiva de Gwen movimentar-se! Peculiaridade esta contada por muitos de seus amigos... Gwen era realmente a verdadeira “Marilyn”. Marilyn “estudou” e copiou Gwen ). Ela trabalhou no Show “Alive and Kicking” de Jack Cole. Um fracasso. Ela dirigiu então suas atenções à Broadway onde trabalhou como uma “gypsy”, trocando de “chorus line” para “chorus line”. Entao a grande chance: Seu primeiro grande sucesso foi no musical de Cole Porter “Can-Can” (1953) no qual ela conseguiu o segundo papel principal: “Mademoiselle Pistache” ou “Môme Pistache” (O papel principal era interpretado por uma cantora francêsa chamada Lilo). A coreografia foi feita pelo legendário Michael Kidd. Já nas pré-estréias fora de Nova Iorque ficou óbvio para todos que o número de dança “Jardim do Eden” realmente era um “Show-stopper” e “roubava o show”.
Lilo ficou preocupadíssima e exigiu que o papel de Gwen fosse todo cortado – só suas danças permaneceram no Show (também um “Apache” e o “Can-Can” do título). Na estréia em N.Y. a platéia ficou tão enlouquecida depois do “Jardim de Eden”, gritando seu nome, que Gwen, que já tinha ido para seu guarda-roupa, foi levada de volta ao palco – de roupão!!!! – para agradecer.
Vernon não só recebeu a partir deste momento um melhor salário como um Tony Award pela sua interpretação. Anyways... Who the hell is Lilo? Na versão cinematográfica de 1960 os papéis de Gwen e Lilo foram “unidos” e Shirley MacLaine deu vida à “Simone Pistache”.
A partir d’aí, até sua morte, tornou-se THE “Broadway’s Darling”. Seu próximo projeto deu-lhe ainda mais fama e um marido. “Damm Yankees” (1955) . Bob Fosse dirigiu e coreografou o Show. Este marcou para sempre a imagem de Gwen: “Lola”, a sensual “assistente” do Diabo.
No início da temporada o Show, apesar das boníssimas e acaloradas críticas, não estava tendo bilheteria. Quando o poster, que mostrava Gwen vestida de jogador de baseball, foi trocado por um que mostrava-a em “dessous” no final do primeiro ato (quando faz uma espécie de strip-tease no vestiário, cantando “Whatever Lola wants, Lola gets”), a reação do público foi enorme e o Show ficou em cartaz por 1019 apresentações.
Ela estrelou o filme de 1958 com Tab Hunter e, adivinhem que foto foi usada no poster do filme... e ainda é usada até hoje...
Com Fosse ela trabalhou em “New Girl in Town” e em “Redhead” (um musical de mistério...).
A menina raquítica de Culver City que fora ridicularizada por seus defeitos físiscos já tinha feito um longo caminho e nao é todo bailarino que aparece em capas do Time magazine, do Life magazine...
Quando casou-se com Bob e engravidou, deixou o teatro para cuidar da filhinha Nicole, nascida em 1963. Cuidado este que aos 18 anos de idade, em 1943, não teve com seu primeiro filho. Só voltou à Broadway em 1966 para interpretar a cativante prostituta “Charity Hope Valentine” de “Sweet Charity” – uma obra-prima do teatro musical, baseada no filme “As noites de Cabíria” de Fellini e dirigida e coreografada por Bob Fosse.
Foi mais ou menos nesta época que ela separou-se de Bob Fosse por suas infidelidades (apesar de terem-se mantido casados e amigos até a morte dêle em 1987). Para ter uma idéia do porque desta separação só é necessário dar uma olhada no incrível (e autobiográfico) “All that Jazz” (1979) de Fosse. “Ela”, no filme, foi interpretada por Leland Palmer... What happend to her? Talentosa...
Em 1975, mais uma vez sob a direção de Fosse, ela interpretou a assassina “Roxie Hart” em "Chicago" ao lado da “Velma Kelly” de Chita Rivera (que em 1953 tinha sido uma “gypsy” na “chorus line” de “Can-Can”: Conchita Del Rivero). Duas grandes personalidades com muita coragem no palco... mulheres “bem mais para lá dos 40” (Gwen na realidade já estava com 50), corajosas nas suas interpretações, propositalmente pouco “vestidas”, mostrando como transitória é a beleza... Vejam minha postagem de 10.04.2008). Mais um grande sucesso – infelizmente seu último na Broadway.
Incansável, talentosa, cheia de energia Gwen fez, notávelmente, muitos filmes, sendo “The Cotton Club” (1984), “Cocoon” (1985) – uma notável aparição ao lado de Don Ameche, “Cocoon: The return” (1988) e “Alice” (de Woody Allen, 1990) alguns de seus últimos. Além disto trabalhou muito ao lado de Fosse em suas coreografias e também no cinema: ela não só foi o “Coach” de Shirley MacLaine quando esta recriou o papel de “Charity” (Este foi o segundo papel que Gwen criou originalmente na Broadway e que Shirley interpretou no cinema em 1969) como também trabalhou muito próxima de Bob nas coreografias (e no roteiro) de “All that Jazz”.
Em 1987 Gwen acompanhava Bob Fosse para uma Revival de “Sweet Charity” com Donna McKechnie em Washington quando ele teve um ataque cardíaco fatal e morreu nos seus braços.
Gwen transformou-se numa grande amiga de Ann Reinking, que viveu muitos anos com Fosse. Anos depois Ann dedicaria à memória de Gwen sua montagem do incrível musical “Fosse”. Nenhuma bailarina foi tão íntimamente associada com o estilo de dança de Fosse. Talvez por Gwen ter estado lá, no início da carreira coreográfica de Fosse, ajudando, compartilhando, dando idéias. Ela transformou-se no perfeito instrumento para ele. Uma perfeita encarnacao de sua danca e de eu famoso estilo. Em outra dimensão acho que só Ann Reinking chegou perto da importância que Gwen teve no trabalho de Fosse. Um ano antes de sua morte, em 1999 Gwen, Nicole Fosse e Ann Reinking foram juntas à festa da premiére de “Fosse”.
Na realidade Gwen fez pouquíssimos Shows na Broadway (Ao todo sete de 1953 a 1975, ganhando um total de quatro “Tonys”, tendo sido nominada por seis musicais! Seis nominacoes por sete Shows!), mesmo assim transformou-se numa lenda...
Em 2000 Gwen morreu calmamente, dormindo. Também um ataque do coração levou-a aos 75 anos de idade. Nada mais daquela linda risada, daquela voz rouca de menina... No dia 18 de outubro de 2000 as luzes na Broadway ficaram às escuras: homenageando uma de suas mais luminosas estrêlas.
Chita Rivera disse no seu funeral: “She was even a better person than a dancer!”
Aqui dois números de "Damm Yankees": "A little brains, a little talent" e o inesquecível "Whatever Lola wants, Lola gets" - principalmente o segundo é puro "Fosse" dos anos 50!
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