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sexta-feira, 4 de julho de 2014
“De Amor também se Morre” (“The Constant Nymph”, 1943): será?
Quando a autora de “De Amor também se Morre”, Margaret Kennedy, deixou no seu testamento o desejo que o filme baseado no seu livro fosse apenas exibido em Universidades e Museus (quando sua carreira comercial terminasse), fomos, em consequencia, privados de assistir esta obra por quase 70 anos...
O filme só recebeu a autorização de ser apresentado em público em 2011, para um festival do “Turner Classic Movies”. Incrível...
Semana passada tive a chance de ver este filme pela primeira vez e, apesar de ter achado certas partes meio lentas e sem dinamica, fiquei encantado com o resultado final...
Mais uma vez volto a repetir: que fascinante descobrir “novas” coisas que me motivam à pesquisas, novas leituras, novos horizontes...
O “plot” é bastante simples:
A família Sanger vive longe das convenções da sociedade da época.
O patriaca, músico, morre, deixando suas filhas, acostumadas à uma vida no campo, na Suiça, aos cuidados dos tios em Londres.
Tessa (Fontaine), uma das filhas é secretamente apaixonada por um amigo da família, Lewis (Charles Boyer); que também é músico. Ele porém pensa estar apaixonado por uma prima das meninas, a lindíssima Florence (interpretada pela fascinante e "alluring" Alexis Smith).
Tessa e a irmã são enviadas para Englaterra, para estudar num internato mas sentindo-se presas e infelizes, fogem para a casa de Lewis (e Florence).
Ele, encontrando-se numa crise criativa, transforma Tessa na sua fonte de inspiração para a completa insatisfação de sua esposa, que na realidade não é capaz de compreendê-lo como Tessa.
Como o título sugere, Kennedy usou a mitologia grega como fonte: ao contrário dos deuses, ninfas são mortais e, geralmente, possuem espíritos felizes, considerados divinos.
Fontaine dá vida à essa “ninfa” (como faria alguns anos mais tarde com “Lisa” de “Carta de uma desconhecida) uma menina de 14 anos, que “morre” de amor...
Joan Fontaine, uma atriz que nunca foi realmente bela, é a perfeita incarnação para esta menina que, segundo as palavras do diretor Edmund Goulding, deveria ser „consumptive, flat-chested, anemic and fourteen!“ (tísica, sem peito, anemica e quatorze!”) dando-lhe uma magnífica dinamica corporal, como uma verdadeira criança – mesmo em cenas nas quais a pobre Tessa fica sem ar ou se sente mal por causa de sua condição cardíaca...
Quando Goulding, durante um jantar privado mencionou à Joan suas dificuldades em encontrar uma atriz adequada para fazer "Tessa" (e como a "via" - tísica, sem peito, anemica e com quatorze anos) ela disse: "Como eu" e ganhou o papel...
Fontaine (que na época já tinha 26 anos) transforma-se diante dos nossos olhos nessa menina de 14: ela é travessa, brincalhona, desorientada e patéticamente apaixonada por “aquele” homem mais velho interpretado por Boyer!
Não consigo imaginar as atrizes que foram cogitadas para este papel como Merle Oberon, Margaret Sullavan, Olivia deHavilland (irmã e “Nemesis” de Joan) e Joan Leslie nos “enganando” tão descaradamente como Joan o faz... Transfromando-se assim...
Detalhe: a "glamourosa" Joan do poster do filme não existe no filme...
Boyer, não se encontra muito à vontade, o que é compreensível. Seu papel, extremamente unidimensional, não lhe dá possibilidades...
Já Alexis Smith (linda) perde as suas por não saber usá-las apropriadamente... Seu ciúme nos dá a impressão de uma neurose pior, não sómente causada pela relação, que nunca é cristalizada, entre Tessa e Lewis (em resposta à uma tentativa de beijo, ela diz a Lewis: “Não, esta é a casa da minha prima e tenho que respeitá-la!”).
Mas Smith ainda estava em sua fase de “treino” na Warner (junto à ninguém menos do que Eleanor Parker) que esperava ter nela uma de suas futuras estrelas, estrelas de uma geração “pós” Bette Davis...
Smith foi bastante conhecida mas nunca teve, ao contrário de Parker, esta indescritível “qualidade estelar”.
Charles Coburn e Peter Lorre (assim como Dame May Whitty) estão "bem", adequados aos seus papéis mas não criam personagens novos... senti-me como revendo-os em vários papéis que já haviam criado antes...
Belos cenários e figurinos, as eternas “escadas da Warner” (sinonimo de seus filmes, principalmente dos de Bette Davis), uma bela trilha sonora de Korngold (que, porém, evoca muitos outros filmes da Warner)e uma ótima, sútil fotografia em preto-e-branco são fatores que muito enriquecem este esquecido trabalho...
Joan Fontaine foi nominada para um "Oscar" (haveia recebido um no ano anterior) mas perdeu para a magnífica Jennifer Jones em "The song of Bernadette".
Mas uma única pergunta perdura:
por que este título em portugues? Tessa não morre de amor e sim de sua condição cardíaca...
Se morre de amor?
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Carta de uma mulher desconhecida (1948)
Decidi recolocar aqui uma postagem de agosto de 2008... Ela é muito "querida" para mim... Talvez os atuais leitores das "Tertúlias" a compreendam melhor...
Ricardo
"Carta de uma mulher desconhecida" ("Brief einer Unbekannten"), "novella" escrita em 1922. Aqui mais uma vêz estamos confrontados com o maravilhoso estilo e tratamento psicológico que Stefan Zweig sempre deu aos seus personagens, suas narrações... porém com uma sutíl diferença: desta vêz o livro, por ser simplesmente do início ao fim uma carta, é escrito na primeira pessoa. As nuances da personalidade de Lisa (que é a escritora da carta e, por êste motivo, a óbvia narradora do livro) não são descritas. Elas são detectadas pelo leitor nas entrelinhas. O leitor de Zweig não pode deitar-se e relaxar enquanto lê este curto livro. Êle têm que "trabalhar", êle têm que manter-se atento, vigiando, mastigando, digerindo, interpretando tôdo e qualquer detalhe que lhe é "dado" sutílmente pelo autor. E Zweig nêste livro não dá detalhes demais... Ele mantém informações guardadas, êle as economiza muito e só as vai deixando sair de sua caixinha de surprêsas à medida que o livro e o relato se desenvolvem: de uma simples manifestação de amor à uma tragédia; de um caso de amor que se transforma quase num caso patológico que envolve várias pessoas, não só os "protagonistas" Lisa e Stefan.
E tudo isto num "timing" preciso... mas o leitor só se dá conta disto depois de analisar muitas vêzes êste livro... Na primeira vêz em que o le, o leitor está sob a “síndrome de Zweig” (como eu a descrevo); não consegue parar de lê-lo.
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P.S.2 Esta postagem foi sugerida pela minha amiga Maurette. Por este motivo é também dedicada à ela! Obrigado!
Ricardo
"Carta de uma mulher desconhecida" ("Brief einer Unbekannten"), "novella" escrita em 1922. Aqui mais uma vêz estamos confrontados com o maravilhoso estilo e tratamento psicológico que Stefan Zweig sempre deu aos seus personagens, suas narrações... porém com uma sutíl diferença: desta vêz o livro, por ser simplesmente do início ao fim uma carta, é escrito na primeira pessoa. As nuances da personalidade de Lisa (que é a escritora da carta e, por êste motivo, a óbvia narradora do livro) não são descritas. Elas são detectadas pelo leitor nas entrelinhas. O leitor de Zweig não pode deitar-se e relaxar enquanto lê este curto livro. Êle têm que "trabalhar", êle têm que manter-se atento, vigiando, mastigando, digerindo, interpretando tôdo e qualquer detalhe que lhe é "dado" sutílmente pelo autor. E Zweig nêste livro não dá detalhes demais... Ele mantém informações guardadas, êle as economiza muito e só as vai deixando sair de sua caixinha de surprêsas à medida que o livro e o relato se desenvolvem: de uma simples manifestação de amor à uma tragédia; de um caso de amor que se transforma quase num caso patológico que envolve várias pessoas, não só os "protagonistas" Lisa e Stefan.
E tudo isto num "timing" preciso... mas o leitor só se dá conta disto depois de analisar muitas vêzes êste livro... Na primeira vêz em que o le, o leitor está sob a “síndrome de Zweig” (como eu a descrevo); não consegue parar de lê-lo.
Zweig, gênio...
Eu muitas vezes penso na ousadia do “subtítulo” de sua biografia de Marie Antoinette: "Retrato de um caráter médio" (tradução livre minha do alemão). Mas aí está o "pointe": Zweig com todas suas interpretações psicológicas nos mostra que Antoinette não era má (mas também não era boa), não era linda (mas também não era feia), não era inteligentíssima (mas também não era burra), não era uma fantástica espôsa e mãe (mas também não era péssima)... um caráter médio... Pouco importa ao leitor se suas pesquisas históricas tenham sido perfeitas ou não (e não fôram); as nuances da personalidade desta mulher são o que importa (apesar dele desmentir completamente a “lenda” do “O povo não tem pão para comer” e "Porque não comem bolo?", provando que esta frase foi falada uns 200 anos antes por uma princesa de origem espanhola e não por Antoinette... ).
Em “Carta” êle nos dá de presente tôda sua sensibilidade encima de uma bandeja... Eu penso no quanto existia de Lisa e de Stefan dentro do próprio Zweig... Zweig e tôda a sua extrema sensibilidade, que por um lado é maravilhosa para nós leitores mas que o levou ao brutal pacto de morte/suicídio com sua espôsa em 1942 em Petrópolis (aqui seus dois lados; o sensível e o brutal...). Tudo causado pela extrema depressão pela extrema falta de esperanças, por causa do sistema Nazi na sua pátria, pela destruição da Europa, seu "lar"... êles dois e o mundo não viam um final para a Segunda guerra mundial... Não existia "futuro", não existiam mais perspectivas para êles no “exílio”. Esta constatação acabou com êle e sua esposa.
"Carta" foi filmado em 1948 (Letter from an unknown woman). Uma pequena obra-prima que até em círculos de cineastas já foi práticamente esquecida. Eu me alegro de poder colocar aqui algo sôbre êste filme inesquecível (do roteiro ao guarda-roupa, dos cenários à luz, da fotografia à direção e dos desempenhos à pesquisa de época). Um filme de extrema elegância visual, e de uma fotografia em prêto-e-branco como poucas foram feitas... Max Olphüs conseguiu criar em Hollywood um filme extremamente europeu. Usou tudo o que pode da técnica americana mas acentuou fortemente um ar todo europeu que é quase único nêste filme. Ele não vendeu-se a Hollywood, só usou e abusou descarademente da sua técnica da época para criar êste filme. Joan Fontaine, então já quase no final da sua áurea década de 40 ("Rebecca", "Suspicious" pelo qual recebeu o Oscar antes de sua irmã, "Jane Eyre" entre outros) ou seja, no auge de sua carreira, dá aqui talvez sua melhor interpretação no cinema como a frustrada Lisa Berndle, antes de cair numa série de papéis que a tornaram a “carinha” mais antipática das telas de Hollywood nos anos 50. Louis Jourdan, no seu segundo filme em Hollywood (sua estréia foi no “Caso Paradine” de Hitchcock ao lado de Alida Vali) e no apogeu de sua beleza, cria um Stefan Brand que nos choca... infelizmente seu "futuro" (que vemos rápidamente quando êle recebe a "carta") não lhe deu o que êle sonhava ou esperava, por sua própria culpa. Ele transformou-se numa sombra do que foi, numa caricatura de si mesmo... e Jourdan fica derepente feio e velho diante dos nossos olhos. Não mais o jovem gênio que interpretava Mozart maravilhosamente na sua juventude e por quem Lisa se apaixonou eterna- e abandonadamente... Sómente um homem frustrado, fútil, superficial e solitário.
Um detalhe interessante que adicionou muita força à dramaturgia do filme foi o fato de Stefan não ser, como no livro, um escritor porém um pianista. Estava Zweig querendo nos contar algo semi-biográfico???? Qual é a conecção entre Stefan Brand e Stefan Zweig?
As ruas de uma Viena no início do século XX são lindas, escuras cópias européias sem o clichée vienense de Hollywood. Olphüs não deixou-se levar pelo "glamour" de Hollywood, e nao quiz nem "embelezar" nem “americanizar” o decór. Sente-se no ar o cheiro de maçãs assadas no "Prater", cheira-se a poeira da têrça-feira (o dia para bater os tapêtes no pátio interior dos prédios burguêses), ouve-se suavemente temas musicais vienenses que não chegam nem a serem totalmente registrados ou a transformarem-se em clichées enquanto os dois jantam num "separée", o frio da noite reflete o frio dentro de uma Lisa que não é amada, no hospital do govêrno sente-se o cheiro de éter no ar... e a estação... a estação é o símbolo de tudo que muda (e às vezes parte para sempre) na vida de Lisa: a ida para Linz com a família, a despedida de Stefan, a despedida de seu filho...
As ruas de uma Viena no início do século XX são lindas, escuras cópias européias sem o clichée vienense de Hollywood. Olphüs não deixou-se levar pelo "glamour" de Hollywood, e nao quiz nem "embelezar" nem “americanizar” o decór. Sente-se no ar o cheiro de maçãs assadas no "Prater", cheira-se a poeira da têrça-feira (o dia para bater os tapêtes no pátio interior dos prédios burguêses), ouve-se suavemente temas musicais vienenses que não chegam nem a serem totalmente registrados ou a transformarem-se em clichées enquanto os dois jantam num "separée", o frio da noite reflete o frio dentro de uma Lisa que não é amada, no hospital do govêrno sente-se o cheiro de éter no ar... e a estação... a estação é o símbolo de tudo que muda (e às vezes parte para sempre) na vida de Lisa: a ida para Linz com a família, a despedida de Stefan, a despedida de seu filho...
Stefan nunca aprendeu a lembrar-se de Lisa, a menina pobre que morava no seu prédio e que já o amava profundamente. Ela só foi um objeto que usou. Quando ela volta de Linz já uma jovem e bonita dama êle tem seu primeiro caso de amor com ela sem lembrar-se que ela foi aquela menina descalça apaixonada por êle. Êle parte para a Itália, promete voltar em duas semanas mas não volta jamais para Lisa. Ela foi esquecida. Ela tem um filho seu, pobre, humilhada no hospital do govêrno mencionado acima e lhe dá seu nome de solteira: "Pai desconhecido".
14 anos depois, já muito bem casada, ele a encontra de nôvo na Ópera e sente-se atraído por ela... mas não se lembra da jovem moça com quem êle têve aquêle grande caso de amor. Esta parte do filme foi ligeiramente mudada... no filme ela vai a sua casa (já tinha despedido-se do seu filho na estação) e nota finalmente a superficialidade do caráter dele... ela, num momento em que êle não está na sala, sai e não volta jamais. Simplesmente sai de sua vida. Já no livro ela passa a noite com êle, apaixonada e no dia seguinte Stefan, que tinha-a confundido com uma "Cocotte" quer pagá-la pela noite... Uma cena muito, muito cruel que Lisa (Zweig) descreve na carta... no livro.
De qualquer forma já é tarde; o compartimento do trem no qual seu filho partiu de férias deveria ter estado fechado: cólera...
A criança pega a doenca e morre. Lisa também e morrendo, escreve a carta para Stefan e lhe conta toda sua estória. Ela, a mulher que o amou loucamente em três fases distintas da sua vida, a mulher de quem ele nunca se lembrou... a mulher desconhecida.
Quando êle acaba a carta, lê que a paciente morreu antes de terminar a carta...
De qualquer forma já é tarde; o compartimento do trem no qual seu filho partiu de férias deveria ter estado fechado: cólera...
A criança pega a doenca e morre. Lisa também e morrendo, escreve a carta para Stefan e lhe conta toda sua estória. Ela, a mulher que o amou loucamente em três fases distintas da sua vida, a mulher de quem ele nunca se lembrou... a mulher desconhecida.
Quando êle acaba a carta, lê que a paciente morreu antes de terminar a carta...
Joan Fontaine (1917) assim com sua irma Olivia deHavilland (1916), a "Melanie" de GWT (ambas nascidas no Japão e as primeiras irmas na história do cinema que ganharam “Oscars”) e Louis Jourdan (1919) ainda vivem...
Oxalá êste filme venha a ser redescoberto. Uma jóia... um magnífico brilhante na carreira dos dois!!!! E na de Olphüs, junto ao seu brilhante “Lola Montez” com Martine Carol!
Oxalá êste filme venha a ser redescoberto. Uma jóia... um magnífico brilhante na carreira dos dois!!!! E na de Olphüs, junto ao seu brilhante “Lola Montez” com Martine Carol!
P.S. Gostaria ainda de deixar meus parabéns aqui à cidade de Petropólis pelo fato de terem aberto um Museu Stefan Zweig, coisa que até hoje aqui na Austria, seu país de nascimento, nunca foi feita... e acho que nem cogitada. Mesmo assim Stefan Zweig sempre será este maravilhoso escritor que encantará muitas e muitas gerações...
P.S.2 Esta postagem foi sugerida pela minha amiga Maurette. Por este motivo é também dedicada à ela! Obrigado!
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Profissão: Doméstica
Vivendo desde 1981 na Europa aprendi, no que diz respeito à „casa“, não só a fazer mil coisas que jamais teria aprendido no Rio de Janeiro mas também a dar um grande valor às empregadas, às domésticas, às "escravas" do século XXI, como bem documentado em „Profissão: Doméstica“, um fantástico documentário de 1993 de Sérgio Goldenberg, que recebeu o „North-South Award“ no Festival Nord-Sud em Genebra (Se alguém o tiver e tiver como fazer-me uma cópia… Um filme com muito humor e de uma sensibilidade fora do comum).

As pobrezinhas que chegaram de algum lugarejo do interior (onde deveriam ter permanecido), com uma trouxa ou, na melhor das hipóteses, com uma malinha, os sonhos de Cinderella, de „cidade grande“ dentro da bolsa a tiracolo de matéria plástica ao lado da revista „Amiga“… Muitas querem ser „artista da Globo“ ou até "modelo", mas com o passar do tempo e com a perda dos dentes, passam a ter um orgulho das casas onde trabalham, como se fossem suas… Maravilhosos diálogos deste documentário nos mostram como estes anjos pensam. Sim, estes „anjos“ que estão alí, dia após dia, com uma folga talvez por quinzena, limpando, arrumando, lavando, passando, levando as crianças à escola, tomando conta delas, levando o cachorro para passear, indo buscar cigarro no bar da esquina, fazendo compras e às vezes até cozinhando. Por um salário de fome. Como uma coitadinha, chamada Selma, que conheci uma vez numa casa da Urca. Nessa casa de classe média alta falida, onde tudo é de „razoável“ bom-gosto, leva-se um choque no momento em que se sai da sala e entra na cozinha: à partir d’aí tem-se a impressão de estar numa „Senzala“. Assim moram muitas destas pobrezinhas. E mesmo assim sabem sorrir.
E as „empregadas“ do Cinema?
Fico pensando nas atrizes que ao longo dos anos foram as „domésticas“ da sétima arte.
Durante uma longuíssima época a cor da pele definia quem faria os papéis das empregadas.
Hattie McDaniel foi uma destas atrizes que (apesar do Oscar que recebeu em 1939 por sua „Mammy“ servindo Vivien Leigh em „Gone with the Wind“ „…e o Vento levou!“) foi sempre condenada aos papéis de doméstica.

A engracadíssima Butterfly McQueen (Prissy, que também servia Vivien Leigh em GWTW)
foi outra que nunca conseguiu libertar-se deste tipo de papel. Aqui em „Mildred Pierce“ (Warner, 1944) filme no qual servia Joan Crawford.
E até Billie Holiday (em 1947 em seu único papel cinematográfico no esquecido „New Orleans“, junto a Louis Armstrong) deu vida à uma empregada: neste filme a tristeza de Billie é quase palpável. Ela estava completamente indignada com seu papel…
Em 1944 Marjorie Main servia a família de Judy Garland em „Meet me in St. Louis“ – uma engraçada, decidida e meio mal-humorada doméstica…
Mas foi a magnífica atriz Judith Anderson que elevou um „papel de doméstica“ a um papel secundário de vital importancia – mesmo que maléfico – em „Rebecca“ (1940), servindo (e odiando) Joan Fontaine.
Alguem ainda se lembra da eficiente "Rosinha" dos Jetsons?

e da Anastácia (Jacira Sampaio)de Monteiro Lobato no "Sítio do Picapau Amarelo"?

Para mim a doméstica eterna sempre será Thelma Ritter que deu vida à várias... Sempre engraçadas, espirituosas.
Como em „All about Eve“ (A Malvada, 1950) servindo Bette Davis

Ou em „Janela Indiscreta“ (The rear Window, 1954) servindo James Stewart e investigando ao lado de Grace Kelly
Ou até como uma doméstica bebada inveterada (ela sempre chegava pela manha de ressaca) em „Pillow Talk“ (Confidencias à meia-noite, 1959) ao lado de Rock Hudson e servindo Doris Day (que sempre lhe servia um Bloody Mary de manha!)

E para finalizar duas „domésticas“ de uma outra categoria: Glenda Jackson e Susannah York (duas das minhas atrizes preferidas) como Solange e Claire, no mórbido porém grande filme „The Maids“ (1974) baseado na peça de Jean Genet. Duas empregadas irmãs, completamente alucinadas que acabaram matando a patroa, Vivien Merchant…
Admiro-me como isto não acontece com mais frequencia…

As pobrezinhas que chegaram de algum lugarejo do interior (onde deveriam ter permanecido), com uma trouxa ou, na melhor das hipóteses, com uma malinha, os sonhos de Cinderella, de „cidade grande“ dentro da bolsa a tiracolo de matéria plástica ao lado da revista „Amiga“… Muitas querem ser „artista da Globo“ ou até "modelo", mas com o passar do tempo e com a perda dos dentes, passam a ter um orgulho das casas onde trabalham, como se fossem suas… Maravilhosos diálogos deste documentário nos mostram como estes anjos pensam. Sim, estes „anjos“ que estão alí, dia após dia, com uma folga talvez por quinzena, limpando, arrumando, lavando, passando, levando as crianças à escola, tomando conta delas, levando o cachorro para passear, indo buscar cigarro no bar da esquina, fazendo compras e às vezes até cozinhando. Por um salário de fome. Como uma coitadinha, chamada Selma, que conheci uma vez numa casa da Urca. Nessa casa de classe média alta falida, onde tudo é de „razoável“ bom-gosto, leva-se um choque no momento em que se sai da sala e entra na cozinha: à partir d’aí tem-se a impressão de estar numa „Senzala“. Assim moram muitas destas pobrezinhas. E mesmo assim sabem sorrir.
E as „empregadas“ do Cinema?
Fico pensando nas atrizes que ao longo dos anos foram as „domésticas“ da sétima arte.
Durante uma longuíssima época a cor da pele definia quem faria os papéis das empregadas.
Hattie McDaniel foi uma destas atrizes que (apesar do Oscar que recebeu em 1939 por sua „Mammy“ servindo Vivien Leigh em „Gone with the Wind“ „…e o Vento levou!“) foi sempre condenada aos papéis de doméstica.

A engracadíssima Butterfly McQueen (Prissy, que também servia Vivien Leigh em GWTW)

foi outra que nunca conseguiu libertar-se deste tipo de papel. Aqui em „Mildred Pierce“ (Warner, 1944) filme no qual servia Joan Crawford.

E até Billie Holiday (em 1947 em seu único papel cinematográfico no esquecido „New Orleans“, junto a Louis Armstrong) deu vida à uma empregada: neste filme a tristeza de Billie é quase palpável. Ela estava completamente indignada com seu papel…

Em 1944 Marjorie Main servia a família de Judy Garland em „Meet me in St. Louis“ – uma engraçada, decidida e meio mal-humorada doméstica…

Mas foi a magnífica atriz Judith Anderson que elevou um „papel de doméstica“ a um papel secundário de vital importancia – mesmo que maléfico – em „Rebecca“ (1940), servindo (e odiando) Joan Fontaine.

Alguem ainda se lembra da eficiente "Rosinha" dos Jetsons?

e da Anastácia (Jacira Sampaio)de Monteiro Lobato no "Sítio do Picapau Amarelo"?

Para mim a doméstica eterna sempre será Thelma Ritter que deu vida à várias... Sempre engraçadas, espirituosas.
Como em „All about Eve“ (A Malvada, 1950) servindo Bette Davis

Ou em „Janela Indiscreta“ (The rear Window, 1954) servindo James Stewart e investigando ao lado de Grace Kelly

Ou até como uma doméstica bebada inveterada (ela sempre chegava pela manha de ressaca) em „Pillow Talk“ (Confidencias à meia-noite, 1959) ao lado de Rock Hudson e servindo Doris Day (que sempre lhe servia um Bloody Mary de manha!)


E para finalizar duas „domésticas“ de uma outra categoria: Glenda Jackson e Susannah York (duas das minhas atrizes preferidas) como Solange e Claire, no mórbido porém grande filme „The Maids“ (1974) baseado na peça de Jean Genet. Duas empregadas irmãs, completamente alucinadas que acabaram matando a patroa, Vivien Merchant…

Admiro-me como isto não acontece com mais frequencia…
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Letter from an unknown woman, Stefan Zweig
"Carta de uma mulher desconhecida" ("Brief einer Unbekannten"), "novella" escrita em 1922. Aqui mais uma vêz estamos confrontados com o maravilhoso estilo e tratamento psicológico que Stefan Zweig sempre deu aos seus personagens, suas narrações... porém com uma sutíl diferença: desta vêz o livro, por ser simplesmente do início ao fim uma carta, é escrito na primeira pessoa. As nuances da personalidade de Lisa (que é a escritora da carta e, por êste motivo, a óbvia narradora do livro) não são descritas. Elas são detectadas pelo leitor nas entrelinhas. O leitor de Zweig não pode deitar-se e relaxar enquanto lê este curto livro. Êle têm que "trabalhar", êle têm que manter-se atento, vigiando, mastigando, digerindo, interpretando tôdo e qualquer detalhe que lhe é "dado" sutílmente pelo autor. E Zweig nêste livro nao dá detalhes demais... Ele mantém informações guardadas, êle as economiza muito e só as vai deixando sair de sua caixinha de surprêsas à medida que o livro e o relato se desenvolvem: de uma simples manifestação de amor à uma tragédia; de um caso de amor que se transforma quase num caso patológico que envolve várias pessoas, não só os "protagonistas" Lisa e Stefan.E tudo isto num "timing" preciso... mas o leitor só se dá conta disto depois de analisar muitas vêzes êste livro... Na primeira vêz em que o le, o leitor está sob a “síndrome de Zweig” (como eu a descrevo); não consegue parar de lê-lo.
Zweig, gênio...
Eu muitas vezes penso na ousadia do “subtítulo” de sua biografia de Marie Antoinette: "Retrato de um caráter médio" (tradução livre minha do alemão). Mas aí está o "pointe": Zweig com todas suas interpretações psicológicas nos mostra que Antoinette nao era má (mas também não era boa), nao era linda (mas também não era feia), nao era inteligentíssima (mas também não era burra), nao era uma fantástica espôsa e mãe (mas também não era péssima)... um caráter médio... Pouco importa ao leitor se suas pesquisas históricas tenham sido perfeitas ou não (e nao fôram); as nuances da personalidade desta mulher são o que importa (apesar dele desmentir completamente a “lenda” do “O povo não tem pão para comer” e "Porque não comem bolo?", provando que esta frase foi falada uns 200 anos antes por uma princesa de origem espanhola... ).
Em “Carta” êle nos dá de presente tôda sua sensibilidade encima de uma bandeja... Eu penso no quanto existia de Lisa e de Stefan dentro do próprio Zweig... Zweig e tôda a sua extrema sensibilidade, que por um lado é maravilhosa para nós leitores mas que o levou ao brutal pacto de morte/suicídio com sua espôsa em 1942 em Petrópolis (aqui seus dois lados; o sensível e o brutal...). Tudo causado pela extrema depressão por causa de uma extrema falta de esperanças, por causa do sistema Nazi na sua pátria, pela destruição da Europa, seu "lar"... êles dois e o mundo não viam um final para a Segunda guerra mundial... Não existia "futuro", não existiam mais perspectivas para êle no “exílio”. Esta constatação acabou com êle.
"Carta" foi filmado em 1948 (Letter from an unknown woman). Uma pequena obra-prima que até em círculos de cineastas já foi práticamente esquecida. Eu me alegro de poder colocar aqui algo sôbre êste filme inesquecível (do roteiro ao guarda-roupa, dos cenários à luz, da fotografia à direção e dos desempenhos à pesquisa de época). Um filme de extrema elegância visual, e de uma fotografia em prêto-e-branco como poucas foram feitas... Max Olphüs conseguiu criar em Hollywood um filme extremamente europeu. Usou tudo o que pode da técnica americana mas acentuou fortemente um ar todo europeu que é quase único nêste filme. Ele não vendeu-se a Hollywood, só usou e abusou descarademente da sua técnica da época para criar êste filme. Joan Fontaine, então já quase no final da sua áurea década de 40 ("Rebecca", "Suspicious" pelo qual recebeu o Oscar antes de sua irmã, "Jane Eyre" entre outros) ou seja, no auge de sua carreira, dá aqui talvez sua melhor interpretação no cinema como a frustrada Lisa Berndle, antes de cair numa série de papéis que a tornaram a “carinha” mais antipática das telas de Hollywood nos anos 50. Louis Jourdan, no seu segundo filme em Hollywood (sua estréia foi no “Caso Paradine” de Hitchcock ao lado de Alida Vali) e no apogeu de sua beleza, cria um Stefan Brand que nos choca... infelizmente seu "futuro" (que vemos rápidamente quando êle recebe a "carta") não lhe deu o que êle sonhava ou esperava, por sua própria culpa. Ele transformou-se numa sombra do que foi, numa caricatura de si mesmo... e Jourdan fica derepente feio e velho diante dos nossos olhos. Não mais o jovem gênio que interpretava Mozart maravilhosamente na sua juventude e por quem Lisa se apaixonou eterna- e abandonamente... Sómente um homem frustrado, fútil, superficial e solitário.
Um detalhe interessante que adicionou muita forca à dramaturgia do filme foi o fato de Stefan não ser, como no livro, um escritor porém um pianista. Estava Zweig querendo nos contar algo semi-biográfico???? Qual é a coneccao entre Stefan Brand e Stefan Zweig?
As ruas de uma Viena no início do século XX são lindas, escuras cópias européias sem o clichée vienense de Hollywood. Olphüs não deixou-se levar pelo "glamour" de Hollywood, e nao quiz nem "embelezar" nem “americanizar” o decór. Sente-se no ar o cheiro de maçãs assadas no "Prater", cheira-se a poeira da têrça-feira (o dia para bater os tapêtes no pátio interior dos prédios burguêses), ouve-se suavemente temas musicais vienenses que não chegam nem a serem totalmente registrados ou a transformarem-se em clichées enquanto os dois jantam num "separée", o frio da noite reflete o frio dentro de uma Lisa que não é amada, no hospital do govêrno sente-se o cheiro de éter no ar... e a estação... a estação é o símbolo de tudo que muda (e às vezes parte para sempre) na vida de Lisa: a ida para Linz com a família, a despedida de Stefan, a despedida de seu filho...
As ruas de uma Viena no início do século XX são lindas, escuras cópias européias sem o clichée vienense de Hollywood. Olphüs não deixou-se levar pelo "glamour" de Hollywood, e nao quiz nem "embelezar" nem “americanizar” o decór. Sente-se no ar o cheiro de maçãs assadas no "Prater", cheira-se a poeira da têrça-feira (o dia para bater os tapêtes no pátio interior dos prédios burguêses), ouve-se suavemente temas musicais vienenses que não chegam nem a serem totalmente registrados ou a transformarem-se em clichées enquanto os dois jantam num "separée", o frio da noite reflete o frio dentro de uma Lisa que não é amada, no hospital do govêrno sente-se o cheiro de éter no ar... e a estação... a estação é o símbolo de tudo que muda (e às vezes parte para sempre) na vida de Lisa: a ida para Linz com a família, a despedida de Stefan, a despedida de seu filho...
Stefan nunca aprendeu a lembrar-se de Lisa, a menina pobre que morava no seu prédio e que já o amava profundamente. Ela só foi um objeto que usou. Quando ela volta de Linz já uma jovem e bonita dama êle tem seu primeiro caso de amor com ela sem lembrar-se que ela foi aquela menina descalça apaixonada por êle. Êle parte para a Itália, promete voltar em duas semanas mas não volta jamais para Lisa. Ela foi esquecida. Ela tem um filho seu, pobre, humilhada no hospital do govêrno mencionado acima e lhe dá seu nome de solteira: "Pai desconhecido".
14 anos depois, já muito bem casada, ele a encontra de nôvo na Ópera e sente-se atraído por ela... mas não se lembra da jovem moça com quem êle têve aquêle grande caso de amor. Esta parte do filme foi ligeiramente mudada... no filme ela vai a sua casa (já tinha despedido-se do seu filho na estação) e nota finalmente a superficialidade do caráter dele... ela, num momento em que êle não esta na sala, sai e não volta jamais. Simplesmente sai de sua vida. Já no livro ela passa a noite com êle, apaixonada e no dia seguinte Stefan, que tinha-a confundido com uma "Cocotte" quer pagá-la pela noite... Uma cena muito, muito cruel que Lisa (Zweig) descreve na carta... no livro.
De qualquer forma já é tarde; o compartimento do trem no qual seu filho partiu de férias deveria ter estar fechado: cólera.
A criança pega a doenca e morre. Lisa também e morrendo, escreve a carta para Stefan e lhe conta toda sua estória. Ela, a mulher que o amou loucamente em três fases distintas da sua vida, a mulher de quem ele nunca se lembrou... a mulher desconhecida.
Quando êle acaba a carta, lê que a paciente morreu antes de terminar a carta...
De qualquer forma já é tarde; o compartimento do trem no qual seu filho partiu de férias deveria ter estar fechado: cólera.
A criança pega a doenca e morre. Lisa também e morrendo, escreve a carta para Stefan e lhe conta toda sua estória. Ela, a mulher que o amou loucamente em três fases distintas da sua vida, a mulher de quem ele nunca se lembrou... a mulher desconhecida.
Quando êle acaba a carta, lê que a paciente morreu antes de terminar a carta...
Joan Fontaine (1917) assim com sua irma Olivia deHavilland (1916), a "Melanie" de GWT (ambas nascidas no Japão e as primeiras irmas na história do cinema que ganharam “Oscars”) e Louis Jourdan (1919) ainda vivem...
Oxalá êste filme venha a ser redescoberto. Uma jóia... um magnífico brilhante na carreira dos dois!!!! E na de Olphüs, junto ao seu brilhante “Lola Montez” com Martine Carol!
Oxalá êste filme venha a ser redescoberto. Uma jóia... um magnífico brilhante na carreira dos dois!!!! E na de Olphüs, junto ao seu brilhante “Lola Montez” com Martine Carol!
P.S. Gostaria ainda de deixar meus parabéns aqui à cidade de Petropólis pelo fato de terem aberto um Museu Stefan Zweig, coisa que até hoje aqui na Austria, seu país de nascimento, nunca foi feita... e acho que nem cogitada. Mesmo assim Stefan Zweig sempre será este maravilhoso escritor que encantará muitas e muitas gerações...
P.S.2 Esta postagem foi sugerida por Maurette. Por este motivo é também dedicada à ela! Obrigado!
P.S.2 Esta postagem foi sugerida por Maurette. Por este motivo é também dedicada à ela! Obrigado!
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