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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Josephine Baker: original e cópia...


É muito difícil ter-se uma exata imagem de quem foi Josephine Baker, da pessoa atrás da máscara que usou toda a vida. Todas suas biografias são contraditórias... Difícil entender os seus motivos, os seus porques, aqueles que não tinham o que ver com o preconceito contra sua cor de pele – este motivo, sim, era mais do que óbvio: pura sobrevivencia e desejo de ser respeitada…


Josephine criou um furor em Paris quando dançou práticamente nua na «La Revue Nègre» de Paul Colin em 1925.


Mas esta forma de sucesso imediato era baseado no puro «escandalo» de estar com os peitos nús no palco… Seguiram outros “pequenos” escandalos (mínimas tangas de bananas por exemplo) mas quando estes passaram a ser parte do dia-a-dia parisiense e perderam seu inicial “impacto”, ela teve que fazer um tournée pela Europa para poder manter-se pagando as contas: na Suécia virou um ídolo, em Viena chamaram-a de «bruxa» e os cartazes, nas demonstrações na frente do teatro onde se apresentava, mandavam-a de “volta para a África”.


De volta a Paris percebeu que não era suficiente ser uma dançarina escandalosa e exótica que pintava as unhas de dourado e passeava seu leopardo na coleira (trocada todo dia para estar de acordo com sua roupa) pelos Champs Elysées… Não.
Os “Anées folles” chegavam ao fim…


Aprendeu a cantar, tomou aulas sérias de dança, foi ensinada a se vestir, falar, se comportar e criou assim uma nova imagem que nada tinha o que ver com a primitiva, nua, selvagem "africana" (que na realidade degradava extremamente o status de sua propria raça!).



Voltou aos U.S.A. pela primeira vez em 10 anos, para trabalhar num Show do «Ziegfeld Follies» em 1935.


Foi literalmente estraçalhada pela crítica (e público) que não aceitava que ela estivesse fazendo coisas “de branco” (talvez até melhor do que muitos) como cantar textos maravilhosos de Cole Porter e ser o centro do show - bem vestida, bem arrumada, penteada, reluzindo limpeza, glamour e perfume. Isto nos U.S.A. não era coisa de "Negrinha", como foi até chamada no jornal...


Exatamente o que aconteceu com Lena Horne no cinema… uma cena sua tomando banho de espuma foi considerada “risqué” – não era coisa para uma “negra”. E isto, toda esta ignorancia e preconceito “só” há 70 anos atrás…
Que puro absurdo!
(Josephine recebeu propostas de Hollywood… porém para fazer papéis de empregada. Logo ela que era casada com um Conde e tinha seus próprios serventes… ).

Nesta época, apesar de, mesmo com muita crítica negativa, ser uma estrela da Broadway, era obrigada a entrar no seu hotel pela cozinha pois “alguns Gentlemen do Sul que estavam no hotel não estariam de acordo, se incomodariam com sua presença no Lobby, no Restaurante do Hotel”. Seu marido, o Conde, óbviamente podia circular pelo Hotel como bem quisesse.

Acabou seu casamento com ele e voltou arrasada e deprimida à Paris onde era tratada como ser humano de primeira classe (Contava Josephine que ao chegar pela primeira vez em Franca e ser servida por um garçon branco que chamou-a de “Madame”, ela soube imediatamente que esta seria sua futura pátria). Virou cidadã francesa.

O exército alemão invadiu Paris.

Servindo sua nova e amada pátria espionou alemães (ao ser “descoberta” teve que pular de uma janela para se salvar: um envenenamento quase lhe custou a vida e lhe causou a perda dos cabelos), foi enviada pela “Resistance” para a África e trabalhou muito para os aliados.


Continuou sua carreira depois da guerra, voltou à América para uma tournée desastrosa, foi rejeitada em 63 hotéis em N.Y., o espetáclo acabou sendo cancelado depois dela ter processado o Stork’s Club de N.Y. por racismo (ela e seu grupo não foram servidos sob a alegação de que não havia mais comida - Outros que chegaram mais tarde foram servidos!). Tudo isto causou uma campanha negativa, contra Baker que mais uma vez retornou à Paris deprimida e arrasada. Nunca mais voltaria ao seu país de nascimento.


Então adotou várias crianças de várias nações, recebendo assim muita publicidade, acabou seu segundo casamento, perdeu todo seu dinheiro, foi despejada, recebeu um convite de Grace Kelly para viver no Monaco, voltou ao palco num show de notável mau-gosto que foi notávelmente financiado pelo Princípe Rainier, sua esposa Grace Kelly e Jacquie Kennedy Onassis!!!!
Na estréia estavam na platéia Sophia Loren, Mick Jagger, Shirley Bassey, Diana Ross e Liza Minnelli.

Quatro dias após a premiére ela sofreu uma hemorragia cerebral e entrou em coma para falecer pouco depois.

Foi a única “americana” (de nascimento) a receber as honras de um ceremonial de enterro de estado – seu corpo se encontra hoje no cemitério do Monaco!

Mas porque escrevo tudo isso?


A “persona” no palco que Josephine representava nunca me agradou. Muito pelo contrário! Não dou menor valor à provocação do exibicionismo barato (e talvez gratuito?) de suas épocas da “La Revue Nègre” e das tangas de bananas, sua voz era mínima e comum, sua dança sempre foi envolta numa capa de óbvio amadorismo, sua evolução para “Rainha” do Follies Bérgere (ou de seu estilo) é para mim um dos piores casos de mau gosto da história do show-Business, aquela coisa , tão passada, chamada “Plumas e paetês”. Terrível… como se ela de ano em ano se transformasse numa feia caricatura de si mesma.

E isto sem nem mencionar a cafonice de suas últimas apresentações na qual parecia uma espécie de Elvis Presley travestido ou uma mutação amassada de Liberace…


Em 1991 uma biografia de TV de Baker chamada "The Josephine Baker Story" (que nem é mencionada na Wikipedia) foi feita para a televisão: um filme com muitos erros biográficos, muita “água com açúcar” e muita “criatividade” no que diz respeito à vida de Baker.

Josephine
na realidade nunca venceu grandes batalhas no que dizia relação ao ativismo contra o problema racial americano. Perdeu a maioria delas e se refugiou numa posição confortável num país onde era muito amada, por ser um ícone.


Nesta cena, que veremos, Lynn Whitfeld (que interpreta Baker) está no Norte da Africa durante a guerra, recuperou-se duma pneumonia e várias outras infecções e decidiu cantar para os soldados, entreter as tropas…
Ela porém para de cantar quando nota que os soldados negros estão “lá atrás” e os brancos sentados nos bancos da frente… Ao som de «J´ai deux Amours» ela transforma esta simples (e linda) chanson num conto de fadas de ativismo de direitos civis (os dois países «dentro dela» não são mais os U.S.A. e a França e sim o seu lado negro e seu lado branco… Note-se que esta música foi composta nos "Anées folles”, nos quais Paris havia-se tornado capital mundial do Jazz, nos quais músicos negros eram « amados » e nos quais problems raciais aind não existiam como hoje ! ).


Bem, final feliz, todos felizes…
os soldados negros vem sentar-se na frente ao lado dos brancos que os recebem com toda a amabilidade e carinho que só existe entre irmãos… como acontece todos os dias (!?!), principalmente nos U.S.A.... esta forma aberta, simpática, aconchegante de ser em relação à cor de pele, tão típica do povo norte-americano... stou sendo cínico? Perdão, mas só a TV americana pode criar cena de tal banalidade e irrealismo!

Pelo menos tudo isso acontece ao som da linda canção e de um (sincronizado) desempenho vocal simplesmente maravilhoso… Uma das razões porque prefiro a sincronizada Lynn (muito linda)ao “original” Josephine com sua "vozinha"…

No final de tudo, pela música, quase vale a pena assistir esta cena lacrimogenia…

Mas temos admitir “entre nous”: se a vida fosse realmente assim…

quinta-feira, 6 de junho de 2013

REMEMBERING: Bing & Grace - TRUE LOVE...



Ahhh… Vozes…

Desde que, há algumas semanas, „redescobri“ Richard Burton cantando em “Camelot”, tenho me ocupado com estas “vozes“ que povoam a memória da minha infancia e que, de certa forma, ainda povoam minha vida – ou voces acham que eu não aproveito a ida e e volta do trabalho todos os dias para reescutar no carro músicas e vozes que há muito tempo não ouço e desta forma “relaxar”? Tenho a "obrigação" comigo de fazer o máximo para que a vida ao meu redor seja bonita...



O último filme de Grace Kelly em Hollywood foi „High Society“ (MGM, 1956).

Uma deliciosa comédia, que porém não pode ser comparada à maestria do original “The Philadelphia Story” (MGM, 1940).
Este, dirigido pelo magnífico George Cukor e com os talentosíssimos Katharine Hepburn, Cary Grant e Jimmy Stewart nos papéis que vieram ser interpretados (inclusive musicalmente pois o original não era um musical) pela própria Grace, Bing Crosby e Frank Sinatra.



Na versão de 1956, Grace e Bing, interpretam a eterna “True Love”. Música inesquecível, Cole Porter "at his very best", romantica, de uma melodia apaixonante, de um texto simples e – exatamente por este motivo – universal. Quem conhece o amor o compreende perfeitamente…

Texto daqueles que “nos levam numa viagem” (Penso em Tanja Blixen e sua descricao de um “Traveller of Mind”).
Poderia existir filmagem mais apropriada para este amor, para este verdadeiro amor do que esta “viagem” na qual ela vivencia o passado, ainda existente?

Linda a metáfora: eles deslizando pela vida, sendo levados pelo amor verdadeiro (que é também o nome do barco!).



Numa entrevista dos anos 70 Grace Kelly conta (quando já era Gracia Patricia do Monaco) que um dos premios pelo qual ela mais orgulho nutria era um disco de ouro que recebeu por sua interpretação ao lado de Bing Crosby, pois, ao contrário da lenda, ela mesmo cantou!

Também confessa ter tido “algumas aulinhas” de canto de sua carreira e de muito ter-se admirado ao receber tal premio pelo seus poucos segundos na tela cantando, por sua inexperiencia e “pequena voz”. Na minha opinião acho que ela muito se subestima: sua “segunda voz” é encantadora, de agradável sonoridade e de afinação precisa… Além do fato dela merecer o premio só pelo fato de - como "não-cantora" - ter tido a coragem de cantar com Bing... uma das maiores vozes da história!

Espero que voces desfrutem desta canção de amor e a compreendam assim como eu.
Sim, acreditem-me. É o que mais vale na vida: True Love…



Sun-tanned, Wind-blown
Honeymooners at last alone.
Feeling far above par.
Oh, how lucky we are!

While I give to you and you give to me,
True love, true love.
So on and on it'll always be,
True love, true love.

For you and I
Have a guardian angel on high,
With nothin' to do.
But to give to you and to give to me,
Love forever true.


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

...e o tempo passou "na janela": The Boy next Door


Hollywood dos anos 40, 50 e até 60 nos presenteou com muitas cenas «de janela».
Nelas as atrizes e heroínas deixavam o interior de seus lares para olhar para o mundo lá fora. Mas sempre protegidas ao mesmo tempo pelo teto e segurança da sua casa, de seu lar.
Com um pé dentro e o outro fora…

A “janela” transformou-se assim num símbolo, na “fronteira” entre o lar, a vida familiar e a descoberta do amor…

Penso em tantas: Audrey Hepburn cantando “Moon River” em “Breakfast at Tiffany’s”, em Monroe flertando de sua janela em “The seven year’s Itch”, de June Allyson e Janet Leigh curiosas com o vizinho (Peter Lawford) em “Little Women”, em Bette Davis olhando a neve no trágico "All this and heaven too" e mais notávelmente na mudança que a “janela” exerce sobre o personagem de Grace Kelly em “Rear window”.
Sem a “janela” ela nao teria transformado-se numa mulher inteira…

Mas ainda é o personagem de Judy Garland, Esther, de “Meet me in St. Louis” (MGM, 1944) que tem todo o fascínio do, diga-se de passagem, «filme família» e do simbolismo da janela nos anos 40! Esther definitivamente me "cativou".


Jeanne Crain (acima) teve em “State Fair” (cinco anos depois de “Louis”) uma cena que foi óbviamente baseada na linguagem visual de Vincente Minnelli (diretor de «Louis»), no “sonho durante o dia”, no simbolismo da janela e de ver “o tempo passar nela” (no qual canta a linda “It might as well be Spring”), expressão aliás eternizada por Chico Buarque de Hollanda em sua romantica (e eterna) “Carolina”.
Mas Crain está "só" sonhando.
Está ausente do que se passa ao seu redor...


Definitivamente é a curiosidade de Garland sobre o “Boy next door” que me fascina…
Apesar de estar “day dreaming” ela está atenta, alerta, concentrada, interessada, se apaixonando…

Curiosa sobre o mundo lá fora…

Querendo ser parte dele...


Do início ao fim esta cena nos conquista: o olhar de Garland, seu indescritível magnetismo e charme, sua roupinha com a qual chegou em casa depis de jogar tenis (óbviamente sem estar suada e desarrumada!), a voz metálica, a linda música e o "Close-up" final.
Este sim, mais do que magnífico...

Viva a dupla “Minnelli/Garland” (no seu primeiro trabalho juntos) por nos dar momento tão fresco, romantico e poético!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Um Cisne... mesmo?

Neste momento, no qual a mídia quer nos fazer acreditar que um „Cisne“ é uma nova invenção, um novo tópico de conversação (até como se a interpretação de Odette/Odille, respectivamente cisne branco e negro no "Lago dos Cisnes", pela mesma bailarina fosse única- e exclusivamente uma "descoberta de Hollywood" para o roteiro de “Black Swan”) fiquei refletindo sobre a emoção que um cisne nos passa, sobre o que ele representa, sutil- e simbólicamente…

Era isso o que Anna Pavlova queria nos comunicar neste “Shooting”? (Que aliás "adoro"... Pavlova simples, de cara "lavada", relaxada...)





Pensei muito em várias bailarinas, me perguntando se elas também reflexionaram tanto, seja para o “Lago” ou para “A morte do Cisne”. Se fizeram seu "dever de casa"... Dos solistas ao Corps-de-Ballet... Se o fizeram bem, vemos imediatamente no palco... Não estou falando do lado físico, me entendam. Falo de muito além disso. Falo do “simbolismo” de um cisne como uma obra-de-arte em si próprio.

Vejo um pouco do que sinto na distancia de Makarova no “Lago”,



e até nas incomparáveis “asas quebradas” de Lopatkina na «Morte» (Impressionante momento!). Mesmo assim, só um pouco...



Também pensei em vários bailarinos. Sim – jamais poderemos esquecer a versão do “Lago dos Cisnes” de Matthew Bourne como aqui com Will Kemp



e até de Geo Macia da Miami Contemporary Dance Company na “Morte” (pois não foi no “SBT” a primeira vez que um homem dançou esta curta peça – vídeo aliás que recebi já umas 20 vezes!). Mas não são nem de longe tudo o que imagino...



Me revi e me reinventei nas margens de um lago aqui na Austria olhando para cisnes… para me lembrar...
Dentro de mim uma pergunta se respondia automáticamente – mas poderia eu articular estes sentimentos de forma compreensível? Eu só sabia que não queria mais ver alguém "imitando" um cisne...

E como que “por pura coincidencia” (elas não existem mesmo, não é?) recebi um comunicado da TCM (Turner Classic Movies) no qual notei o lançamento em DVD de “The Swan”, filme maravilhoso (que buscava há muitos, muitos anos mesmo) com um elenco soberbo: Grace Kelly, Alec Guinness, Louis Jourdan, Agnes Moorehead, Jessie Royce Landis (fantástica!), a magnífica Estelle Winwood e Leo G. Carroll) de 1956, dirigido por Charles Vidor e baseado na peça do húngaro Ferenc Molnár (1878-1952). Um filme de uma delicadeza sóbria e de uma apaixonante decepção (pois me envolvi demais com os personagens e acabei sofrendo com sua conclusão). Ontem revi este filme. E a emoção da qual me lembrava (pois faziam pelo menos uns 25 anos desde que o tinha visto pela última vez) foi ainda muito mais forte, intensa, quase abaladora…



Encontrei o que pensava e não precisei mas procurar formas de articular meus pensamentos. Eles estavam ali, na tela, no texto em que ouvia (e “via” concretamente), como se estivessem me recontando algo que havia esquecido dentro de mim.

O diálogo (práticamente um monólogo de Alec Guiness como “Prince Albert”) revela ao personagem de Kelly (Princess Alexandra) o que significa “ser” um cisne, no exato momento em que seu amor “burgues” (o professor de seus irmãos, brilhantemente interpretado por Louis Jourdan) deixa o palácio, saíndo assim eternamente de sua vida. Brilhante metáfora de Ferenc Molnár. Aplaudo de pé… Bravo !!!!!!!!

E “vejo”, "revejo" finalmente meu cisne perfeito na interpretação de Grace Kelly…
Curioso o fato de eu não conseguir ve-lo assim no Ballet porém num filme, numa atriz... e num ator! (Sim, Guinness também me recorda um cisne aqui, um cisne mais sábio que conhece os "por ques"!). Logo eu...



Aqui o diálogo original e uma livre tradução minha.
Leiam e assistam a cena abaixo. Sei que entenderão o que quiz dizer.

Um lindo momento cinematográfico - cheio de emoção. Grande Arte pode ser o cinema...

Prince Albert: Your father used to call you his swan, or at least so I am told. I think that's a good thing to remember. Think what it means to be a swan. To glide like a dream on the smooth surface of the lake, and never go on the shore. On dry land, where ordinary people walk, the swan is awkward, even ridiculous. When she waddles up the bank she painfully resembles a different kind of bird, n'est-ce-pas?
Princess Alexandra: A goose.
Prince Albert: I'm afraid so. And there she must stay, out on the lake; silent, white, majestic. Be a bird, but never fly; know one song but never sing it until the moment of her death. And so it must be for you, Alexandra. And high, cool indifference to the staring crowds along the bank. And the song? Never.

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Príncipe Albert: Seu pai costumava lhe chamar de seu cisne, ou pelo menos foi o que me disseram. Eu acho que isto é uma coisa boa para se relembrar. Pense no que significa ser um cisne. Deslizar como um sonho na suave superfície de um lago e nunca ir à sua margem. No terra seca, onde gente comum caminha, o cisne é desajeitado, até ridículo. Quando anda bamboleando-se ele dolorosamente assemelha-se a um outro tipo de pássaro, n’est-ce-pas?
Princesa Alexandra: A um ganso.
Príncipe Albert: Temo que sim. Então lá ele deve se manter, fora no lago; silencioso, branco, majestoso. Sendo um pássaro porém nunca voando; sabendo uma única canção mas nunca cantando-a até o momento de sua morte. E assim deve ser com voce, Alexandra. E altiva e gélida indiferença para as massas que lhe olham fixamente ao longo da margem. E a canção? Nunca.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Profissão: Doméstica

Vivendo desde 1981 na Europa aprendi, no que diz respeito à „casa“, não só a fazer mil coisas que jamais teria aprendido no Rio de Janeiro mas também a dar um grande valor às empregadas, às domésticas, às "escravas" do século XXI, como bem documentado em „Profissão: Doméstica“, um fantástico documentário de 1993 de Sérgio Goldenberg, que recebeu o „North-South Award“ no Festival Nord-Sud em Genebra (Se alguém o tiver e tiver como fazer-me uma cópia… Um filme com muito humor e de uma sensibilidade fora do comum).

As pobrezinhas que chegaram de algum lugarejo do interior (onde deveriam ter permanecido), com uma trouxa ou, na melhor das hipóteses, com uma malinha, os sonhos de Cinderella, de „cidade grande“ dentro da bolsa a tiracolo de matéria plástica ao lado da revista „Amiga“… Muitas querem ser „artista da Globo“ ou até "modelo", mas com o passar do tempo e com a perda dos dentes, passam a ter um orgulho das casas onde trabalham, como se fossem suas… Maravilhosos diálogos deste documentário nos mostram como estes anjos pensam. Sim, estes „anjos“ que estão alí, dia após dia, com uma folga talvez por quinzena, limpando, arrumando, lavando, passando, levando as crianças à escola, tomando conta delas, levando o cachorro para passear, indo buscar cigarro no bar da esquina, fazendo compras e às vezes até cozinhando. Por um salário de fome. Como uma coitadinha, chamada Selma, que conheci uma vez numa casa da Urca. Nessa casa de classe média alta falida, onde tudo é de „razoável“ bom-gosto, leva-se um choque no momento em que se sai da sala e entra na cozinha: à partir d’aí tem-se a impressão de estar numa „Senzala“. Assim moram muitas destas pobrezinhas. E mesmo assim sabem sorrir.

E as „empregadas“ do Cinema?

Fico pensando nas atrizes que ao longo dos anos foram as „domésticas“ da sétima arte.
Durante uma longuíssima época a cor da pele definia quem faria os papéis das empregadas.

Hattie McDaniel foi uma destas atrizes que (apesar do Oscar que recebeu em 1939 por sua „Mammy“ servindo Vivien Leigh em „Gone with the Wind“ „…e o Vento levou!“) foi sempre condenada aos papéis de doméstica.

A engracadíssima Butterfly McQueen (Prissy, que também servia Vivien Leigh em GWTW)
foi outra que nunca conseguiu libertar-se deste tipo de papel. Aqui em „Mildred Pierce“ (Warner, 1944) filme no qual servia Joan Crawford.
E até Billie Holiday (em 1947 em seu único papel cinematográfico no esquecido „New Orleans“, junto a Louis Armstrong) deu vida à uma empregada: neste filme a tristeza de Billie é quase palpável. Ela estava completamente indignada com seu papel…
Em 1944 Marjorie Main servia a família de Judy Garland em „Meet me in St. Louis“ – uma engraçada, decidida e meio mal-humorada doméstica…
Mas foi a magnífica atriz Judith Anderson que elevou um „papel de doméstica“ a um papel secundário de vital importancia – mesmo que maléfico – em „Rebecca“ (1940), servindo (e odiando) Joan Fontaine.
Alguem ainda se lembra da eficiente "Rosinha" dos Jetsons?

e da Anastácia (Jacira Sampaio)de Monteiro Lobato no "Sítio do Picapau Amarelo"?

Para mim a doméstica eterna sempre será Thelma Ritter que deu vida à várias... Sempre engraçadas, espirituosas.

Como em „All about Eve“ (A Malvada, 1950) servindo Bette Davis

Ou em „Janela Indiscreta“ (The rear Window, 1954) servindo James Stewart e investigando ao lado de Grace Kelly
Ou até como uma doméstica bebada inveterada (ela sempre chegava pela manha de ressaca) em „Pillow Talk“ (Confidencias à meia-noite, 1959) ao lado de Rock Hudson e servindo Doris Day (que sempre lhe servia um Bloody Mary de manha!)

E para finalizar duas „domésticas“ de uma outra categoria: Glenda Jackson e Susannah York (duas das minhas atrizes preferidas) como Solange e Claire, no mórbido porém grande filme „The Maids“ (1974) baseado na peça de Jean Genet. Duas empregadas irmãs, completamente alucinadas que acabaram matando a patroa, Vivien Merchant
Admiro-me como isto não acontece com mais frequencia…