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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

THE FORGOTTEN: Lucille Bremer (e Copacabana?)


A talentosísssima Lucille Bremer (1917 – 1996) teve uma curtíssima carreira: depois de ter aparecido num papelzinho secundário na Broadway em “Panama Hattie” (detalhe: no côro também estavam June Allyson e Vera Ellen) ela chamou a atenção de Hollywood, da MGM e de Louis B.Mayer. Estava, por assim dizer, práticamente “predestinada” para uma longa carreira de sucesso.

Seu primeiro papel foi um secundário, como a irmã de Judy Garland e Margaret O'Bien em “Ainda seremos felizes” (Meet me in St. Louis, MGM 1944). Ah... a sensível camera de Vincente Minnelli com angulos desconhecidos na época... vejam a próxima cena, o perfil das duas ao cantar ao piano... puro Minnelli e sua opulencia visual! Alguém já reparou no detalhe da estátua sobre o piano em relação ao perfil das duas? Pensem...



Seu próximo filme, já na qualidade de estrela principal, foi “Iolanda e o Ladrão” (Yolanda and the Thief, MGM 1945) com Fred Astaire
Ela voltaria a trabalhar com Astaire em “Ziegfeld Follies” de 1946. Olhem só os outros nomes do filme…
Neste filme, ela bailou “Limehouse Blues” com ele… Música esta, uma das minhas preferidas, que foi introduzida nos U.S.A. por Gertrude Lawrence na “Charlot’s Revue” de 1924, sobre a qual um dia terei que escrever mais.
"Follies" foi feito no mesmo ano de seu último “grande” filme "A" (“Till the Clouds roll by”, uma biografia sobre o magnífico Jerome Kern… compositor de Ol’ Man River entre centenas de outras). E também aqui vale a pena ler os outros nomes do filme…
A partir deste filme a Metro começou a perder o interesse por ela – alguma coisa não “funcionava” na sua “persona” cinematográfica. Ela simplesmente não atraía simpatia, o público… e não atraía US$ para as bilheterias! Apesar de ser bonita, glamourosa, fotogenica para o Technicolor (branquíssima e com lindos cabelos ruivos), dançar e cantar brilhantemente e ser boa atriz…. Ela simplesmente não funcionou com o público.

Lucille fez ainda alguns filmes “menores” depedindo-se do cinema na produção (práticamente “B”) de 1948, “Behind locked Doors” (um “filminho” de 62 Minutos).
Ela , muito decepcionada com sua carreira, resolveu não renovar seu contrato e deixou Hollywood pare sempre. Esteve no cinema ao total 4 anos. 2 1/2 deles como “Estrela”. Durante este tempo foi até capa do “Life-Magazine”…

Dizem as más línguas que ela era uma “protegée” de algum Big-Shot da MGM… lembro-me de ter lido, ouvido isso alguma vez… Ela casou-se no mesmo ano em que se despediu do cinema, foi morar numa cidadezinha do interior da California e até sua morte em 1996 (aos 79 anos, de uma ataque do coração) nunca voltou a reativar, de nenhuma forma, sua carreira . Um pouco “amarga” sobre este capítulo de sua vida. Triste. Que pena.

Mas esta sua curta passagem pela tela deixou-nos lindos momentos.

Em homenagem à esta linda bailarina, gostaria de colocar aqui uma cena sua com Fred Astaire (a partir de 2:15 minutos para quem nao puder esperar!) que, além de ser preciosa, nos lembra o calçadão do Rio pois o filme se passa no Rio... e esta cena é durante o Carnaval... (Carioca é muito orgulhoso! Bem, nossa cidade é realmente linda... He he…



E para os aficcionados pela dança existe ainda um detalhe interessantíssimo: a orquestra toca um 4/4 e os bailarinos dançam um 5/4. Eugene Loring, o brilhante coreógrafo da MGM (outro “esquecido”) estava, nos anos 40, bem à frente do seu tempo! Eu não conheço outro trabalho assim… Alguém talvez?


segunda-feira, 27 de abril de 2009

The forgotten IV: A foreign Affair (1948)


Um destes filmes, que apesar de serem “imperdíveis”, foram práticamente esquecidos. Quando se fala na carreira do austríaco Billy Wilder em Hollywood, práticamente não são mencionados seus filmes anteriores a “Sunset Blvd.” (O título original tem “Boulevard” de forma abreviada. No Brasil chamou-se "Crepúsculo dos Deuses", apesar de nao ter nada em comum com a ópera de Wagner!), apesar de ter dirigido obras-primas anteriormente como “The major and the Minor” (1942), “Double Idemnity” (1944) e “The lost Week-End” (1945). “A foreign Affair” é uma destas obras “esquecidas”... Junto com “One, Two, Three” este filme constitue a filmografia “berlinense” de Wilder. Dois dos melhores filmes já feitos sobre Berlin – junto a “Cabaret” de Bob Fosse.

A estória, o “plot” do filme é na realidade bem simples: Um comitê de designados do congresso americano voa, depois da guerra, para Berlin. Entre estes designados encontra-se uma mulher, bem conservadora e chata, chamada Phoebe Frost (Jean Arthur) de Iowa. Ela quer “checar” a moral dos GIs, das tropas. Quando por uma casualidade ela vai a um Nightclub chamado “Lorelei”, assiste quase em estado de choque à cantora Erika von Schlütow (Marlene Dietrich) cantando “Black Market” e vendendo por qualquer preço sua moral, suas convicções... ( ♫ ♪ “For you for your K-ration, compassion and maybe an inkling, a twinkling of real simpathy, I’m selling out, Take all I’ve got: Ambitions, Convictions, the Works... Why not? Enjoy these goods, for boy these goods, are hot!” ♪ ♫).
Um texto bem próximo das atividades dos “Black Markets” da época...

Aliás, neste texto há uma peculiaridade. Referindo-se à primeira edicao de um livro, ela canta: "A simple definition; you take art, I take Spam". Voces sabem ao que ela se refere como Spam? à uma espécia de carne enlatada que os americanos distribuíam pela Europa para todos os famintos aqui, que comiam qualquer coisa. Dizem que era como comida de cachorro ou até pior pois cheirava malíssimo... esta é a razao dos "Spams" que se recebe hoje em dia por e.mail serem chamados assim... lixo!

Erika é a “ex-mulher” de um grande nazista que ainda é procurado... e, descobre-se, que ela é a “ protegida” de “grande peixe” do exército americano – apesar de ter tido um “passado” nazista e ter pertencido oficialmente a este partido (durante o decorrer do filme são descobertos filmes que mostram Erika ao lado de Hitler, flertando com ele, durante uma apresentação de Lohengrin). Quem “protege” Erika? O capitão John Pringle. E foi exatamente para ele que Phoebe trouxe uma torta que sua namorada fez (em Iowa). Não preciso dizer que Phoebe se apaixonará por John, criando o conflito central do filme (Erika não quer abdicar de tudo que Capitao Pringle traz para ela: café, cigarros, chocolates, meias de sêda, pasta de dente... artigos de “luxo” nos anos depois da guerra).

A razão desta postagem é porém outra: a extrema inteligência de Billy Wilder.
Numa época em que ainda existia uma certa animosidade contra os americanos, um certo “rancor” depois das guerra (temos que pensar no povo... sim naqueles que tiveram suas casas, lares e cidades completamente bombardeados!), Billy conseguiu fazer uma obra-prima que agradou a “Gregos e Troianos”. Sim. Nunca vi uma dualidade funcionar tão bem no cinema! Quanto cinismo – muito bem usado por sinal!

Pensemos, por exemplo, na cena de abertura do filme: um pequeno avião, que leva o dito comitê do congresso, para Berlin, “sobrevoa” a cidade. Imagens (reais) de uma Berlin completamente bombardeada e acabada são impressionantes. De valor até documental.


O diálogo se desenvolve e ouvimos como os designados encaram sua “missão” na Alemanha: eles vão a Berlin para levar um pouco de “cultura” e “civilização” a estes “Bárbaros” (isto vendo-se ao fundo uma Berlin arrasada, aniquilada). O público europeu morreu de rir desta ironia – pois entendeu a crítica de Wilder sobre os americanos (uma nação “jovem” vai levar “civilização” à pátria de Goethe? de Schumann?). Já o público americano ficou orgulhosíssimo deste enfoque e levou-o completamente a sério. Como seria de esperar. Dos dois lados do oceano este filme e sua linguagem fizeram sucesso – e este é só um pequeno detalhe. Na realidade Billy Wilder conseguiu escrever dois filmes ao mesmo tempo, com um único roteiro. Dependendo de que lado do oceano voce estivesse, voce o entenderia diferentemente.

Mas talvez tenha sido esta a razão do “esquecimento” deste filme... Nao sei se os americanos prezam a imagem que é feita deles neste filme...

Nos U.S.A. durante a cena na qual Phoebe canta para a tropas o hino de “Iowa” (que foi o último estado a entrar na “União”) o público vibrou, como vibra com as Cheer-Leaders dos jogos de Baseball... O Europeu morreu mais uma vez de rir pois a cena beira o ridículo e o patético (para a mentalidade européia).

Quando Erika diz a Phoebe que está muito decepcionada com o “Look” da mulher americana (para insultá-la), a designada do congresso assume um papel de vítima para o público americano. As vítimas porém para o Europeu foram as “Erikas da vida” (as sem passado nazista, diga-se de passagem) que perderam seus maridos e famílias. As que foram bombardeadas para fora de suas casas e cidades (como Erika mesmo diz ao decorrer do filme: “Do you know what it meant to be a woman in this city when the russians came?” ou “We cannot afford to be generous, we’re very poor!”). Como se ve, tudo uma questão de enfoque... de ponto de vista. Mas agradar a Gregos e Troianos... só Billy Wilder, principalmente nesta temática difícil que ainda estava tao recente, tao “à flor da pele” em 1948... que inteligente Billy era...


Ele teve problemas durante as filmagens com suas atrizes. Ele comentou ironicamente sobre as dificuldades que teve com Jean Arthur e Marlene: “ I have one dame who’s afraid to look at herself in a mirror and another who won’t stop looking!”.

As canções “(Want to buy Some) Illusions?”, “Black Market” (Magnífica!) e “Amidst the ruins of Berlin” foram compostas por Friedrich Hollaender (que tinha composto a música de “The Blue Angel” – “Der Blaue Engel” eternizadas em 1930 por Marlene). Junto a Dietrich, que por sinal está muito bem neste filme – é ele mesmo ao piano, acompanhando-a com o seu inimitável “som”.
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

The Forgotten III : Carol Haney

As vezes criar uma postagem transforma-se num trabalho quase artesanal... mas quanto prazer "trazer de volta" personalidades como Carol Haney... com tanta vida e talento...

Haney nasceu em finais de 1924. Aos 15 anos abriu sua própria escola de dança mas quando acabou a High School dirigiu-se a Hollywood.
Foi « descoberta » pelo legendário coreógrafo Jack Cole (“Gentlemen prefer Blondes” só para citar um filme), de quem tornou-se assistente e com quem trabalhou de 1946 a 1948, sendo depois substituída por outra “lenda” no mundo da dança, Gwen Verdon, - outra “esquecida” a quem um dia dedicarei uma postagem (Gwen foi quem ensinou à Marilyn Monroe a movimentar-se, a sorrir, a ser como Marilyn, durante “Os homens preferem as louras”, principalmente no número “Diamonds are a girl’s best friend”).
Carol tornou-se então a assistente de Gene Kelly, com bastante mais prestígio e melhor salário na Metro… Ela trabalhou com ele constantemente em alguns de seus melhores filmes, divididndo a criatividade deste incrível homem: “On The Town” (1949), “Summer Stock” (1950), “An American in Paris” (1951), “Singin’ in the Rain” (1952” e no seu “sonho”, o projeto “Invitation to dance” (1954). Todos da MGM.

Só isto já seria motivo suficiente para um grande currículo mas Carol continuava também a dançar na Metro ,como fez na cena de “sonho” de “On the Town”, como a menina de verde,


no coro “Summer Stock”, filme com Gene e Judy Garland e também na Warner no musical de Doris Day e Gene Nelson “Tea for Two” (1951) aonde nao só dançou em todos os “production numbers”
como também neste Charleston, abusando realmente do direito de roubar uma cena… Incrível. Vale a pena rever este chato Remake de “No, no, Nanette” só por esta cena!

Apesar do filme só ter estreiado em 1954 “Invitation do Dance” foi filmado muito antes. Na realidade antes de “An American in Paris”. Aqui Carol, na frente de um fundo azul, dando vida ao personagem da princesa, que depois, no filme acabado seria uma figura de animação. Que lindo trabalho dela e Gene… o filme fracassou na bilheteria.


Em 1953 lhe foi oferecida uma cena em “Kiss me Kate” (coreografia de Hermes Pan, o único coreógrafo com dois "Deuses" no nome...) que mudaria sua vida. Ela encontrou Bob Fosse, que estava fazendo para este filme seu “Debut” coreográfico em “From This Moment on”. Carol e Bob literalmente roubaram o filme e aquele estilo tão especial de Fosse nasceu. Acho que depois desta cena ninguém mais lembrou-se de Ann Miller, Bobby Van e Tommy Rall. Fosse na época já estava casado com Gwen Verdon. Aqui algumas fotos desta incrível cena em ordem cronológica.









Daí foi um pulo para a Broadway, por insistencia de Fosse, onde o papel de Gladys Notchkiss foi criado especialmente para ela.

Carol causou mais do que uma sensacao em „The Pajama Game“, parando o Show todas as noites com o fabuloso „Steam Heat“ – num estilo Fossiano já mais maduro, mas Chaplianesco... Do outro lado da rua trabalhava, também num Show coreografado por Fosse,"Damm Yankees", Gwen Verdon, sua mulher.

Em “Pajama” Carol também cantou “Hernando’s Hideaway” (que transformou-se na música predileta de Callas… pode?).

Carol foi responsável pela carreira de Shirley MacLaine – que era a substituta de Carol mas que, já sem esperanças de entrar em cena, chegou um dia atrasada no teatro, para pedir demissão: Carol tinha quebrado o pé e abaixo de vaias Shirley entrou em cena – bem a carreira dela dura até hoje… e que maravilhosa carreira (apesar do fracasso de “Sweet Charity” – também com Fosse como diretor e coreógrafo – no papel de Charity Valentine que tinha sido imortalizado na Broadway por ninguém mais nem menos do que Gwen Verdon nesta versão musical de “As noites de Cabíria”).

Carol recebeu o “Tony” de melhor atriz coadjuvante num musical de 1955.
Havia “chegado”.
Ele voltou a Hollywood para a versão cinematográfica de “The Pajama Game”, trabalhando desta vez num outro “Status” com Doris Day.

O seu projeto seguinte seria “Les Girls” (MGM 1957) com Cyd Charisse e Leslie Caron. Mas Cyd quebrou o pé, Caron engravidou e uma terrível diabete foi constatada em Carol. O projeto foi em frente com a incrível Kay Kendall, Mitzi Gaynor e Taina Elg (e Gene).
Ela foi aos poucos engordando, inchando e depois de poucas aparições na Televisão (como aqui ensaiando com Neil Sedaka) dedicou-se à coreografia. Fez na Broadway “Bravo Giovanni”, “Flower Drum Song” e, com uma novata chamada Barbra Streisand, um musical que já em 1964 transformaria-se numa lenda: “Funny Girl”.

Um mes depois da estréia de „Girl“ na Broadway, Carol morreu, aos 39 anos de uma pneumonia que foi agravada pela sua diabete e por um terrível caso de alcoolismo, que a acompanhava já há mutos anos devidos ao seu corpo torturado pela fatiga da dança (Muitos disseram que Carol era uma pessoa muito auto-destrutiva, usando seu corpo até à fatiga completa) e à grandes frustrações devido à uma carreira que, assim como comecou, de um momento para o outro, acabou. Ela, na realidade poderia ter feito mais… mas o tempo nao foi amável com ela.

Carol, “Steam Heat” SEMPRE será seu… vejam "Steam-Heat" (eu nao disse acima "Chaplianesco"?) e "From this moment on" (em homenagem a minha querida amiga Cristina Martinelli) que acabei de copiar do Youtube!!!! Nao era ela também uma bailarina maravilhosa???? Qual sua cena preferida? ">">

domingo, 8 de fevereiro de 2009

The forgotten II : Jackie Coogan

Jackie Coogan foi a primeira „estrêla infantil“ da história do cinema. Ele conquistou o coração do mundo depois de sua aparição em “O garoto” (The Kid, 1921), escrito e dirigido por Charles Chaplin. Um filme de uma linda poesia e simplicidade e de um encanto quase inigualável.

Jackie ganhou durante sua infância mais de $ 4.000.000 e esta quantia deveria ter sido-lhe entregue ao completar 18 anos. Sua mâe vivia separada do pai mas nunca se divorciou dele… O pai morreu poucos meses antes de Coogan cumprir 18 anos e ela herdou todo o dinheiro do “Garoto”. Bem, to make a long story short, Coogan processou a mãe mas acabou “a ver navios” pois o dinheiro tinha-se já acabado . Como tudo é efêmero, não? Por causa deste episódio foi criada nos U.S.A. a “Coogan Law” que protege o capital de menores de idade que trabalham em "show-business" (bem, pelo menos 15%).

Coogan continuou trabalhando sem o menor êxito até voltar nos anos 60 à televisão como o Uncle Fester (Tio Funéreo) na maravilhosa série “The Adams Family” (1964-1966). Como tudo é efêmero, hein ????

Coogan morreu em 1984 aos 69 anos de idade (Oh my... quando ele fez o Tio Funéreo em 1964 ele tinha a minha idade... Help!).

P.S. Quem me ajuda a lembrar do nome de todos os personagens???? Lembro-me bem de “Covas” ( no original “Gomez”), Mortiça (Morticia) – a maravilhosa, charmosíssima e inesquecível Carolyn Jones, Venenilda (Wednesday), Seu Coisa (“The thing”) mas não lembro-me mais do nome nem do filho, nem da tia ou do Mordomo (Sinfrônio?). A planta carnívora era “Cleopatra”, não?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

The Forgotten I : Alla Nazimova

Quero começar esta nova série, "The Forgotten", com uma personalidade nada corriqueira e muito interessante… Nazimova!

Quem se lembra de Leslie Caron interpretando Alla em “Valentino” de Ken Russel? (Vide minha postagem de 22.04.2008, uma das menos lidas...). Alla realmente deve ter sido uma grande diversão para Leslie que parece estar se divertindo, se esbaldando com seu papel... Caricata, genial, louca, com sotaque, dramática, diva... Mas realmente existiu uma Alla assim tão louca?

Adelaida Leventon nasceu na Crimeia (então parte do império russo, hoje parte da Ucrânia) em 1879, parte de uma família judia bem “disfuncional”. Sua infância e juventude foram instáveis: o divórcio dos pais, estadias em colégios internos, em instituições educacionais e em casas de parentes. Parece que sua instabilidade emocional transformou-a ainda bem cedo numa rebelde, que lutava contra qualquer tipo de autoridade; na maioria das vezes porém para obter atenção... Uma criança muito precoce, ela aprendeu a tocar o violino aos sete anos de idade. Como adolescente ela demonstrou um interesse pelo teatro e começou a tomar aulas, para logo depois unir-se ao “Teatro de Arte” de Stanislavsky em Moscou como “Alla Nazimova” (prenome adaptado do seu próprio e “Nazimova” o nome de uma heroína de uma novella russa que muito apreciava). Durante essa época ela manteve-se financeiramente como uma “kept woman”, “ajudada” por homens mais velhos... Por voltas de 1903 a sua carreira tomou um rumo distinguido em Moscou e St.Petersburg. Ela então conheceu Pavel Orlenev, amigo íntimo de Anton Chekhov e Maxim Gorky e ingressou nao só numa relação pessoal com ele mas numa também a nível profissional. Juntos fizeram tournées com muito sucesso pela Europa. Em 1905 mudaram-se para Nova York e fundaram um Teatro russo no Lower East Side (uma parte “russa” da Manhattan da época). O projeto transformou-se num fracasso. Orlenev retornou à Rússia. Nazimova ficou em Nova York.

Ela teve seu “début” na Broadway em 1906 com grande sucesso de crítica e público e transformou-se numa personalidade popular (um teatro levou até seu nome!) no teatro. Continuou na Broadway por muitos anos, muitas vezes com peças de Ibsen e Chekhov (de quem ela, na época, era considerada a maior intérprete). Agora ela só chamava-se “Nazimova”.

Nazimova fez seu primeiro filme em 1916. Tinha feito muito sucesso na peça “War Brides” de 1915 e quando esta foi transformada num filme de 35 minutos, ela recebeu o papel principal. A partir daí ela passou a fazer contínuamente filmes, que lhe trouxeram não só fama mas muito dinheiro. Em 1917 ela já ganhava $ 30.000 por filme, com um bonus de $ 1.000 por cada dia de filmagem. Brevemente passou a receber $ 13.000 por semana – uma quantia absurdamente alta para a época. Imaginem só que a “Namoradinha da América”, Mary Pickford, ganhava na época $ 3.000 por semana...

Em 1918, aos 39 anos, ela decidiu passar a produzir seus filmes e escrever seus próprios roteiros. É sobre esta época, sobre seu valor avant-gardista e sobre o riquíssimo valor visual de seus filmes que queria dissertar um pouco aqui...

Em 1922 “A Doll’s House” (“Casa de Bonecas”), no meio de sua fase mais criativa, foi uma produção de certa forma clássica, formal. Porém seu uso ousado da camera inspirou muitos cineastas.

.....................(Pobre "Nora" bailando a Tarantella)....................

Seus trabalhos mais “apaixonados” e “enlouquecidos” da época foram “Camille” (1921) e “Salomé” (1923). Cercada de grandes talentos, Alla deu realmente “asas” à sua imaginação e embarcou numa louquíssima, alucinada viagem “avant-garde” construíndo (ao seu redor) “sets” que nunca tinham sido vistos, usando guarda-roupas que nunca haviam existido, criando efeitos que nunca foram cogitados...


Em “Camille” ela contracenou com um jovem talento que acabava de chegar ao estrelato depois de “dançar um erótico tango” em “Os quatro cavaleiros do Apocalipse” (“The four horsemen of the Apocalyse”, 1921): Rudolph Valentino. Rudolph foi o “Armand” para a sua “Camille”. A responsável pela “produção artística”, ou seja, pelos sets art-decó e pelos excepcionais guarda-roupas era Natacha Rambova, que havia nascido como Winifred Shaughnessy e que era a amante de Alla na época. Ela ainda faria a produção de “Salomé” para Nazimova mas logo casaria-se com Valentino para abandoná-lo logo depois. Mas isto já é assunto para uma outra postagem!

Detalhe: a magreza quase anoréxica de Nazimova para interpretar a tuberculosa Marguerite e toda sua fragilidade exterior e interior...

Alla – que sabia reconhecer um talento (como tinha feito com Valentino, contratando-o para “Camille”) e também um “scene-stealer”, não titubeou duas vezes, reduziu o número de cenas de Valentino e transformou o final “a dois” de “Camille” (quando Armand volta finalmente aos braços de Marguerite para perdê-la para a morte) num “solo”. Ela morre sózinha, Armand tendo sido substituido pelo livro (!!!) “Manon Lescaut”, e fica com o final lacrimejante do filme só para ela. Nao sei o que Dumas Jr. teria pensado disto...

...lindo "take" que deve ter inspirado Cukor na sua versao de "Camille" com Garbo...

Aqui mais algumas fotos que mostram a linda fotografia e o decór do filme, que só por este motivo já é uma obra interessante.


“Salomé”, sua produção mais ousada, que lhe custaria sua carreira em Hollywood, foi uma homenagem a Oscar Wilde. Por este fato Alla fez questão que a publicidade divulgasse o fato de que sua produção era uma “all homossexual-production of Salome”. Fato este que também sacrificou a carreira de muitos atores e atrizes do filme...



Nazimova e Rambova não pouparam em detalhes – do seu penteado de “pom-pons” (um clássico, imitado por Leslie Caron em “Valentino”) ao robe que era quase a réplica de uma ilustração de Beardsley para a edição original de “Salomé” – e a produção foi caríssima.


Ela com certeza desenvolveu uma técnica própria em suas produções mas estas, apesar de terem sido elogiadas pela crítica, foram consideradas muito “ousadas” pelo público da época. E olhem que estamos ainda dez anos antes do “Hays Code” (censura), numa Hollywood muito “aberta”. Pensem nos filmes (e cenas de orgia) de Cecil B. deMille !!! Ela perdeu práticamente todo seu capital, vendeu sua mansão que havia construído em 1919 e que tinha sido cenário das maiores “debauched parties” da era dourada do cinema mudo (o famoso “Garden of Alla” que em 1927 transformou-se num hotel de Bungalows chamado “Garden of Allah”, onde ela mesmo alugou um pequeno quarto para si).

Por voltas de 1925 ela não tinha dinheiro para investir em filmes, perdeu todo o seu suporte financeiro, não conseguiu levantar um empréstimo e voltou para Nova York para trabalhar no teatro, na Broadway (como por exemplo para estrelar como Natalya Petrovna na versão dirigida em 1930 por Rouben Mamoulian de “A Month in the Country”).

Alla teve uma vida amorosa muito atribulada... Diz-se que seu casamento com o ator Charles Bryant era um “lavender marriage”. O que pode ser, já que ele era assumidamente gay e ela, durante o passar dos anos, teve casos de amor com Jean Acker e Natacha Rambova (AMBAS esposas de Valentino), com a atriz Eva Le Gallienne, com a assumidíssima diretora Dorothy Azner, com a escritora Mercedes de Acosta (amissíssima de Garbo e Dietrich) e com a sobrinha de Oscar Wilde, Dolly Wilde, entre outras.

Nazimova voltou a Hollywood no início dos anos 40 para trabalhar como coadjuvante em filmes como “Escape” (1940, como a mãe de Robert Taylor), “Blood and Sand” (“Sangue e areia”, 1941 como a mãe de Tyrone Power), The Bridge of San Luis Rey (1944) e “Since you went away” (1944, com Claudette Colbert, Jennifer Jones e Shirley Temple!). Mas ela mesmo disse que o único motivo para fazer estes filmes era realmente a necessidade de dinheiro.

Alla sobreviveu a um cancêr de mama mas sucumbiu a uma trombose coronária em 1945 aos 66 anos de idade. Sua contribuição ao cinema, mesmo que desesperadamente avant-gardista e, hoje em dia, nada fácil de ser “catalogada”,"classificada" (e se voce hoje em dia sai da "norma", está perdido... ) foi reconhecida e ela recebeu uma estrêla no “Hollywood Walk of Fame”.

Famosíssima em seus dias, sua fama hoje em dia não chega perto de nomes como Chaplin, Swanson, Keaton, Gish, Pickford, Fairbanks, Lloyd mas esta ilustração da época mostra que Alla esteve lá, e em grande companhia por sinal!!!!