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sexta-feira, 1 de abril de 2011

REMEMBERING: "Tammy" e tantas outras estórias...


„Tammy“
é uma maravilhosa canção vencedora de um “Oscar” de um filminho bem medíocre chamado “Tammy and the Bachelor” que foi feito pela Universal.



Debbie Reynolds é “Tammy”, uma mocinha sulista, Leslie Nielsen (of all people), antes de ficar com aquela cara de “esclerosado” que adquiriu na sua velhice (que me parece ter começado aos 40) é o “mocinho”. Quem rouba o filme porém é a maravilhosa Mildred Natwick, grande atriz secundária com uma longa carreira, que neste filme só aparece com um gato que parece ser uma prolongação (ou será um prolongamento?) do seu próprio corpo… Reassisti Mildred há pouco, já bem idosa no seu último filme, “Ligações perigosas”, motivo da minha última postagem.



Esta música tem uma parte na “história” dos Leitner: minha mãe me conta que quando estava no auge de sua gravidez, um amigo americano de papai, “Ross” chegou ao Rio. Quando ela abriu a porta de entrada do apartamento para recebe-lo, com seu vestido vermelho e já com um “barrigão”, ele exclamou: “Parece um Papai Noel!!!!!”. Mamãe estava na época aprendendo violão (ela tocava piano) e estudando “Tammy”. Quando saíam à tardinha para passear pela calçada (então ainda bem estreita) da Avenida Atlantica, “Ross” ía-lhe ensinando a letra de “Tammy”. E os dois cantavam…
Boas amizades. Boas lembranças.

Não possuo uma foto dos tres (Mamãe, Papai e Ross) na praia de Copacabana, tenho porém esta, antes do meu nascimento, nas Tres Cachoeiras em Penedo – Tenho a ligeira desconfiança que quem a tirou foi Eliana Caminada… Foi num dia em que passearam para lá juntos com Dadá (tia de Eliana e pessoa muito, muito querida) e a Vovó dela (que me conheceu como bebe).



Em 1997 eu estava passeando no Algarve quando ouvi de uma lojinha de discos esta canção, que não ouvia há "milenios": Entrei e comprei na hora o CD… Ainda hoje o ouvimos! Esta música ocupa um lugar muito especial nas nossas memórias, sentimentos...

Às vezes gosto de colocar estas estórias aqui – é bom preservá-las…
Minha mãe chega amanhã à Viena pois no domingo celebramos juntos meu aniversário.
Que sortudo sou… Esta postagem é para lhe desejar uma boa viagem e dizer-lhe: "Bem-vinda!"

Aqui Debbie Reynolds numa interpretação gostosa e emocionada, até com um sotaque sulista bem convincente, nos conta como „Tammy is in love…”. Uma canção tão "básica", de linha melódica tão simples e ao mesmo tempo tão eficaz e emocional... Como disse: Boas lembranças!

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segunda-feira, 14 de março de 2011

La Bayadère: "corrigindo" um fato histórico do nosso Theatro

Não estou «Making History» (Título aliás do fabuloso livro de Stephen Fry, que muito recomendo) e nem tentando corrigí-la. Estou porém corrigindo a ordem dos fatos, como nos estão expostos, estes sim injustamente «mudando o curso a história». Como já disse uma vez, aqui nas «Tertúlias» : « Nunca tive e nunca terei qualquer ambição didática com este Blog“.
Tenho porém desta vez quase que dar „o braço a torcer“ porque, com minha querida amiga Eliana Caminada, consegui desvendar algo que não está corretamente colocado em várias plataformas da Internet e até em vários livros e Enciclopédias!!!!

Tudo começou com minha postagem do dia 24 de fevereiro de 2011 sobre “La Bayadère” (postagem, aliás, que eu achava que ninguém iria ler e que se transformou na melhor sucedida que fiz até hoje…):
„La Bayadère“ era considerada um clássico na Russia mas no mundo ocidental completamente desconhecida. Segundo a “história”, a primeira “impressão” que o público ocidental teve deste trabalho foi quando o Ballet Kirov apresentou “The Kingdom of the Shades” (O Reino das Sombras) em 4 de julho de 1961 no Palais Garnier em Paris”. Quase dois anos e meio depois, em novembro de 1963 como consta, Nureyev apresentou a cena (ou melhor, o terceiro ato – ou segundo, dependendo da versão) para o Royal Ballet com Margot Fonteyn como Nikiya.



Tenho aqui em Viena o raríssimo livro “O Ballet no Brasil” de Edméa A. Carvalho, comprado ainda nos anos 70 num daqueles maravilhosos e imensos “sebos” de dois andares da Rua do Rosário ou em outras paralelas (ainda existem?). Tatiana Leskova, Eliana Caminada e várias outras pessoas tiveram este livro, um dos primeiros sobre Ballet no Brasil, mas de alguma forma todos “sumiram” (por isso mantenho meu princípio: discos e livros não empresto!) e lá encontrei uma foto da maravilhosa Bertha Rosanova e de meu querido mestre Aldo Lotufo em “Bayadera” no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Bem, mais do que isso não “precisamos” (a sabida e maravilhosa Eliana Caminada e eu – curioso “par excellence”)... Tenho que adicionar que à esta pesquiza se juntou minha querida Danielle Crepaldi, sempre atenta, esperta e inteligente.



Na primeira versão no Brasil conseguimos descobrir, no livro de Edméa, quem estava no corpo de baile:
Alda Acioli, Sonia Barroso, Luciana Bogdanocich, Rojan Cavina, Oneide Craveiro, Maria Enamar, Wanda Garcia, Therezinha Goulart, Eunice Khoury, Helena Lobato, Nair Moussatche, Helna Nogueira, Irene Orazem, Estella Reigas, Julia Rodrigues e Clélia Serrano.
Mas o livro é de certa forma “pobre” em termos de datas, revela pouco.





Um dia chegou um impressionante e.mail de Eliana, no qual mal pude acreditar e que tenho que aqui citar:

Ricardo, Aldo Lotufo está aqui em casa e me esclareceu que dançou, com Bertha Rosanova, o Ato das Sombras de La Bayadère, em uma versão de Chabukiani, estreando no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 12 de abril de 1961 (de acordo com o livro de Edgard de Brito Chaves Junior "Memórias e Glórias de um Teatro").
A versão foi extraída do filme de Chabukiani com Dudinskaya, mas Aldo comenta que muita coisa foi colocada por Dona Genia (comentário meu: Eugenia Feodorova) a partir de suas próprias lembranças e do conhecimento que tinha do estilo do ballet.
Uma musicista da Rádio Mec tirou a partitura de disco para piano e posteriormente foi feita a orquestração.
D. Eugenia remontou o mesmo ato do ballet para sua Fundação Brasileira de Ballet, quando Aldo dançou com Sílvia Barroso.
Bjsss
Caminada


Num dicionário mais recente sobre dança, a parte que se refere a este Ballet no Theatro é lamentávelmente erronea. Nem Bertha nem Aldo constam na menção sobre “La Bayadère”. Falta de informação? As vezes existe neste nosso mundo não só falta de informação mas também mal intenções, parcialidade e muita falta de ética..

Mas neste livro está o fato comprovado: "Memórias e glórias de um Teatro: sessenta anos de história do T. M. do Rio de Janeiro" de Edgard de Brito Chaves.

TROCANDO EM MIÚDOS: a Première no mundo Ocidental não foi feita nem pelo Kirov em Paris em 1961 nem pelo Royal Ballet com Fonteyn e Nureyev em 1963 porém no Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 12 de abril de 1961.



Como agora vou conseguir manter-me “quieto” e não querer mudar todas as Enciclopédias do mundo? (Pelo menos a Wikipedia em ingles e alemão já mudei oficialmente).
Não é uma questao de orgulho.
Só quero que Dona Eugenia, Bertha Rosanova e Aldo Lotufo tenham seu prestigiado (e justo) lugar na História.
“A César o que é de César”, n’est-ce-pas ?

Idéias?
A minha é simplesmente uma: Passem esta postagem para o maior número posível de pessoas relacionadas ao mundo do Ballet!!!!
Vamos prestigiar a memória dos nossos talentos!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"La Bayadère" revisitada: O Reino das Sombras...



Poucas coisas me deixam tão animado, cheio de energia e excitado como pesquisar, aprender…

„Vibro“ literalmente ao encontrar (ou neste atual caso „reencontro“) um tema ao qual queira me dedicar por um (bom) tempo. A “excitacão” de estar aprendendo, conhecendo, toma conta de mim… fico feliz. Lembro com saudades da época à partir dos meus 14, 15 anos de idade… quando o aprendizado era constante, 24 horas por dia, pois os livros, as peças, os filmes, os ballets, os quadros, os poemas, os pensamentos estavam todos ali esperando por serem descobertos. Com o passar do tempo a gente se torna mais seletivo muitas vezes por uma questão de “gosto”, interesses… Mas mesmo assim…

Nunca tive e nunca terei qualquer ambição didática com este Blog (apesar da postagem de hoje poder dar esta impressão): não estou aqui para ensinar nada a ninguém – senão este Blog não chamaria-se “Tertúlias”, nome que implica numa “troca” de opiniões e acima de tudo na aceitação de opiniões alheias, diferentes das suas. Me disseram que não sei aceitar opiniões diferentes das minhas… Discordo. Questionar opiniões e discutí-las não significa “não aceitá-las” porém “querer compreende-las melhor, sentí-las e até aprender com elas” mas para isto temos que chegar a um ponto de aprendizado e compreensão pessoal no qual estamos completamente livres dos nossos próprios egos, orgulhos e do lado "emocional"…

Estou aqui para dividir com todos coisas que me tocam, coisas das quais gosto, coisas que admiro e coisas que talvez até “abomine” e “convido” todos para deixar aqui seus relatos, discutí-los abertamente...

Infelizmente o tempo torna-se cada vez mais curto para todos e sinto demais a tendencia que muitos tem em “se resumir” num vídeo ou curto pensamento (já li coisas do tipo "estou com calor") que é colocado, sem qualquer outro comentário ou opinião adicional, em plataformas à la “Facebook”. Distancio-me cada vez mais deste tipo de comunicação monologar (e vezes monossílabica) e volto a escrever mais longamente aqui e, quem sabe, talvez um dia me vá até daqui e retorne realmente a escrever só para mim… Coisas d’alma… Não quero a restrição da superficialidade da “obrigação de ser rápido e curto” (“senão ninguém vai ler o que escrevi!”).
Se tudo na vida fosse assim para que existiria o verbo “dissertar”?



Limpando umas prateleiras em casa “caiu” literalmente nas minhas mãos um velho VHS – da montagem de 1992 de Nureyev para a Ópera de Paris de "La Bayadère". Como há anos não assistia nenhum VHS resolvi colocá-lo, mas principalmente (não posso mentir!) para testar se o aparelho ainda funcionava… A febre de “La Bayadère” transformou-se numa "mania", numa epidemia dentro das minhas “quatro paredes”. Há poucos dias comecei a tirar livros de estantes, a imprimir toda e qualquer informação sobre este Ballet (só o relato da Wikipedia tem 28 páginas), a rever outras versões que tinha, estudar um pouco a partitura e cheguei até a encomendar do Amazon algumas outras versões que não conheco. Fascinante como de um momento para o outro nossa mente encontra mais um ponto de “interesse”. Amo estes momentos, estas fases… Claro que descobri muitas coisas interessantes, que se adicionaram ao meu humilde conhecimento deste Ballet – este fato transformou esta postagem um longo relato…

Gosto de contar «estórias» :

Em 1839 uma companhia de autenticas bayadères indianas (e hindus) visitou Paris. Théophile Gautier escreveu inspiradas páginas descrevendo a principal dançarina Amani. Muito depois em 1855 Gautier soube da trágica morte da bailarina que se enforcou num acesso de depressão numa nublada Londres por estar com saudades de sua terra natal… Como homenagem à bayadère ele escreveu o libretto para o Ballet “Sacountala”. O Ballet foi montado em Paris pelo irmão de Marius Petipa, Lucien. Este é o trabalho que muitos consideram como a real inspiração para a “La Bayadère” de Marius Petipa…

Nas últimas semanas “redescobri” para minha extrema satisfação “La Bayadère”, Ballet com música de Ludwig Minkus (que apesar de ter passado 15 anos como compositor oficial do Ballet Imperial Russo, tendo composto “La Bayadère”, “Don Quixote” e “Le Corsaire” - pelos quais ele foi extremamente identificado com a “alma” do ballet russo - era um Vienense que não só nasceu como também morreu aqui).

A linha da estória é simples porém bem melodramática com todos os elementos “amados” pelas platéias de então (La Bayadère estreiou em 1877, no mesmo ano do original "O Lago dos Cisnes", não da versão de Petipa): lugares “exóticos” (India), espíritos (como em Giselle) capazes de coisas sobrenaturais, amor não realizado, intriga, morte, justiça/vingança (no Ballet época muito confundidas...)

A bailarina de templo (a bayadàre) Nikiya e o soldado Solor juram amor e eterna fidelidade. O sacerdote (o Alto Brahmin) está porém apaixonado por Nikiya. O Rajah Dugmanta seleciona Solor para casar com sua filha, Gamzatti, e pobre Nikiya sem desconfiar disso aceita dançar num “noivado”.
O Sacerdote ciumento quer que Solor seja morto e conta ao Rajah a verdade sobre o amor de Nikiya e Solor mas, “o tiro sai pela culatra” e o Rajah ordena a morte de Nikiya. Gamzatti que estava escutando a conversa dos dois ordena que Nikiya venha ao palácio. Quando esta porém descobre sobre o “noivado” de Gamzatti com Solor pega uma faca, numa reação não pensada, e tenta matar Gamzatti, sendo impedida pela Aya desta



Assim como seu pai Gamzatti decide que Nikiya vai morrer.

O segundo ato começa com celebração do noivado na qual Nikiya dança tristemente… quando porém recebe uma cesta de flores, pensa que esta vem de Solor e se alegra. Mal sabe que dentro dessa cesta encontra-se uma víbora, colocada ali por ordem do Rajah e de Ganzatti. Ela coloca a cesta tão próxima ao seu rosto que a cobra a ataca mordendo seu pescoço. O Sacerdote lhe oferece um antídoto mas Nikiya prefere a morte que encontra nos braços de Solor…



No terceiro ato Solor fuma opium e numa euforia de sonho-delírio (ou não?) tem a visão do “Reino das Sombras” (espíritos). Ali ele se reúne a Nikiya.

O quarto ato (ao qual nos referiremos mais tarde) se passa no templo no qual o casamento de Solor e Gamzatti acontecerá. O espírito de Nikiya está presente… Quando o Sacerdote une as mãos do casal em casamento os Deuses se vingam pelo assassinato de Nikiya e destruem não só o templo como também todos seus ocupantes.

FIM

Em algum momento da história, o quarto ato foi “perdido” e o final do Ballet passou a ser o final do III ato, ou seja no “sonho” do “Reino das Sombras” – o que tira muito da dramaticidade desta obra.



Alguns historiadores citaram as possíveis causas para esta drástica mudança: alguns acreditam que depois das enchentes de 1924 em Petrograd (St.Petersburg) a maioria dos cenários e guarda-roupa do IV ato, como encenado no Teatro Mariinsky, foi perdido. Outros dizem que numa Rússia « pós-revolução » não haveriam verbas suficientes para o suntuoso IV ato do Ballet. Uma outra explicação é a falta de técnica nesta fase (pois maquinarias estavam quebradas e não havia dinheiro para consertá-las) para produzir a destruição do templo… Uma última “explicação” sugere que o regime soviético da época não aprovava, por questão de princípios, uma apresentação teatral que incluísse temas como Deuses hindús destruíndo um templo.

Seja qual for a verdadeira razão, só em 1980 o mundo voltaria a ver um quarto ato e o ballet práticamente completamente restaurado…



Eu me lembro que em 1980 Natalia Makarova (acima) recuperou todo o “desaparecido” quarto ato tendo porém que mandar “reconstruir” muito da música pois a partitura se julgava perdida. Ironicamente esta partitura estava na íntegra na Rússia e só Nureyev em 1991 teve acesso a ela para sua versão para a Ópera de Paris em 1992 – apesar dele mesmo ter mantido o que chamou na época de “tradição russa” e ter encenado o Ballet SEM o quarto ato… sem sua “tragédia” final. A ironia é que esta chamada “tradição russa” foi imposta em épocas do comunismo – regime que Nureyev tanto abominava… Eu acho porém que a Nureyev talvez lhe faltaram «forças» - explico depois…

Apesar de « La Bayadére » sempre ter sido considerada um clássico na Russia o “Oeste” não conhecia este Ballet. A primeira apresentação do “Reino das Sombras” (que é na realidade a parte mais conhecida do Ballet e algumas vezes, cada vez mais raramente, encenada independente do Ballet) foi no Palais Garnier em Paris, em 1961. Dois anos mais tarde Nureyev remontou a cena para o Royal Ballet com Margot Fonteyn como Nikiya.



No Brasil muitos bailarinos e público, com exceção daqueles poucos privilegiadaos que tiveram a chance de assistir a montagem de Makarova no ABT, viram pela primeira vez «O Reino das Sombras» no cinema ! Sim, na cena de abertura do filme «The turning Point» (Momento de Decisão, 1977). (Correção do autor em 25.02.2011: Eugenia Feodorova havia montado o terceiro ato no Theatro Municipal com Berta Rosanova e Aldo Lotufo e 16 bailarinas no corpo de baile. Quem tiver a informação do ano desta montagem, por favor entre em contato comigo! Obrigado.)

Eu muito prezo várias partes da crítica que a inteligentíssima crítica de Dança Arlene Croce fez quando comentando a versão de Makarova para o American Ballet Theatre. Aqui um curto pedaço, repleto de percepção e sensibilidade:

“A coreografia, criada 17 anos antes do “definitivo” "Lago dos Cisnes”, é considerada como a maior expressão em grande escala do “sinfonismo” na dança. A matéria do “Reino das Sombras” não é realmente a Morte apesar de que todos, com exceção do herói, estão mortos. É felicidade encenada na eternidade. A sequencia de entrada com seus intermináveis “Arabesques” lentos cria a impressão de um grande «Crescendo» que parece aniquilar o tempo. Não há razão que possa impedir as bailarinas de continuar para sempre… Ballets passaram por gerações como lendas, adquiriram a pátina do ritualismo mas La Bayadère é um ritual real, um poema sobre a dança, a memória e o tempo. Cada dança parece adicionar algo à dança prévia, como um idioma sendo aprendido. O Ballet cresce rápidamente com esta constatação, que no início é sómente uma elocução primordial, e que na “Coda” explode com um explendor articulado” (Livre tradução minha)

Por causa do palco relativamente “pequeno” do Met (em relação ao do Mariinsky) Makarova foi forçada a reduzir o número de bailarinas no “Reino das Sombras” a 24 (originalmente eram 32 – e na “revival” de 1900 de Marius Petipa foram até 48!). O seu maior desafio foi porém o último “perdido” ato já que, como préviamente dito, pensava-se que a partitura original estava perdida. Natalia Makarova não tentou recriar o original de Petipas – apesar deste ter sido mudado infinitas vezes ao passar dos anos, até por Vaganova – e coreografou-o ela mesmo.
A première em 1980 foi triste: Makarova que também dançava o papel de Nikiya, machucou-se durante o primeiro ato e foi substituída por seu “second cast”, Marianna Tcherkassky. Solor foi bailado pelo explendido e incomparável Anthony Dowell e Cyntia Harvey deu vida à Gamzatti.



Makarova encenou «La Bayadère» para o Royal Ballet, para o Ballet do La Scala em Milano, para o Australian Ballet, para o Royal Swedish Ballet, para o Royal Dutch Ballet, para o Ballet do Teatro Colón em Buenos Aires e para o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com Cecília Kerche e Thiago Soares (informação da querida Eliana Caminada, um “dicionário” de Ballet que possuo como querida amiga!). Abaixo Baryshnikov como Solor.



A versão do “Reino das Sombras” que veremos abaixo é da versão de 1992 de Rudolph Nureyev: A administração da Ópera de Paris sabia que esta produção seria o último presente de Nureyev ao mundo, já que sua saúde estava deteriorando-se rápida- e progressivamente pelo seu estado avançado de HIV positivo.



Exatamente por isso, a administração cultural da Ópera deu-lhe uma enorme verba para esta produção com mais fundos vindos de várias doações privadas transformando a produção numa ainda mais suntuosa do que préviamente concebida. Que bonito. Chapeau! Abaixo Sylvie Guillem como Nikiya.



A produção foi um grande sucesso, aclamado pelo público e pela crítica. Apenas tres meses após a estréia Nureyev faleceu.

Aqui o tão comentado “Reino das Sombras”


Mais da próxima vez sobre "O Ídolo de Ouro" (ou como na versão de Makarova "O Ídolo de Bronze").

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Mrs. & Mr. Bailarino... sim, casados!

Antes de começar esta postagem tenho que agradecer a duas queridas amigas pela “inspiração” que me deram: uma delas (que não quer ser mencionada) pelo melhor comentário que já entrou nestas “Tertúlias”. Na minha última postagem sobre um “Tutú” de Margot Fonteyn, ela imaginou que eu estava a falar sobre um “Tutú à Mineira” (Engraçado, a primeira vista, mas se voce pensa bem, nos comportamos às vezes muito arrogantemente por assumir que é óbvio que todos saibam exatamente sobre o que estamos falando). A segunda, a bailarina Eliana Caminada, por colocar tão bem esta questão em palavras e por me reconfirmar, com aquele jeito tao sábio que tem, esta “certa arrogancia” que possuímos! Obrigado, amigas!




Eu tenho a sorte de pertencer, de certa forma, a dois grupos profissionais… e é simplesmente impressionante como o comportamento destes dois grupos, quando comparados, é bastante semelhante.
Como o profissional na área de Turismo & Marketing, “Herr Leitner”, encontro-me com pessoas do mesmo ramo e “falamos Turismo & Marketing” por horas e horas – Pobre de quem estiver junto e não pertencer à esta área…

Mais intensos ainda são os encontros com ex-bailarinos ou artistas.
Simplesmente não se para de falar Ballet e Dança, engolindo-os entre Canapés e Drinks…
E isto só antes de correr para a estante mais próxima para pegar livros, velhos e empoeirados vídeos VHS, os mais novos DVDs (para assistí-los na hora, é claro!) e por aí vai a lista!



Como o “ex-bailarino Ricardo Leitner” aqui um conselho, com todo o grande respeito que nutro pelos maravilhosos profissionais que conheci em minha vida, do fundo do coração:
NUNCA vá à uma reunião de bailarinos se voce não for (ou tenha sido) um!
Pode vir a ser uma das experiencias mais chatas, maçantes e irritantes de sua vida…

Mas depois de uma reunião, ou encontro, cada um volta à sua rotina do dia-a-dia e para sua casa… Imagine porém se voce é casado com uma pessoa da mesma profissão.
Imagine se voce “falasse”, “comesse”, “bebesse”, “ninasse”, “pensasse”, “cozinhasse” Ballet 24 horas por dia. Que maravilha? Para mim, estou certo, não…

Aqui Fred Astaire e a linda Vera-Ellen numa divertida (porém bem desconhecida) cena de “Three little Words” (MGM 1950), outro filme não muito famoso que tem um “cast” divino: Fred, Ellen, Red Skelton, Arlene Dahl e até Debbie Reynolds em sua primeira aparição cinematográfica cantando "I wanna be loved by you.. Booboo-pi-doo"


O número: Mr. and Mrs. Hoofer at Home (Uhmmm... aquele "finesse" americano de colocar o nome do homem antes do da esposa). Um casal de bailarinos no dia-a-dia dançante. Uma delícia!

Não é exatamente “Ballet” no sentido do “clássico” (esta variação em “pointe” e “tutú”, deixo em aberto para a imaginação de voces) mas sim um “routine” mostrando dois dançarinos que são casados e que (até) tem um bebe!!!!

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P.S. Adoraria dedicar esta postagem a todos os casais de bailarinos que “vivem” Ballet juntos, muitas horas do dia – e que AMAM isso! Minha sincera admiração!

P.S. Vera Ellen foi o primeiro caso “oficial” de anorexia. Para mais sobre ela vejam minha postagem de 21/08/2009.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Richard Cragun: Saudades.

Saudades de Richard Cragun. De assistí-lo. De ficar boquiaberto com sua técnica. De ficar tocado com suas inteligentes performances e sua sensibilidade.

Aqui uma pequena homenagem e alguma fotos que encontrei num magnífico livro!

Assisti o inesquecível «Rick» pela primeira vez no meio dos anos 70, no Theatro Municipal no Rio de Janeiro, depois várias vezes em Stuttgart, em Viena em "Wien, Wien nur Du allein..." de Bejárt e também dançando com a linda Aurea Hammerli no Theatro Municipal do Rio de janeiro em "Romeu e Julieta". Quem pode se esquecer dele em “Sacre du Printemps”, em “Requiem”, em “Voluntaries”? e o seu maravilhoso, bem humorado e ao mesmo tempo sensual «Petrucchio» de «A Megera Domada» ?
Por alguma razão, que absolutamente não entendo, o mundo da dança fala pouco desta “lenda” do Ballet , parece pouco se lembrar deste incrível bailarino, que, dotado não só de um magnífico físico, possuía toda uma sensibilidade que nos arrebatava completamente, que nos literalmente "sacudia" interiormente. Até no mundo virtual se encontra muito pouco sobre ele apesar de ser um dos nomes principais do Ballet do século XX (e no Brasil até ter dirigido o Ballet do Theatro Municipal depois de ter deixado a Deutsche Oper em Berlin).



Disseram-me que Richard fazendo aula na sala de Ballet da Academia Tatiana Leskova, na Av. Copacabana (antes de ele e Márcia Haydée terem abandonado completamente as aulas de Leskova) deixava todos até com medo pois o teto era baixo demais para seus saltos. Como tudo que fazia parecia ser "fácil"...

Lembro-me, anos depois, de alguns telefonemas entre Stuttgart (ou Berlin?) e Viena: longas conversas com aquela voz sonora e amável sobre amigos em comum, principalmente sobre a querida Miriam, mae de minhas amigas Silvinha e Eliana Caminada: uma das pessoas mais lindas que conheci nesta vida! Como Rick gostava dela... Quanta delicadeza e sensibilidade ele possui. Pena que nunca o conheci pessoalmente. Talvez um dia.




Richard Romeu? Físicamente, para mim, muito distante da imagem de Romeu que nos foi “imposta”. Mas vendo-o aqui, nesta filmagem da TV alema dos anos 70, com Marcia Haydée (Uma de minhas bailarinas prediletas - para sempre.), passsa-se- a compreender o genio de John Cranko – um dos mehhores coreografos da história – que “farejou” talento nestes magníficos intérpretes. Richard: vamos celebrá-lo mais uma vez e SEMPRE! Quanto talento, quanta sensibilidade, quanta genialidade! ">

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro (e a "Cidade Maravilhosa"): Quo vadis?


O nosso Theatro Municipal no Rio de Janeiro só completou 100 anos. Isto não é muito em termos de história. Principalmente aqui na Europa.
Mas ele, de qualquer forma simboliza e representa toda uma outra época e também a cultura internacional ainda tão prezada no Rio, muito da cidade "maravilhosa" e do pouco que restou dela… Penso como minha amiga Eliana Caminada: "Meu Rio de Janeiro começa no Centro da Cidade e vai até a Av. Niemeyer..." Nunca esquecerei o dia em ela disse isso - Estou de pleno acordo, o meu também!
Cartões postais maravilhosos estes mas ao mesmo tempo assustantes.

Como que numa questão de só 100 anos uma cidade pode mudar tanto? Como pode ter sido tão mutilada e destruída? E tudo isto em nome do chamado „progresso“? É realmente „progresso“ (e qualidade de vida) viver no alto de um prédio como num poleiro? É realmente „progresso“ cortar-se árvores e deixar de ver crianças brincando e rindo nas calçadas da cidade? Deixar de ver idosos nos bancos das praças? Ter que ir a um Shopping porque as casas de Chá, Leiterias, Confeitarias já não mais existem? Toda uma geração de engenheiros e arquitetos deve pensar assim. Vejam o que fizeram com nossas cidades. Vejam só que « cidades maravilhosas » temos hoje em dia no Brasil… Herdeiros do Sr. Niemeyer e seu amor pelo concreto? Infelizmente o trabalho de Niemeyer para mim (estudei também arquitetura) é como “Cinema-Novo”… Envelheceu rápido, antes do tempo, por ser muito vinculado à uma era e situação social muito especial... Se pensar-mos sériamente sobre Juscelino Kubitschek... Bem, meu pai amava o trabalho do Sr. Niemeyer. Este sempre foi um ponto sobre o qual discordávamos profundamente.
Admiro-me até que uma certa « elite » das cabeças « pensantes » do Rio de Janeiro (nota: esta não é minha opinião pessoal) ainda não quiz colocar nosso Theatro, este símbolo, o Museu Nacional de Belas-Artes, a Biblioteca Nacional abaixo como fez com o Palácio do Monroe (que „fechava“ perfeitamente a perspectiva da Cinelandia). Nossa, poderiam-se colocar tantos estacionamentos e Shoppings em todo aquele areal... ou será que pensam que o nosso Templo cultural deveria voltar a ser fechado para Bailes-de-Carnaval? A Ópera de Viena é fechada na mesma época para o Baile da Ópera... mas "Carnaval" como nos anos 60 (e 70?) no Rio, com as pessoas semi-nuas, suadas, bebadas ou vestidas de "hawaianos"? Pobre Theatro - os vexames pelos quais já passastes...

Outro assunto:

Aqui uma pequena e simples homenagem, não aos bailarinos, músicos, cantores, maestros, coréografos, estrelas que atuaram no nosso Theatro, mas sim aos que nunca são mencionados. Nunca. Em nenhum lugar. Todos aqueles que estão nos bastidores e fazem tudo possível. Todos aqueles talentos cheios de habilidades brasileiras.
Aqui, como um exemplo, um programa de 1978… só para citar alguns nomes! Cliquem na imagem para ampliá-la. MUITO OBRIGADO! Voces também fizeram TUDO tornar-se possível!