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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A „Folhinha“, a „Sessão das Duas“ e vários filmes esquecidos.

Gostei muito quando a querida Márcia (a "Paçoca") comentou que tinha gostado da postagem „tipo Sessão da Tarde“ (Judy e Mickey dançando a „Conga“). Esta sua exclamação espontânea trouxe-me, como um presente, boas lembranças.

Remexendo em recortes velhos de jornal, artigos de revistas, programas de teatro, fotos de cinema e muitas recordações dos anos 60, 70 da „famosa caixinha“ encontrei este recorte (acho que do „Jornal do Brasil“) que, creio eu, é dos anos 70: „Star!“ com Julie Andrews foi/ é um filme que adoro – apesar de ter sido um dos maiores fracassos da história do cinema e ter catapultado a carreira de Andrews para um poço de esquecimento durante muitos anos. Um dia falaremos sobre ele.

Deixando tantas recordações passarem por minhas mãos, lembrei-me de um fato gostoso: já nos anos 60 – digamos que com uns 8, 9 anos de idade – eu „colecionava“ estes „quadradinhos“ do jornal sobre os filmes que assistia e gostava. Cliquem no recorte de jornal para ve-los. Naquela época minha principal fonte de informação cinematográfica eram os maravilhosos cinemas do Rio (vide minha postagem de 17.12.2008) e a „Sessão das Duas“ (que sempre começava atrasada) muitos anos antes de ter-se transformado na „Sessão da Tarde“. Lembro-me de uma folhinha de papel (sim só uma) na qual eu colecionava e colava (dos dois lados) estes quadradinhos com o nome do filme (muitas vezes o título original em ingles estava mal escrito, com erros), elenco, a data e uma pequena descrição da estória. Eu colava aqueles recortezinhos de jornal com todo cuidado para nem sujar nem lambusar minha preciosa folhinha importante (usando cola „Polar“, lembram? Era branca, nada parecida à „Goma arábica“ ou „Araldite“ – tirei esta agora do fundo do baú, hein?). Se penso bem, há quarenta anos atrás, aquela folhinha foi o início da minha vida de colecionador, catalogador de coisas em referencia a cinema. Meu primeiro real „Arquivo“. Naquela idade eu já era descaradamente um amante do cinema! Não mudei muito... Este "state of mind", melhor, este "Love Affair" existe até hoje. Raras vezes quando revejo um filme que não "leio" alguma coisa nova nele.

Hoje em dia tenhos meus filmes, meus DVDs (alguns vídeos ainda), CDs (Long-Plays e compactos também; nunca me desfiz deles) e ainda recortes, programas, fotos etc.etc. minuciosamente organizados e catalogados. Encontro tudo.

Mas, aqui entre nós, fiquei com saudades daquela folhinha que foi perdida. Como seria bom te-la ainda… Saudades daquela simplicidade e ingenuidade de criança. Saudades do orgulho que tinha em ter uma folhinha dos MEUS filmes prediletos. Saudades dos tempos em que cada filme de Fred & Ginger era uma emocionante surpresa e descoberta. Saudades do dia em que descobri que já tinha assitido 9 dos 10 filmes que esta dupla tinha feito e de como fiquei orgulhoso. Saudades de chegar em casa do colégio e as vezes almoçar vendo um filme (na TV „Philco“, ainda em preto-e-branco). Saudades de não entender porque todos meus amiguinhos gostavam mais de Ié-ié-ié do que das baladas de Nat „King“ Cole, das Chansons de Jacqueline François, da música de Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin ou dos sucessos mais populares de Doris Day. Ou porque preferiam assistir „Se meu Fusca falasse“ em vez de „Cantando na Chuva“…

Lembro-me ainda de alguns recortes que enchiam aquela folhinha:

Filmes antiquíssimos - quase que invariavelmente da RKO (porque?) – alguns dos quais nunca voltei a rever, como por exemplo:

„Em Pessoa“ (In Person, RKO 1935) com Ginger Rogers - foi dificílimo encontrar uma foto deste filme,

„O Corcunda de Notre Dame“ (RKO, 1939) com Charles Laughton e Maureen O’Hara como „Esmeralda“,
„O céu é o limite“ (The Sky’s the Limit, Columbia, 1943) com Fred Astaire e Joan Leslie,
„No Teatro da Vida“ (Stage Door, RKO, 1937) um „clássico“ de Gregory LaCava com Ginger, Katherine, Ann Miller, Eve Arden, Lucille Ball entre várias outras,
„Espelho d’alma“ (Dark Mirror, 1946) no qual Olivia de Havilland interpretava gêmeas. Um bom film-noir,
„O Covil das Serpentes“ (The Snake Pit, 1948) mais uma vez Olivia, desta vez num hospício (aqui na foto com a adorável Celeste Holm),
„A Mestiça“ (Spitfire, RKO 1934) – um dos mais ridículos títulos em português para um péssimo filme – com Katherine Hepburn,
„Dance, Girl, Dance“ (RKO, 1940) com O’Hara e Ball. Ótimo filme sobre Stripers... (veja minha postagem de 02.06.2008
e „Cleopatra“ (RKO, 1934), com a deliciosa Claudette Colbert no mesmo ano de "Aconteceu naquela Noite" (It happened one Night) e com muita „ousadia“ de Cecil B. de Mille (numa era anterior ao Hays-Code de censura – e isto na „Sessão das Duas“!).


Pena eu não lembrar-me de outros títulos... Sim havia um filme chamado "Stella", sobre uma mulher que foi presa... Do resto nao me lembro... quem eram os atores? Quando foi feito? Nenhuma idéia mais...

- Será que voces conhecem ou lembram-se de algum destes filmes acima?

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Dance, Girl, Dance (1940): I love Lucy???????

„Dance, Girl, Dance“ é um dos poucos filmes “clássicos” de Hollywood feito por uma mulher: Dorothy Azner. Êste filme foi feito com uma relativa “flexibilidade”, bastante comum no sistema de produção da RKO, um estúdio nao muito famoso por investir tempo e dinheiro em ensaios (como no caso da MGM e, depois, da 20th Century Fox).
Hoje em dia existe um interpretação toda “feminista” sôbre este filme – eu considero às vêzes estas interpretações realmente hilárias: é como tudo que anda sendo escrito sobre o “Cinema Nôvo”, ou seja, passamos à interpretar intelectualmente coisas que foram feitas intuitivamente... mas isto é uma tendência natural hoje em dia – tudo parece, no papel pelo menos, ser mais importante do que realmente é...

Este filme nao é nada de especial, na realidade muito trivial. Sómente muito interessante por mostrar Lucille Ball de uma forma muito diferente da qual a conhecemos... este é o único "valor" dele. A estória é simples mas repleta de detalhes bem pitorescos apesar de serem clichées básicos. A disputa entre as duas atrizes principais: Maureen O’Hara, vindo de uma aclamada atuação como Esmeralda no “O corcunda de Notre Dame” e, pasmem, Lucille Ball ainda bem antes de ter sido total- e definitivamente redefinida e reinventada para a comédia e para a TV... O antagonismo entre estes dois personagens é interessantíssimo: Maureen, a bailarininha clássica e Lucille, “Bubbles”, aquela que abandonou o ballet clássico para transformar-se numa rainha de burlesco, dançando até o “Hoola” e com muito “Oooomph” (Até hoje “Ooomph” nao foi realmente definido mas Anne Sheridan, a “Ooomph-girl” deveu sua carreira a êle,). Lucy, corajosa- e descaradamente inspirada pela stripper “Gypsy” Rose Lee, tem dois números musicais, um dêles (“My mother told me”) involvendo parte de sua roupas sendo levadas pelo “vento”. Ela é uma mentirosa manipuladora, uma mulher oportunista e vulgar e de moral “questionável”, que sugere a dose certa da promiscuidade aceita pelo público da época. Mesmo ainda não “redefinida” (seu alter-ego “Lucy Ricardo” ainda estava longe de nascer) ela dá algumas escorregadas nada intencionais no campo da comédia e brilhos daquela cômica maravilhosa em que se transformaria, vêm à tona. Lucille mostra um lindo corpo com umas pernas de dar inveja, só alguns anos depois de suas “figurações” (ainda como uma platinum-blonde) em veículos de Astaire e Rogers (como “Top Hat”, “Follow the fleet” e “Roberta”), seu pequeno e simpático papel no incrível “Stage door” de Gregory LaCava ao lado de Katherine Hepburn, Ginger Rogers, Ann Miller, Eve Arden e várias outas e alguns anos antes de ser transformada “na” readhead glamurosa da MGM em “DuBarry was a lady” com Gene Kelly e Red Skelton, que também não viviria muitos anos.
O STRIP-TEASE: "My mother told me"
Outros números “sérios” musicais – qualquer similaridade à ballet clássico não é intencional e pura e mera coincidência - são realmente muito estranhos (os bailarinos parecem estar vestidos como os habitantes do planêta Mongo – vide Flash Gordon... ) e se alguém disser que há uma referência à coreografia de Gene Kelly para “An american in Paris” (1951), eu pulo do próximo penhasco!

Maria Ouspenskaya repete o papel de professôra de ballet que interpretou no clássico (também de 1940) “Waterloo Bridge” (com Vivien Leigh e Robert Taylor), um filme de muita poesia.
Outro detalhe interessante: o filme foi editado por Robert Wise – que editaria logo em seguida “Citizen Kane” e que se transformaria no famoso diretor de “West Side Story” e “The Sound of Music”.
A estória é da austríaca Vicky Baum – que tinha conhecido “outras” épocas mais “prósperas” e de mais prestígio, como por exemplo durante a época do seu “Grand Hotel” com Garbo...

Em 2007 “Dance, Girl, Dance” foi selecionado para a preservação futura no Registro Nacional do Filme dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso por ser “culturally, historically, or aesthetically significant” – piada esta digna de Lucy...