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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nossa Cidade...

Nunca assisti „Nossa Cidade“ (Our Town) no teatro e só há poucas semanas tive a oportunidade de ver esta maravilhosa peça, pela primeira vez, como um filme de 1940…

Considero “Nossa Cidade” “that kind of stuff” do qual são feitas obras de arte. Já a li e reli tantas vezes desde 2006 que a tenho toda "encenada" dentro da minha cabeça... Quem sabe um dia?????



Minha relação com “Nossa Cidade” (Our Town) é meio oblíqua. Li esta peça pela primeira vez há muitos, muitos anos no Brasil quando ainda era adolescente. Não devo te-la realmente entendido pois nunca dei-lhe o devido valor… Coisas da idade?



Muito, muitos anos depois (para ser preciso 2006) eu estava passando uma longa temporada de 12 semanas no hospital e pedi para minha mãe levar-me a versão original em ingles que tinha comprado numa loja de livros usados algumas semanas antes de me internar. Eu sabia que este livro estava no meio de uma pilha que mantenho na minha mesa de cabeceira: os ainda “não lidos”.

Logo nas primeiras páginas dei-me conta que começava a reler algo importante, algo maravilhosamente bem composto…

Thorton Wilder mais uma vez me fascinou completamente: considero “The Skin of our Teeth” (A Pele dos nossos Dentes) uma das grandes obras do teatro Americano (um dia, com certeza, tertuliaremos sobre “Skin”) mas senti-me mais próximo, mais identificado com o questionamento de “Our Town”. Não é à toa que “Nossa Cidade” recebeu o Pulitzer Prize de 1938; não é à toa…



O “narrador” de “Town” é o “Stage Manager” (o "diretor de Cena"). A particularidade dele é que ele é o único no palco que está ciente da não existencia da “quarta parede” e fala com a platéia diretamente. Em 1969 Henry Fonda fez o "Diretor de Cena"... Junto à Mrs. Gibby da talentosíssima Joan van Fleet)



A peça nos mostra a rotina diária de uma pequena cidade e das casas de duas famílias nos princípios do século XX. Na “Nossa Cidade” a vida ainda é perfeita apesar de tudo estar mudando rápidamente (Em 1938 grande parte da platéia ainda lembrava-se de como a vida tinha sido diferente “só” trinta anos antes), a grama é verde, ninguém tranca suas portas à noite, o leiteiro (que aparece nos tres atos) é tratado como se fosse parte das famílias.

Wilder, sempre inovador, colocou atores na platéia… em certa parte o Diretor de Cena até traz personalidades da “ciencia” para descrever “científicamente” a cidade. Seu uso de cenários foi bem escasso - quase espartanico. Em uma cena onde os dois atores principais, ainda adolescentes, conversam das janelas de seus respectivos quartos enquanto fazem seus "deveres" para a escola, só existe uma única indicação: duas escadas altas e os dois no alto delas.



O plot central se estabelece no primeiro ato entre o filho, George Gibbs, de uma casa e a filha, Emily Webb, da casa ao lado.



No segundo ato eles se casam.



O terceiro ato começa no cemitério da cidade. Ao lado esquerdo do palco um grupo de pessoas assiste um enterro. Do lado direito várias cadeiras, muitas delas vazias. Reconhecemos logo Mrs. Gibbs, mãe de George. Túmulos (Aqui a única foto que encontrei da produção original de 1938. O preciso momento em que George se joga sobre o túmulo de Emily... Em primeiro plano o "Stage Manager").



Do grupo do enterro aparece Emily e se dirige às cadeiras. Ela está morta. Este é o seu espírito que, como todos os que ali estão sentados, ainda não se liberou da vida terrestre.

Os mortos lhe contam que estão ali sómente esperando… esperando esquecer a vida anterior… mas Emily se recusa a aceitar isso. Como poder esquecer? Logo descobre que é possível “re-viver” partes do passado. Apesar de várias advertencias Emily decide “voltar”. Concorda porém voltar num dia “normal” (não de grandes festas!) e escolhe o seu aniversário de 12 anos! Vendo seus pais, seu irmão e George ela se dá conta que as pessoas não “vivem” os momentos, não os prezam, não dão o devido valor à cada situação. Pois cada momento na vida é especial. Tudo nos parece ser “comum e óbvio” – só quando perdemos estes momentos para sempre nos damos conta do quão preciosos eram.
Ela perde sua compostura e começa até a gritar com ela mesma (com a menina de doze anos) e com os outros (que não a vem nem ouvem) dizendo: “Olhem-se, Olhem-se nos olhos! Voces não se dão conta da importancia deste momento?”. Muito angustiante sua impotencia neste momento.

De volta “às cadeiras” ela pergunta ao Narrador se alguém compreende e valoriza a vida enquanto está vivo… ele responde “Não. Talvez os Santos e os poetas. Talvez”. Ela volta para o seu túmulo. O Narrador termina a peça com um curto monólogo e deseja uma boa-Noite ao público.

Wilder nos ilustra a importancia para o Universo das vidas simples, porém significativas como as dos Gibbs e dos Webb, para demonstrar o real valor da apreciação à vida… e como túmulos são na realidade vazios pois as almas já estão em outro lugar depois de "esquecer" a “vida”. Wilder alcança em seus diálogos um nível alto de espiritualidade que em nenhum momento transforma-se em barato esoterismo. Muito pelo contrário. De sua forma também nos mostra como devemos deixar os espíritos "irem", "desprenderem-se" daqui. Deixemos-los em paz.



Há algumas semanas atrás recebi o DVD de “Our Town”, filme de Sam Wood de 1940 com Martha Scott como Emily, Fay Bainter como Mrs. Gibbs e um jovem, bonito e talentoso rapaz de 21 anos chamado William Holden (como voces já devem ter percebido nas fotos acima), de quem muito iríamos ainda ouvir...
Decepcionante é o fato do “Happy-End”. Emily não morreu dando luz à uma criança… Tudo foi “só um sonho”. Infelizmente não foi isso o que Wilder escreveu.

Mesmo assim – com exceção da cena final – tive uma experiencia maravilhosa ao assistir esta peça que tanto me impressionou numa época em que me recuperava de uma grave operação e sentia ter recebido “mais uma chance” para viver. Foi uma coisa muito positiva que vicenciei. Assistir este filme foi para mim como rever antigos amigos. Obrigado por este presente, Mr.Wilder!.



Uma curiosidade: já por outro lado o governo soviético proibiu uma produção de Our Town em 1946, no setor ocupado pelos russos em Berlin por considerar o “drama muito deprimente e capaz de poder inspirar uma onda de suicídios entre os alemães na época pós-guerra”.

domingo, 20 de dezembro de 2009

REMEMBERING: Jennifer Jones

No dia 17 de Dezembro o mundo perdeu mais uma vez uma querida atriz dos áureos tempos de Hollywood: Jennifer Jones ( 2.3.1919 - 17.12.2009).
Como o mundo virtual está „fervendo“ com matérias sobre ela, não vou preocupar-me muito em contar sua história ou ir a fundo nos detalhes de seus filmes.

Gostaria porém de colocar algumas fotos dos meus filmes prediletos com ela. Talvez alguns, que ainda não assisti como „Clunny Brown“, „Love Letters“ ou „Indiscretion of an american Housewife“ venham a entrar nesta lista.

Ela tinha feito em 1939 dois filmes como Phyllis Isley, seu nome verdadeiro, sem o menor exito… Isto antes de passar por um intenso período de „grooming“ no qual transformaram-a em „Star-Material“. Seu primeiro filme como Jennifer Jones trouxe-lhe o Oscar de melhor atriz em 1943 „The Song of Bernadette“. Quatro outras nominações seguiriam no futuro.

Em „Since you went away“ (1944) ao lado de Claudette Colbert, Joseph Cotten, Shirley Temple, Lionel Barrymore e Robert Walker (seu marido na época) entre outros, teve grande exito com público e crítica.
Duelo ao Sol (Duel in the Sun, 1946) como a afetadíssima Pearl Chavez.
No meu filme preferido com ela: o inspirado e sensível O Retrato de Jennie (The portrait of Jennie, 1948), um dos filmes preferidos também de Luís Buñuel (Vejam também minha longa postagem de 14.02.2009 sobre este filme) e um dos mais fascinantes estudos cinematográficos sobre o tempo, o passado, magia....

1949 foi uma ano que lhe trouxe um sucesso imenso em Madame Bovary

e um grande fracasso: A produção inglesa „Gone to Earth“, filme incompreendido na época com um dos finais mais assustantes da história do cinema.

Jennifer afastou-se por três anos das telas, só voltando em 1952 em „Carrie“ onde se presencia a total destruição social e moral de Laurence Olivier, no filme seu amante.

Em 1955 como a médica eurásia, Dr. Han Suyin, ao lado de Bill Holden (de novo sem camisa) em „Love is a many splendored Thing“ (Suplício de uma Saudade), talvez o filme pelo qual até hoje é mais lembrada.

A cena do cigarro é até hoje (como a cena de praia entre Burt Lancaster e Deborah Kerr em „From Here to Eternity“) considerada um momento „erótico“ clássico dos anos 50.
Em „The Barrets of Wimpole Street“ (1957) interpretou a poetisa Elizabeth Barret Browning e numa interessantíssima e forte cena com Sir John Gieguld conseguiu o quase impossível na época: Sem nunca tocar na palavra revela ao público o amor incestuoso que seu pai por ela sentia e abandona a casa para casar-se com Browning.
Mais uma vez se afasta por muitos anos do cinema, voltando em „Tender is the Night“ (Suave é a Noite, 1962) ao lado de Jason Robards, Joan Fontaine e Tom Ewell. Lembro-me de uma descrição uma vez no Jornal do Brasil: „Jennifer Jones que neste filme tem a boca das mulheres que sofrem“ (Como eram bons os tempos mais moldados por sentimentos e sensibilidade, antes desta era tão „cool“ na qual vivemos).
Seu último filme foi „Inferno na Torre“ (The Towering Inferno, 1974) que assisti no „Roxy“ em Copacabana antes de ser dividido em vários cineminhas. Mas sobre este filme nao vale muito a pena falar.
Ela adoeceu sériamente com Parkinson, viu seu segundo marido morrer (o famoso produtor de …e o Vento levou! David O.Selznick) e sua filha de 21 anos se matar.
Agora Jennifer descansou!

Porque sempre me sinto „viúvo“ e „órfão“ ao mesmo tempo quando certos atores/atrizes de Hollywood morrem?

Aqui a inesquecível cena do baile de Madame Bovary - grande trabalho de Vincente Minelli: reparem no "timing" desta cena, principalmente a "extaseante" valsa "brilhante", a partir do quinto minuto deste vídeo, com o jovem e belo Louis Jourdan. Quanto simbolismo... A valsa, a extase, o quase desmaio, o romper dos cristais das janelas... Cinema at its very best!
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Moonglow, Drinks & William Holden: Picnic


Picnic (1955, direção Joshua Logan) é um filme que usa e abusa do „sex-appeal“ de seu ator principal: o bonito William (Bill) Holden. No papel de Hal Carter ele, de certa forma, lembra-me um personagem de Tennessee Williams.

Holden, que na época já tinha cumprido 37 anos, estava um pouco „maduro“ para o papel, já que sua partner, Kim Novak só tinha 23 . Resultado: a maquiagem mais clara o fez parecer mais „fresco“, „jovem“ (As primeiras olheiras, queixo duplo e rugas já apareciam, causadas por anos de extremas bebedeiras) e o cabelo do peito foi raspado para dar-lhe um ar mais „jovial“ nas cenas sem camisa. Fotos de estúdio destas cenas em que ele aparecia "shirtless", com uma contida porém óbvia sensualidade dos anos 50, foram exatamente as usadas para promover o filme – Nascia o "Beefcake" (fotos eróticas masculinas mostrando muita pele) em resposta ao "Cheesecake" (eróticas femininas também mostrando muita pele). Não podemos porém olvidar que "Beefcake" e "Cheesecake" tinham que ser aprovadas pela censura, ou seja, jamais foram muito ousadas.

Estas fotos„contam“ porém uma outra estória.
Não é Kim que rasga sua camisa (como interpretado quando só se conhece as fotos). Rosalind Russell como a sexualmente frustrada professora solteirona é que, bêbada, rasga-lhe as calças (para ver suas pernas) e sua camisa. É a única cena de „violação“ que conheço no cinema na qual a vítima é um homem..

Todo o filme possui este „tom“ de sexualidade reprimida.

O que porém lhe causou as maiores dores de cabeça e puro pânico foi o fato de ter que dançar com Kim Novak. Sim, dançar! (Clark Gable tinha passado em 1939 por um semelhante panico em „…e o Vento levou!“ no qual tinha que chorar. Achava que isto atingiria sua máscula reputação e que os fãs lhe virariam as costas). Logan levou-o para restaurantes de estrada onde ele ficava praticando em frente de „Jukeboxes“ com o coreógrafo do filme.

A filmagem desta famosa cena, que, como o resto do filme, estava sendo feita „in location“ no Kansas, teve que ser interrompida, para o total desespero de Holden, por causa de tornados.

O resto da filmagem foi resumido num „backlot“ em Burbank – e durante todo o tempo Bill estava completamente bêbado. Engraçado pensar-se que ele estava bêbado (na realidade) e que a talentosíssima Rosalind Russell (atuando uma bêbada ninfomaníaca) é a pessoa que o fere, humilha e deixa vestindo farrapos. Um homem muito vulnerável.

„Moonglow“ (de George Dunningan e Steve Allen) transformou-se mum grande sucesso e foi gravada em várias versões. A cena que aterrorizou Holden transformou-se numa das mais „sexy“ da história do cinema. Não importa que os dois as vezes estão práticamente fora de ritmo (e que pobre Novak, ainda loira escura e começando sua carreira, devia estar sofrendo horrívelmente com o hálito de Holden). O que conta é esta pura sensualidade, esta energia entre os dois que faz o ar (e o público) vibrar!
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