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domingo, 6 de janeiro de 2013

Nunca é realmente tarde para se realizar um Sonho (ou "Le Spectre de la Rose").


Lillian Gish ( 1893 – 1993), lenda do cinema e teatro americano a quem eu já deveria ter dedicado 20 “tertúlias”, trabalhou de 1912 a 1987 sendo uma das poucas pioneiras do Cinema mudo que fez uma real carreira no cinema sonoro…


Spectre de la Rose
foi assitido pela primeira vez nos U.S.A. (e também por Lillian Gish) em 1916, bailado por Vaslav Nijinsky e Tamara Karsavina… o primeiro Ballet a ser dançado no “Met”. Trabalho que juntou, além dos grandes bailarinos, os talentos do compositor Weber, de Leon Bakst nos cenários e figurinos, do coreógrafo Michel Fokine




(acima filme "fake" feito de fotos de Nijinsky e Karsavina, bonito trabalho mas não verdadeiro - infelizmente não existe nenhum material filmado de Nijinsky)

Patrick Dupond
, que no filme “She dances alone” foi Nijinsky ao lado de Kyra Nijinsky (na vida real filha de Vaslav), teve uma grande época na Ópera de Paris e no Ballet internacional nos anos 70 e 80… Eu tive a grande felicidade de assistí-lo com "Les Etoíles" da Ópera de Paris ainda no Rio...


Mas o que uma coisa tem que ver com a outra? Temos que viajar à Metropolitan Opera House, N.Y. (ou o „Met“ como é chamado íntimamente por seus fãs e frequentadores) que abriu suas portas em 22 de Outubro 1883 na Broadway entre a 39th e a 40th Street… (O prédio atual, no Lincoln Center, só foi inaugurado em 1966!).


Aos 100 anos de sua abertura foi organizado no Met um espetáculo que reuniu um “Who’s who” da Ópera Internacional: nomes, na época, atuais como Domingo, Sutherland, Pavarotti, Ludwig mas também nomes que já não mais estavam ativos nos palcos, como a húngara Martha Eggerth, como a brasileira (e no Brasil ignorada) Bidú Saião

Mas nesta “Gala” uma atriz “roubou” o espetáculo… e realizou um sonho de toda uma vida… Lillian Gish. Para o “Spectre de la Rose” de Patrick Dupond, ela foi “A debutante” que adormece numa cadeira depois do seu primeiro baile... Ela, que era só 10 anos mais jovem que o Met, estava aqui com 9o anos. Linda no palco, elegante, classuda, digna, sendo amada, aplaudida e respeitada por não sei quantas gerações de fãs.


Lillian, a lenda que ainda viveria quase 10 anos e que faleceria só em 1993 – pouco tempo antes de cumprir o seu centésimo aniversário. Mulher culta, bela na sua idade, em qualquer idade e cheia de dignidade – sem aquelas deformações que as plásticas, silicones e botoxes “da vida” fizeram em tantas outras que hoje em dia andam por aí com 90 anos parecendo bruxas… não, parecendo não, como perfeitas bruxas… Não deveriam deixar pessoas assim sair à rua : assustam as crianças… :-)

Como ela mesmo diz na introdução do vídeo, depois de ter assistido Les Ballets Russes e Nijinsky, este virou o seu grande sonho… fez aulas de dança com Ruth St.Dennis mas nem o tempo, nem sua carreira no Cinema (e depois no Teatro) e nem já sua idade na época lhe permitiram fazer este “dream come true” . Para esta curta aparição ela foi ensaiada nor ninguém menos que Natalia Makarova, que aprendeu este papel diretamente de sua criadora, Karsavina. Que Début para Lillian Gish aos 90 anos!
Ela realmente esperou muito mas quando finalmente estreiou, a produção foi perfeita! (Abaixo Karsavina ensaiando o papel da Debutante com Fonteyn).


Como me deixou feliz assistir este video. E, principalmente, este outro “enfoque”, esta outra leitura do ballet que automáticamente “aconteceu” na minha cabeça: porque uma Senhora de 90 anos não pode estar a sonhar (ou a relembrar?) com o amor, com o Espectro da Rosa? Coisa linda. Plena.

Ao assistir e reassistir, fiquei com saudades dela e daquele rostinho para sempre “moço” que assisti pela última vez em “The Whales of August”, filme magnífico e humano, ao lado de Bette Davis (1987).

Como esta homenagem me emocionou...

Amei mais uma vez , e de outra forma, este Ballet que vem da magnífica tradição e época única na história dos “Les Ballets Russes” e de Fokine, Bakst, Nijinsky, Diaghilev, Karsavina…. Nao é mera coincidência que tantos talentos se reunam assim, numa época, num devido lugar… coincidências assim definitivamente não existem!


Minha alma se encheu de melancolia ao ver um jovem Patrick Dupond antes do terrível desastre que em 2000, aos 40 anos (somos da mesma idade) deixou-o impossibiltado de recuperar-se físicamente para o Ballet e prosseguir com sua brilhante carreira.


Sobre Gish só me resta dizer, melhor, repetir uma expressão inglesa que acho muito adequada, apropriada à ela:

“There are people who get old and people that age” (Existem pessoas que ficam velhas e pessoas que ficam com idade).


Sim... pessoas que ficam velhas e outras que ficam com idade! Voces "vem" ao que me refiro?

Esta é a real essencia desta Tertúlia… este “querer realizar um sonho”, mesmo que com idade, é o que faz a diferença. Toda a diferença. É o que nos mantém vivos, jovens… Só quando deixamos de sonhar é que nos tornamos velhos... E este é também o tema central de “The Whales of August”, filme que profundamente recomendo.


Dedicando esta tertúlia à todas as dignas Senhoras de idade, digo só:

Obrigado Lillian por esta sábia licão de vida: Nunca é realmente tarde para se realizar um Sonho…


segunda-feira, 14 de março de 2011

La Bayadère: "corrigindo" um fato histórico do nosso Theatro

Não estou «Making History» (Título aliás do fabuloso livro de Stephen Fry, que muito recomendo) e nem tentando corrigí-la. Estou porém corrigindo a ordem dos fatos, como nos estão expostos, estes sim injustamente «mudando o curso a história». Como já disse uma vez, aqui nas «Tertúlias» : « Nunca tive e nunca terei qualquer ambição didática com este Blog“.
Tenho porém desta vez quase que dar „o braço a torcer“ porque, com minha querida amiga Eliana Caminada, consegui desvendar algo que não está corretamente colocado em várias plataformas da Internet e até em vários livros e Enciclopédias!!!!

Tudo começou com minha postagem do dia 24 de fevereiro de 2011 sobre “La Bayadère” (postagem, aliás, que eu achava que ninguém iria ler e que se transformou na melhor sucedida que fiz até hoje…):
„La Bayadère“ era considerada um clássico na Russia mas no mundo ocidental completamente desconhecida. Segundo a “história”, a primeira “impressão” que o público ocidental teve deste trabalho foi quando o Ballet Kirov apresentou “The Kingdom of the Shades” (O Reino das Sombras) em 4 de julho de 1961 no Palais Garnier em Paris”. Quase dois anos e meio depois, em novembro de 1963 como consta, Nureyev apresentou a cena (ou melhor, o terceiro ato – ou segundo, dependendo da versão) para o Royal Ballet com Margot Fonteyn como Nikiya.



Tenho aqui em Viena o raríssimo livro “O Ballet no Brasil” de Edméa A. Carvalho, comprado ainda nos anos 70 num daqueles maravilhosos e imensos “sebos” de dois andares da Rua do Rosário ou em outras paralelas (ainda existem?). Tatiana Leskova, Eliana Caminada e várias outras pessoas tiveram este livro, um dos primeiros sobre Ballet no Brasil, mas de alguma forma todos “sumiram” (por isso mantenho meu princípio: discos e livros não empresto!) e lá encontrei uma foto da maravilhosa Bertha Rosanova e de meu querido mestre Aldo Lotufo em “Bayadera” no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Bem, mais do que isso não “precisamos” (a sabida e maravilhosa Eliana Caminada e eu – curioso “par excellence”)... Tenho que adicionar que à esta pesquiza se juntou minha querida Danielle Crepaldi, sempre atenta, esperta e inteligente.



Na primeira versão no Brasil conseguimos descobrir, no livro de Edméa, quem estava no corpo de baile:
Alda Acioli, Sonia Barroso, Luciana Bogdanocich, Rojan Cavina, Oneide Craveiro, Maria Enamar, Wanda Garcia, Therezinha Goulart, Eunice Khoury, Helena Lobato, Nair Moussatche, Helna Nogueira, Irene Orazem, Estella Reigas, Julia Rodrigues e Clélia Serrano.
Mas o livro é de certa forma “pobre” em termos de datas, revela pouco.





Um dia chegou um impressionante e.mail de Eliana, no qual mal pude acreditar e que tenho que aqui citar:

Ricardo, Aldo Lotufo está aqui em casa e me esclareceu que dançou, com Bertha Rosanova, o Ato das Sombras de La Bayadère, em uma versão de Chabukiani, estreando no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 12 de abril de 1961 (de acordo com o livro de Edgard de Brito Chaves Junior "Memórias e Glórias de um Teatro").
A versão foi extraída do filme de Chabukiani com Dudinskaya, mas Aldo comenta que muita coisa foi colocada por Dona Genia (comentário meu: Eugenia Feodorova) a partir de suas próprias lembranças e do conhecimento que tinha do estilo do ballet.
Uma musicista da Rádio Mec tirou a partitura de disco para piano e posteriormente foi feita a orquestração.
D. Eugenia remontou o mesmo ato do ballet para sua Fundação Brasileira de Ballet, quando Aldo dançou com Sílvia Barroso.
Bjsss
Caminada


Num dicionário mais recente sobre dança, a parte que se refere a este Ballet no Theatro é lamentávelmente erronea. Nem Bertha nem Aldo constam na menção sobre “La Bayadère”. Falta de informação? As vezes existe neste nosso mundo não só falta de informação mas também mal intenções, parcialidade e muita falta de ética..

Mas neste livro está o fato comprovado: "Memórias e glórias de um Teatro: sessenta anos de história do T. M. do Rio de Janeiro" de Edgard de Brito Chaves.

TROCANDO EM MIÚDOS: a Première no mundo Ocidental não foi feita nem pelo Kirov em Paris em 1961 nem pelo Royal Ballet com Fonteyn e Nureyev em 1963 porém no Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 12 de abril de 1961.



Como agora vou conseguir manter-me “quieto” e não querer mudar todas as Enciclopédias do mundo? (Pelo menos a Wikipedia em ingles e alemão já mudei oficialmente).
Não é uma questao de orgulho.
Só quero que Dona Eugenia, Bertha Rosanova e Aldo Lotufo tenham seu prestigiado (e justo) lugar na História.
“A César o que é de César”, n’est-ce-pas ?

Idéias?
A minha é simplesmente uma: Passem esta postagem para o maior número posível de pessoas relacionadas ao mundo do Ballet!!!!
Vamos prestigiar a memória dos nossos talentos!

quinta-feira, 3 de março de 2011

O Baile dos Capulettos (ou "Saudades de Marcia, Richard, Egon, Reid e do Ballet de Stuttgart")

Há alguns dias atrás reencontrei numa velha «Dance Magazine» de 1983 fotos de um dos meus grandes ídolos, Richard (Rick) Cragun, que imediatamente escaneei e enviei para ele por email





Uma delas é este ótimo portrait acima e a outra uma foto de “Poème de L’extase”, Ballet de John Cranko que foi feito em 1970 para Margot Fonteyn e Richard – e que tem um «quoi» todo Gustav Klimtiano no seu décor e figurinos… Já contei que moro há 50 metros da última casa de Klimt? (No mínimo umas dez vezes...)



A foto de "Poème" (acima) é bastante conhecida mas como conheço muito bem bailarinos, sei que muitos são completamente desapegados às coisas terrestres e nunca guardaram suas fotos e que apesar de não viverem numa «louca busca» para reencontrá-las, se alegram ao reve-las… só pelo fato de reve-las...

Uma coisa leva à outra (típico de uma "tertúlia pessoal") e acabei revendo esta (maravilhosa) cena do Baile dos Capulettos de “Romeu e Julieta” de Cranko… e aí me dei conta do que deveria me dar conta todos os dias: ahhhhh… que imensas saudades de Marcia Haydée, Richard Cragun, Egon Madsen, Reid Anderson, de todo esse «Ensemble», deste momento especial na história do Ballet. Que saudades destes enormes talentos que revolucionaram nesta certa época o mundo da dança. Quantas saudades, quanto respeito...

Meu querido amigo, Antonio Negreiros, dançou “Paris” no TheatroMunicipal com Makarova (e na sua modéstia nunca toca nesse assunto! Assunto aliás sobre o qual deveria um dia dissertar longamente conosco!).

Amo o pas-de-deux de Julieta e Paris... um momento "filigrana". Perfeito. Genial!

Que fascinação a coreografia de Cranko ainda exerce sobre mim. Trabalho de genialidade, criatividade, sensibilidade e musicalidade quase incomparáveis… Take a sit, put your feet up, relax and enjoy…

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"La Bayadère" revisitada: O Reino das Sombras...



Poucas coisas me deixam tão animado, cheio de energia e excitado como pesquisar, aprender…

„Vibro“ literalmente ao encontrar (ou neste atual caso „reencontro“) um tema ao qual queira me dedicar por um (bom) tempo. A “excitacão” de estar aprendendo, conhecendo, toma conta de mim… fico feliz. Lembro com saudades da época à partir dos meus 14, 15 anos de idade… quando o aprendizado era constante, 24 horas por dia, pois os livros, as peças, os filmes, os ballets, os quadros, os poemas, os pensamentos estavam todos ali esperando por serem descobertos. Com o passar do tempo a gente se torna mais seletivo muitas vezes por uma questão de “gosto”, interesses… Mas mesmo assim…

Nunca tive e nunca terei qualquer ambição didática com este Blog (apesar da postagem de hoje poder dar esta impressão): não estou aqui para ensinar nada a ninguém – senão este Blog não chamaria-se “Tertúlias”, nome que implica numa “troca” de opiniões e acima de tudo na aceitação de opiniões alheias, diferentes das suas. Me disseram que não sei aceitar opiniões diferentes das minhas… Discordo. Questionar opiniões e discutí-las não significa “não aceitá-las” porém “querer compreende-las melhor, sentí-las e até aprender com elas” mas para isto temos que chegar a um ponto de aprendizado e compreensão pessoal no qual estamos completamente livres dos nossos próprios egos, orgulhos e do lado "emocional"…

Estou aqui para dividir com todos coisas que me tocam, coisas das quais gosto, coisas que admiro e coisas que talvez até “abomine” e “convido” todos para deixar aqui seus relatos, discutí-los abertamente...

Infelizmente o tempo torna-se cada vez mais curto para todos e sinto demais a tendencia que muitos tem em “se resumir” num vídeo ou curto pensamento (já li coisas do tipo "estou com calor") que é colocado, sem qualquer outro comentário ou opinião adicional, em plataformas à la “Facebook”. Distancio-me cada vez mais deste tipo de comunicação monologar (e vezes monossílabica) e volto a escrever mais longamente aqui e, quem sabe, talvez um dia me vá até daqui e retorne realmente a escrever só para mim… Coisas d’alma… Não quero a restrição da superficialidade da “obrigação de ser rápido e curto” (“senão ninguém vai ler o que escrevi!”).
Se tudo na vida fosse assim para que existiria o verbo “dissertar”?



Limpando umas prateleiras em casa “caiu” literalmente nas minhas mãos um velho VHS – da montagem de 1992 de Nureyev para a Ópera de Paris de "La Bayadère". Como há anos não assistia nenhum VHS resolvi colocá-lo, mas principalmente (não posso mentir!) para testar se o aparelho ainda funcionava… A febre de “La Bayadère” transformou-se numa "mania", numa epidemia dentro das minhas “quatro paredes”. Há poucos dias comecei a tirar livros de estantes, a imprimir toda e qualquer informação sobre este Ballet (só o relato da Wikipedia tem 28 páginas), a rever outras versões que tinha, estudar um pouco a partitura e cheguei até a encomendar do Amazon algumas outras versões que não conheco. Fascinante como de um momento para o outro nossa mente encontra mais um ponto de “interesse”. Amo estes momentos, estas fases… Claro que descobri muitas coisas interessantes, que se adicionaram ao meu humilde conhecimento deste Ballet – este fato transformou esta postagem um longo relato…

Gosto de contar «estórias» :

Em 1839 uma companhia de autenticas bayadères indianas (e hindus) visitou Paris. Théophile Gautier escreveu inspiradas páginas descrevendo a principal dançarina Amani. Muito depois em 1855 Gautier soube da trágica morte da bailarina que se enforcou num acesso de depressão numa nublada Londres por estar com saudades de sua terra natal… Como homenagem à bayadère ele escreveu o libretto para o Ballet “Sacountala”. O Ballet foi montado em Paris pelo irmão de Marius Petipa, Lucien. Este é o trabalho que muitos consideram como a real inspiração para a “La Bayadère” de Marius Petipa

Nas últimas semanas “redescobri” para minha extrema satisfação “La Bayadère”, Ballet com música de Ludwig Minkus (que apesar de ter passado 15 anos como compositor oficial do Ballet Imperial Russo, tendo composto “La Bayadère”, “Don Quixote” e “Le Corsaire” - pelos quais ele foi extremamente identificado com a “alma” do ballet russo - era um Vienense que não só nasceu como também morreu aqui).

A linha da estória é simples porém bem melodramática com todos os elementos “amados” pelas platéias de então (La Bayadère estreiou em 1877, no mesmo ano do original "O Lago dos Cisnes", não da versão de Petipa): lugares “exóticos” (India), espíritos (como em Giselle) capazes de coisas sobrenaturais, amor não realizado, intriga, morte, justiça/vingança (no Ballet época muito confundidas...)

A bailarina de templo (a bayadàre) Nikiya e o soldado Solor juram amor e eterna fidelidade. O sacerdote (o Alto Brahmin) está porém apaixonado por Nikiya. O Rajah Dugmanta seleciona Solor para casar com sua filha, Gamzatti, e pobre Nikiya sem desconfiar disso aceita dançar num “noivado”.
O Sacerdote ciumento quer que Solor seja morto e conta ao Rajah a verdade sobre o amor de Nikiya e Solor mas, “o tiro sai pela culatra” e o Rajah ordena a morte de Nikiya. Gamzatti que estava escutando a conversa dos dois ordena que Nikiya venha ao palácio. Quando esta porém descobre sobre o “noivado” de Gamzatti com Solor pega uma faca, numa reação não pensada, e tenta matar Gamzatti, sendo impedida pela Aya desta



Assim como seu pai Gamzatti decide que Nikiya vai morrer.

O segundo ato começa com celebração do noivado na qual Nikiya dança tristemente… quando porém recebe uma cesta de flores, pensa que esta vem de Solor e se alegra. Mal sabe que dentro dessa cesta encontra-se uma víbora, colocada ali por ordem do Rajah e de Ganzatti. Ela coloca a cesta tão próxima ao seu rosto que a cobra a ataca mordendo seu pescoço. O Sacerdote lhe oferece um antídoto mas Nikiya prefere a morte que encontra nos braços de Solor…



No terceiro ato Solor fuma opium e numa euforia de sonho-delírio (ou não?) tem a visão do “Reino das Sombras” (espíritos). Ali ele se reúne a Nikiya.

O quarto ato (ao qual nos referiremos mais tarde) se passa no templo no qual o casamento de Solor e Gamzatti acontecerá. O espírito de Nikiya está presente… Quando o Sacerdote une as mãos do casal em casamento os Deuses se vingam pelo assassinato de Nikiya e destruem não só o templo como também todos seus ocupantes.

FIM

Em algum momento da história, o quarto ato foi “perdido” e o final do Ballet passou a ser o final do III ato, ou seja no “sonho” do “Reino das Sombras” – o que tira muito da dramaticidade desta obra.



Alguns historiadores citaram as possíveis causas para esta drástica mudança: alguns acreditam que depois das enchentes de 1924 em Petrograd (St.Petersburg) a maioria dos cenários e guarda-roupa do IV ato, como encenado no Teatro Mariinsky, foi perdido. Outros dizem que numa Rússia « pós-revolução » não haveriam verbas suficientes para o suntuoso IV ato do Ballet. Uma outra explicação é a falta de técnica nesta fase (pois maquinarias estavam quebradas e não havia dinheiro para consertá-las) para produzir a destruição do templo… Uma última “explicação” sugere que o regime soviético da época não aprovava, por questão de princípios, uma apresentação teatral que incluísse temas como Deuses hindús destruíndo um templo.

Seja qual for a verdadeira razão, só em 1980 o mundo voltaria a ver um quarto ato e o ballet práticamente completamente restaurado…



Eu me lembro que em 1980 Natalia Makarova (acima) recuperou todo o “desaparecido” quarto ato tendo porém que mandar “reconstruir” muito da música pois a partitura se julgava perdida. Ironicamente esta partitura estava na íntegra na Rússia e só Nureyev em 1991 teve acesso a ela para sua versão para a Ópera de Paris em 1992 – apesar dele mesmo ter mantido o que chamou na época de “tradição russa” e ter encenado o Ballet SEM o quarto ato… sem sua “tragédia” final. A ironia é que esta chamada “tradição russa” foi imposta em épocas do comunismo – regime que Nureyev tanto abominava… Eu acho porém que a Nureyev talvez lhe faltaram «forças» - explico depois…

Apesar de « La Bayadére » sempre ter sido considerada um clássico na Russia o “Oeste” não conhecia este Ballet. A primeira apresentação do “Reino das Sombras” (que é na realidade a parte mais conhecida do Ballet e algumas vezes, cada vez mais raramente, encenada independente do Ballet) foi no Palais Garnier em Paris, em 1961. Dois anos mais tarde Nureyev remontou a cena para o Royal Ballet com Margot Fonteyn como Nikiya.



No Brasil muitos bailarinos e público, com exceção daqueles poucos privilegiadaos que tiveram a chance de assistir a montagem de Makarova no ABT, viram pela primeira vez «O Reino das Sombras» no cinema ! Sim, na cena de abertura do filme «The turning Point» (Momento de Decisão, 1977). (Correção do autor em 25.02.2011: Eugenia Feodorova havia montado o terceiro ato no Theatro Municipal com Berta Rosanova e Aldo Lotufo e 16 bailarinas no corpo de baile. Quem tiver a informação do ano desta montagem, por favor entre em contato comigo! Obrigado.)

Eu muito prezo várias partes da crítica que a inteligentíssima crítica de Dança Arlene Croce fez quando comentando a versão de Makarova para o American Ballet Theatre. Aqui um curto pedaço, repleto de percepção e sensibilidade:

“A coreografia, criada 17 anos antes do “definitivo” "Lago dos Cisnes”, é considerada como a maior expressão em grande escala do “sinfonismo” na dança. A matéria do “Reino das Sombras” não é realmente a Morte apesar de que todos, com exceção do herói, estão mortos. É felicidade encenada na eternidade. A sequencia de entrada com seus intermináveis “Arabesques” lentos cria a impressão de um grande «Crescendo» que parece aniquilar o tempo. Não há razão que possa impedir as bailarinas de continuar para sempre… Ballets passaram por gerações como lendas, adquiriram a pátina do ritualismo mas La Bayadère é um ritual real, um poema sobre a dança, a memória e o tempo. Cada dança parece adicionar algo à dança prévia, como um idioma sendo aprendido. O Ballet cresce rápidamente com esta constatação, que no início é sómente uma elocução primordial, e que na “Coda” explode com um explendor articulado” (Livre tradução minha)

Por causa do palco relativamente “pequeno” do Met (em relação ao do Mariinsky) Makarova foi forçada a reduzir o número de bailarinas no “Reino das Sombras” a 24 (originalmente eram 32 – e na “revival” de 1900 de Marius Petipa foram até 48!). O seu maior desafio foi porém o último “perdido” ato já que, como préviamente dito, pensava-se que a partitura original estava perdida. Natalia Makarova não tentou recriar o original de Petipas – apesar deste ter sido mudado infinitas vezes ao passar dos anos, até por Vaganova – e coreografou-o ela mesmo.
A première em 1980 foi triste: Makarova que também dançava o papel de Nikiya, machucou-se durante o primeiro ato e foi substituída por seu “second cast”, Marianna Tcherkassky. Solor foi bailado pelo explendido e incomparável Anthony Dowell e Cyntia Harvey deu vida à Gamzatti.



Makarova encenou «La Bayadère» para o Royal Ballet, para o Ballet do La Scala em Milano, para o Australian Ballet, para o Royal Swedish Ballet, para o Royal Dutch Ballet, para o Ballet do Teatro Colón em Buenos Aires e para o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com Cecília Kerche e Thiago Soares (informação da querida Eliana Caminada, um “dicionário” de Ballet que possuo como querida amiga!). Abaixo Baryshnikov como Solor.



A versão do “Reino das Sombras” que veremos abaixo é da versão de 1992 de Rudolph Nureyev: A administração da Ópera de Paris sabia que esta produção seria o último presente de Nureyev ao mundo, já que sua saúde estava deteriorando-se rápida- e progressivamente pelo seu estado avançado de HIV positivo.



Exatamente por isso, a administração cultural da Ópera deu-lhe uma enorme verba para esta produção com mais fundos vindos de várias doações privadas transformando a produção numa ainda mais suntuosa do que préviamente concebida. Que bonito. Chapeau! Abaixo Sylvie Guillem como Nikiya.



A produção foi um grande sucesso, aclamado pelo público e pela crítica. Apenas tres meses após a estréia Nureyev faleceu.

Aqui o tão comentado “Reino das Sombras”


Mais da próxima vez sobre "O Ídolo de Ouro" (ou como na versão de Makarova "O Ídolo de Bronze").

domingo, 14 de novembro de 2010

Se um Tutu pudesse falar...



Sim, se um Tutu pudesse realmente falar...


Imagine quantas estórias este poderia nos contar...



O lindíssimo Tutu/vestuário do Adagio da Rosa da produção de «A bela Adormecida» de 1946, desenhado por Oliver Messel - o top-designer entre os anos 30 e 50 em Londres - especialmente para Fonteyn! Que bonito trabalho...



Vamos ser sinceros: sem um bom figurino, nem Makarova... nem Plisetskaya...

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domingo, 15 de agosto de 2010

Despedida....

Por que isto me emociona tanto????





Nunca fui grande fã de Fonteyn... Mas aqui gosto dela, relembrando todos seus papéis... linda-, deliciosa-, patéticamente...

Penso em minha tia Edith, que trabalhou nos anos 60 e 70 na Embaixada Brasileira em Londres, que conheceu-a numa Recepção... e ficou encantada com ela, com sua magreza, sua classe e com a simplicidade que disse ter uma bisavó chamada "Fontes"...

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Marcia Haydée & John Neumeier: Die Kameliendame

Não é necessário falar muito, não é necessário escrever muito quando escolhemos um tema como “Die Kameliendame” - The Lady of the Camellias - obra concebida em 1978 pelo inteligentíssimo e sensibilíssimo John Neumeier originalmente para o Ballet de Stuttgart.
Haviam-se já passado 15 anos desde a estréia de “Marguerite et Armand” de Sir Frederick Ashton coreografado para Fonteyn e Nureyev. Mesmo assim admiro demais Neumeier: com toda esta « carga » do passado – que provávelmente levou à muitas indesejadas e supérfluas comparações – ele criou aqui (usando só música de Chopin, mais um detalhe genial) um trabalho de altíssimo nivel intelectual. Estimulante. Único. Genial.
Só sua concepção da “relação” entre Marguerite e Armand com Manon (Lescaut) e Chevalier DesGrieux, já merece “capítulos”. Palavras. Eu nao as possuo.

Fantástico o fato de ter transformado os dois personagens, que só pertencem ao «livro»(que Armand presenteia Marguerite), em “personagens” interpretados por atores (ou almas gemeas que "se tocam mais a fundo"?), provocando assim os mais incríveis pas-de-quatre e pas-de-trois (como no especial caso da cena de morte de Marguerite que é incorporada à cena de morte de Manon, na qual DesGrieux a carrega nos bracos, no deserto de New Orleans. Uma simbiose entre personagens da literatura que sao muito distantes uns dos outros... no tempo... Quanta poesia! O cansaço das duas e ao mesmo tempo o cuidado de uma com a outra. Duas mulheres que se “conheceram” como cortesãs e agora estâo morrendo. Duas mulheres normais, iguais, lado a lado, morrendo pelo amor – sim, o amor as leva à morte. Destino bastante similar ao de "muitas" da literatura... por exemplo "Lulu" de Wedenkind... Mas já estou mudando o curso desta estória. Fiquemos aqui com Marguerite... ).

Acho que « Lady » foi o único Ballet que fez-me imediatamente no outro dia comprar e começar a reler o (na época em que foi editado) maldito “Manon Lescaut” de Prévost. Só assim consegui entender os personagens melhor e – até hoje – ainda fico “sem palavras” para descrever minhas emoções sobre este Ballet. "Sem palavras" mas com a "Dança", que me explica cada segundo que vejo na tela.

Aqui uma filmagem – dirigida e supervisionada por Neumeier de 1987 com Ivan Liska como Armand e a magnífica, eterna, incomparável Marcia Haydée como a sofrida Marguerite Gautier. Esta é, na minha opinião, uma das melhores produções para o “cinema” baseadas numa obra que foi feita para o palco. Sem choques. Como se os dois idiomas (celulóide e palco) tivessem sido concebidos paralelamente. A direção é magnífica, os guarda-roupas perfeitos, os efeitos técnicos de uma “timidez” tão suprema que não parecem “óbvios”, o jogo de iluminação, da cenografia…
Incrível como estes momentos magníficos “existem”. Onde TUDO parece entrar em harmonia. Todos os elementos que transformam uma idéia numa obra de arte. Sagrados momentos! Abencoados... Além disso tudo a coreografia de John Neumeier e Marcia Haydée… Márcia... Sim, palavras não lhe fariam justiça.

Está tudo aí. A poesia, a maravilha, a grandeza do Ballet. Não tenho outras palavras.
Está tudo aí. Claro como a luz do dia. Na Dança.
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Eu dedico esta postagem a um amigo que nao vejo desde muitos, muitos anos: Alain Sortais, conselheiro do Embaixador Frances em Viena por muitos, muitos anos!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

To like it or not to like it, this is… NO question! Só uma questão de gosto... Uma Tertúlia enlouquecida…

Curioso, como às vezes, por ter-se uma opinião diferente da opinião geral, o que é a coisa mais natural do mundo, pode-se chegar até a chocar e insultar uma pessoa.
Lembro-me de ter dito uma vez para amigos em Berlim : „Não suporto a música de Tchaikowsky e aquela repetição incansável e chata de temas melodramáticos“. Meus amigos ficaram boquiabertos: „Mas como? Não gostar de Tchaikowsky? Que absurdo!“. Senti-me por alguns momentos como um assassino, um bandido, um vilão terrível, vestido com uma capa preta, torcendo a ponta dos bigodes enquanto sorria malignamente… Talvez muitos deverão estar neste momento vendo-me assim mesmo...

Tudo bem. Tenho, por causa do Ballet e do „Lago“, também uma outra conexão com Tchaikowsky. O „Lago“ é para mim o „Lago“ por causa do Ballet, a música vem para mim em segundo plano. Mas considerando o resto da obra de Peter Iljitsch (das sinfonias aos seus concertos para piano, de „Pique Dame“, „Onegin“ ao „Quebra-Nozes“) acho-o chato, exageradamente sentimental, piegas e como disse acima, repetitivo ao extremo. Sua música, muitas as vezes, é infestada de uma simplicidade barata, de uma banalidade fora do comum. Pobre enfim. Quem realmente entende de música concordará comigo. Se eu penso na música e na inventividade de um Schumann, de um Liszt, de um Brahms, de um Rachmaninoff… Nossa, nao é óbvio? Mas isto, repito, É uma tertúlia... lugar onde podemos opinar sobre tudo!
Concordar e discordar!

Mas porque reagimos assim? Acho que as vezes não questionamos mais „racionalmente“ certas coisas que conhecemos já de toda uma vida. Aceitamos o fato porque „sempre foi assim“.
Feijoada é comida na quartas-feiras porque sempre foi assim, no Natal come-se Perú porque sempre foi assim, citar socialmente a arte de Nureyev e Fonteyn ou a linda (considerada por conhecedores como a mais feia „grande“ ) voz de Callas porque sempre foi assim… Sempre se fala isso...

Tudo uma questão de gosto. E falta de questionamentos. Quem lê este meu espaço, sabe que sou apaixonado loucamente por muitas coisas. Sou também muito criticado por opinar sincera- e livremente sobre temas que parecem estar „acima“ de qualquer crítica. Como se fosse um pecado não estar de acordo com a maioria. Por exemplo, quando refiro-me ao „Cinema-Novo“. Muitos falam da qualidade „artesanal“ desta época do cinema nacional. „Qualidade artesanal“ é „conversa mole para boi dormir“ e só serve para justificar a falta de técnica daqueles filmes que envelheceram rápidamente antes do tempo ("Casablanca" de 1943 envelheceu?). Cinema-Novo era uma chatura mesmo. Glauber Rocha também. Maria Bethania outra, Novelas da Globo ainda mais. Os musicais de Andrew Lloyd Weber me deixam irritado (talvez com exceção de „Sunset Boulevard“). Enjoei de Barbra Streisand, desta „Persona“ californiana que ela inventou, tão distante da encantadora judiazinha do Brooklyn que ela foi.
Sempre achei Dercy Goncalves um horror e considero Jo Soares um péssimo entrevistador (isto, só se voce tem uma opinião diferente da dele e não está dizendo o que ELE quer ouvir!). Muitas coisas de Chico Buarque me cansam pois são quase como cápsulas de vitamina – com todos os elementos corretos, certos e adequados na mais perfeita dosagem para conseguir o efeito desejado do sucesso – agradando muitas vezes Gregos e Troianos. Sim um outro que, apesar de ter coisas lindas, também é muito repetitivo.

Estes sao só alguns exemplos que tentei relacionar ao Rio/Brasil... existem muitos outros...

Vamos ser sinceros, porque nao pode-se dizer que nao se gosta de certos personagens mesmo que sejam (como uma vez me disseram) ícones? O que sao "ícones" da música brasileira? Bethania? Buarque? E o que aconteceu a Villa-Lobos? Bidú Saiao? e a Paulo Forte, Dick Farney e Dolores Duran? Só para citar tres "bem diferentes"......

Acho as descrições de Dostojewskij longas, desnecessárias e cansativas (principalmente em "Crime e Castigo") e por falar em livros, sei que esta não vai agradar mesmo: Não suporto „O primo Basílio“ (1878) de Eça de Queirós. Um livro considerado um grande "clássico" e um dos meus grandes „desamores“ literários.

Acho os personagens, quase sem exceção, repugnantes, nojentos. Juliana, o montsro, foi concebida como uma pessoa repugnante. OK mas todo o resto? Eça de Queirós não foi nada gentil com a sociedade lisboeta. Luísa é um dos personagens por quem menos nutri qualquer tipo de simpatia, empatia ou afeição enquanto lia um livro. Pelo contrário. Ela é „vazia“, „oca“, sem sensibilidade e superficial. Sua relação com „o primo“ é enfocada sob uma luz que não deixa outra opção ao leitor a não ser considerá-la como mais um caso de „só“ sexo. Mas não foi a intenção de Eça de Queirós que ficássemos penalizados com dela, principalmente quando Juliana começa a transformá-la em sua própria empregada? Comigo seu „enfoque“ não funcionou, não me „tocou“. Luísa me irrita. Ela parece não ser feita de carne e sangue.

„Madame Bovary“ (Flaubert, 1857), outra „infiel“ da época, apesar de não brilhar por sua inteligencia e honestidade, nos atrai de certa forma. Ela quer sair do Millieu que habita e como uma grande sonhadora engana a si mesma com ilusões de amor. Notem, aqui falei de amor. Ela se mata por nao ver remédio para sua situação, para suas dívidas. Ela não se mata por amor porém.

„Anna Karenina“ (Tolstoi, 1877/78), mais uma traidora, que junto aos dois personagens citados anteriormente representa a essencia das amantes trágicas e infiéis do século XIX, era pelo menos (de certa forma) uma mulher mais inteligente e muito mais apaixonada – ela na realidade não se mata por sua situação ser irreversível e irreparável, porém por causa de ter sido abandonada pelo seu „amante“.
Na hora da sua morte Anna não pensou sobre seu filho, só pensou em si, no seu amor. Egoísta porém apaixonada. Apesar de eu achar particularmente que Tostoi nao muito entendia da complexa psicologia das mulheres: Anna e toda sua auto-estima, todo seu egoísmo e vaidade, jamais se lançaria à morte aniquilando radicalmente com aquilo quem mais tinha e que atraía todos: Beleza.
Mas, outra vez „amor“, desta vez relacionado a Anna, palavra que nunca posso usar nas relações de Luísa – nem com seu amante „o primo“, nem com seu marido.

Mas „tertuliar“ é realmente um exercício louco de „conexões“. Pelo menos comecei na Rússia com Tchaikowsky, de quem nao gosto, e terminei de novo lá com „Anna“, um livro que sempre me fascina.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Romeo & Juliet, Lynn Seymour, Christopher Gable, Dame Fonteyn e a Generosidade dela...

Tendo passado alguns dias em casa por causa de uma gripe muito forte, li muitas coisas a partir do momento em que comecei a melhorar. Entre elas folheei um pouco da última biografia de Nureyev que foi publicada. Este trabalho, admirável pela sua incrível pesquisa que ocupa 700 páginas, foi escrito por Julie Kavanagh em 2007. Este livro abriu-me muitas portas sobre uma situação, sobre um “Puzzle” do qual eu não tinha todas as pedrinhas… Agora, com estas poucas páginas que li, tenho-as. Recebi este trabalho de presente ano passado. Infelizmente, nunca me interessei muito por Nureyev e não venero sua memória comos muito fazem, príncipalmente depois de ter lido (em outra biografia, a única que li) que ele, mesmo sabendo de sua doença (AIDS) não mudou em nada sua conduta sexual (sendo causador de uma grande parte da forma em que esta doença se alastrou nos anos 80). Não posso idolatrar um pessoa assim que, ao que me parece, tinha muito ainda o que aprender sobre o respeito humano, sobre a moral. Onde está a moral de alguém que propositalmente coloca a vida de outros em jogo ? Bem, este não é o assunto desta postagem (Já escrevi sobre este assunto, acho que ou em “Valentino” – postagem de 22 de abril de 2008 – ou em « Mikhail Baryshnikov: transparência e simplicidade » de 16 de abril de 2008, leiam… ).


Kavanagh conta uma estória deveras interessante para nós que vivemos no mundo do Ballet.
“Romeu e Julieta” estava planejado na agenda do Covent Garden há anos para Rudolf. De fato Leonid Lavrovsky concordou em 1963 a enscenar seu Ballet mas saiu do seu acordo um ano depois. No meio tempo Kenneth MacMillan, coreógrafo “da casa”, estava mais do que preparado para este desafio. Ele não só escolheu Nicos Georgiadis como designer de produção como baseou-se também abertamente numa encenação nada lacrimejante e muito anti-romantica de Zefirelli de 1960 com Judi Dench – sim Judi Dench, a incrível Judi Dench em 1960!!!!!!! – como uma assombrosa, nada romântica Julieta e sim uma mulher que não esperava pelo que a vida iria dar-lhe de destino. Ela fez seu destino. Ela tinha a responsabilidade por ele. Uma outra visão deste personagem. E muito interessante...
MacMillan estava mais do que certo que a JUVENTUDE tinha que ser a figura principal de sua obra. Ele usou Lynn Seymour como Julieta e para seu Romeu, ninguém menos do que Christopher Gable (vide « The Boy Friend » de 20 de março de 2008), um menino « Cockney » que representaria Romeu da mesma forma que Leonard Whitting o faria no filme de Zefirelli de 1968 – sim um menino inglês com quem a juventude de King’s Road poderia identificar-se… (Ele teria achado Rudolf mais apropriado para o papel de Mercutio, uma parte satírica, istrionica - bem mais perto da personalidade de ballet de Nureyev - nao um príncipe nobre... ). Nada disto foi um surprêsa já que Kenneth tinha coreografado a cena do balcão com Lynn e Christopher para a televisão canadense. Porque Lynn e Christopher eram bailarinos de quem muito gostava e em quem muito confiava, ele os convidou a contribuir com suas próprias idéias… Os três transformaram-se num trio inseparável, criando o que eles chamavam de “o nosso Ballet”. Lynn, apesar de muito gostar de Nureyev, sentia-se mais à vontade com Christopher, um bailarino que ela considerava « sem mêdo ». Numa crítica mais tardia de “Vogue” constou: Nenhum dos dois representa clichées, eles simplesmente quebram nossos corações…


Romeu e Julieta de MacMillan quebrou corações – os dos seus criadores!
Pouco tempo antes da premiére foi anunciado pela direção do Covent Garden que para a estréia seria necessário um elenco de “primeira classe”. Fonteyn (juventude?) e Nureyev. MacMillan ficou sem palavras tendo que aceitar o que muitos consideraram um «grande êrro». Frederick Ashton nao ajudou-o. Teria ele mêdo do seu novo rival, David Webster, que tomou esta decisão? Margot estava precisando de um novo Ballet para sua tournée pela América, disseram. MacMillan nunca deixou de dizer que este « veículo » não era apropriado nem para Fonteyn, nem para Nureyev. Para os corações quebrados de Lynn e Christopher Gable foi adicionado o fato que eles pessoalmente, por falta de tempo, teriam que ensinar “seus” papéis para o novo elenco de primeira classe. Ninguém parecia porém importar-se com os sentimentos, a desilusão, a tristeza dos dois. Os únicos, além de MacMillan, foram Fonteyn e Nureyev. Sim. E este é o “pointe” desta postagem que só virá no último parágrafo dela.


Testemunhas oculares falam de como uma coreografia, criada para as linhas interessantes (porém nada clássicas) de Seymour não entrava na “perspectiva” extremamente simétrica de Fonteyn. Mas este foi o menor problema. A interpretação romantica de Fonteyn tranformou-se numa interpretacao histrionica, fora de lugar, tirando todo o realismo da Julieta não romantica de Lynn e como criada por MacMillan – uma mulher decidida. Não deixemos-nos influenciar pelos preconceitos associados com Julieta... A Julieta de MacMillan simplesmente não era originalmente assim (será que a decidida menina de 14 anos de Shakespeare foi?), ela não foi concebida por ele desta forma… ela não era Sarah Bernhardt, nem uma vítima… e isto deve ser duro para um coreógrafo… ver uma mulher que era o centro da trama e do drama do seu Ballet transformar-se numa (outra) vulnerável do mundo do Ballet... Mais uma. Encaro a "leitura" de MacMillan de Julieta como uma coisa muito sábia, de muito "insight", profundidade. Muito inovativa.
Certos momentos do Ballet foram criados para ser absolutamente “revoltantes”, fortes, horrendos e não “bonitos”, “líricos”… por exemplo, como contado, as reações físicas de Julieta/Seymour depois de ter tomado o veneno. Movimento, posições indescritíveis no dicionário do Ballet para um cadáver que, caíndo e sem forças, ainda não morreu. Feia. Cheia de dor. Real. Fonteyn, como descrito pela própria Lynn não queria prescindir de sua dança e elegancia e foi ajustando os movimentos, assim como já tinha ajustado a tensão sexual, originalmente na coreografia, à sua forma completamente assexuada de ser no palco. Esta sua atitude, mudando a “intenção” da coreografia foi considerada uma grande “sabotagem”. Até por ela mesmo, pelo que parece.
Fala-se que as vezes o público saía das apresentações com grandes dúvidas, se a relação entre Margot/Julieta e Rudolf/Romeu havia sido consumada ou não… Um insulto à uma obra de um coreógrafo.
“Nós tentamos colocar a visão de MacMillan no palco. Margot e Rudolf só trouxeram um “velho conceito, uma velha idéia” à uma nova produção”, disse Lynn.Sendo muito sincero, Margot não tinha muito em comum com a heroína de MacMillan… e se baseou no seu “modêlo”, Galina Ulanova… Dizem que de Ulanova ela aprendeu a arte da longevidade… em transformar-se numa menina de quatorze anos no palco, mesmo sem maquiagem ou figurinos. Eu não concordo, pois sempre achei muitas vezes as “carinhas doces” de Fonteyn muito distantes de sua verdadeira idade, muito irritantes. E às vezes muito ridículas em certos papéis. Mas muitas vezes ela me emocionou muito. Acho que Fonteyn, por falta de uma boa, exata direçao desaprendeu “where to draw the line”. O “ser boa ou não” (em termos de performance) virou quase um jogo com a sorte, com a casualidade de um momento, de uma boa direcao…


Acontecimentos similares sucederam paralelamente também entre Nureyev e Gable. O segundo «abasbacado» de como Rudolf transformava passagens puras e simples em «fogos de artifício de Ano-Novo» com toda uma bravura russa que nunca foi o estilo de MacMillan (por saber que Romeu aqui “não tocava a primeira corneta”? E sim Julieta? Mas "a" Julieta de MacMillan já deixara de existir... )Ele mudou os figurinos, transformando seu Romeu numa estrêla… mas não numa atual para a época… Anos-luz daquele que deveria ter sido uma figura de identificação para a juventude de Kings’s Road, como aquele que tinha o corte-de-cabelo de um "Rolling Stone"… O já falecido Christopher deixou o mundo do Ballet completamente em 1966, triste e desiludido. Trabalhou muito como ator mas... Oh, tudo que nós perdemos… Que triste perder um Ballet assim, um daqueles que só aparecem poucas vezes por década. Quando aparecem.

Em sua biografia sobre Margot, Meredith Daneman, conta como este episódio, esta “sabotagem” ficou gravada na consciência da Ballerina: Anos depois, num jantar privado ouviram-a pedindo desculpas à Lynn pelo que havia sucedido. Lynn com sua costumal “Largesse” estava fazendo de conta que não havia nada para desculpá-la. E de certa forma ela tinha razão. Ela de certa forma sabia... Num almoço em 1965 com o empresário Sol Hurok em New York, testemunhas contaram à Lynn, que Margot disse que sim, óbviamente queria fazer um novo Ballet, mas não este, queria ter “seu tempo”. Ela nao queria ser a Julieta de MacMillan. Mas ela tinha um contrato... e na realidade o Ballet nao teve o "elenco de primeira classe" por causa dela, sim pelo valor magnético de bilheteria de Nureyev.


Provavelmente atrás dos bastidores foi Margot Fonteyn a melhor advogada que Lynn poderia ter tido. Ela fez tudo o que podia para lutar contra este “veredito”. Ela queria que Lynn, uma ballerina que ela adorava, dançasse “sua” Julieta (o que fez depois com Christopher, para grandes críticas… Mas não na Premiére… O Ballet nunca pertenceu-os… ) mas Margot, a quem muito respeito, não ganhou o caso.

Agora eu pergunto: Nobreza de caráter. Grandeza de espírito. Generosidade. Matérias muito raras quando um trata com a própria vaidade, carreira e com o próprio ego! “Chapeau” Margot… Voce nunca ficará “fora de moda” como modelos ultrapassados que nao compreenderam elas mesmas! Para mim realmente foi esta a reconfirmação que voce foi uma grande Dama. Que exemplo… Obrigado.