Como meus pais eram loucamente apaixonados pelas tramas da "Grand Dame" do crime, Agatha Christie, ainda existem nas estantes do apartamento no Rio de Janeiro vários exemplares de livros que levam em sua capa esta forma de ilustrações tão popular na época...
Livros amarelados pelo sol, livros porém que "vivem", com frases sublinhadas, anotações, flores secas, contas ou recortes de jornais que serviam para marcar as páginas - tão ao contrário dos frios "readers" de hoje em dia...
Olhá-las, digo, olhar estas capas me faz lembrar de "casa", da minha infancia, de férias e fins-de-semana em Penedo... Adoro estas ilustrações...
...e, last but not least: Vincente Minnelli soube captar a essencia deste "kitsch" no seu "The girl hunt Ballet" (MGM 1954, The band Wagon)
The Great Lady Has An Interview, número do filme da MGM de 1946 “Ziegfeld Follies”, tem toda uma excitante história de criação, inventividade, espontainedade e "daquelas" casualidades... daquelas que fazem de uma obra de arte algo indiscutívelmente eterno!
Kay Thompson, uma das mais fortes personalidades que já trabalharam em Hollywood teve em 1945 a idéia para “The great Lady”: uma paródia sobre uma “atriz de peso”, uma “Lady” da sétima Arte na melhor tradição de uma Bette Davis ou de uma Greer Garson. Ela idealizou, escreveu, compos e fez o arranjo musical e vocal do número…
“The great Lady” conta a estória de uma “atriz de peso” que está cansada de ter papéis monumentais em filmes monumentais… Filmes e papéis destinados a ganhar “Oscars”.
Ela literalmente "sonha" por papéis mais “sexy” no qual ela possa mostrar mais pernas, atuar mais com seu “torso”… Ela sonha e se compara à Betty Grable, à Ginger Rogers…
Mas seu próximo filme já está fixo e marcado, uma biografia sobre “Madame Crematante” (Gretchen Crematante, entre nous...), a inventora do alfinete de seguranca!!!! E é isso o que ela relata ao senhores da imprenssa, aos “members of the fourth state”.
Na realidade Kay, com o imenso humor que possuía, havia composto o número especialmente para Greer Garson – atriz “de peso” da época conhecida dos grandes dramas e (também) por filmes “biográficos” como “Madame Curie”.
Quando Kay apresentou porém o projeto e o número para Greer, acompanhada sómente por um piano, esta, que não era realmente conhecida pelo seu humor e não era particularmente amiga de comédias, recusou o número na hora!
Não são todos os seres humanos que tem o dom de saber rir de si mesmos…
Vincente Minnelli, amissíssimo de Kay e que na época namorava Judy Garland teve a espontanea (e genial) idéia de colocar sua futura esposa neste papel.
Ele havia colocado Judy no seu primeiro papel adulto em “The clock” (1945) que porém ainda não havia estreiado… Apesar da relutancia da MGM em colocá-la neste papel, Minnelli “matou dois coelhos de uma cajadada”: não só conseguiu este genial pedaço de “casting” como também conseguiu ser ele mesmo escalado para dirigir o número (Charles Walters, que haveria dirigido , recebeu um outro número no filme, ficou porém como coreógrafo de “Lady”.
Nascia um trabalho de puro genio: a combinação Garland-Thompson-Minnelli-Walters criou um dos mais originais números musicais jamais feitos na Metro. Sim trabalho de puro genio…
Thompson, que tornou-se a melhor amiga de Garland e madrinha de Liza (com quem morou até sua morte) faria, como atriz, o famoso “Funnny Face” (1957) ao lado de Fred Astaire e Audrey Hepburn e teria a rara distinção de ser talvez a única atriz que roubou descaradamente a cena enquanto contracenava com Fred em “Ring them bells” – mas esta é uma outra estória… ).
Kay Thompson trabalharia muito no futuro vocalmente com Garland, alcançando talvez o ápice da sensibilidade de um trabalho em conjunto no número “Look for the silver lining” (Veja a “tertúlia” de 04.12.2012).
Além disso tudo “The great Lady” tem outra distinção: décadas antes de “Rap” existir, Judy nos dá aqui, com o arranjo e direção vocal de Thompson um “show de Rap”.
Confiram!
Judy: afetadérrima, pseudo-dramática, pseudo-britanica, histérica, empostadíssima, diferentíssima de seus papéis juvenis, cheia de ares, de caras e bocas e divinamente louca! Uma danadinha!!!!!
Quanto talento! Admiro, Adoro!
Existem momentos muito especiais no mundo do Cinema… E este é um deles! Saudades de quando o vi pela primeira vez nos anos 70… no „finado“ Cinema II na Raul Pompéia, no Rio de Janeiro, em companhia de amigos como Mari, Flávia, João, Mayr, Brigitte, Ana Valéria, Mauro…
Mas antes uma pequena explicação… Ontem, exatamente no Valentine’s day, recebi um e.mail desaforado de uma pessoa que já há muito tempo coloquei para fora da minha vida. Não há razão para ninguém ter que aturar uma pessoa agressiva, neurótica, invejosa, desaforada por toda uma vida… N'est ce pas?
Agora, eu pergunto: não é reação extremamente sintomática o fato dela me escrever exatamente no “Valentine’s day”? Não é que eu realmente ligue nem para esse dia, nem para todo o comércio que ele trás consigo… mas, logo ela, “psicóloga”, uma pessoa (em suas próprias palavras) “interiorizada”, dá a “bandeira” da sua insatisfação exatamente neste dia… “Physician, heal Thyself!”!
Fico assustado como uma pessoa pode tranformar-se nessa pessoa amargurada, frustrada, feia, mentirosa, cheia de raiva, possuída pela inveja que é… Fui advertido há alguns anos, quando ela esteve aqui me visitando. Chamaram-me a atenção ao fato dela, em mais de uma semana na minha casa, não ter aberto sua carteira nenhuma vez, nem para pagar um café ou uma passagem de bonde e ter-se aproveitado de mim, da minha hospitalidade, boa fé, generosidade…
Por isso aqui minha resposta ao seu e.Mail: Uma dedicaão atrasada de “Valentine” a todos os meus reais amigos! Um momento de amor no Cinema… bem, na realidade, bem mais do que só amor: um momento de paz, cheio de mágica, inventividade, imaginação, poesia… Sim, uma resposta com carinho e amor às pessoas que realmente significam muito e tem seu lugar bem definido na minha vida!
Gene Kelly, vindo do grande sucesso de “An American in Paris” (MGM, 1951) – estranhamente chamado “Sinfonia em Paris” no Brasil – jogou-se no grande projeto “Singin’ in the rain” (chamado “o melhor filme de todos os tempos” por François Truffaut) e arriscou mais uma vez o papel principal feminino com uma (práticamente) desconhecida: Debbie Reynolds (Debbie, ainda hoje viva, tinha feito uma pontinha como Helen Kane (Boo-boo-pi-doo) em “Three little Words” em 1950 e tido um pequeno papel como irmã caçula de Jane Powell em “Two weeks with Love” em 1951). Debbie que “sabia dar seus passinhos de dança” não era realmente uma “bailarina” e não, neste sentido, a do filme… Gene deu grande destaque à Cyd Charisse, que, depois de “Rain”, tornou-se uma estrela de maior magnitude… Detalhe: me referi acima com “mais uma desconhecida” à Leslie Caron, que em 1951, ao lado de Gene, fez seu début em “American in Paris”, o filme do ano, vencedos do Oscar de melhor filme de 1951, graças ao talento de Vincente Minnelli!
De volta à esta simples cena (exatamente nesses momentos, nos quais Gene transforma sua dança numa plataforma simples e pura, ele me fascina ao máximo… precisamente como em “Our Love is here to stay” de “American”):
quando Gene (Don Lockwood) entra com Debbie (Kathy Selden) no studio deserto para lhe fazer uma declaração de amor, usa as luzes suaves para criar um efeito de luar, a escada como um balcão, mais luzes como um jardim florido e estrelas, ventiladores como uma suave brisa, névoa das montanhas distantes… criando aquele momento precioso em que o dia, ao por-do-sol, já não é mais dia mas ainda não é noite… Perfeito. O cenário está pronto para ele dizer o que quer…
Sim, atrasado mas de coração: um Happy Valentine… para voces!!! Cheio desta aconchegante simplicidade… desta criatividade que nos permite transformar tudo num momento especial, que faz com que o amor transforme todos os dias do ano num “Valentine”, independente da data…
(E quanto à gorda Senhora Ana LeRavia (anagrama), supere esta fase do “amor-próprio ferido” - no way, you are out of my life! - e fique feliz por inspirar-me com um personagem que algum dia usarei em algum conto ou livro: a gorda, amarga, invejosa “Mme. LeRavia”… LeRavia => la rabia “en castellano” => a raiva… ).
Muito, muito Obrigado pela inspiração para esta “tertúlia”!
Existe em Alemão uma expressão que é “Not macht erfinderisch” (A emergencia provoca a criatividade). Gosto disso… desde os “Old-Timers” que ainda são conduzidos pelas ruas de Cuba ao “jeitinho” brasileiro que é de uma criatividade impressionante… Mas não usamos dizer em portugues “emergencia criativa”?
Adoro uma canção de Jerome Kern que sobrevive a difícil prova que o tempo sempre coloca em qualquer obra de arte: “Look for the silver lining”. Ela foi composta em 1919 para um musical que foi um fracasso, chamado “Zip, Goes a Million”.
Só publicada no ano seguinte ela foi reusada num musical de Ziegfeld feito especialmente para Marilyn Miller, “Sally”, que a transformou num popular sucesso!
Talvez por falar de sonhos, fantasias… ou esperanças... talvez... Tento explicar: "silver lining" (na realidade o "forro" prateado) é uma expressão idiomática que significa tanto quanto "um sinal de esperança numa situação difícil, ameaçadora".
Como por exemplo em Every Cloud has a silver lining... Uma versão mais antiga de "Always look on the bright side of life!"
Usada em vários filmes ela deu o nome para um veículo de June Harver na 20th Century Fox em 1949; uma biografia da própria Marilyn Miller, estrela de grande magnitude de Florenz Ziegfeld: „Look for the silver Lining“.
Chat Baker transformou-a num número de Jazz em 1954 e, notávelmente, esta melodia é usada até hoje, como no caso da famosa série da atualidade “Downton Abbey” na qual foi cantada pelos personagens Lady Mary e Matthew Crawley. Infelizmente e por azar a cena se passou no Natal de 1918, ou seja, um ano antes de ter sido composta por Kern…
Talvez sua interpretação mais conhecida seja de Judy Garland, no palco, em “Till the clouds roll by”, biografia bem “livre e criativa” de Kern.
Neste filme ela também aparece como Marilyn Miller e canta não só “Silver Lining” como também a eterna “Who?”.
Judy insistiu na época que seus numeros fossem dirigidos por seu então marido, Vincente Minnelli. A producão se atrazou um pouco e quando chegou finalmente a hora de se filmar “Silver Lining” a barriguinha de uma grávida Judy já estava mais protuberante do que poderia ser aceito pela MGM (Liza estava a caminho!).
Genialmente Minnelli mudou todo o conceito do número e o baseou 100% na atuação de Marilyn Miller dos anos 20. Estando atrás de uma pia cheia de pratos empilhados Judy não estaria totalmente exposta às cameras….
“A emergencia provoca a criatividade”.
Judy está um “mimo” neste número. Abusando do direito de ser talentosa, sonhadora, emocionada, afinada e fazendo muito amor com a camera que tanto bem lhe queria…
Por "coincidencia" a direção musical deste número, o arranjo em si, foi composto pela fabulosa Kay Thompson - atriz, cantora, bailarina, compositora, arranjadora, vocalizadora, professora - talvez por muitos lembrada só por sua participação em "Funny face" (1957) ao lado de Fred Astaire e Audrey Hepburn e no qual ela recebeu uma distinção única no Cinema: Ela roubou descaradamente uma cena na qual contracenava com Astaire.
Sempre penso em Kay quando ouço a expressão "She's bigger than Life". She was. Quer personalidade!
Amissíssima de Minnelli, tornou-se amiga íntima de Judy, virou madrinha de Liza que levou-a para morar com ela na velhice e que lhe dedicou um show, há poucos anos, no qual "cantarola" emotivamente "Silver Lining"... sim, este "cantarolar" era marca registrada da magnífica Thompson e Judy aqui cantarola triunfantemente! Reparem...
Além disto tudo e de uma longa carreira, Kay ainda criou um dos personagens um dos personagens mais simpáticos da história: Eloise! Mas como eu sempre digo: isto já uma outra estória que ficará reservada para uma futura Tertúlia!
Levantemos a cortina para Judy, sua voz, sua emoção, seu talento!
As I wash my dishes, I'll be following a plan,
Till I see the brightness in ev'ry pot and pan.
I am sure this point of view will ease the daily grind,
So I'll keep repeating in my mind.
Look for the silver lining
When e'er a cloud appears in the blue.
Remember some where the sun is shining,
And so the right thing to do,
Is make it shine for you.
A heart, full of joy and gladness,
Will always banish sadness and strife.
So always look for the silver lining,
And try to find the sunny side of life.
Hollywood dos anos 40, 50 e até 60 nos presenteou com muitas cenas «de janela».
Nelas as atrizes e heroínas deixavam o interior de seus lares para olhar para o mundo lá fora. Mas sempre protegidas ao mesmo tempo pelo teto e segurança da sua casa, de seu lar.
Com um pé dentro e o outro fora…
A “janela” transformou-se assim num símbolo, na “fronteira” entre o lar, a vida familiar e a descoberta do amor…
Penso em tantas: Audrey Hepburn cantando “Moon River” em “Breakfast at Tiffany’s”, em Monroe flertando de sua janela em “The seven year’s Itch”, de June Allyson e Janet Leigh curiosas com o vizinho (Peter Lawford) em “Little Women”, em Bette Davis olhando a neve no trágico "All this and heaven too" e mais notávelmente na mudança que a “janela” exerce sobre o personagem de Grace Kelly em “Rear window”.
Sem a “janela” ela nao teria transformado-se numa mulher inteira…
Mas ainda é o personagem de Judy Garland, Esther, de “Meet me in St. Louis” (MGM, 1944) que tem todo o fascínio do, diga-se de passagem, «filme família» e do simbolismo da janela nos anos 40! Esther definitivamente me "cativou".
Jeanne Crain (acima) teve em “State Fair” (cinco anos depois de “Louis”) uma cena que foi óbviamente baseada na linguagem visual de Vincente Minnelli (diretor de «Louis»), no “sonho durante o dia”, no simbolismo da janela e de ver “o tempo passar nela” (no qual canta a linda “It might as well be Spring”), expressão aliás eternizada por Chico Buarque de Hollanda em sua romantica (e eterna) “Carolina”.
Mas Crain está "só" sonhando.
Está ausente do que se passa ao seu redor...
Definitivamente é a curiosidade de Garland sobre o “Boy next door” que me fascina…
Apesar de estar “day dreaming” ela está atenta, alerta, concentrada, interessada, se apaixonando…
Curiosa sobre o mundo lá fora…
Querendo ser parte dele...
Do início ao fim esta cena nos conquista: o olhar de Garland, seu indescritível magnetismo e charme, sua roupinha com a qual chegou em casa depis de jogar tenis (óbviamente sem estar suada e desarrumada!), a voz metálica, a linda música e o "Close-up" final.
Este sim, mais do que magnífico...
Viva a dupla “Minnelli/Garland” (no seu primeiro trabalho juntos) por nos dar momento tão fresco, romantico e poético!
Há alguns dias escrevi sobre uma «ceninha sem importancia», com roupas e cenários maravilhosos, Technicolor perfeito, música e arranjo excepcionais, “pseudo-latinismos”, Mar do Caribe e Fred Astaire… Hoje repito a dose: das roupas e cenários à musica e ao arranjo, do Technicolor aos “pseudo-latinismos”. Até o Caribe repetirei… a única diferença está na presença de Gene Kelly no lugar de Fred.
“Niña” é uma cançãozinha de Cole Porter feita para o (fracassado) filme “The Pirate” (MGM, 1948), trabalho de Vincente Minnelli que na época foi extremamente incompreendido.
Judy Garland tem algumas cenas e canções inesquecíveis como por exemplo sua “endemoniada” e "enlouquecida" versão de “Mack, the Black” durante a qual está hipnotizada ("pegando santo", bem "Caribeña"! I love it!)
assim como Gene no Ballet “The Pirate” – a única vez que Kelly colocou nas telas dos cinemas suas torneadas pernas à vista transformando-se numa figura extrememente erótica (Minnelli, que admirava muito Kelly, sabia muito bem o que fazia. Gene, na "prude" MGM nunca explorou este seu lado…). Gene era um rapaz bonito da época - com aquela cicatrizinha que depois deixou de ser retocada pelos maquiadores da MGM - perfeita. Mas isto não se "ve" devido à direções muito superficiais de triviais diretores que recebeu ao longo de sua carreira... e como ele adorava fazer umas caretas... Aí tornava-se "meio palhaço", chato... Um exemplo do mesmo vício é o chatérrimo Jim Carrey - na realidade um homem até bonito. Só que ninguém se dá conta disso.
Aqui ele está bem "dirigido", "contido" - talvez um dos poucos personagens de Kelly que não era a personificação do próprio Gene Kelly... Existem porém muitas diferenças de opinião sobre seu bigodinho... e sobre este filme... Uma coisa todavia é certa: seu personagem aqui e em "An American in Paris" (Jerry) são seus melhores trabalhos como "ator". Ambos dirigidos por Minnelli. Mestre.
As caretas ele pode fazer ao lado dos sensacionais Nicholas Brothers
e no "chatinho" número final ao lado de Judy: "Be a clown!" Tudo bem...
Mas, a razão desta postagem, “Niña”, ficou em segundo plano, bastante esquecida… Ao contrário de “I left my Hat in Haiti” (Astaire em “Royal Wedding”) ela é parte da “estória”, do roteiro do filme e serve perfeitamente para nos descrever e posicionar o personagem de Kelly: “a ladie’s man”.
Como sempre as incomparáveis “lyrics” de Porter… «But since I’ve seen yah,
Niña, Niña, Niña…
I’ll be having schizophrenia…
Till I’ll make yah,
Till I’ll make yah,
Till I’ll make yah mine»
Outra "daquelas" ceninhas sem importancia e esquecidas…
mais uma "daquelas" simplesmente maravilhosas!!!!
P.S. Acabei de rever a cena – sim, os figurinos são realmente incrívelmente fotogenicos, perfeitos!
VIVA a MGM e suas impecáveis produções!!!!!!!