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domingo, 23 de março de 2014

Uma cena, um beijo...


São alguns destes poucos e arrebatadores momentos nas telas os que deram ao Cinema o nome de “A sétima Arte”.


Hitchcock, nos deixa aqui boquiabertos: está tudo aí… a maravilhosa camera, as cores difusas, a transformação da vulgar Judy (Kim Novak) na cultivada Madeleine (Kim Novak), a música que nos dá uma “surra” de tanta emoção, o olhar de loucura de Jimmy Stewart (não é suprema loucura uma pessoa querer transformar uma pessoa numa outra?), o cenário – que durante o beijo transforma-se nas cavalariças onde ele uma vez beijou Madeleine… ou Judy… Mas ele não sabe disso…

"Vertigo" descaradamente baseado em "As you desire me" (com Garbo, Melvyn Douglas & Erich von Stroheim) que por sua vez foi inspirado por uma peça teatral de Pirandello

Mas isto realmente importa? Não estou hoje aqui para discutir “Vertigo” como filme… queria só avaliar e reavaliar esta cena, para mim, magnífica, inesquecível, uma obra de arte!

Um daqueles momentos que nos arrebata completamente, que tira nossa respiração, que nos mostra uma "paixão" possessiva e descabida e que, no escuro do cinema, nos faz sonhar, voar longe com atores, atrizes, cores, trilhas musicais, luzes, truques… como eu gosto de deixar “me levar assim” por estes diretores que tão bem entendiam do seu ofício…

Thanks, Hitch!

Sentem-se, relaxem, put your feet up e enjoy! CINEMA no puro sentido da palavra…

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A ingenua noção de Hollywood sobre psicanálise… Tres filmes e um final feliz...


Um destes dias revi „Spellbound“ de Hitchcock apesar de não ter boas memórias desse filme… E estas foram mais uma vez reconfirmadas.
O filme realmente não é do meu agrado.
Nele acho Ingrid Bergman extremamente inexpressiva ao mesmo tempo em que considero Gregory Peck um tanto exagerado, “overplaying” seu papel…


Durante o filme comecei a pensar em outros filmes de Hollywood que trataram do mesmo tema – Psicanálise – nos anos 40.
Este fato revela totalmente a extensão do meu interesse no trabalho de Hitchcock em “Spellbound”… Fiquei sonhando com outros coisas enquanto assistia o filme...
Fui levado por pensamentos, lembranças de outros filmes e até por idéias de como poderia resumir tanta informação para uma “tertúlia”…

Mas como era realmente a psicanálise tratada em Hollywood nos anos 40? Como se tentava enfocar o trabalho daquele “professor Vienense” (Freud) e aquela “ciencia” ainda tão nova e desconhecida?


“Lady in the Dark” (no Brasil “Senhora Escuro”), musical de 1944 estrelado por Ginger Rogers e Ray Milland, trata de Liza Elliot, uma bem sucedida editora de uma revista de moda. Apesar de Liza ser considerada no filme como uma mulher “masculinizada” (pois usa seu cabelo preso e veste sérios blazers clássicos e bem cortados) ela, para o standard atual, está linda. E com muita classe, tenho que adicionar (“Dizem as má línguas” que Ginger estava muito descontente com seu figurino – totalmente necessário para o papel de Eliza – de forma análoga à Kim Novak em “Vertigo” que quase causou uma úlcera a Hitchcock de tanto reclamar de seu figurino –"Vertigo" aliás é um filme que de certa forma lida também com um caso que muito necessitava de severa ajuda psiquiátrica.
Ginger e Kim estavam mais preocupadas com suas imagens do que com os papéis que desempenhavam… E as duas, «entre nous», nunca foram realmente conhecidas por classe e sim, bem mais, pelas suas tendencias à uma certa vulgaridade no setor de figurinos… Mas isto já é tema para uma tertúlia futura).


Baseado num musical da Broadway que foi dirigido por Moss Hart (que dirigiria no futuro Julie Andrews em “My Fair Lady”) e estrelado por Gertrude Lawrence (que seria interpretada por Julie Andrews em “Star!”, filme de 1968), “Lady” foi um grande sucesso.
Sua “fórmula” inovativa encontrou bastante aceitação com o publico da "East coast": quando Liza deitava-se no “divan” para ser analizada, as sequencias musicais começavam…
Nelas tomavam parte todos os personagens que trabalhavam com Liza na Editora e com os quais ela, de uma certa forma, estava envolvida…


O original na Broadway foi um grande sucesso, o filme ao contrário não fez nenhum sucesso... talvez pelo fato da maioria das canções de Kurt Weill (no seu primeiro trabalho nos U.S.A.) terem sido cortadas pelo director: Mitchell Leisen simplesmente odiava o trabalho de Weill… Não é também um prato feito para uma severa análise? Se ele tanto odiava a música de Weill, porque aceitou a direção de um filme que tinha as canções do compositor como tema central na sua estória?


“Spellbound” (1945, no Brasil “Quando fala o coração”) é um trabalho de “Hitch” que levou mais fama pela sequencia dos sonhos (e da análise destes pelo personagem de Bergman) do que pelo seu roteiro, valor e arte cinematográfica! O cenário do “sonho” foi “designed” por ninguém menos do que Salvador Dali (Dali no seu, pelo que me consta, único trabalho em Hollywood). Para quem gosta dele - I don’t - um prato cheio…

(Nota: para quem também gostou do fundo musical de “Rebecca” (Miklos Rozsa) uma ótima dica: o filme práticamente reusou, só 5 anos depois de “Rebecca”, a mesma trilha sonora… Estaria Mr. Selznick poupando?)


O filme começa com as seguintes palavras – certamente bem inovativas para a época:

“Our story deals with psychoanalysis, the method by which modern science treats the emotional problems of the sane. The analyst seeks only to endure the patient to talk about the hidden problems, to open the locker doors of his mind.
Once the complexes that have been disturbing the patient are uncovered and interpreted, the illness and confusion disappear… and the devils of unreason are driven from the human soul”

(Nossa estória trata de psicanálse, o método pelo qual a ciencia moderna trata dos problemas emocionais dos sãos. O analista procura sómente apoiar o paciente a falar dos seus problemas escondidos, a abrir as portas dos armários de sua mente.
Uma vez que os complexos que vem incomodando o paciente são descobertos e interpretados, a doença e a confusão desaparecem… e os demonios da falta de razão são dirigidos para fora da alma humana”) (tradução livre do autor deste Blog)

Não soa isto fácil e extremamente descomplicado? Além de parecer ser coisa rápida… (nos filmes dos anos 40 são rapidíssimas as recuperações… No momento em que o problema é reconhecido, Tcham-Tcham, o paciente está curado!).


Esta introdução de «Spellbound» parece traduzir perfeitamente o que todo o material cinematográfico dos anos 40 de Hollywood pretendia fazer da psicanálise…

Nossos “vizinhos” do hemisfério norte não são realmente conhecidos pela profundeza com as qual deveriam abordar certos temas… Ainda por cima a manipulação de Hollywood “criou” (históricamente provado) idéias e mudanças de comportamento… já escrevi uma vez aqui sobre isso.


“The Snake pit” (no Brasil “A cova da Serpente”, 1948), tem uma “tensão à mais” do que os filmes préviamente citados, já que nos dá a chance de estar com os pensamentos da “doente”, escutando tudo o que pensa, as vozes que ouve… Olivia de Havilland deu um bom desempenho para os padrões da época (pelo menos ela não é uma “paciente” glamourosa e produzida… o que não ficaria nada bem num hospício… mesmo assim: Hollywood sempre surpreendeu nestes casos… ).
Sua personagem é perseguida por fantasmas e interminávies, inexplicáveis torturas, perguntas...


Mas o final, como nos dois prévios filmes, é feliz!
A cura é supreendemente rápida e o final realmente feliz, até bem humorado…

E aí minha pergunta: porque nos tres casos acima citados são os tres finais iguais?
Todas as tres curas são relacionadas aos sentimentos de culpa que os personagens carregavam em si – dois deles (Ginger e Olivia) por terem brigado com “Papai” e este ter morrido brevemente em seguida do desentendimento, fazendo com que a crianca levasse esta «culpa» pela via… O teceiro (Gregory Peck) matou o irmãozinho acidentalente quando criança… um processo de culpa análogo aos dois outros casos.

O mesmo final é a “desvenda” dos problemas dos tres personagens, dos tres filmes.
Complexos de culpa provocados na infancia…

Falta de inventividade Hollywoodiana?
Ou simplesmente o reflexo de nossa sociedade que nos ensina desde a mais tenra idade a sentirmo-nos culpados?
Em casa (“se voce não come não vai crescer” ou “se voce não faz isto-ou-aquilo a mamãe vai ficar triste”… e por aí vai a lista das cobranças), na religião cristã (esta nos faz sentir culpa de tudo, quem faz "arte" não "vai para o céu"!), na escola (quem não “estuda” é “mau-aluno” e tem que sentar-se na última fila) e na sociedade em geral…


E além de tudo isso, a indústria cinematográfica, Hollywood ditando como deveríamos nos sentir?
Como deveríamos nos comportar?
Vamos ser sinceros… não é assim no Cinema até hoje?
Ando tão cansado de ver as pessoas assumindo “valores” para si porque os assistiram no Cinema ou na televisão…
Que bom prato também para umas sessões de análise…

Quo Vadis, personalidade?

terça-feira, 1 de junho de 2010

The painted Veil: Um Cocktail de Adultério, Satie e Somerset Maughan ("avec" suas "pecadoras")

Sempre adorei os livros de Somerset Maughan… Tantas estórias maravilhosas ele nos contou. Quantos arquétipos nos fez reviver... Reencontro na minha estante o primeiro livro dele que li. “Histórias dos Mares do Sul”. Abrindo a primeira página encontro minha jovem assinatura datada de 1977. Somerset, amigo já de “quase uma vida”.

Lembro-me de minha primeira visita a Singapura e do Hotel Raffle’s no início dos anos 80. Lá, no bar principal, debaixo dos ventiladores de teto, bebi um “Singapore Sling” e disse um “Cheers” em sua homenagem, já que este Hotel foi por muito tempo seu “lar” na Ásia.

Talvez sejam todos estes acontecimentos motivos para eu ter apreciado tanto o (para mim novo) filme de um diretor que não conhecia. A nova versão de “The painted veil” do jovem americano (ele nasceu em 1960) John Curran.

Somerset e suas eternas “heroínas”. Muitas delas traidoras, pecadoras, adúlteras.

Entre elas algumas que conseguiram seu «final feliz», ou seja, as que foram perdoadas/ poupadas por Mr. Vaughan. Por exemplo Miss Sadie Thompson de “Rain”, a vulgar prostituta dos mares-do-sul que , sendo práticamente reformada por um missionário fanático, acaba "reformando-o". (Gloria Swanson deu vida à Sadie.

Alguns anos poucos depois Joan Crawford também)
Ou Julia Lambert de “Theatre” (Vide minha tertúlia de dezembro de 2008), um personagem amoral mas tão deliciosamente «humanamente errado», já que inteligente- e incansávelmente vingativo, para ser ignorado… Uma adúltera que nos conquista como leitores – e todos nós torcemos por ela no final da estória que nos é relatada. O que aconteceu depois do final que lemos é parte de nossa imaginação. E como Mr. Maughan nos dá “pano para manga”.

Outras não tiveram tal sorte – Existem aquelas que não só são punidas por muito tempo como também chegam a encontrar a morte…

Sua frustrada e infeliz Sophie de «The Razor’s Edge» (O Fio da Navalha), passa pelo inferno, vai e volta do purgatório não sei quantas vezes durante a vida. Drogada, alcóolatra, abandonada, aniquilada, decandente morre só. Assassinada por algum dos “seus homens”.
Anne Baxter deu uma boníssima interpretação à Sophie (aqui ao lado do Tyrone Power). Mais sobre «The Razor’s Edge», a estória de um homem procurando “outros caminhos”, uma outra vez!

Mildred, a maldita garçonete de «Of human Bondage» (Servidão humana) é tão baixa, tão horrívelmente suja e degradada que sua morte (de sífilis) não nos surpreende… Penso que Mildred seja talvez o personagem mais promíscuo, mais sórdido da literatura.
Tres vezes Mildred apareceu nas telas do cinema : primeiro via uma feroz Bette Davis que, com muita razão, viu neste personagem sua chance ao estrelato (apesar do fato de que todas as atrizes de Hollywood da época não aceitaram este papel). Mesmo assim acho-a caricata, exagerada. Lembro-me de ter suspirado depois de sua morte – pelo menos toda a gritaria num sotaque pseudo-cockney havia parado!

A segunda Mildred que assisti foi a magnífica Eleanor Parker. Atriz com A maiúsculo. Linda mulher que na época devia passar muito distante de qualquer espelho. Para mim a definitiva Mildred.


Sobre a terceira não vale muito a pena se escrever: uma terrível Kim Novak, completamente errada para o papel. Totally miscast!

Também Leslie Crosbie, a adúltera esposa de um dono de uma plantação em “The Letter” - a dramatização de 1927 de sua curta estória “The casuarina Tree”. Ela procura sua morte. Ela práticamente coloca-se nas mãos da mulher que amava verdadeiramente o homem que matou – seu amante. E agindo assim ela mesmo se “executa”. A única das “heroínas” de Somerset que não espera o destino e faz justiça consigo mesma. Uma adúltera que transforma-se - com ajuda - quase numa sacerdotisa. No filme mais uma vez uma feroz Bette Davis exercendo desesperadamente toda a gama de emoções de A a Z (Venetian Blind and all...), tão típica do seu trabalho dos anos na Warner e que lhe renderia muitas nominações ao “Oscar”.

Não sei exatamente o porque de Somerset Maughan ter-se ocupado tanto com o adultério. Algumo motivo deve ter tido.
Talvez, como um documentário sobre sua vida deve ser lançado no próximo ano, tenhamos brevemente uma explicação…

Uma de suas pecadoras sofre longamente, por um tempo que nos parece definitivamente eterno, num inferno que ela mesmo criou para si:
Na primeira versão de The painted Veil/ O Véu pintado, Kitty Fane, uma inglesa diga-se de passagem, tinha sido desempenhada estranhamente por uma Garbo desempenhando "Garbo" (e usando uma sucessão de estranhos turbantes "meio sulamericanos" e incrívelmente “chic”, limpa e sequinha para estar no interior da China durante uma epidemia de cólera no húmido verão!). Aqui o poster alemão – talvez a melhor coisa deste filme!

Esta “nova” versão (2006) de John Curran conta não só com uma excelente e sensível fotografia, eficazes cortes como também com um elenco que age perfeitamente “fiel” à esta esquecida obra. O “ícone” Diana Rigg como a Madre Superiora, Edward Norton como o traído marido e Naomi Watts como Kitty.
Mas não posso deixar de mencionar uma das coisas que povoou meus dias, minha noites, intensamennte depois de ter assistido este filme: o fabuloso uso das “Gnossienes” de Erik Satie e não das muito mais populares “Gymnopédies”.
Um efeito único. Sagaz. Perfeito. De uma “finesse” cenica tão inteligente e sugestiva que até agora, escrevendo sobre elas, acordes voltam vívida- e nítidamente à minha memória. Mais uma vez sensibilidade no Cinema. Num simples detalhe. Só este fato já é motivo suficiente para assistir este filme…

Ouçam…
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P.S. Não faz muito tempo estive na British Bookshop pois procurava alguns ítens. Qual não foi minha surpresa e tristeza ao descobrir que Somerset Maughan (que apesar de seu incrível sucesso NUNCA foi um “queridinho” dos críticos) não está mais “on print”. Sim. Nenhuma editora inglesa imprime mais seu trabalho. Mais um…

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Moonglow, Drinks & William Holden: Picnic


Picnic (1955, direção Joshua Logan) é um filme que usa e abusa do „sex-appeal“ de seu ator principal: o bonito William (Bill) Holden. No papel de Hal Carter ele, de certa forma, lembra-me um personagem de Tennessee Williams.

Holden, que na época já tinha cumprido 37 anos, estava um pouco „maduro“ para o papel, já que sua partner, Kim Novak só tinha 23 . Resultado: a maquiagem mais clara o fez parecer mais „fresco“, „jovem“ (As primeiras olheiras, queixo duplo e rugas já apareciam, causadas por anos de extremas bebedeiras) e o cabelo do peito foi raspado para dar-lhe um ar mais „jovial“ nas cenas sem camisa. Fotos de estúdio destas cenas em que ele aparecia "shirtless", com uma contida porém óbvia sensualidade dos anos 50, foram exatamente as usadas para promover o filme – Nascia o "Beefcake" (fotos eróticas masculinas mostrando muita pele) em resposta ao "Cheesecake" (eróticas femininas também mostrando muita pele). Não podemos porém olvidar que "Beefcake" e "Cheesecake" tinham que ser aprovadas pela censura, ou seja, jamais foram muito ousadas.

Estas fotos„contam“ porém uma outra estória.
Não é Kim que rasga sua camisa (como interpretado quando só se conhece as fotos). Rosalind Russell como a sexualmente frustrada professora solteirona é que, bêbada, rasga-lhe as calças (para ver suas pernas) e sua camisa. É a única cena de „violação“ que conheço no cinema na qual a vítima é um homem..

Todo o filme possui este „tom“ de sexualidade reprimida.

O que porém lhe causou as maiores dores de cabeça e puro pânico foi o fato de ter que dançar com Kim Novak. Sim, dançar! (Clark Gable tinha passado em 1939 por um semelhante panico em „…e o Vento levou!“ no qual tinha que chorar. Achava que isto atingiria sua máscula reputação e que os fãs lhe virariam as costas). Logan levou-o para restaurantes de estrada onde ele ficava praticando em frente de „Jukeboxes“ com o coreógrafo do filme.

A filmagem desta famosa cena, que, como o resto do filme, estava sendo feita „in location“ no Kansas, teve que ser interrompida, para o total desespero de Holden, por causa de tornados.

O resto da filmagem foi resumido num „backlot“ em Burbank – e durante todo o tempo Bill estava completamente bêbado. Engraçado pensar-se que ele estava bêbado (na realidade) e que a talentosíssima Rosalind Russell (atuando uma bêbada ninfomaníaca) é a pessoa que o fere, humilha e deixa vestindo farrapos. Um homem muito vulnerável.

„Moonglow“ (de George Dunningan e Steve Allen) transformou-se mum grande sucesso e foi gravada em várias versões. A cena que aterrorizou Holden transformou-se numa das mais „sexy“ da história do cinema. Não importa que os dois as vezes estão práticamente fora de ritmo (e que pobre Novak, ainda loira escura e começando sua carreira, devia estar sofrendo horrívelmente com o hálito de Holden). O que conta é esta pura sensualidade, esta energia entre os dois que faz o ar (e o público) vibrar!
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sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Supporting actors/actresses IV: Elsa Lanchester

A quarta postagem desta série segue distintos nomes do teatro e cinema como Mary Boland (agôsto de 2008), Gladys Cooper (outubro de 2008) e Jean Hagen (november de 2008) é dedicada a outro rosto que vimos e revimos muitas vêzes ao passar dos anos: a deliciosa Elsa Lanchester
Lanchester, nasceu na Inglaterra em 1902, filha de um casal que não acreditava na instituição chamada casamento (Lanchester: “My parents were always a bit arty. They supported pacifism, vegetarianism, socialism, atheism, and all that”). Aos 10 anos de idade ela foi enviada para Paris para a “Isadora Duncan School of Dance”, pessoa aliás de quem ela nada gostou, mas voltou em 1914 para Londres por causa da I Guerra Mundial. Ela gostava da dança mas também do teatro e debutou num “Music-Hall” como bailarina egípcia em 1920. No West-End ela debutou em 1922 e junta com seu partner, Harold Scott, abriu um “Night Club” em 1924. Nêste eles apresentavam peças de um só ato de Tchekov e Pirandello, além de cantar canções de cabaré. Entre os frequentadores estavam pessoas como Aldous Huxley, o engracadíssimo e espirituoso H.G.Wells (que escreveria três roteiros para filmes que ela faria em 1928), Evelyn Waugh (o grande autor de “Brideshead revisited”, responsável pelo primeiro filme – amador – de Lanchester em 1927) e James Whale, que trabalhava nos palcos londrinos e que brevemente iria dirigir peças na Broadway e alguns clássicos de terror (Mais sobrê sua vida em “Gods and Monsters”, um bom filme).





Elsa não era bonita, num estilo convencional mas mesmo assim, jovem, ela era considerada “pretty”. Posou nua para muitos artistas, deu muitas aulas de dança para crianças, fundou um teatro infantil em Soho e têve a grande publicidade de ter um membro da família real deixar indignado uma apresentação sua, no “Midnight Follies”, enquanto cantava “Please Sell no more Drinks to my Father”. Como o mundo mudou... nao é verdade?

Em 1927 Lanchester começou uma relação profissional com um ator, que nos próximos anos e décadas transformaria-se num “monstro sagrado”: Charles Laughton. Eles casaram-se em 1929 e dois anos depois, chegando em casa encontrou-o no sofá da sala "divertindo-se" com um jovem rapaz, tomando assim pleno conhecimento da sua homossexualidade. Quando lhe indagaram o que fez na época, como reagiu, ela simplesmente respondeu: “Claro que eu vendi o sofá”. Êles permaneceram casados até a morte de Laughton em 1962.Eles tiveramcarreiras separadas apesar de terem muitas vezes trabalhado juntos como por exemplo no suntuoso “The private Life of Henry VIII” ( Korda, 1933) no qual uma novata chamada Merle Oberon interpretou Ann Boleyn e roubou o filme, “Rembrandt” (Korda, 1936, uma das raras apariçôes cinematográficas de Gertrude Lawrence), “Beachcomber” (1938 , foto abaixo) e “Testemunha de acusação” (Witness for prosecution, 1957, Billy Wilder), êle, inesquecível, como o advogado de defesa, ela como sua engraçadíssima enfermeira.




No início dos anos 30 Elsa ja tinha feito West-End, Broadway e Cinema na Inglaterra.Hollywood entraria brevemente em sua vida. Ela fez pouquíssimos filmes e muito decepcionada pensava num retôrno à Inglaterra. Então James Whale, seu velho amigo de Londres, já muito famoso no "Hollywood Firmament" (Thank you, Lina Lamont, peguei esta emprestada... )depois do seu “Frankenstein” (1931) e de “Invisible Man” (1933), ofereceu-lhe o papel principal de “The Bride of Frankenstein”, que se tornaria o filme pelo qual seria mais lembrada... Whale queria Elsa para dois papéis: Mary Shelley e a “Noiva”. Ela foi a atriz principal do filme mas não recebeu “Top-billing”

As filmagens foram uma tortura para Elsa e nada como uma “lua-de-mel” para esta “noiva”. Durante dez dias ela usou maquiagem pesadíssima, seu corpo completamente envolvido por “quilômetros” de bandagens, seu “penteado” sustentado por uma armação de ferro, seus olhos (reparem como estão “abertos” e separados) estavam lateralmente prêsos por fitas adesivas debaixo de sua peruca e acentuam seu olhar de “horror”. Tudo uma perfeita agonia e uma tortura para Elsa. Mas o resultado é fenomenal, nao acham? Encontrei a pouco tempo estas fotos que me tocaram muito: sente-se com qual cuidado e minúcia ela aplicava os últimos retoques ao seu personagem. Gosto muito destas fotos...








Achei fascinante descobrir que os gritos da “Noiva” foram baseados nos cisnes do Regent’s Park e que foram inicialmente gravados e depois colocados ao inverso, efeito este que os transformou em gritos muito mais fantasmagóricos. Elsa: “The most memorable thing I did on that film, I believe, was my screaming. In almost all my films since I’ve been called upon to scream. I don’t know if it is by chance but I would like to think that I am not hired for that talent alone”. “The Bride of Frankenstein”, considerado por alguns como o melhor filme de horror de tôdos os tempos, possui esta interpretação icônica de Elsa.

Muitas vêzes imitada mas NUNCA ridicularizada... Nem mesmo por Madeline Khan em “Young Frankenstein” (“O jovem Frankentein”, Mel Brooks)




Lanchester trabalhou constante- e excelentemente em vários excelentes filmes, sendo até nominada para um Oscar em 1949 por “Come to the Stable”. Entre seus filmes “Androcles and the Lion” (1952), “ Les Miserables” (1952), “The Razor’s Edge” (1946 e baseado no livro homonimo de Sumerset Maughan!!!!!! Uma maravilha esquecida... ), “David Copperfield” 1935), “ Naughty Marietta” (1935), “Tales of Manhattan” (1942), “The glass slipper” (MGM 1955 como a madrasta de Cinderella/Leslie Caron), no misterioso e de boníssimo gosto “Bell, book and candle” (1958, como a tia “bruxa” da também bruxa Kim Nowak, a irmã de Jack Lemmon e apaixonada de James Stewart),

no magnífico “Witness for prosecution” (1957) ao lado de seu marido Charles Laughton e Tyrone Power e Marlene Dietrich, “Mary Poppins” (1964) no minúsculo papel de Katie Nana


e no hilário “Murder by death” (1976, seu penúltimo filme) como uma “Miss Marple” ao lado de um grande cast de “detetives” que incluía David Niven (com quem tinha trabalhado em “The Bishop’s wife” de 1947), Maggie Smith, Nancy Walker, Estelle Winwood (a grande "coadjuante" e deliciosa atriz com quem também já tinha trabalhado em “The glass slipper” e que brevemente terá aqui uma postagem), Alec Guiness, Peter Falk, Peter Sellers, Eileen Brennan e vários outros...
Seu último filme, entre quase 70 títulos, foi “Die Laughing” (1980).

Elsa uma vez, quase no final de sua vida reflexionou sobre sua carreira:


“...longos papéis em filmes terríveis, curtos papéis em filmes maravilhosos... “


mas para mim sua melhor exclamação foi:


“ Para mim o estrelato só significa trabalho duro, aspirinas e purgantes... “


Elsa morreu de pneumonia em finais de 1986 com 84 anos.