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quarta-feira, 20 de julho de 2011
Smoke gets in your eyes... que música, que dança...
Hoje pela manhã, a caminho do trabalho, ouvi por acaso esta melodia da qual tinha-me já quase esquecido… Há quanto tempo não pensava nela e no maravilhoso número musical com o qual estará para sempre (na minha cabeça) vinculada…
Um número inesquecível de um filme esquecível („Lovely to look at”, MGM 1952), um remake de “Roberta” - no qual Ginger & Fred tiveram uma participação práticamente como coadjuvantes ao lado de Irene Dunne e de um bonito Randolph Scott.
Apesar de um bom elenco (Red Skelton, Kathrin Grayson, Howard Keel, Ann Miller e – pela primeira vez nas telas – a canastroníssima e encantadora Zsa Zsa Gabor), lindos figurinos, maravilhosa música e uma produção impecável, daquelas “ao nível” da Metro, o filme não “acontece”…
Marge & Gower Champion porém roubam o filme.
Ela nunca teve realmente uma carreira “considerada” (físico nada propício à uma bailarina e pernas muito curtas). Ele, como seu contemporaneo Bob Fosse, nunca alcançou sucesso na grande tela. Apesar de muito mais brilho (e técnica) do que Fosse, ele viveria para transformar-se num dos mais prestigiados diretores e coreógrafos da Broadway.
De qualquer forma:
Viva este inspiradíssimo “Smoke gets in your eyes”.
Viva o eterno Jerome Kern e sua música.
Viva a magia do departamento técnico da Metro para fazer desaparecer todos esses cenários.
Viva o figurino, as cores, a orquestração, a camera e a coreografia.
Mas, acima de tudo, Viva Marge & Gower Champion por esta perfeita harmonia que aqui nos presenteiam !!!!!!!!!
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quarta-feira, 12 de maio de 2010
REMEMBERING: Lena Horne (1917 - 2010)
Dia 9, preparando uma postagem sobre Magnólias, na qual tertuliei um pouco sobre “Show Boat”, Kathryn Grayson e Ava Gardner, pensei muito em Lena Horne e como "perdeu Julie” para Ava por causa de sua cor de pele – apesar do ironico fato de Julie agradecer seu “afastamento” do “Cotton Blossom” (o Barco das ilusões) ao fato de ter sangue negro correndo em suas veias… Lena tinha criado e composto sua Julie em 1946 para o filme “Till the clouds roll by” (Uma biografia sobre Jerome Kern), e, mais uma vez ela teve que usar os roxos e rosas que a Metro lhe impunha e que a tornavam muito mais uma “Caribeña” do que uma nativa do Harlem…
Pensei tanto nela e até no fato que lhe deveria fazer uma postagem… brevemente… sobre “Stormy Weather” talvez? Seu melhor filme – no qual foi emprestada para a 20th Century Fox e teve realmente um “papel” (explicações depois). Tudo isso no dia 9, dia em que morreria… Coincidencia?
Jamais me contentei em só ouvir Lena Horne. Gostava de ouví-la vendo-a. Alguma qualidade sua, de uma força eletrificante e ao mesmo tempo indescritível, sempre chamou-me a atenção.
Lena, nos anos da MGM, teve uma carreira muitas vezes extremamente injustiçada. A maioria de suas aparições na tela eram simplesmente cenas musicais, nunca papéis principais – estas poderiam ser fácilmente retirada dos filmes no Sul dos Estados Unidos, já que a platéia sulista não estava de acordo com a aparição de artistas da raça negra nas telas dos cinemas e poderia “ofender-se” (O mercado do Sul era muito importante para os estúdios e estes – como o dinheiro sempre manda – estavam dispostos à fazer qualquer concessão… ).
Ela mesmo descreveu como sua maquiagem era esbranquiçada para torná-la um tipo muito mais claro do que era e de como, num filme chamado “Cabin in the sky” (1943, vide foto acima: o primeiro filme dirigido por Vincente Minnelli), uma cena sua numa banheira, na qual cantava “Ain’t it the truth?”, foi cortada porque o estúdio considerou muito “risquée” uma mocinha negra tomando um banho de espuma… O seu nariz nunca foi realmente explicado mas comparando-se fotos é óbvio que passou por uma “remodelagem” como anos depois Diana Ross e Michael Jackson (em muito maior escala) passariam… Aliás, eles a consideravam a "mãe" de todos os artistas negros americanos (ela trabalhou com ambos em "The Wiz").
Lena, como citado acima, perdeu “Julie” para sua amiga Ava Gardner, foi colocada numa lista negra (por causa de suas convicções políticas), não conseguiu empregos, engoliu terríveis humilhações, teve que esconder seu casamento durante anos (misturas raciais não eram “bem-vistas” em Hollywood) e numa questão de seis meses perdeu seu pai, seu marido e seu filho. Uma Lena reclusa voltou à indústria de forma nova. Ela transformou-se numa Lena mais agressiva, mais sofrida, mais real. Madura. Inteira. Esta nova «qualidade», que o destino lhe colocou, deu-lhe sua segunda carreira. Magnífica. Impressionante como ela pode canalizar a dor, torná-la quase palpável para nós.
Lena disse no final de sua vida: "My identity is very clear to me now. I am a black woman. I'm free. I no longer have to be a 'credit'. I don't have to be a symbol to anybody; I don't have to be a first to anybody. I don't have to be an imitation of a white woman that Hollywood sort of helped me become. I'm me, and I'm like nobody else."
Aos 92 anos ela nos deixou e, para repetir o que sempre digo, quando estes grandes mitos nos deixam: sinto-me meio viúvo de novo. Meio triste.
Mais uma das que “restavam” se foi. Difícil as vezes imaginar o mundo sem tantos talentos...
Grande Lena!
Aqui uma das canções (e cenas) preferidas de meu pai : Stormy Weather.
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domingo, 9 de maio de 2010
Magnolias...
Acho que já torna-se aos poucos uma tradição o fato de mostrar todos os anos aqui fotos da minha linda “magnólia” em flor. Este ano estou um pouco atrasado, já que o período em que ela floresce e nos encanta com toda sua beleza, é demasiado curto. Mesmo assim aqui vão duas fotos e os meus parabéns à todas as mães leitoras de "Tertúlias" (assim como aos filhos e filhas que desfrutarão deste dia em companhia delas!).
Penso na força deste caule, que junta toda sua seiva, todas suas forças durante o pesado inverno austríaco e lança suas flores no ar da primavera como que num esplendor cheio de felicidade. Que lindas expressões de beleza, de esperança para um bom verão, que fazem-nos ficar mais conscientes de como efemera a primavera é.
Penso nas Magnólias do Sul dos U.S.A., em como uma «outra» Magnolia sempre esteve presente na minha vida, no (para muitos) melhor musical que a MGM já fez, “Show Boat” (O Barco das Ilusões, 1951): Kathryn Grayson (1922-2010), como Irene Dunne na versão de 1936 e Laura La Plante em 1929, deu vida à esta sensível e forte Magnolia, que com toda sua fragilidade sobrevive as “tempestades” que o destino lhe traz e floresce eternamente antes que “THE END” apareça nas telas para dizer-nos que agora “ESTE” sonho acabou e que devemos procurar um outro.
Sua pureza e força já fazem-se notar em sua relação com a triste e malograda Julie (personagem fascinante, interpretado pela linda Ava Gardner – vide minha postagem de 09/10/2009 sobre “Show Boat”),
na forma resoluta em que decide-se pelo amor e não pelo “Barco”
e chegam ao ápice quando ela, abandonada pelo marido, grávida e sem dinheiro consegue um emprego de cantora num local de “duvidosa reputação”.
Em sua estréia ela, pelo nervosismo, não tem voz … seu pai está por acaso na platéia… é Noite de Ano-Novo… o resto, embalado em belíssimo Technicolor e na melhor tradição melodramática (e lacrímosa) da Metro, é história… "After the Ball is over". O que acontece depois? E o que acontece depois da Magnólia florescer?
Magnolia tornou-se mãe e, de certa forma, nunca parou de lutar por sua felicidade!
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“Show Boat”, um filme às vezes esquecido e extremamente injustiçado pelos historiadores de Cinema, é um dos grandes, senão o maior Musical do Teatro americano. Muitos dizem até que «Show Boat» é o teatro musical americano! “Show” estreiou em 1927 e celebrou com muito sucesso seu retorno à Broadway mais de 70 anos depois.
Jerome Kern e Oscar Hammerstein escreveram aqui um de seus melhores „scores“, fascinantemente americano, que (baseado no livro de Edna Ferber e também pelo tema de preconceitos raciais) ainda é de uma atualidade fascinante…
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segunda-feira, 8 de março de 2010
San Francisco
Uma postagem para minha querida amiga Danielle - "fã" incondicional de Miss MacDonald! (Acho lindo ver esta geração, tão mais nova, amando estes antigos atores do passado. Adoro!)
Amo esta canção… Sim!
Agora vamos ser sinceros: Jeanette MacDonald - que rosto mais precioso para o Cinema (e que dentes!!!!! Eu sei, nunca se fala de dentes… eu falo… Dentes são lindos !).
O mundo inteiro esqueceu-se que um musical estava sendo feito para Jeanette nos meio dos anos 60… para um "Come-back" na Broadway… Nele, uma jovem atriz iria debutar ao lado dela: LIZA. YES! Mas Miss MacDonald morreu e o projeto foi esquecido – menos por Michael Feinstein que regravou uma das canções…
Mais sobre esta canção (“Wasn’t it romantic?”) – que deveria ser cantada paralelamente à uma cena dos anos 30 da própria Jeanette (cantando seu sucesso “Isn’t it romantic?”) que seria mostrada numa tela – outro dia... Numa outra "Tertúlia".
Em "San Francisco" Jeanette pode sair um pouco do clichée no qual a MGM havia colocado-a.
O «Soprano» do estúdio, dos filmes “de prestígio” da Metro… (que seria substituído por Kathryn Grayson nos anos 40). Logo Jeanette que tinha mostrado bastante temperamento (as vezes até relativamente risquée) nos seus primeiros trabalhos… Cantando a terceira versão de “San Francisco” ela parece divertir-se, seus movimentos beiram um pouco uma espécie de “Negro Dance”, solta... Enfim, deliciosa… (neste video ve-se tres versões de “San Francisco”, aliás «coloridas»… aquelas "absurdas e divertidas" idéias dos anos 80… «colorir» filmes clássicos feitos originalmente em preto-e-branco! “Casablanca” foi outra vítima desta "onda").
Mas brevemente L.B. Mayer colocaria-a de novo ao lado do inexpressivo Nelson Eddy… para uma outra Operetta à la “Maytime”. E isto, logo depois de ter trabalhado (no filme "San Francisco"), ao lado de Clark Gable e Spencer Tracy, grande clássico sobre o terremoto que já uma vez acabou com aquela cidade com cenas muito, muito eficientes... Aqui Miss MacDonald, espetacularmente magra e delgada para os padrões dos anos 30 (Pensem em Harlow, West...). Muito linda!
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E alguém se lembra de como Judy Garland, nos seus últimos anos, cantava “San Franciso” simplesmente zombando de Jeanette???
Ela cantava… “I’ll never will forget Jeanette MacDonald… etc. ...I'll never will forget how that brave Jeanette just stood there in the ruins and sang… “. Safadinha Judy, não é verdade? Mas também ótima! Sorry, Miss MacDonald, mas Judy está aqui "óptima", simplesmente "supimpa"!!
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Amo esta canção… Sim!
Agora vamos ser sinceros: Jeanette MacDonald - que rosto mais precioso para o Cinema (e que dentes!!!!! Eu sei, nunca se fala de dentes… eu falo… Dentes são lindos !).
O mundo inteiro esqueceu-se que um musical estava sendo feito para Jeanette nos meio dos anos 60… para um "Come-back" na Broadway… Nele, uma jovem atriz iria debutar ao lado dela: LIZA. YES! Mas Miss MacDonald morreu e o projeto foi esquecido – menos por Michael Feinstein que regravou uma das canções…
Mais sobre esta canção (“Wasn’t it romantic?”) – que deveria ser cantada paralelamente à uma cena dos anos 30 da própria Jeanette (cantando seu sucesso “Isn’t it romantic?”) que seria mostrada numa tela – outro dia... Numa outra "Tertúlia".
Em "San Francisco" Jeanette pode sair um pouco do clichée no qual a MGM havia colocado-a.
O «Soprano» do estúdio, dos filmes “de prestígio” da Metro… (que seria substituído por Kathryn Grayson nos anos 40). Logo Jeanette que tinha mostrado bastante temperamento (as vezes até relativamente risquée) nos seus primeiros trabalhos… Cantando a terceira versão de “San Francisco” ela parece divertir-se, seus movimentos beiram um pouco uma espécie de “Negro Dance”, solta... Enfim, deliciosa… (neste video ve-se tres versões de “San Francisco”, aliás «coloridas»… aquelas "absurdas e divertidas" idéias dos anos 80… «colorir» filmes clássicos feitos originalmente em preto-e-branco! “Casablanca” foi outra vítima desta "onda").
Mas brevemente L.B. Mayer colocaria-a de novo ao lado do inexpressivo Nelson Eddy… para uma outra Operetta à la “Maytime”. E isto, logo depois de ter trabalhado (no filme "San Francisco"), ao lado de Clark Gable e Spencer Tracy, grande clássico sobre o terremoto que já uma vez acabou com aquela cidade com cenas muito, muito eficientes... Aqui Miss MacDonald, espetacularmente magra e delgada para os padrões dos anos 30 (Pensem em Harlow, West...). Muito linda!
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E alguém se lembra de como Judy Garland, nos seus últimos anos, cantava “San Franciso” simplesmente zombando de Jeanette???
Ela cantava… “I’ll never will forget Jeanette MacDonald… etc. ...I'll never will forget how that brave Jeanette just stood there in the ruins and sang… “. Safadinha Judy, não é verdade? Mas também ótima! Sorry, Miss MacDonald, mas Judy está aqui "óptima", simplesmente "supimpa"!!
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domingo, 21 de fevereiro de 2010
Kathryn Grayson: 1922 - 2010
Zelma Hedrick poderia ter sido um nome passável para quem nasceu em Winston-Salem, North Carolina mas não era o nome que a MGM queria colocar nas marquises dos cinemas para promover seu maior soprano dos anos 40. Então Kathryn Grayson nasceu!
Hoje em dia não se fala mais deste nome – mas ela foi uma das rainhas da Metro e dos seus gloriosos musicais.
Como vários outros «da casa» (Lana Turner, Mickey Rooney, Ava Gardner, Judy Garland) ela passou por um longo período de preparação para debutar em «Andy Hardy’s private Secretary» - série com Mickey Rooney que era usada como « escada », ou seja como o lugar para o Debut de várias atrizes (por exemplo também Esther Williams) como uma espécie de “teste”. Logo seguiram outros filmes como “Rio Rita”, “Thousands Cheer” e seu primeiro grande sucesso “Anchors Aweigh” (1945) com Gene Kelly e Frank Sinatra.
O «cliche» do «soprano» (Kathryn tinha uma linda coloratura, por sinal) não lhe poupou terríveis filmes e ela foi muitas vezes uma grande vítima da arrogancia dos chamados “filmes de prestígio” da Metro. Lembro-me de uma terrível “Je suis Titania” de “Mignon” num filme esquecido (e esquecível) ao lado de Mario Lanza e David Niven…
Seus tres últimos filmes, respectivamente de 1951, 52 e 53 foram seus melhores:
Como Magnolia em «Show Boat» ao lado de Howard Keel e Ava Gardner (detalhe, a esquecida Miss Grayson era o primeiro nome do elenco !) ela teve a incrível possibilidade de eternizar-se neste “Musical dos Musicais”, com a inolvidável musica de Jerome Kern!
Em «Lovely to look at» (com Red Skelton, Ann Miller, Zsa Zsa Gabor e mais uma vez Howard Keel), um “remake” de “Roberta”, ela teve não só um ótimo papel numa ótima produção mas eternizou uma linda música (Vejam o vídeo abaixo !).
Sua tempestuosa «Lilli Vanessi/Catarina” de “Kiss me Kate” (com Ann Miller, Bob Fosse, Tommy Rall e pela última vez Howard Keel, que provou ter, como Petruchio, um “corpo” neste filme!) acabou com o cliché de soprano, atriz comportada. Kathryn Grayson está simplesmente maravilhosa neste papel. Enfezada, agressiva, "felina"... Outra Kathryn!
Seu “I hate Men” é um dos momentos mais divertidos do cinema musical – e quanta técnica… Uma “megera realmente ainda nada domada”! (vejam minha postagem de 18.02.2009)
Mas a partir de 53 os musicais estavam começando a entrar em declínio, acabar. Seu contrato com a MGM também acabou. Ela ainda fez dois filmes em outros estúdios mas sua carreira havia realmente terminado. Uma pena este "timing" - exatamente quando teve seus melhores papéis!
Há alguns anos revi-a na TV, bem “Senhora” e gorda num episódio the “Murder, she wrote” com Angela Lansbury que sempre primou em trazer “antigas colegas” do cinema de volta às telas!
Kathryn Grayson morreu tranquilamente, dormindo aos 88 anos na noite de 17 de fevereiro passado.
Mais uma estrela para iluminar o céu…
Como disse na ocasião do falecimento de Cyd Charisse – sinto-me meio “viúvo” quando estas lendas do cinema morrem! Obrigado por tudo, Miss Grayson!
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Hoje em dia não se fala mais deste nome – mas ela foi uma das rainhas da Metro e dos seus gloriosos musicais.
Como vários outros «da casa» (Lana Turner, Mickey Rooney, Ava Gardner, Judy Garland) ela passou por um longo período de preparação para debutar em «Andy Hardy’s private Secretary» - série com Mickey Rooney que era usada como « escada », ou seja como o lugar para o Debut de várias atrizes (por exemplo também Esther Williams) como uma espécie de “teste”. Logo seguiram outros filmes como “Rio Rita”, “Thousands Cheer” e seu primeiro grande sucesso “Anchors Aweigh” (1945) com Gene Kelly e Frank Sinatra.
O «cliche» do «soprano» (Kathryn tinha uma linda coloratura, por sinal) não lhe poupou terríveis filmes e ela foi muitas vezes uma grande vítima da arrogancia dos chamados “filmes de prestígio” da Metro. Lembro-me de uma terrível “Je suis Titania” de “Mignon” num filme esquecido (e esquecível) ao lado de Mario Lanza e David Niven…
Seus tres últimos filmes, respectivamente de 1951, 52 e 53 foram seus melhores:
Como Magnolia em «Show Boat» ao lado de Howard Keel e Ava Gardner (detalhe, a esquecida Miss Grayson era o primeiro nome do elenco !) ela teve a incrível possibilidade de eternizar-se neste “Musical dos Musicais”, com a inolvidável musica de Jerome Kern!
Em «Lovely to look at» (com Red Skelton, Ann Miller, Zsa Zsa Gabor e mais uma vez Howard Keel), um “remake” de “Roberta”, ela teve não só um ótimo papel numa ótima produção mas eternizou uma linda música (Vejam o vídeo abaixo !).
Sua tempestuosa «Lilli Vanessi/Catarina” de “Kiss me Kate” (com Ann Miller, Bob Fosse, Tommy Rall e pela última vez Howard Keel, que provou ter, como Petruchio, um “corpo” neste filme!) acabou com o cliché de soprano, atriz comportada. Kathryn Grayson está simplesmente maravilhosa neste papel. Enfezada, agressiva, "felina"... Outra Kathryn!
Seu “I hate Men” é um dos momentos mais divertidos do cinema musical – e quanta técnica… Uma “megera realmente ainda nada domada”! (vejam minha postagem de 18.02.2009)
Mas a partir de 53 os musicais estavam começando a entrar em declínio, acabar. Seu contrato com a MGM também acabou. Ela ainda fez dois filmes em outros estúdios mas sua carreira havia realmente terminado. Uma pena este "timing" - exatamente quando teve seus melhores papéis!
Há alguns anos revi-a na TV, bem “Senhora” e gorda num episódio the “Murder, she wrote” com Angela Lansbury que sempre primou em trazer “antigas colegas” do cinema de volta às telas!
Kathryn Grayson morreu tranquilamente, dormindo aos 88 anos na noite de 17 de fevereiro passado.
Mais uma estrela para iluminar o céu…
Como disse na ocasião do falecimento de Cyd Charisse – sinto-me meio “viúvo” quando estas lendas do cinema morrem! Obrigado por tudo, Miss Grayson!
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sábado, 16 de maio de 2009
Duas biografias „on the rocks“: Lillian Roth & Helen Morgan

Ao decorrer dos anos 50 Hollywood produziu várias biografias mais “populares” em comparação a filmes de questionável “gabarito” dos anos 40, como a biografia de Chopin com Cornel Wilde ou a de Clara Schumann com Katherine Hepburn… Alguns exemplos: “The Glenn Miller Story” (Universal, 1953) com James Stewart no papel título e June Allyson, “Three Little words” (“Três palavrinhas”, MGM 1950) com Fred Astaire e Red Skelton interpretando Kalmar & Ruby acompanhados da adoráveis Vera-Ellen e Arlene Dahl e “The Eddy Dunchin Story” (1956) com Tyrone Power e Kim Novak.
Hollywood neste período parece ter tido também uma certa fascinação com “mulheres que cantavam” e que, por algum motivo, levavam alguma tragédia consigo: Jane Froman e seu trágico acidente de avião em Lisboa durante a guerra (“With a Song in my Heart, 1952”) foi interpretada por Susan Hayward, Grace Moore com sua trágica morte num acidente (também de avião) em 1947 (“So this is love”, 1953) com Kathryn Grayson, Ruth Etting e seu envolvimento com um gangster (“Love me or leave me”, MGM 1955) que deu a primeira chance séria à Doris Day e o magnífico Soprano Marjorie Lawrence (vide minha postagem de 03.03.2009 com uma cena deste filme) que teve que lutar contra os efeitos de uma fortíssima poliomielite (“Interrupted Melody”, 1955) com a não menos magnífica Eleanor Parker, que foi mais uma vez nominada para um Oscar por este trabalho.
Devemos mencionar aqui que a Hollywood da época tomava ainda mais liberdade com fatos históricos, ou até bíblicos, do que toma hoje em dia (Ou alguém já esqueceu que “Salomé”, com Rita Hayworth, tem um final feliz? Ela “acaba” feliz com João Batista ?!?!?!?).
Apesar destas liberdades (que supostamente eram feitas para melhorar o roteiro), duas das melhores “biografias” do período foram “I’ll cry tomorrow” (1955) e “The Helen Morgan Story” (1957). Ambos filmes, sobre mulheres com muito talento, podem ser descritos como “de certa forma bastante úmidos”. Não, não estou referindo-me a nenhum número musical com Esther Williams porém ao fato das estórias de Lillian Roth e Helen Morgan estarem intímamente ligadas a muito “booze”: gin, whisky, vodka etc.

Ambos filmes e suas principais intrérpretes demonstraram extrema coragem numa época em que em Hollywood a grande maioria das atrizes queriam só ser “bonitas” (ou sexy). Susan Hayward e, supreendentemente Ann Blyth, descem à sarjeta, à sordidez, ao final do poço... ao asqueroso declínio moral, psicológico e físico causado pelo abuso do álcool.

Lillian Roth começou no teatro (“Artists and Models”) e chegou às produções requintadas de Ziegfeld (“Midnight Frolics”). Em Hollywood fez vários filmes, entre eles “The Love Parade” (com Maurice Chevalier, 1930), “Honey” (1930), “Madame Satan” (1930), “Animal Crackers” (com os Marx Brothers, 1930) e até um filme “forte” sobre mulheres na prisão “Ladies They talk about” (Warner 1933, com Barbara Stanwyck). Seu repertório era simples com alguns “carros-chefes” (por exemplo “Sing you Sinners”).

Susan Hayward, sempre uma boa e competente atriz, deu uma vida sem muita personalidade à sua “Lillian Roth”. Baseado na Auto-biografia de Roth “I’ll cry tomorrow” o filme conta a ascenção de Lillian, levada por sua ambiciosa mãe, ao estrelato. Lillian parece nunca opinar sobre sua vida, seus direitos, suas vontades... Quando seu noivo morre, ela, descobre o álcool. Este transforma alguns de seus momentos em felicidade, faz com que ela durma melhor, traz-lhe segurança e “personalidade” quando canta (Corajosamente Susan Hayward usou sua própria voz no filme, ao contrário da biografia de Jane Froman na qual foi dublada pela própria Froman). Porém a situação vai-se tornado cada vez mais precária e ela vai contínuamente, gradativamente perdendo o controle sobre si mesma. Ela começa a pedir cadeiras para se apoiar no palco enquanto canta (como por exemplo numa magnífica cena na qual canta uma daquelas trágicas canções de mulher vítima, dependente, sofrida: “Joe” – ♫♪ It seems like happiness is a just a thing called Joe ♪ ♫ ), começa a beber às escondidas, a cair em restaurantes e bares... Quando se casa com um alcoólatra (que lhe agride físicamente) ela foge. Seu destino está selado. Bares de última categoria. Sujeira no rosto e nas mãos. Roupas rasgadas. Tiques nervosos na boca e nos olhos. Sarjeta. O inferno.

A direção de Daniel Mann é muito sutil. Muito estruturada. Ele nos faz compreender momentos muito fortes mostrando muito pouco. Até, assombrante para os anos 50, uma cena na qual Lillian, sofrendo por causa de falta de alcool, é violada por um mendigo qualquer na “instituição” para mendigos onde passava a noite. Fatos tristes da biografia de Lillian Roth.
Lillian entrou para os alcoólatras anônimos em 1946, conseguiu retomar sua carreira e em 1962 até fez Broadway de novo no musical “I can get it for you wholesale” (peça na qual ninguém brilhou, só uma novata de 18 anos que tinha dois números e pouquíssimas falas: Barbra Streisand). Por estas épocas ela já tinha voltado a beber. Passando por altos e baixos, falta de dinheiro, sete casamentos, empregos como cantora, atriz (Broadway em 1971 no musical de Kander & Ebb “70, Girls 70” e dois filmes, um em 1976 e outro em 1979), assistente de padaria, atendente num hospital e até empacotando embrulhos... ela morreu aos 69 anos.

Helen Morgan, considerada por muitos até hoje como a “diva” da “Torch-Song” (Lá vem mais canções tipo “mulher vítima”, sim sobre aquelas que eram maltratadas por seus homens mas não deixavam de amá-los, de esperar por eles, de padecer por eles, de serem agredidas por eles). Tinha uma “marca registrada”: em todas suas aparições em Night-Clubs cantava sempre sentada sobre a cauda do piano. Mulher de um vasto repertório, bem mais interessante do que o de Roth, Morgan cantou muito Gerschwin e eternizou as baladas de “Show Boat” – produção de Ziegfeld (mais um paralelo em sua vida com Lillian Roth) na qual interpretou Julie, outra destas vítimas apaixonadas, dependentes de um homem e que (por coincidência) acaba não só num mar de lágrimas como também de gin...

“The helen Morgan Story” é um bom filme, dirigido pelo legendário Michael Curtiz (“Casablanca”).
Ann Blyth, uma atriz “correta” (A filha de Mildred Pierce/ Joan Crawford, no filme homônimo, a esposa de Caruso no “O grande Caruso” ao lado de Mario Lanza e até na Opereta “Rosemarie” na qual usou sua própria voz que tendia muito a um registro bem “Soprano”), surpreendeu: Sua “Helen” é uma moça cheia de vida, do interior, que não bebe, não mente, não “circula”.
Quando ela é usada pelo cafajeste Larry Maddux (um jovem Paul Newman!) e logo depois abandonada, transforma-se numa pessoa triste. Sem “luz”. Aquela mulher de um homem só, sofrida, amargurada, vítima. Ela comeca entao a cantar. Abaixo, duas fotos de Helen Morgan.

Peu à peu vemos e reconhecemos certas tendências em sua personalidade... inseguranças, tristezas, angústias, solidão...
Morgan desenvolve sua música, seu “canto” e tem a grande chance de sua vida como “Julie” (já mencionada acima). Sua interpretação de “Bill” é um mundo de amor (mas também de sofrimento por causa de UM só homem... como Lillian Roth acima com “Joe”. Mais uma vez as sofredoras, as vítimas daquela época... Será que ainda existem hoje ou saíram mesmo de moda?).

Por vários motivos Morgan cai no álcool. Primeiro conscientemente, sabendo que tem que freiar-se, parar, voltar a ser normal. Depois não mais controlando-se até chegar ao ponto de cair de cara no palco. Fato que todos os jornais de N.Y. publicaram! Também uma caída fulminante na sarjeta. E um final, ao contrário de Lillian, não com os AA mas num hospital. Delirium Tremens, banhos de gelo, gritos, muito sofrimento e humilhacoes...
Blyth impressiona nestas cenas. Realistas para os padrões de 1957.

O final do filme é “positivo” transformando sua saída do hospital quase numa volta aos palcos, numa espécie de “Come-Back” e cantando, finalmente, para finalizar o filme, a linda balada de Julie em “Show-Boat”,“Can’t help loving that man of mine!”. E mais uma vez somos confrontados com dependência, sofrimento, vítimas do amor!

O filme não foi muito bem aceito pelo público e pela crítica, sendo o ponto mais criticado o fato de Ann Blyth não ter usado sua voz, tendo sido dublada por uma famosa cantora da época chamada Gogi Grant. O disco fez bastante mais sucesso que o filme. Não imagino porém como o registro de Soprano de Blyth teria adaptado-se às “Torch Songs” do período.

Helen Morgan trabalhou no cinema muito pouco, imortalizou porém sua “persona” nas duas primeiras versões de “Show-Boat” (O Barco das Ilusões, 1929 e 1936) que não devem ser confundidas com a versão de 1951 na qual Ava Gardner deu vida à trágica Julie.
O filme porém no qual mostrou mais coragem chamou-se “Applause” (1929) no qual ela interpreta a derrocada de uma corista de “Burlesque” alcoólatra que acaba suicidando-se. A arte imita a vida?

O “final feliz” de “The Helen Morgan Story” nunca aconteceu. Ela nunca parou de beber e morreu de cirrose no fígado aos 40 anos de idade em 1941.
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