Mostrando postagens com marcador Shaw G.B.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Shaw G.B.. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de setembro de 2009

O "Depois" do Final Feliz...

Uma sensacional série de fotos foi feita sobre o que aconteceu „depois“ dos contos-de-fadas terem acabado… Cinderella bebada e deprimida num bar de estrada, Branca-de-Neve irritada como uma frustrada dona-de-casa com o marido/ príncipe sentado em frente da TV assistindo futebol e bebendo cerveja, o Chapéuzinho Vermelho como uma matrona gorda, Rapunzel sem peruca tomando uma quimioterapia. Não vou colocar estas fotos aqui. Eu já mandei há muitos meses atrás estas fotos para amigos e elas estao em dúzias de Blogs.

Mas uma pergunta persiste: o que aconteceu realmente a estes personagens depois dos contos terem terminado? Os contos-de-fadas sempre acabaram com „…e viveram felizes para sempre“ („…and they lived happily ever after!“)

mas eu me pergunto, e se não há realmente o depois? Se ele não existe? Pensem: nunca alguém se preocupou em nos contar se Branca-de-Neve transformou-se numa neurótica em termos limpeza (algumas indicações ela já tinha deixado „transparecer“, limpando tão perfeitamenre a casa dos anoezinhos, muito „docinha“ mas comandando os animaizinhos… fingida! "safadinha"!),
se Rapunzel mandou cortar os cabelos bem curtinhos e virou uma „emancipada“ militante depois de ter ficado todos aqueles anos submissa na torre,
se Cinderella ficou obsecada, maníaca por fazer compras, gastando todo o dinheiro do cartão de crédito do príncipe (sua madastra nunca lhe deu uma roupinha nova… lembram?)
ou até se Aurora passou a sofrer de insonia, o que não seria improvável, depois de ter dormido cem anos, e ficou dependente de remédios para dormir… Não, nunca alguém nos contou o que aconteceu depois… Será que o depois existe?
Só G.B.Shaw nos relata, no epílogo de "Pygmalion" (um "conto-de-fadas moderno?) a triste vida que Eliza Doolitle levou depois de casar-se com Freddy Eynsford-Hill… de como ele gastava fútilmente o dinheiro que ela suava para ganhar na sua loja de flores, de como apesar de ela ter-se tornado uma „Dama“ sua caligrafia era terrível, seu inglês escrito muito deficiente e de como ela, por pura ignorancia, recorria ao Professor Higgins para que ele lhe ajudasse na contabilidade da loja. Ela não sabia como faze-la. Uma „Lady“ na aparencia mas sem o real Background de uma. Triste. Para quem tem a imagem de Eliza como Audrey uma outra „maldade“: Shaw conta como Eliza começou a envelhecer, perder a mocidade e a beleza antes do tempo… (John Tydeman escreveu: que a “made-over” Eliza não era nada além de "a doll who speaks beautifully, knows how to move and to wear fine clothes". Shaw, num período bem “pé-no-chão” e de muita observação social, adicionou ao seu livro este epílogo no qual está óbvio que Eliza ainda teria muito o que aprender para transformar-se realmente numa mulher fina… o “depois do final”).
Um “depois“ do final… este talvez não de um conto-de-fadas mas de uma estória que tem um lado „Cinderella“ que nos hipnotiza e sempre encanta e ENGANA. Uma fórmula aliás bem conhecida no cinema… pensem em „Funny Face“ com Fred Astaire e também Audrey, „Gigi“ com Leslie Caron ou até „Pretty Woman“ com Gere e Roberts. Todas acabam com o final feliz... and they lived happily ever after. Não é à toa que existe o livro „The Cinderella Complex“, que deve ter dado muitas dores de cabeça à muita gente... Nosso país (Brasil) é o "rei" em termos de incentivar estes "sonhos de Cinderella"... pensem só naqueles coitadinhos que íam para "A Buzina do Chacrinha" ou para o programa "Sílvio Santos". A migração constante do interior para a cidade... "lá eu ganho na loteria, viro cantor e fico famoso". Quantos coitadinhos, todo dia, chegam às chamadas "metrópoles" com estes sonhos dentro da mala... Mas por outro lado: ir tentar realizar seu sonho... quanta coragem... admirável...

Mas, de volta a „Pygmalion“: será que alguém já notou aqui que „My Fair Lady“ e „Frankenstein“ tem práticamente o mesmo conteúdo e (no cinema) o mesmo roteiro? Um „monstro“ é criado (na realidade por criar-se uma nova fala e novas maneiras para ela) e o „Cientista“ (Higgins era um ousado cientista, num ousado projeto) perde completamente o controle sobre ele… Cinderella, o monstro. Já tinham pensado nisto?

sexta-feira, 6 de junho de 2008

The doctor's dilemma (1958)

Uma peça não muito popular de George Bernard Shaw que foi encenada pela primeira vez em 1906. Um tema muito revolucionário para a época e, hoje em dia, até nauseante: como pode alguém colocar-se na posição de “Deus” para decidir se vidas serão ou não salvas???? Um lado porém muito positivo deste trabalho é o fato de Shaw ter mostrado abertamente como dinheiro também “compra” a vida e o trabalho de cirurgiões... Na época Shaw baseou o médico da peça num exemplo da vida real, um otorrino-laringologista de Londres que “inventou” uma certa cirurgia para retirar a úvula (palatine uvula), que não ajudou ninguém; nenhum de seus pacientes, porém lhe trouxe uma pequena fortuna, apesar desta realmente nao ter nenhuma função ou uso, em termos de medicina. Shaw analiza a falta de sentido que pode existir na medicina em comparação à real necessidade desta que muito existe. Mas o dinheiro às vezes “fala mais alto”... Estamos muito distantes disto hoje em dia?

Mrs. Dubedat ama e idolatra seu marido Louis, um artista. Ele porém está morrendo de tuberculose. Ela consulta um médico e consegue convencê-lo de salvar sua vida...Êste médico não consegue mais atender tantos pacientes e têm que escolher entre as vidas que vai salvar (Êle decide entre a vida e a morte! Êle assumiu o papel de Deus... ). Ele está convencido de que a vida de Louis é “digna” de ser salva. Mas quando seus colegas de profissão conhecem Louis descobrem que ele é uma pessoa que só “brinca com a vida” – pegando emprestado dinheiro de todos, sendo desonesto, mentiroso e até bígamo (por uma coincidência do destino, sua primeira esposa é empregada na casa aonde estão todos reunidos nesta noite para um jantar). Entao o inevitável acontece e médico entra em seu dilema: deve ele deixar Louis morrer, deixando Mrs. Dubedat com a imagem positiva (e quase idolatrada) que faz dêle ou deve salvá-lo – junto com seus talentos artísticos – mas porém forçá-la a encarar seus defeitos, seu caráter, suas falhas desapreciáveis e sua bigamia??????? Êle opta por não operá-lo...

Vivien Leigh fez Mrs. Dubedat no palco inglês, aqui ela, uma hippie da época, é interpretada por uma sensível Leslie Caron, distante anos luz de An american in Paris (Sinfonia em Paris), Daddy long Legs (Papai Pernilongo), Lili, Gabi e Gigi (apesar dêste ter sido feito no mesmo ano que “The doctor’s dilemma”). Papéis maravilhosos ainda estavam para vir... como a filha da peixeira em “Fanny”, o grande “The L-shaped room” – filme pelo qual seria nominada ao Oscar de melhor atriz e a “louca” avant-gardista Ala Nazimova em “Valentino” de Ken Russel (vide minha postagem). “The brute” Louis é interpretado por Dirk Bogarde. Grandioso. Como sempre. Aqui a foto da hora da morte de Louis... ela se dá conta e pergunta quase secamente: "Was that it? was that death?" - um grande momento...
O Diretor foi Anthony Asquith. Uma produção inglêsa da MGM de 1958.