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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Follies: subindo e descendo escadas...


Inspirações podem ser espontaneas...às vezes não… mas, a verdade é que podemos até esquecer do que as causou...

Adoro um video que foi feito do espetáculo em honra dos 80 anos de Stephen Sondheim em 2010… Sim, o “mestre” nasceu em 1930…


Tantos maravilhosos talentos reunidos numa única noite, num único palco…

Principalmente a cena de “Follies” (que começa com “Beautiful Girls”, grande número…) prendeu completamente minha atenção e abusou de toda minha concentração (e continua com o mesmo efeito, apesar de eu já te-la assistido várias vezes!): David Hyde Pierce canta e introduz as fantásticas, veteranas Patti LuPone, Marin Mazzie, Audra McDonald, Donna Murphy, Bernadette Peters e Elaine Stritch, que simplesmente “arrasam” (Mais sobre as cenas indiduais de cada uma delas em próximas postagens de “As Tertúlias”)!



Como “não existem coincidências” recebi um destes dias o DVD de “Ziegfeld Girl” (MGM, 1941) com Judy Garland, Heddy Lamarr e Lana Turner… será que um garotinho de 11 anos deixou-se inconscientemente inspirar com esta cena de LanaTurner “descendo” as escadas…


O filme, na realidade, possui todo um simbolismo cínico sobre o “descer” e “subir” em volta do personagem de Lana:
ela é descoberta como ascensorista subindo e descendo elevadores, ela sobe aos palcos para ser uma estrela de Florenz Ziegfeld, subindo e descendo escadas, no final do filme infeliz e “mantida” por um homem velho ela “desce” e se volta para o álcool…

O simbolismo das escadas…


Sim será que o garotinho Sondheim se inspirou aqui, inclusive musicalmente?



(Um dia teremos também que falar sobre Bette Davis subindo e descendo as escadas da Warner por 15 anos... ).

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Josephine Baker: original e cópia...


É muito difícil ter-se uma exata imagem de quem foi Josephine Baker, da pessoa atrás da máscara que usou toda a vida. Todas suas biografias são contraditórias... Difícil entender os seus motivos, os seus porques, aqueles que não tinham o que ver com o preconceito contra sua cor de pele – este motivo, sim, era mais do que óbvio: pura sobrevivencia e desejo de ser respeitada…


Josephine criou um furor em Paris quando dançou práticamente nua na «La Revue Nègre» de Paul Colin em 1925.


Mas esta forma de sucesso imediato era baseado no puro «escandalo» de estar com os peitos nús no palco… Seguiram outros “pequenos” escandalos (mínimas tangas de bananas por exemplo) mas quando estes passaram a ser parte do dia-a-dia parisiense e perderam seu inicial “impacto”, ela teve que fazer um tournée pela Europa para poder manter-se pagando as contas: na Suécia virou um ídolo, em Viena chamaram-a de «bruxa» e os cartazes, nas demonstrações na frente do teatro onde se apresentava, mandavam-a de “volta para a África”.


De volta a Paris percebeu que não era suficiente ser uma dançarina escandalosa e exótica que pintava as unhas de dourado e passeava seu leopardo na coleira (trocada todo dia para estar de acordo com sua roupa) pelos Champs Elysées… Não.
Os “Anées folles” chegavam ao fim…


Aprendeu a cantar, tomou aulas sérias de dança, foi ensinada a se vestir, falar, se comportar e criou assim uma nova imagem que nada tinha o que ver com a primitiva, nua, selvagem "africana" (que na realidade degradava extremamente o status de sua propria raça!).



Voltou aos U.S.A. pela primeira vez em 10 anos, para trabalhar num Show do «Ziegfeld Follies» em 1935.


Foi literalmente estraçalhada pela crítica (e público) que não aceitava que ela estivesse fazendo coisas “de branco” (talvez até melhor do que muitos) como cantar textos maravilhosos de Cole Porter e ser o centro do show - bem vestida, bem arrumada, penteada, reluzindo limpeza, glamour e perfume. Isto nos U.S.A. não era coisa de "Negrinha", como foi até chamada no jornal...


Exatamente o que aconteceu com Lena Horne no cinema… uma cena sua tomando banho de espuma foi considerada “risqué” – não era coisa para uma “negra”. E isto, toda esta ignorancia e preconceito “só” há 70 anos atrás…
Que puro absurdo!
(Josephine recebeu propostas de Hollywood… porém para fazer papéis de empregada. Logo ela que era casada com um Conde e tinha seus próprios serventes… ).

Nesta época, apesar de, mesmo com muita crítica negativa, ser uma estrela da Broadway, era obrigada a entrar no seu hotel pela cozinha pois “alguns Gentlemen do Sul que estavam no hotel não estariam de acordo, se incomodariam com sua presença no Lobby, no Restaurante do Hotel”. Seu marido, o Conde, óbviamente podia circular pelo Hotel como bem quisesse.

Acabou seu casamento com ele e voltou arrasada e deprimida à Paris onde era tratada como ser humano de primeira classe (Contava Josephine que ao chegar pela primeira vez em Franca e ser servida por um garçon branco que chamou-a de “Madame”, ela soube imediatamente que esta seria sua futura pátria). Virou cidadã francesa.

O exército alemão invadiu Paris.

Servindo sua nova e amada pátria espionou alemães (ao ser “descoberta” teve que pular de uma janela para se salvar: um envenenamento quase lhe custou a vida e lhe causou a perda dos cabelos), foi enviada pela “Resistance” para a África e trabalhou muito para os aliados.


Continuou sua carreira depois da guerra, voltou à América para uma tournée desastrosa, foi rejeitada em 63 hotéis em N.Y., o espetáclo acabou sendo cancelado depois dela ter processado o Stork’s Club de N.Y. por racismo (ela e seu grupo não foram servidos sob a alegação de que não havia mais comida - Outros que chegaram mais tarde foram servidos!). Tudo isto causou uma campanha negativa, contra Baker que mais uma vez retornou à Paris deprimida e arrasada. Nunca mais voltaria ao seu país de nascimento.


Então adotou várias crianças de várias nações, recebendo assim muita publicidade, acabou seu segundo casamento, perdeu todo seu dinheiro, foi despejada, recebeu um convite de Grace Kelly para viver no Monaco, voltou ao palco num show de notável mau-gosto que foi notávelmente financiado pelo Princípe Rainier, sua esposa Grace Kelly e Jacquie Kennedy Onassis!!!!
Na estréia estavam na platéia Sophia Loren, Mick Jagger, Shirley Bassey, Diana Ross e Liza Minnelli.

Quatro dias após a premiére ela sofreu uma hemorragia cerebral e entrou em coma para falecer pouco depois.

Foi a única “americana” (de nascimento) a receber as honras de um ceremonial de enterro de estado – seu corpo se encontra hoje no cemitério do Monaco!

Mas porque escrevo tudo isso?


A “persona” no palco que Josephine representava nunca me agradou. Muito pelo contrário! Não dou menor valor à provocação do exibicionismo barato (e talvez gratuito?) de suas épocas da “La Revue Nègre” e das tangas de bananas, sua voz era mínima e comum, sua dança sempre foi envolta numa capa de óbvio amadorismo, sua evolução para “Rainha” do Follies Bérgere (ou de seu estilo) é para mim um dos piores casos de mau gosto da história do show-Business, aquela coisa , tão passada, chamada “Plumas e paetês”. Terrível… como se ela de ano em ano se transformasse numa feia caricatura de si mesma.

E isto sem nem mencionar a cafonice de suas últimas apresentações na qual parecia uma espécie de Elvis Presley travestido ou uma mutação amassada de Liberace…


Em 1991 uma biografia de TV de Baker chamada "The Josephine Baker Story" (que nem é mencionada na Wikipedia) foi feita para a televisão: um filme com muitos erros biográficos, muita “água com açúcar” e muita “criatividade” no que diz respeito à vida de Baker.

Josephine
na realidade nunca venceu grandes batalhas no que dizia relação ao ativismo contra o problema racial americano. Perdeu a maioria delas e se refugiou numa posição confortável num país onde era muito amada, por ser um ícone.


Nesta cena, que veremos, Lynn Whitfeld (que interpreta Baker) está no Norte da Africa durante a guerra, recuperou-se duma pneumonia e várias outras infecções e decidiu cantar para os soldados, entreter as tropas…
Ela porém para de cantar quando nota que os soldados negros estão “lá atrás” e os brancos sentados nos bancos da frente… Ao som de «J´ai deux Amours» ela transforma esta simples (e linda) chanson num conto de fadas de ativismo de direitos civis (os dois países «dentro dela» não são mais os U.S.A. e a França e sim o seu lado negro e seu lado branco… Note-se que esta música foi composta nos "Anées folles”, nos quais Paris havia-se tornado capital mundial do Jazz, nos quais músicos negros eram « amados » e nos quais problems raciais aind não existiam como hoje ! ).


Bem, final feliz, todos felizes…
os soldados negros vem sentar-se na frente ao lado dos brancos que os recebem com toda a amabilidade e carinho que só existe entre irmãos… como acontece todos os dias (!?!), principalmente nos U.S.A.... esta forma aberta, simpática, aconchegante de ser em relação à cor de pele, tão típica do povo norte-americano... stou sendo cínico? Perdão, mas só a TV americana pode criar cena de tal banalidade e irrealismo!

Pelo menos tudo isso acontece ao som da linda canção e de um (sincronizado) desempenho vocal simplesmente maravilhoso… Uma das razões porque prefiro a sincronizada Lynn (muito linda)ao “original” Josephine com sua "vozinha"…

No final de tudo, pela música, quase vale a pena assistir esta cena lacrimogenia…

Mas temos admitir “entre nous”: se a vida fosse realmente assim…

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

REMEMBERING: Look for the silver Lining - acordes de esperança?


Existe em Alemão uma expressão que é “Not macht erfinderisch” (A emergencia provoca a criatividade). Gosto disso… desde os “Old-Timers” que ainda são conduzidos pelas ruas de Cuba ao “jeitinho” brasileiro que é de uma criatividade impressionante… Mas não usamos dizer em portugues “emergencia criativa”?


Adoro uma canção de Jerome Kern que sobrevive a difícil prova que o tempo sempre coloca em qualquer obra de arte: “Look for the silver lining”. Ela foi composta em 1919 para um musical que foi um fracasso, chamado “Zip, Goes a Million”.

Só publicada no ano seguinte ela foi reusada num musical de Ziegfeld feito especialmente para Marilyn Miller, “Sally”, que a transformou num popular sucesso!


Talvez por falar de sonhos, fantasias… ou esperanças... talvez... Tento explicar: "silver lining" (na realidade o "forro" prateado) é uma expressão idiomática que significa tanto quanto "um sinal de esperança numa situação difícil, ameaçadora".

Como por exemplo em Every Cloud has a silver lining... Uma versão mais antiga de "Always look on the bright side of life!"

Usada em vários filmes ela deu o nome para um veículo de June Harver na 20th Century Fox em 1949; uma biografia da própria Marilyn Miller, estrela de grande magnitude de Florenz Ziegfeld: „Look for the silver Lining“.

Chat Baker transformou-a num número de Jazz em 1954 e, notávelmente, esta melodia é usada até hoje, como no caso da famosa série da atualidade “Downton Abbey” na qual foi cantada pelos personagens Lady Mary e Matthew Crawley. Infelizmente e por azar a cena se passou no Natal de 1918, ou seja, um ano antes de ter sido composta por Kern…


Talvez sua interpretação mais conhecida seja de Judy Garland, no palco, em “Till the clouds roll by”, biografia bem “livre e criativa” de Kern.


Neste filme ela também aparece como Marilyn Miller e canta não só “Silver Lining” como também a eterna “Who?”.


Judy
insistiu na época que seus numeros fossem dirigidos por seu então marido, Vincente Minnelli. A producão se atrazou um pouco e quando chegou finalmente a hora de se filmar “Silver Lining” a barriguinha de uma grávida Judy já estava mais protuberante do que poderia ser aceito pela MGM (Liza estava a caminho!).


Genialmente Minnelli mudou todo o conceito do número e o baseou 100% na atuação de Marilyn Miller dos anos 20. Estando atrás de uma pia cheia de pratos empilhados Judy não estaria totalmente exposta às cameras….
“A emergencia provoca a criatividade”.


Judy está um “mimo” neste número. Abusando do direito de ser talentosa, sonhadora, emocionada, afinada e fazendo muito amor com a camera que tanto bem lhe queria…


Por "coincidencia" a direção musical deste número, o arranjo em si, foi composto pela fabulosa Kay Thompson - atriz, cantora, bailarina, compositora, arranjadora, vocalizadora, professora - talvez por muitos lembrada só por sua participação em "Funny face" (1957) ao lado de Fred Astaire e Audrey Hepburn e no qual ela recebeu uma distinção única no Cinema: Ela roubou descaradamente uma cena na qual contracenava com Astaire.


Sempre penso em Kay quando ouço a expressão "She's bigger than Life". She was. Quer personalidade!

Amissíssima de Minnelli, tornou-se amiga íntima de Judy, virou madrinha de Liza que levou-a para morar com ela na velhice e que lhe dedicou um show, há poucos anos, no qual "cantarola" emotivamente "Silver Lining"... sim, este "cantarolar" era marca registrada da magnífica Thompson e Judy aqui cantarola triunfantemente! Reparem...


Além disto tudo e de uma longa carreira, Kay ainda criou um dos personagens um dos personagens mais simpáticos da história: Eloise! Mas como eu sempre digo: isto já uma outra estória que ficará reservada para uma futura Tertúlia!


Levantemos a cortina para Judy, sua voz, sua emoção, seu talento!

As I wash my dishes, I'll be following a plan,
Till I see the brightness in ev'ry pot and pan.
I am sure this point of view will ease the daily grind,
So I'll keep repeating in my mind.

Look for the silver lining
When e'er a cloud appears in the blue.
Remember some where the sun is shining,
And so the right thing to do,
Is make it shine for you.



A heart, full of joy and gladness,
Will always banish sadness and strife.
So always look for the silver lining,
And try to find the sunny side of life.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Vamos hoje rir com Fanny Brice?


Por alguns motivos muito pessoais redescobri neste final do ano como é importante rir… Até o próximo ano seguirão aqui postagens chamadas “Vamos rir?”. Hoje começo este “ciclo” com a incomparável Fanny Brice - estrela legendária do Ziegfeld Follies e inspiração para um grande musical.. Lembram de Barbra Streisand em “Funny Girl”? Pois é, a própria… Vejam também uma antiga Postagem de 4.7.2008: Fanny Brice – Funny Girl?????
Vamos hoje rir com ela?">

sábado, 16 de maio de 2009

Duas biografias „on the rocks“: Lillian Roth & Helen Morgan


Ao decorrer dos anos 50 Hollywood produziu várias biografias mais “populares” em comparação a filmes de questionável “gabarito” dos anos 40, como a biografia de Chopin com Cornel Wilde ou a de Clara Schumann com Katherine Hepburn… Alguns exemplos: “The Glenn Miller Story” (Universal, 1953) com James Stewart no papel título e June Allyson, “Three Little words” (“Três palavrinhas”, MGM 1950) com Fred Astaire e Red Skelton interpretando Kalmar & Ruby acompanhados da adoráveis Vera-Ellen e Arlene Dahl e “The Eddy Dunchin Story” (1956) com Tyrone Power e Kim Novak.

Hollywood neste período parece ter tido também uma certa fascinação com “mulheres que cantavam” e que, por algum motivo, levavam alguma tragédia consigo: Jane Froman e seu trágico acidente de avião em Lisboa durante a guerra (“With a Song in my Heart, 1952”) foi interpretada por Susan Hayward, Grace Moore com sua trágica morte num acidente (também de avião) em 1947 (“So this is love”, 1953) com Kathryn Grayson, Ruth Etting e seu envolvimento com um gangster (“Love me or leave me”, MGM 1955) que deu a primeira chance séria à Doris Day e o magnífico Soprano Marjorie Lawrence (vide minha postagem de 03.03.2009 com uma cena deste filme) que teve que lutar contra os efeitos de uma fortíssima poliomielite (“Interrupted Melody”, 1955) com a não menos magnífica Eleanor Parker, que foi mais uma vez nominada para um Oscar por este trabalho.

Devemos mencionar aqui que a Hollywood da época tomava ainda mais liberdade com fatos históricos, ou até bíblicos, do que toma hoje em dia (Ou alguém já esqueceu que “Salomé”, com Rita Hayworth, tem um final feliz? Ela “acaba” feliz com João Batista ?!?!?!?).

Apesar destas liberdades (que supostamente eram feitas para melhorar o roteiro), duas das melhores “biografias” do período foram “I’ll cry tomorrow” (1955) e “The Helen Morgan Story” (1957). Ambos filmes, sobre mulheres com muito talento, podem ser descritos como “de certa forma bastante úmidos”. Não, não estou referindo-me a nenhum número musical com Esther Williams porém ao fato das estórias de Lillian Roth e Helen Morgan estarem intímamente ligadas a muito “booze”: gin, whisky, vodka etc.

Ambos filmes e suas principais intrérpretes demonstraram extrema coragem numa época em que em Hollywood a grande maioria das atrizes queriam só ser “bonitas” (ou sexy). Susan Hayward e, supreendentemente Ann Blyth, descem à sarjeta, à sordidez, ao final do poço... ao asqueroso declínio moral, psicológico e físico causado pelo abuso do álcool.

Lillian Roth começou no teatro (“Artists and Models”) e chegou às produções requintadas de Ziegfeld (“Midnight Frolics”). Em Hollywood fez vários filmes, entre eles “The Love Parade” (com Maurice Chevalier, 1930), “Honey” (1930), “Madame Satan” (1930), “Animal Crackers” (com os Marx Brothers, 1930) e até um filme “forte” sobre mulheres na prisão “Ladies They talk about” (Warner 1933, com Barbara Stanwyck). Seu repertório era simples com alguns “carros-chefes” (por exemplo “Sing you Sinners”).

Susan Hayward, sempre uma boa e competente atriz, deu uma vida sem muita personalidade à sua “Lillian Roth”. Baseado na Auto-biografia de Roth “I’ll cry tomorrow” o filme conta a ascenção de Lillian, levada por sua ambiciosa mãe, ao estrelato. Lillian parece nunca opinar sobre sua vida, seus direitos, suas vontades... Quando seu noivo morre, ela, descobre o álcool. Este transforma alguns de seus momentos em felicidade, faz com que ela durma melhor, traz-lhe segurança e “personalidade” quando canta (Corajosamente Susan Hayward usou sua própria voz no filme, ao contrário da biografia de Jane Froman na qual foi dublada pela própria Froman). Porém a situação vai-se tornado cada vez mais precária e ela vai contínuamente, gradativamente perdendo o controle sobre si mesma. Ela começa a pedir cadeiras para se apoiar no palco enquanto canta (como por exemplo numa magnífica cena na qual canta uma daquelas trágicas canções de mulher vítima, dependente, sofrida: “Joe” – ♫♪ It seems like happiness is a just a thing called Joe ♪ ♫ ), começa a beber às escondidas, a cair em restaurantes e bares... Quando se casa com um alcoólatra (que lhe agride físicamente) ela foge. Seu destino está selado. Bares de última categoria. Sujeira no rosto e nas mãos. Roupas rasgadas. Tiques nervosos na boca e nos olhos. Sarjeta. O inferno.

A direção de Daniel Mann é muito sutil. Muito estruturada. Ele nos faz compreender momentos muito fortes mostrando muito pouco. Até, assombrante para os anos 50, uma cena na qual Lillian, sofrendo por causa de falta de alcool, é violada por um mendigo qualquer na “instituição” para mendigos onde passava a noite. Fatos tristes da biografia de Lillian Roth.

Lillian entrou para os alcoólatras anônimos em 1946, conseguiu retomar sua carreira e em 1962 até fez Broadway de novo no musical “I can get it for you wholesale” (peça na qual ninguém brilhou, só uma novata de 18 anos que tinha dois números e pouquíssimas falas: Barbra Streisand). Por estas épocas ela já tinha voltado a beber. Passando por altos e baixos, falta de dinheiro, sete casamentos, empregos como cantora, atriz (Broadway em 1971 no musical de Kander & Ebb70, Girls 70” e dois filmes, um em 1976 e outro em 1979), assistente de padaria, atendente num hospital e até empacotando embrulhos... ela morreu aos 69 anos.

Helen Morgan, considerada por muitos até hoje como a “diva” da “Torch-Song” (Lá vem mais canções tipo “mulher vítima”, sim sobre aquelas que eram maltratadas por seus homens mas não deixavam de amá-los, de esperar por eles, de padecer por eles, de serem agredidas por eles). Tinha uma “marca registrada”: em todas suas aparições em Night-Clubs cantava sempre sentada sobre a cauda do piano. Mulher de um vasto repertório, bem mais interessante do que o de Roth, Morgan cantou muito Gerschwin e eternizou as baladas de “Show Boat” – produção de Ziegfeld (mais um paralelo em sua vida com Lillian Roth) na qual interpretou Julie, outra destas vítimas apaixonadas, dependentes de um homem e que (por coincidência) acaba não só num mar de lágrimas como também de gin...

The helen Morgan Story” é um bom filme, dirigido pelo legendário Michael Curtiz (“Casablanca”).
Ann Blyth, uma atriz “correta” (A filha de Mildred Pierce/ Joan Crawford, no filme homônimo, a esposa de Caruso no “O grande Caruso” ao lado de Mario Lanza e até na Opereta “Rosemarie” na qual usou sua própria voz que tendia muito a um registro bem “Soprano”), surpreendeu: Sua “Helen” é uma moça cheia de vida, do interior, que não bebe, não mente, não “circula”.
Quando ela é usada pelo cafajeste Larry Maddux (um jovem Paul Newman!) e logo depois abandonada, transforma-se numa pessoa triste. Sem “luz”. Aquela mulher de um homem só, sofrida, amargurada, vítima. Ela comeca entao a cantar. Abaixo, duas fotos de Helen Morgan.

Peu à peu vemos e reconhecemos certas tendências em sua personalidade... inseguranças, tristezas, angústias, solidão...
Morgan desenvolve sua música, seu “canto” e tem a grande chance de sua vida como “Julie” (já mencionada acima). Sua interpretação de “Bill” é um mundo de amor (mas também de sofrimento por causa de UM só homem... como Lillian Roth acima com “Joe”. Mais uma vez as sofredoras, as vítimas daquela época... Será que ainda existem hoje ou saíram mesmo de moda?).

Por vários motivos Morgan cai no álcool. Primeiro conscientemente, sabendo que tem que freiar-se, parar, voltar a ser normal. Depois não mais controlando-se até chegar ao ponto de cair de cara no palco. Fato que todos os jornais de N.Y. publicaram! Também uma caída fulminante na sarjeta. E um final, ao contrário de Lillian, não com os AA mas num hospital. Delirium Tremens, banhos de gelo, gritos, muito sofrimento e humilhacoes...
Blyth impressiona nestas cenas. Realistas para os padrões de 1957.

O final do filme é “positivo” transformando sua saída do hospital quase numa volta aos palcos, numa espécie de “Come-Back” e cantando, finalmente, para finalizar o filme, a linda balada de Julie em “Show-Boat”,“Can’t help loving that man of mine!”. E mais uma vez somos confrontados com dependência, sofrimento, vítimas do amor!

O filme não foi muito bem aceito pelo público e pela crítica, sendo o ponto mais criticado o fato de Ann Blyth não ter usado sua voz, tendo sido dublada por uma famosa cantora da época chamada Gogi Grant. O disco fez bastante mais sucesso que o filme. Não imagino porém como o registro de Soprano de Blyth teria adaptado-se às “Torch Songs” do período.

Helen Morgan trabalhou no cinema muito pouco, imortalizou porém sua “persona” nas duas primeiras versões de “Show-Boat” (O Barco das Ilusões, 1929 e 1936) que não devem ser confundidas com a versão de 1951 na qual Ava Gardner deu vida à trágica Julie.
O filme porém no qual mostrou mais coragem chamou-se “Applause” (1929) no qual ela interpreta a derrocada de uma corista de “Burlesque” alcoólatra que acaba suicidando-se. A arte imita a vida?

O “final feliz” de “The Helen Morgan Story” nunca aconteceu. Ela nunca parou de beber e morreu de cirrose no fígado aos 40 anos de idade em 1941.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Supporting actors/ actresses VI: Billie Burke


Billie Burke, que nasceu em 1884 em Washington como Mary William Ethelbert Appleton, é hoje em dia, únicamente relembrada por seu papel como Glinda, a boa bruxa do Norte, a fada do “O Mágico de Oz” (MGM 1939). Filha de um palhaço de circo chamado Billy Burke (!) ela; ainda criança viveu numa interminável Tournée pelos U.S.A. e Europa. Sua família finalmente estabeleceu-se em Londres, onde assistindo os clássicos espetáculos do West-End ela decidiu tornar-se um dia uma atriz.


Ela debutou nos palcos londrinos aos 18 anos de idade, foi bem recebida pelo publico e crítica, transformando-se assim em pouco tempo numa das atrizes mais populares dos palcos londrinos. Mas a Broadway chamava. Aos 22 anos ela desembarcou em New York e não mais parou de trabalhar. Apesar do teatro ser seu “primeiro amor” ela começou a fazer filmes em 1916. Ela considerava-se, em primeiro plano, uma atriz de teatro (onde ela pelo menos tinha papéis “falados”).


Em 1921 ela apareceu em “The Education of Elizabeth” e logo depois retirou-se dos palcos. Ela tinha-se casado já em 1914 com o famoso produtor e empresário Florenz Ziegfeld e com toda sua fortuna bem investida no mercado de Wall Street, não havia realmente nenhuma razão pela qual ela tivesse que trabalhar. Desta forma poderia dedicar-se mais à filha que havia nascido em 1916. O que não estava planejado foi o “Black October” em 1929 quando a bolsa enlouqueceu e êles, Mr. & Mrs. Florenz Ziegfeld, junto a milhares de outros, perderam tudo o que possuíam! Billie não teve outra opção há nao ser voltar ao cinema. “Flo” estava completamente arruinado, o que lhe custou também a saúde e lhe causaria a morte.

Este famoso e elegante casal do teatro de N.Y. transferiu-se para a Califórnia.


Seu primeiro papel com alguma “substancia dramática” foi o de mãe de Katharine Hepburn em “A Bill of Divorcement” (RKO, 1932). Este filme só é mencionado hoje em dia por ter sido o primeiro de Kathe Hepburn. Ela agora estava mais “de bem” com o cinema - já que tinha diálogos e falas... Infelizmente “Flo” morreu neste ano e depois do enterro ela teve que, muito profissionalmente, voltar às filmagens.

Um de seus melhores papéis veio com a produção de David O.Selznick “Dinner at Eight” (1933). Mrs. Paula Jordan, a anfitriã do “jantar as oito”. Ao lado de Lionel Barrymore, Wallace Beery, Jean Harlow e Marie Dressler (fenomenal), um incrível e forte elenco, ela brilhou, dirigida como em “Bill” por George Cukor. Como a “avoada” espôsa de um dono de uma compania de navios em grandes problemas financeiros, ela teve um papel divertidíssimo, um grande sucesso e sua volta ao “Top” do Show-Business.

Em 1936 o musical “The great Ziegfeld” foi produzido pela MGM. Esta biografia do “rei” da Broadway deu o papel de Anna Held, a primeira espôsa de Ziegfeld e um Oscar à Luise Rainer (vide minha postagen de 12.10.2008), que no ano seguinte ganharia outro Oscar por sua interpretacao em “The Good Earth” (MGM, 1937). Para retratar Billie nas telas foi escolhida a deliciosa Mirna Loy.

Em 1938 ela foi nominada para um Oscar por “Merrily we live”. Provávelmente sua melhor atuação no cinema, apesar do fato dela ter sido imortalizada como “Glinda” no eterno “O Mágico de Oz”.


Outras atrizes foram cogitadas para este papel. Temos porém que agradecer à inspirada idéia de Mervin LeRoy em colocá-la neste filme. Billie estava já com 54 anos durante as filmagens. Para a época muita idade para transformar-se numa fada. Ela realmente “brilha” como Glinda... Sua voz, muitas vêzes usada comicamente em seus papéis de matrona aloucada da alta-sociedade (como se tivesse aspirado um balao cheio de gás helium) é usada de uma forma doce e suave... Sua impostação é exemplar, a “cor” da voz é clara, translúcida... numa espécie de “Mid-Atlantic English”. Não britânica e jamais americana... Inesquecível. A fada-mor de todos os tempos!


Sua estrêla continuou a brilhar e entre 1940 e 1949 fez 25 filmes. Sua última aparição no cinema foi em 1960 aos 76 anos de idade em “Sergeant Rutledge”.

Billie morreu de Alzheimer e causas naturais em 1970, aos 85 anos de idade. Sua única filha com Ziegfeld, Patricia, seguiu-a em 2008. Mas foi a própria Billie que uma vez disse:

“Age doesn’t really matter unless you’re a Cheese”