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sábado, 2 de fevereiro de 2013

A ingenua noção de Hollywood sobre psicanálise… Tres filmes e um final feliz...


Um destes dias revi „Spellbound“ de Hitchcock apesar de não ter boas memórias desse filme… E estas foram mais uma vez reconfirmadas.
O filme realmente não é do meu agrado.
Nele acho Ingrid Bergman extremamente inexpressiva ao mesmo tempo em que considero Gregory Peck um tanto exagerado, “overplaying” seu papel…


Durante o filme comecei a pensar em outros filmes de Hollywood que trataram do mesmo tema – Psicanálise – nos anos 40.
Este fato revela totalmente a extensão do meu interesse no trabalho de Hitchcock em “Spellbound”… Fiquei sonhando com outros coisas enquanto assistia o filme...
Fui levado por pensamentos, lembranças de outros filmes e até por idéias de como poderia resumir tanta informação para uma “tertúlia”…

Mas como era realmente a psicanálise tratada em Hollywood nos anos 40? Como se tentava enfocar o trabalho daquele “professor Vienense” (Freud) e aquela “ciencia” ainda tão nova e desconhecida?


“Lady in the Dark” (no Brasil “Senhora Escuro”), musical de 1944 estrelado por Ginger Rogers e Ray Milland, trata de Liza Elliot, uma bem sucedida editora de uma revista de moda. Apesar de Liza ser considerada no filme como uma mulher “masculinizada” (pois usa seu cabelo preso e veste sérios blazers clássicos e bem cortados) ela, para o standard atual, está linda. E com muita classe, tenho que adicionar (“Dizem as má línguas” que Ginger estava muito descontente com seu figurino – totalmente necessário para o papel de Eliza – de forma análoga à Kim Novak em “Vertigo” que quase causou uma úlcera a Hitchcock de tanto reclamar de seu figurino –"Vertigo" aliás é um filme que de certa forma lida também com um caso que muito necessitava de severa ajuda psiquiátrica.
Ginger e Kim estavam mais preocupadas com suas imagens do que com os papéis que desempenhavam… E as duas, «entre nous», nunca foram realmente conhecidas por classe e sim, bem mais, pelas suas tendencias à uma certa vulgaridade no setor de figurinos… Mas isto já é tema para uma tertúlia futura).


Baseado num musical da Broadway que foi dirigido por Moss Hart (que dirigiria no futuro Julie Andrews em “My Fair Lady”) e estrelado por Gertrude Lawrence (que seria interpretada por Julie Andrews em “Star!”, filme de 1968), “Lady” foi um grande sucesso.
Sua “fórmula” inovativa encontrou bastante aceitação com o publico da "East coast": quando Liza deitava-se no “divan” para ser analizada, as sequencias musicais começavam…
Nelas tomavam parte todos os personagens que trabalhavam com Liza na Editora e com os quais ela, de uma certa forma, estava envolvida…


O original na Broadway foi um grande sucesso, o filme ao contrário não fez nenhum sucesso... talvez pelo fato da maioria das canções de Kurt Weill (no seu primeiro trabalho nos U.S.A.) terem sido cortadas pelo director: Mitchell Leisen simplesmente odiava o trabalho de Weill… Não é também um prato feito para uma severa análise? Se ele tanto odiava a música de Weill, porque aceitou a direção de um filme que tinha as canções do compositor como tema central na sua estória?


“Spellbound” (1945, no Brasil “Quando fala o coração”) é um trabalho de “Hitch” que levou mais fama pela sequencia dos sonhos (e da análise destes pelo personagem de Bergman) do que pelo seu roteiro, valor e arte cinematográfica! O cenário do “sonho” foi “designed” por ninguém menos do que Salvador Dali (Dali no seu, pelo que me consta, único trabalho em Hollywood). Para quem gosta dele - I don’t - um prato cheio…

(Nota: para quem também gostou do fundo musical de “Rebecca” (Miklos Rozsa) uma ótima dica: o filme práticamente reusou, só 5 anos depois de “Rebecca”, a mesma trilha sonora… Estaria Mr. Selznick poupando?)


O filme começa com as seguintes palavras – certamente bem inovativas para a época:

“Our story deals with psychoanalysis, the method by which modern science treats the emotional problems of the sane. The analyst seeks only to endure the patient to talk about the hidden problems, to open the locker doors of his mind.
Once the complexes that have been disturbing the patient are uncovered and interpreted, the illness and confusion disappear… and the devils of unreason are driven from the human soul”

(Nossa estória trata de psicanálse, o método pelo qual a ciencia moderna trata dos problemas emocionais dos sãos. O analista procura sómente apoiar o paciente a falar dos seus problemas escondidos, a abrir as portas dos armários de sua mente.
Uma vez que os complexos que vem incomodando o paciente são descobertos e interpretados, a doença e a confusão desaparecem… e os demonios da falta de razão são dirigidos para fora da alma humana”) (tradução livre do autor deste Blog)

Não soa isto fácil e extremamente descomplicado? Além de parecer ser coisa rápida… (nos filmes dos anos 40 são rapidíssimas as recuperações… No momento em que o problema é reconhecido, Tcham-Tcham, o paciente está curado!).


Esta introdução de «Spellbound» parece traduzir perfeitamente o que todo o material cinematográfico dos anos 40 de Hollywood pretendia fazer da psicanálise…

Nossos “vizinhos” do hemisfério norte não são realmente conhecidos pela profundeza com as qual deveriam abordar certos temas… Ainda por cima a manipulação de Hollywood “criou” (históricamente provado) idéias e mudanças de comportamento… já escrevi uma vez aqui sobre isso.


“The Snake pit” (no Brasil “A cova da Serpente”, 1948), tem uma “tensão à mais” do que os filmes préviamente citados, já que nos dá a chance de estar com os pensamentos da “doente”, escutando tudo o que pensa, as vozes que ouve… Olivia de Havilland deu um bom desempenho para os padrões da época (pelo menos ela não é uma “paciente” glamourosa e produzida… o que não ficaria nada bem num hospício… mesmo assim: Hollywood sempre surpreendeu nestes casos… ).
Sua personagem é perseguida por fantasmas e interminávies, inexplicáveis torturas, perguntas...


Mas o final, como nos dois prévios filmes, é feliz!
A cura é supreendemente rápida e o final realmente feliz, até bem humorado…

E aí minha pergunta: porque nos tres casos acima citados são os tres finais iguais?
Todas as tres curas são relacionadas aos sentimentos de culpa que os personagens carregavam em si – dois deles (Ginger e Olivia) por terem brigado com “Papai” e este ter morrido brevemente em seguida do desentendimento, fazendo com que a crianca levasse esta «culpa» pela via… O teceiro (Gregory Peck) matou o irmãozinho acidentalente quando criança… um processo de culpa análogo aos dois outros casos.

O mesmo final é a “desvenda” dos problemas dos tres personagens, dos tres filmes.
Complexos de culpa provocados na infancia…

Falta de inventividade Hollywoodiana?
Ou simplesmente o reflexo de nossa sociedade que nos ensina desde a mais tenra idade a sentirmo-nos culpados?
Em casa (“se voce não come não vai crescer” ou “se voce não faz isto-ou-aquilo a mamãe vai ficar triste”… e por aí vai a lista das cobranças), na religião cristã (esta nos faz sentir culpa de tudo, quem faz "arte" não "vai para o céu"!), na escola (quem não “estuda” é “mau-aluno” e tem que sentar-se na última fila) e na sociedade em geral…


E além de tudo isso, a indústria cinematográfica, Hollywood ditando como deveríamos nos sentir?
Como deveríamos nos comportar?
Vamos ser sinceros… não é assim no Cinema até hoje?
Ando tão cansado de ver as pessoas assumindo “valores” para si porque os assistiram no Cinema ou na televisão…
Que bom prato também para umas sessões de análise…

Quo Vadis, personalidade?

sábado, 16 de julho de 2011

The small Woman (1957, Alan Burgess)

Animadíssimo para assitir amanhã Liza Minelli aqui em Viena peguei-me refletindo sobre a força destas mulheres “pequenas”. Quero dizer “baixinhas” mesmo… Sim.

Liza é um desses exemplos (Quanto talento e força dentro daquele corpo de pequena estatura). Minha avó também foi uma dessas fortes mulheres. Esta costumava sempre dizer:
“Nos pequenos frascos se encontram os melhores perfumes” adicionando depois de uma bem refletida pausa dramática “e os piores venenos!”.
Mas não é verdade?


Reecontrei hoje por acaso um livrinho que comprei aqui em Viena numa tarde ensolarada de um dia em fevereiro de 1983. Lembro até hoje desse dia. Um livro adorável chamado “The small Woman” – a estória de coragem e força de uma “mulher pequena”. De uma mulher sem instrução que vinha de uma família bem proletária londrina. De uma mulher que aos 27 anos de idade – depois de ter sido recusada por todas as instituições de missionários por sua falta de «background» foi só para a China, seguindo o que acreditava ser seu destino. De uma mulher que influenciaria fortemente muitos destinos e salvaria muitas vidas de crianças numa China em guerra invadida por forças japonesas em 1938.


Seu nome foi Gladys May Aylward (em chines: 艾偉德 ). Uma heroína!

Sua primeira «residencia» na China seria com a missionária inglesa Jeannie Lawson na “Morada da sexta felicidade” (Nome escolhido, para despertar curiosidade, para um “hotel” para viajantes no qual contavam estórias – na maioria das vezes bíblicas).

Um bonito detalhe: Os chineses desejam-se cinco felicidades… Riqueza, longevidade, boa saúde, virtude e uma morte em paz na velhice… Deve-se decidir por si mesmo o que vem a ser para si a “sexta felicidade”.


Em 1958 a vida de Gladys foi filmada por Hollywood… A pobre, que havia retornado para a Inglaterra e que tentara em vão voltar à China (um visto de entrada lhe foi recusado pelo governo comunista), estava já nessa época vivendo em Taipei onde tinha aberto o orfanato que administraria até sua morte, aos 68 anos, em 1970, ficou bastante “insultada” pela forma com a qual sua vida foi tratada.


Insultada não realmente pelas liberdades que foram tiradas em termos históricos mas pelo fato de Ingrid Bergman, uma mulher “alta” (e o livro do ano anterior ao filme de Alan Burgess chama-se realmente “The small Woman”), loira e de sotaque escandinavo, interpretá-la. Gladys era não só pequenina mas bem morena e possuía um forte sotaque proletário “cockney” (e não negava suas raízes). Mas o fato de terem transformado o seu “love interest” (no filme um terrível Curd Jürgens meio travestido de chines) num “Eurásio” como que para assim não “chocar” o público americano com um romance “interracial”, foi a gota que fez o copo transbordar. Gladys tinha muito orgulho desse amor que perdeu para sempre durante a guerra (Ela também achou, como a pessoa simples e até rude que era, que as cenas de amor foram muito exageradas e que passavam uma impressão deturpada de sua pessoa).


Agora, posso ser sincero? Eu adoro este filme… sempre adorei!
Fecho de certa um olho, esqueço que Bergman era (em todos os sentidos) bem diferente da “small woman” (Mina amiga Danielle e eu estamos de acordo que não gostaríamos de ter Ingrid como parente… ), tento esquecer que Curd Jürgens está ali, presente no filme e deixo-me levar por outros personagens como o Mandarim (o fabuloso Robert Donat de “Adeus, Mr. Chips!”), Jeannie Lawson (Athene Seyler), Hok-A (Michael David) e o engraçado Yang (Peter Chong).

Sim, “the small women”…

terça-feira, 30 de março de 2010

Trocando os papéis... Alternando papéis no Ballet, no Teatro e no Cinema!

Na história do Teatro, do Ballet e do Cinema existem célebres “trocas de papéis”. Eu as admiro...

Considero dois exemplos (um no Ballet, outro no Teatro) extremamente interessantes: a constante troca entre Anthony Dowell e David Wall no Ballet der Sir Frederick Ashton “Manon Lescaut”. Aqui Wall como o calculista “Lescaut”, irmão de Manon.

Certamente esta atitude levou os dois “Danseurs” à uma melhor compreensão dos papéis, dos motivos de “Lescaut” e de “Chevalier DesGrieux”.
Gostaria muito de ter visto Dowell como o cínico Lescaut. Nunca tive esta oportunidade. Reparem nesta foto… a pureza de Wall como DesGrieux contrastatada à frieza de Dowell como Lescaut. Que foto magnífica!

No teatro ingles, uma similar situação causou um grande furor nos anos 30. Laurence Olivier e John Gieguld (os dois no futuro seriam transformados em “Sirs”) trocaram, em "Romeu e Julieta", os papéis de Romeu e Mercutio. Esta produção gerou um pequeno escândalo, entre os “connoisseurs” shakespearianos, pela “nota” homosexual que os dois deram à relação entre Romeu e Mercutio. Aqui um jovem Gieguld, que muito iria sofrer na Inglaterra por causa de sua homosexualidade.
Ambos atores confessaram ter avançado muito na sua compreensão destes complexos personagens. Imaginem só, um dia Olivier como Mercutio e no outro como Romeu (compreendendo de dentro de seu Romeu toda a amizade e amor que Mercutio por ele sente – e vice versa. Empatia pura, não é?). Fascinante!
Alguém ainda se lembra de como Laurence Olivier era atraente nessas épocas?

Eu, até hoje, no trabalho, gosto que os empregados da firma “troquem” de emprego durante alguns dias… a confusão é grande, mas o resultado, a compreensão que é alcançada entre os diversos departamentos é uma coisa inigualável!

No cinema, por motivos óbvios, não existiram “trocas diárias” como feitas no teatro ou no Ballet. Mas papéis foram as vezes dados para atores que não estavam previstos para interpretá-los.
Pensem na produção de “Dr. Jekill & Mr. Hyde” (O Médico e o Monstro) com Spencer Tracy, Ingrid Bergman e Lana Turner. Por razões óbvias, Lana Turner (pelo fato der mais “óbvia”) estava escalada para o papel da “garçonete” que tem um caso com Mr. Hyde. Ingrid, que ía interpreter a “boazinha” noiva de Dr. Jekyll, sugeriu a troca de papéis. Lana virou «a pura».

Ingrid conseguiu não só roubar o filme como também fazer um grande sucesso de público e crítica – exatamente por libertar-se, por um curto período, do clichée, do «espartilho» no qual Hollywood estava colocando-a (e depois colocou definitivamente – Bergman necessitaria anos de “exílio” e uma ligação amorosa e, para a época, escandalosa, com Rossellini para um dia não ser mais “typecast”).
Logo Bergman. Mulher que só tinha uma coisa em meta. Sua carreira! Mas isto já é uma outra estória para outro dia…

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Algumas Estórias sobre "Casablanca" (Warner, 1942)

Umas estórias que juntei e guardei sobreCasablanca“.


„Everyone comes to Rick’s“, uma peça teatral criada por Murray Bennett e Joan Allison, foi a inspiração para o filme „Casablanca“ (Warner, 1942). Apesar de ser em vários pontos completamente diferente do roteiro final do filme, a maioria dos personagens e o „plot“ básico são os mesmos. Bennett e Allison receberam $ 20.000 da Warner pela sua peça - que nunca foi produzida – e até o final de suas vidas arrependeram-se amargamente por terem vendido os direitos autorais por tão pouco.

“Casablanca”, um filme eterno, que não envelhece (e pelo menos no momento, ainda um filme sobre o qual não se está planejando um “remake”). Alguém pode esquecer do "Rick's Café Américain"????

Difícil escrever sobre este clássico. Aqui alguns detalhes sobre a estória deste eterno milagre cinematográfico, que ainda nos fascina.
Rick Blaine (no original um advogado expatriado, divorciado, que não é uma figura nada heróica, possui um Night Club em Casablanca, no qual se apresenta uma "Band“ de jazz composta por negros, e que tem uma amizade bem cínica com o chefe da polícia) transformou-se, no filme, num homem íntegro que se envolvia em causas políticas liberais, que lutava pela paz – um ativista político que até lutou na Guerra Civil Espanhola contra Francisco Franco. Um papel definitivo para Humphrey Bogart, que transformou-se num Astro de primeira magnitude depois deste filme.
Lois Marshall, uma „aventureira com um passado“, uma mulher americana, cínica e amoral, que estava disposta a dormir com Rick para obter os „vistos de saída“ para ela e seu marido, Victor Lazlo, transformou-se em Ilsa Lund – óbviamenrte uma européia – uma mulher correta, não tão engajada políticamente mas óbviamente corajosa. Personagem perfeito para a jovem Ingrid Bergman (Detalhe: no original Rick havia-se divorciado por causa de Lois – esta depois deixou-o por Lazlo… Rick a amava e a odiava por isto. Nada daqueles personagens com “mais moral” como conhecemos do filme…).
O original Victor Lazlo, um homem sem força foi transformado num brilhante e corajoso trabalhador da Resistencia – interpretado pelo austríaco Paul Henreid (Mas se ele era tão respeitado e admirado, qual a razão dos franceses terem começado a cantar „La Marseillaise“ – para abafar o „Die Wacht am Rhein“ dos Nazistas – só depois de Rick ter dado seu „OK“? Henreid reclamou muito desta cena, tirava a credibilidade de seu personagem).

O “Comissário” foi extremamente desenvolvido para o filme – um papel cheio de sarcasmo e ironia. Claude Rains deu “um banho” como Louis (que no original seria « Rinaldo »).
O Strasser (o comandante “Nazi”) da peça não era tao antipático como no filme. Quando a peça foi escrita os U.S.A. ainda não tinham entrado na II Guerra Mundial e a necessidade de uma propaganda anti-nazista ainda não existia (incrível pensar que Hitler foi votado “O Homem do Ano” nos U.S.A. pelo "Times Magazine" em 1938… Fato este que não é tocado mais hoje em dia... mais um capítulo esquecido da história americana, como tantos outros). Engraçado pensar que este protótipo do Nazista (Strasser) foi interpretado justamente pelo alemão Conrad Veit, grande ator por sinal, que era um grande oponente, na realidade um inimigo, do Nacional Socialismo e tinha deixado a Alemanha exatamente por este motivo. Na foto acima o sarcasmo deste filme: o alemão e o frances – quando é hora de ser oportunista esquece-se até de que lado se está…


Num pequeno papel, daqueles inesquecíveis, o magnífico ator Peter Lorre (outro austríaco) interpretando um “pequeno ladrão” – Lorre comecou sua carreira internacional na Alemanha no (assustante) “M, o Vampiro de Düsseldorf” e já tinha trabalho com Bogart em “The Maltese Falcon” (Adoro-o bailando no número "Siberia" do maravilhoso “Silk Stockings” como um dos “camaradas”).

Um terceiro austríaco trabalhou neste filme: o incrível e simpático comico S.Z.Sakall que tem uma cena inesquecível... Falando um péssimo ingles (como a maioria dos austríacos e alemaes que jamais perdem o "acento" e falam como que com uma batata quente na boca; isto além dos erros gramaticais... imperdoáveis! ), ele explica a Rick que já fala muito bem e que nao terao problemas na América, para onde querem imigrar - e pergunta demonstrativamente à sua esposa, indicando com o dedo o relógio: "Mama, which watch?" e ela responde, super orgulhosa: "Papa, four watch"...


Quase que o personagem de Sam (Dooley Wilson, que canta “As times goes by” – uma canção aliás ODIADA por Max Steiner, compositor do fundo musical), transformava-se numa “Samantha”. A Warner pensava em colocar esta canção interpretada por uma cantora negra e considerou Lena Horne e até Ella Fitzgerald para o papel. Imaginem…

Interessantíssimo detalhe:
Acima mencionei os « vistos de saída » (Exit Visas) : este detalhe passa quase desapercebido mas Exit Visas nunca existiram, em nenhum lugar do mundo!!! Isto é só uma “invenção” hollywoodiana para ajudar o plot do filme a desenvolver-se.


Bergman não foi a primeira atriz a ser considerada para Ilsa:
Hedy Lamarr, atriz austríaca que tinha, escandalosamente, aparecido nua no filme tcheco “Extase” (1938) e que na época era chamada „The most beautiful Woman in the World“ – invenção de Louis B.Mayer - foi a primeira opção mas não aceitou o papel (Lamarr não aceitaria no futuro outro filme que foi depois passado para Bergman e no qual esta recebeu um Oscar: Luz de Gás -vide minha postagem de 23.05.2008 sobre um “Drama vitoriano e claustrofóbico” - Pobre Hedy… nunca foi muito bem aconselhada). A bela bailarina Tamara Toumanova (que não fotografava bem e por ser péssima atriz nunca alcançou nenhum sucesso em Hollywood) e até Ann Sheridan, a „Ooohmph-Girl“ (ninguém até hoje conseguiu exlicar-me o que significa isto) foram também consideradas No último momento a francesa Michele Morgan quase ficou com o papel de Ilsa mas como pediu US$ 55.000 a Warner decidiu-se rápidamente por Ingrid Bergman que por meros US$ 25.000 estava à disposição (ela era contratada de Selznick que emprestou-a à Warner. e deve ter ficado com metade do salário dela).

O roteiro nunca foi realmente finalizado. Ninguém sabia como o filme acabaria. Os atores estavam criando seus personagens de um dia para o outro – como na vida real… Também não sabemos o que nos vai acontecer amanha, não é? Bergman reclamou muito do fato de não saber se teria seu „Final feliz“ com Rick ou com Victor Lazlo. Eu acho que este fato é um fator decisivo na finalização deste filme e de sua interpretção. Nao há „hints“ de nenhuma forma – Nem os expectadores nem os atores estão sabendo, escondendo alguma coisa uns dos outros. Os atores recebiam páginas de roteiro, escritas à mão, quase que diáriamente… Um processo de criação em conjunto, vital !
O final original (Rick seria preso) era muito súbito para Hollywood. O final no qual Ilsa deixaria seu marido para ficar com Rick nada “bem-vindo” pelo Hayes-Code. Já o final no qual Victor Lazlo era morto (para possibilitar o “Happy-End” de Ilsa e Rick) não seria ideal, principalmente numa época em que o mundo passava pela ameaça do Nazismo era necessário divulgar grandes homens: os “Victor Lazlos” da vida, os lutadores pela paz, os queperderam a vida lutando.
Na realidade foi David O.Selznick (…e o vento levou!) que aconselhou o húngaro Michael Curtiz a manter o final no qual Ilsa vai embora com Lazlo e Rick, conversando com o chefe de policia (o magnífico Claude Rains), diz: "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship."


Estou destruindo aqui várias lendas e estórias sobre um segundo final, no qual Ilsa ficava em Casablanca com Rick e Victor Lazlo voava só e que foi recusado pelo público. Nunca foi filmado.
Quando, finalmente, algumas decisões foram tomadas para filmar sequencias extras e refilmar outras, Ingrid Bergman já tinha cortado seus cabelos para intepretar Maria no clássico “Por quem os sinos dobram” (For whom the Bell tolls, 1943).
Este corte de cabelo também salvou outra cena: a sequencia em que a eterna “As Time goes by” era cantado por Sam, por exigencia de Max Steiner, teria que ser refilmada com outra canção. Ingrid, voce destruiu a vida de muitas mulheres com seu penteado (Vide minha postagem de 08.10.2009) mas, do fundo do meu coração : OBRIGADO!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Modas e Comportamentos criados pelo Cinema

Talvez hoje em dia as pessoas não sejam mais tão „influenciáveis“ pelo Cinema como já foram… Outros meios de informação (ou diversão) talvez sejam mais eficazes. Mas não podemos duvidar, nem por um momento, que em épocas mais cheias de naïveté, tardes passadas no Cinema influenciavam não só „as modas“ mas também o comportamento do público da época… Minha mãe relembra como, ainda mocinha, ela, suas amigas e irmãs voltavam da „Sessão das Môças“ cheias de idéias para copiar o vestido e o penteado de uma certa atriz… E como cada uma tinha „sua“ atriz. A favorita de minha mãe, a esquecida Anita-Louise, a de uma irmã sua era Lana Turner e por aí vai… A verdade é que o em geral queria-se ficar "bonito". O amor das irmãs mais velhas era Clark Gable! Mas olhemos alguns exemplos, em geral, de como o Cinema influenciava…

"The Carioca" (Flying down to Rio, 1933) e „The Continental“ (The gay Divorcée, 1934) foram apenas duas de várias danças de salão com Fred & Ginger que o cinema introduziu (e fez grandes lucros com discos, partituras, etc.!)

O Telefone branco foi um „Must“ eternizado pelo Cinema. Um „touch“ de chic não só para Fred e Ginger usarem nos decórs brancos de „Top Hat“ (O Piccolino, RKO, 1933) mas também accessível aos „seres humanos“ (dava um trabalho para limpar!).
E os penteados… Aqui tem muito „pano para manga“…
A chatérrima Shirley Temple e seus famosos cachinhos: Até minha mãe foi uma das vítimas que aos 5 anos de idade teve seu primeiro „permanente“ para parecer-se à Shirley.

Louise Brooks virou moda e causou „furor“ nos anos 20 com seu corte de cabelo (Príncipe Valente?) de Jazz-Baby, de „moderna“. Influenciou com seu comportamento não só muitas atrizes (entre elas Joan Crawford em início de carreira) como também toda uma geração.
Veronica Lake, que cobria metade do rosto com seus cabelos loiros, foi muito imitada – e criticadíssima, até pelo governo, durante a época da II Guerra Mundial: Como muitas mulheres estavam trabalhando em fábricas, os cabelos à la Lake ficavam presos („engafinhados“) nas máquinas e causaram até casos seríssimos de escalpe… ihhh…
Ingrid Bergman, a eterna „Maria“ do clássico de Hemingway „For whom the Bell tolls“ (Por quem os sinos dobram, 1943), tinha duas cabelereiras profissionais arrumando, secando, penteando, eriçando, ajeitando seu cabelo durante toda a rodagem do filme e isto para todos os Takes (comentário de Ingrid em sua autobiografia). Imaginem só como os „seres humanos normais“ (sem esta entourage) da rua, dos escritórios, dos supermercados, das lojas, dos „lares“ ficaram com este corte de cabelo…

Viajar, por exemplo à Paris, pelo menos para o povo Norte-Americano, não é uma atitude muito relacionada à cultura porém à busca das „Locations“ e do „clichée“ parisiense de filmes como „Gigi“, „An american in Paris“, „The last time I saw Paris“, „Irma la Douce“, „Charade“, „Love in the afternoon“, „Paris when it sizzles“, „Sabrina“, „Funny Face“ (como Audrey fez filmes em Paris…) e por aí vai a lista…
(Da mesma forma que Salzburg virou moda, um „must“ depois de „The Sound of Music“ (A Noviça Rebelde, 20th Century Fox, 1965) – Que Mozart não me escute!)

Quando Clark Gable em „Aconteceu naquela Noite“ (It happened one Night, 1934) tirou a camisa na frente de Claudette Colbert e o público viu que não estava usando uma camiseta (daquelas sem manga) como roupa íntima, as mulheres suspiraram, os homens o admiraram e a venda das camisetas caiu tanto nos U.S.A que a maioria das fábricas faliu!

Aqueles insultos à estética, aqueles „Tamancos“, os chamados „sapatos de plataforma“ que Carmen Miranda usava para disfarçar as curtas pernas e ficar mais alta, viraram moda… e voltam de tempo em tempo para o desgosto de todos que apreciam proporções e linhas clássicas.
Mas, para mim, a mudança mais drástica e interessante em termos de comportamento social foi causada pelas cenas „nos quartos“ dos filmes de Hollywood:
O „Hays Code“ - que gerou a pior fase de censura no cinema Norte-Americano e para mim o maior causador e influenciador do excessivo "pudor americano" que existe até hoje – proibiu, entre outras coisas, que duas pessoas aparecessem numa mesma cama ao mesmo tempo: seria considerado „imoral“. Para solucionar todas as conversas de „marido e mulher“ etc. e tal (o marido não poderia ir dormir de pé, não é?) foram inventadas as camas separadas, das quais ouvimos os ótimos diálogos de Mirna Loy e William Powell

como também – já 20 anos depois, na televisao – de Lucille Ball e Desi Arnaz.
E esta moda existe até hoje… Esta "recusa" ao duplo leito matrimonial foi realmente adotada e nao só nos U.S.A.! Moda?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Branco no Cinema


O branco no cinema também teve seus clássicos, eternos momentos... Pensem, por exemplo, em "Dancing in the dark" com Fred Astaire e Cyd Charisse (que abusava do direito de ser elegante!) de "The Band Wagon" (A Roda da Fortuna, MGM 1954).

Na linda produção de Max Reinhard em Hollywood, “ A Midsummer’s Night Dream” de Shakespeare (Sonho de uma Noite de Verão, Warner 1935) uma série de criaturas celestiais aparecem de branco. Titânia, interpretada pela cativante Anita Louise, nos impressiona com uma magia cinematográfica da qual o uso de um guarda-roupa branco é também muito responsável!
Como que uma criatura assim tão mágica, etérea e tão cheia de luz pode apaixonar-se por um asno?


Ele, o branco, na minha opinião, não foi usado no cinema tão “pura- e etériamente” como o branco no Ballet mas ele também teve seu simbolismo: ele definitivamente definiu o perfil do “bem” em comparação ao “mal”, ele colocou “rafinesse” em certos personagens, assim como deu a entender que estes possuíam certas virtudes. Ele levantou das massas outros e deu classe a muitos. Ele “elevou” moças simples à outras atmosferas mais finas, como o imortal exemplo de Vincente Minelli: Madame Bovary. Ema que sempre sonhou com o explendor dos romances que lia, encontrou-se como uma princesa usando um vestido branco...
Sua cena bailando uma valsa com Louis Jourdan (Vincente Minelli com seus efeitos visuais), nos tira a respiração... O público fica estático, calado, só admirando a arte deste incrível diretor....


Este mesmo vestido acompanhará Ema a um sórdido hotel de terceira classe... mas a atmosfera é tão “baixa” que o vestido branco já não mais consegue criar sua magia.

Não é só o vestido, o branco que importa... Toda foto também tem que ter uma bela moldura... Pensem em um belo espelho de mão, com uma moldura de prata... It’s just a thought...

Penso também em Leslie Caron em Gigi, com uma elegancia digna de um quadro impressionista entrando no Maxim’s ao lado de Louis Jourdan (mais uma vez Jourdan aqui). Óbviamente a luz e direção de Vincente Minelli (mais uma vez Minelli e seus efeitos visuais aqui) só realçaram o guarda-roupa do magnífico e genial Cecil Beaton (sobre quem aliás quero um dia preparar uma série de postagens... que fotos ele fez!).

Mas o branco no cinema tem muitos lados: A freira interpretada por Deborah Kerr em “Heaven knows, Mr. Allyson” (1957) que manteve-se imaculadamente limpa durante todo o filme apesar de estar escondendo-se dos japoneses numa ilha no Pacífico (!!!???) é um exemplo. O Branco elevando o espírito.

De uma forma muito parecida o branco também deu à “Mrs Anna” de Kerr, a governante do lindo “The King and I” (1957) um ar ao mesmo tempo elevado, decente e honesto... e cheio de virtude!

Até Lucille Ball, anos antes de ter encontrado sua persona cômica, seu alter-ego ruivo chamado “Lucy”, também desfilou elegantemente (e loira!), como um manequim da época, em “Roberta” (um veículo de Fred Astaire e Ginger Rogers).

E por falar em Astaire & Rogers, aqui a primeira vez que Rogers usou “requinte” e não atuou ao lado de Fred como uma “Jazz-Babe” (acabando assim com o “slogan” que Katherine Hepburn tinha dado à dupla: “Fred gave Ginger class, Ginger gave Fred sex”). Aqui ela realmente usou sua própria classe e que cor usava? Branco naturalmente (Aliás um detalhe: o Branco era muito traiçoeiro nos filmes em prêto-e-branco do início dos anos 30, com uma iluminação ainda mais "básica" mais primitiva, que fazia-o refletir demais. Para conseguir-se o efeito de “branco” usava-se o azul claro. Este vestido, pelo qual Ginger lutou como uma leoa, já que todos na produção de “Top Hat” (O Piccolino, RKO 1935) estavam contra ele (e, irônicamente, é considerado, também pelo fato de ser feito com plumas de avestruz, como um dos mais “chiques” que ela usou) era na realidade azul claro !!!!!

Lamont & Lockwood, os astros do Cinema Mudo de “Singin’ in the rain” (Gene Kelly e Jean Hagen – vejam minha postagem sobre esta interessantíssima atriz de 08.11.2008) são práticamente “elevados” da multidão ao entrar na Premiére de seu filme pelo fato de estarem usando branco. Eles são “Stars”. Intocáveis, de branco...

Um dos espetáculos mais absurdamente “kitsch” (e dos mais maravilhosos!) da história do cinema foi o número “A Pretty Girl is like a Melody” – práticamente todo em branco e com uma atriz chamada Virginia Bruce (que também como Anita Louise – vide acima – sumiu!) – do filme “The great Ziegfeld” (MGM 1936). Este recebeu o Oscar de melhor filme do ano ( A MGM ganhou quatro por musicais: Broadway Melody (1929), The great Ziegfeld, An American in Paris (1951) e Gigi (1958). Os dois últimos dirigidos pelo mestre Minelli e estrelados por minha querida Leslie Caron...)

Leslie com Gene Kelly em m “An American in Paris” (Sinfonia em Paris, MGM 1951), de branco, anos antes de tornar-se uma beleza...

E, mais uma vez nesta postagem, em Gigi. A partir deste momento Leslie foi transformando-se numa mulher muito atraente...


Não podemos esquecê-la de branco, como um triste e absurdo pierrot no Carnaval do Rio de Janeiro, num número chamado “Paris, Hong-Kong, Rio” de um filme “esquecível”, chamado “Daddy Long Legs” (Papai Pernilongo, Fox 1955).

Como escrevo sobre Leslie Caron, não? Ainda há muito sobre ela “nas gavetas da memória”... Longos caminhos desde “An American” e “Lili” até “The L-shaped room” e “The Doctor’s Dilemma” (Veja minha postagem de 06.06.2008). Uma linda mulher!

Bergman dominou o filme (e ganhou um Oscar) como Paula, usando em algumas cenas branco. “Gaslight” (MGM 1944) - Vide minha postagem de 23.05.2008. Um grande filme com toda a sensibilidade de George Cukor... melhor dito, uma Obra-prima!

Mas um dos usos mais “suntuosos” do branco aconteceu no filme “Marie Antoinette” (MGM 1938). Neste Baile Antoinette, “L’Autrichienne”, irá encontrar Madame DuBarry, que estará usando negro, diferenciando assim o “bem” do “mal” (isto tudo num diálogo que só aconteceu em Hollywood... Antoinette durante sua vida inteira só dirigiu 6 - sim seis! - palavras à DuBarry. E isto porque Louis XV a obrigou!). Norma Shearer – também uma rainha da Metro – esquecida hoje em dia... Outra linda mulher!

Ah... e ainda faltam tantos de branco... lindas mulheres, charmosos galãs usando seus ternos e “Panamás”, números musicais, cenas inteiras, decórs... Tantos como Leigh, Garbo, Dietrich (muito interessante de branco no deserto do Sahara, no primeiro filme em Technicolor da história: The Garden of Allah, de 1936), Astaire, Tyrone Power, Shirley Temple e... Bem, outra vez continuamos... quem sabe...

Para finalizar esta postagem porém uma foto que junta de certa forma o Cinema à Danca: Vanessa Redgrave como Isadora Duncan em “Isadora” (1968). Uma bela aparição em branco... Eterna. Linda como é até hoje aos 70 e tantos anos...

A pequenina, a primeira da fila ao lado esquerdo (de boquinha aberta) é Natascha Richardson, bela atriz e filha de Redgrave, que faleceu num acidente de Ski há poucas semanas no Canadá... Aqui ela como Deirdre, filha de Isadora, que morreu num desastre que fez o carro (junto com seu irmãozinho e o Chauffeur) cair no Sena...

O branco deveria transformar-se de novo na cor também do luto (Vejam a postagem anterior à esta). O luto, a perda, a tristeza... Sentimentos puros como o amor...