O balanço povoou muito o cinema dos anos 30, tendo tido uma curta „renascença“ nos anos 50...
(acima Joan Crawford e Gary Cooper, 1937, em "Today we live")
Relacionado à emoção e excitação do se balançar “até o alto” ele simbolizou, deu um “rosto” à muitas emoções nas telas cinematográficas: A luxúria de Marie Antoinette interpretada por Norma Shearer numa festa de jardim (Marie Antoinette, MGM 1939), a leviandade de Anne Rutherford e Heather Angel como as irmãs caçulas de Greer Garson em “Pride and Prejudice” (Orgulho e Preconceito, MGM 1940), o amor verdadeiro misturado com felicidade de Jeanette MacDonald em “Maytime” (MGM 1937) e até o ápice sexual de Joan Collins e Ray Milland em “The Girl in the red velvet Swing” (1955).
Meu preferido balanço do cinema é ainda uma curta cena de “Love me or leave me” (Ama-me ou esquece-me, MGM 1955) com Doris Day cantando "At Sundown" (canção que amo da trilha sonora de um filme que adoro! Que voz mais agradável tinha Doris... ), simplesmente balançando-se pelo puro prazer de se balançar… sem nenhuma outra conotação…
Não é necessário estar-mos sempre interpretando, vendo coisas onde elas não existem… não é?
Grand Hotel: „Always the same. People come, people go. Nothing ever happens“
Vicki Baum, a escritora vienense, nunca alcançou um sucesso tão grande como no seu livro „Menschen im Hotel“ (1929), apesar de, hoje em dia, ser considerada uma das primeiras bem-sucedidas autoras da ficção moderna, dos abominados "best-sellers".
Seu trabalho de „pesquisa“ para esta obra foi, ao meu ver, muito nao muito „acadêmico“, até peculiar: ela pegou um emprego como arrumadeira, por seis semanas, num hotel para colher informações e idéias. A própria Baum dramatizou sua „Novella“ para o palco em Berlin (Direção de Max Reinhardt). Em 1930 a tradução americana fez um sucesso tão grande na Broadway que Irving Thalberg comprou os direitos para a MGM como um veículo para Garbo (ironicamente não para sua esposa, Norma Shearer, outra „rainha de MGM“).
Material destinado a muito sucesso, o filme „Grand Hotel“ estreiou em 1932, a primeira produção da história do cinema com um „all-star cast“ - "fórmula", aliás, que provou-se muito eficaz e até hoje é imitada... pensem nos filmes de "Agatha Christie": Para Vicki Baum o „Hotel“, símbolo da sociedade moderna, é o centro de todos os acontecimentos e o lugar onde diferentes tipos, personalidades de distintas classes sociais e grupos se encontram, se misturam, vivem emoções, se agridem e então se despedem. Cada personagem é em si um arquétipo. Grusinskaya (Garbo), a bailarina de „certa idade“ num período de profunda depressão; Barão Felix von Geygern (John Barrymore), um nobre e um ladrão; o diretor-geral Preysing (Wallace Beery), um homem de negócios, primitivo, sem escrúpulos e moral; Frida Flamm („Flaemmchen“, Joan Crawford) uma estenografista disposta à qualquer coisa, contando que „suba“ na vida e deixe o „Millieu“ onde habita; Otto Kringelein, o incrível Lionel Barrymore, um velho judeu, uma encantadora pessoa, morrendo de uma doenca terminal, com todo seu dinheiro na carteira, querendo „aproveitar a vida“; Suzette (personagem práticamente retirado do filme, transfomou-se na produção da MGM numa „empregada“), a dama-de-companhia de Grusinkaya, secretamente apaixonada por ela (só sabemos deste fato quando lemos o livro); Dr. Otternschlag (Lewis Stone),um solitário homem viciado em morfina que passa seus dias na recepção do „Grand Hotel“, observando os passantes e fala a famosa linha final da peça/filme:
"Grand Hotel. Always the same. People come, people go. Nothing ever happens." … e isto depois de uma noite na qual amores nasceram, roubos e fraudes aconteceram, um assassinato foi cometido, estupro, mentiras e intrigas se espalharam pelo interior do hotel e… o filho do porteiro nasceu.
E Garbo? As reações de Grusinskaya são bem mais claras e compreensíveis no livro (e no musical) do que no filme: o fato de uma jovem bailarina tê-la imitado para caçoar dela (fazendo dela uma feia caricatura cheia de afetações da qual o público riu) é um dos componentes para o seu desespero d’alma – não só a carreira chegando ao fim, cansaço e fatiga. Garbo nunca esteve tão afetada como atuando Grusinskaya. Como se, depois de ter lido o livro, tivesse realmente acreditado na imitação que a jovem bailarina fez e transformado o personagem nesta caricatura. Esta minha „interpretação“ sobre o personagem parece-me ser a mais provável. Garbo já tinha deixado os exageros dos filmes mudos e dois anos antes tinha criado uma „palpável“ Anna Christie de Eugene O’Neil. Afetada ou não… Garbo está especialmente linda na cena em que encontra pela primeira o ladrão… e ele declara seu amor por ela. Como ela está vulnerável… sendo roubada mas não abrindo mão de querer acreditar neste „amor“ que ele está a lhe confessar. Quando revirem um dia este filme, prestem atenção no „Close-up“ (ao som de „Wien, Wien, nur Du allein…“). Garbo num de seus momentos, para mim, mais „translúcidos“. Um olhar húmido, um instante, um "suspiro", um momento curtíssimo de reflexão e ao mesmo tempo introspecção, inexplicávelmente bonito para mim (Foi muito difícil encontrar esta foto deste exato momento – vide abaixo. O mencionado momento refletido não só no olhar mas também em sua boca). Uma segunda versão de „Grand Hotel“ chamada „Week-End at the Waldorf“ (também da MGM) foi feita em 1945 com Ginger Rogers, Van Johnson, Walter Pidgeon e Lana Turner entre outros. Esqueçam este filme, o mundo inteiro esqueceu. Há muito tempo.
Em 1988 estreiou na Broadway o fantástico „Grand Hotel – the Musical“ que eu tive a oportunidade de ver (Abaixo uma série de fotos do meu programa. Eu guardo tudo…).
Foi dificílimo conseguir entradas na época – apesar de ser „o sucesso do momento“ eu consegui assisti-lo tres vezes em sete dias! Não me arrependo. Uma das melhores produções musicais que assisti até hoje na Broadway. Grusinskaya foi interpretada por Lilliane Montevecchi, bailarina clássica da companhia de Roland Petit junto a Leslie Caron (que aliás foi "Grusinskaya" na producao de Berlin), vedette do Folies Bergére, atriz e dançarina de Hollywood e da Broadway. Louquíssima, mas em „Hotel“ contida, controladíssima. Liliane foi depois substituída por Cyd Charisse (Com quem tinha dancado muito secundáriamente em „Meet me in Las Vegas“). O Barão foi David Carrol, um bom tenor de uma boa e viril presença no palco. A „dama-de-companhia“ de Grusinskaya é interpretada pela maravilhosa atriz (e cantora) da Broadway Karen Akers (Se lembram dela como a cantora em „A rosa púrpura do Cairo“ de Woody Allen?). Que voz linda tem Miss Akers. (Detalhe: o nome original deste personagem era „Suzette“. A atriz que a interpretou na versão da MGM chamava-se Rafaela Ottiano: Para a produção do musical na Broadway o nome do personagem foi transformado em Rafaella Ottanio (não Ottiano), nome aliás imponente. Sua canção, na qual comenta seu amor por Elizavetta, também é linda!)
Jane Krakowsky, hoje em dia conhecida mais por sua aparição na série „Ally McBeal“, já mostrava o talento que iria trazer-lhe algumas nominações para o „Tony“ (ela recebeu-o por „Nine“) antes de intalar-se na California. Ela, no papel secundário de „Frida Flamm, a estenotipista“ tem tres números musicais simplesmente maravilhosos (quase „Show-Stoppers“) e práticamente „rouba“ o Show (bem, pelo menos a parte feminina). Ela foi nominada para um Tony por sua „Flaemmchen“.
Jane, nos seus primeiros anos no teatro (e no cinema… ela apareceu como uma enfermeira sapateadora com Liza Minelli em „Steppin’ out“) tinha um físico muito diferente do que tem hoje em dia. Bem mais magra. Adoro sua „figurinha“ e pernas nestes figurinos de „Flapper“ dos anos 20. Uma figura muito „limpa“ no palco! Mas quem roubou mesmo o Show foi Michael Jeter. O ator que faleceu em 2003 de AIDS deu uma interpretação toda especial ao seu „Mr. Otto Kringelein“, que é mais do que tridimensional. Aqui um raro vídeo, apresentado por Kathleen Turner (Tony Awards), onde todos os personagens da produção original de 1988 podem ser rápidamente vistos e um „Show-Stopper“ com Michael Jeter e Brent Barret – um dos vários “ Baron von Geygern “ em “We’ll take a glass together”. EMOCIONANTE!!!! Que trabalho de corpo!!!!!!!!
(Nota: a postagem segue depois dos vídeos…)
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Ficaram curiosos? Aqui um melhor vídeo (sem a cena de abertura!)
"> Direção, produção e coreografia do fantástico Tommy Tune!!!! Tommy, num destes momentos inspirados fez com que todos os números musicais competicem uns com os outros, como se todos estivessem acontecendo ao mesmo tempo… como num hotel, onde tudo realmente acontece ao mesmo tempo. Tommy conta muito desta produção em sua biografia “Footnotes” (nome inspirado para a biografia de uma bailarino/ coreógrafo/ diretor). Livro que já presenteei várias vezes e muito recomendo! P.S. Existe toda uma estória incrível sobre este Show… de como foi complicada sua montagem pois os autores não queriam modificar a concepção que tinham criado em 1958 para o fatídico „At the Grand“ – que nunca chegou a estreiar na Broadway, de como Tommy Tune teve que despedí-los, de como várias canções e números musicais tiveram que ser reescritos, de como o Show teve 31 (!!!) Pré-estréias, de como David Carrol morreu de AIDS no banheiro enquanto gravava o disco do Show, das várias mudanças no Cast… mas também do grande sucesso em que se transformou, dos doze Tony Awards para os quais foi nominado (ganhando 5) e de como transformou-se num dos raros musicais que teve mais de 1.000 apresentações na Broadway! Mas para contar tudo isto necessito de uma outra postagem…
Eu trabalho em turismo… Imaginem o que um “Grand Hotel” significa para mim…
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Invariávelmente chega-se a um certo momento do inverno na qual o frio, o vento, a neve ficam tao intensos que nosso único desejo, além de querer que a primavera logo chegue, é o adicional calorzinho gostoso de uma lareira, o aconchego de uma manta de lã sobre nossas pernas e velas, velas e ainda mais velas por toda a casa. Este „temido“ ponto do inverno chegou. De terça para quarta-feira (27.01.) foram registrados em Viena 18 graus negativos (numa cidadezinha do norte da Austria a temperatura chegou à -27 graus), saí de casa para o escritório na quarta à 08.30 da manhã com 14 abaixo de zero e meu carro demorou tanto para se aquecer que eu já estava práticamente no escritório quando a temperatura interna ficou boa. À Noite cheguei feliz em casa. Sim, no momento, voltar-se à privacidade da própria casa é o momento mais gostoso do dia. Voltar à vida privada e ficar à vontade com uma roupa quentinha, e casual, de flanela e meias de lã depois de um gostoso banho quente… Nestes particulares dias alegro-me muito quando uma encomenda qualquer chega. Na quinta-feira, dia 28, como que para iluminar minha noite, abri a caixa do correio e encontrei o esperado pacote da „Amazon“ com „Private Lives“ (MGM, 1931). A peça de Noël Coward (a primeira foto desta postagem è de uma “revival” de 1936 com o Mestre Coward e sua querida amiga Gertrude Lawrence) é uma das minhas „all-time-favourites“ desde que comprei este livro numa second-hand bookshop da Broadway chamada „Theatre Books“ em N.Y. em 1983 (Não esqueço da cara do dono da loja e do fato dele ter-me contado que Joan Fontaine tinha ido ao seu casamento!?! Não sei mais porque ela foi ao seu casamento e o porque dele me contar isto… ). Nunca assisti „Private Lives“ mas o trabalho em conjunto e a grande amizade entre Noël e Gertie (Gertrude Lawrence), para quem a peça foi concebida, começou a fascinar-me já em 1989 quando numa outra „second-hand bookshop“ (desta vez em Singapura) comprei uma biografia chamada „A bright particular Star“ – que como toda BOA biografia inglêsa exerce sobre nós o charme do „low profile“ britanico (bem em contraste com as biografias „flamboyant“ americanas, que dominam o mercado): Como que, se perguntando sobre o porque do talento imenso destas imensas personalidades, a biografia simplesmente respondesse: „Of course, my Deah… What else could you have expected?“ Eu tinha assistido duas cenas, relativamente curtas e bastante „condensadas“ de „Private Lives“ com Julie Andrews (como Gertrude Lawrence interpretando Amanda) e Daniel Massey (como Noël Coward interpretando Elyot) no (infelizmente) fracassado „Star!“ (20th Century Fox, 1968), uma biografia sobre Gertie. Amanda e Elyot são divertidíssimos personagens!
Outras „Amandas“ no palco foram Tallulah Bankhead, Tamy Grines, Joan Collins, Elizabeth Taylor (com Burton como Elyot), Elaine Stritch e minha querida Dame Maggie Smith. Lembro-me bem do dia em que, em Londres no início dos anos 80, não consegui entradas para esta produção (ou eu não tinha dinheiro?) e fiquei na porta esperando Maggie e Michael Caine entrarem no teatro. Que pena que não os vi no palco.
Não sei exatamente o que estava esperando desta versão da MGM de 1931 (feita só meses após a fulminante estréia da peça na Broadway, com Gertie e Noël, depois de terem terminado a temporada londrina), não sei o que esperava de Norma Shearer (que como esposa de Thalberg era na época, junto à Garbo, „rainha da MGM“) e do estático Robert Montgomery. Sabia que nem Reginald Denny nem Una Merkel me convenceriam como Victor e Sybil. Ele por estar „no lugar“ de Laurence Olivier (que fez este papel secundário no início de sua carreira – vide foto abaixo) e Douglas Fairbanks Jr., ambos bonitos rapazes. Ela por não ser uma „comediante“ (Sempre penso na fabulosa e sofisticada Rosalind „Roz“ Russell quando penso em comédia sofisticada) porém uma „cômica“. A decepção com Shearer foi imensa (gosto muito de vários trabalhos dela e acho-a uma das mulheres mais bonitas do cinema mas ela é a atriz errada para Amanda. Falta-lhe um certo „glamour“. Qualidade que Gertie tinha de sobra), a com Montgomery mais ou menos esperada – ele estava ainda mais estático do que de costume. Em resumo: dois ingleses com sotaques americanos? (Grande falha da produção – quando Victor pergunta a Elyot „Are you English?“, me perguntei o porque dele ter feito tal indagação). Duas pessoas, que deveriam emanar „Savoir-faire“ e classe, resumidos a dois personagens que não mostram o menor vestígio de ser „upper crust“ e de ter experiencia „continental“? Dois atores trabalhando na mais sofisticada de todas as comédias com um ar monótono e estereotipado? Dois atores numa engraçadíssima comédia com ares de quem estão com dor de cabeça e achando a situação muito „aborrecida“? Fiquei refazendo o filme, a peça na minha cabeça (onde estava de certa forma já há anos „pronta“) com Gertie e Noël e todo seu „wit“, charme, sofisticação e british manners and accents… Um desejo? Sim, adoraria dirigi-los… „Private Lives“, uma declaração de amor, ainda é uma das grandes comédias sobre o amor que nos mostra que toda e qualquer „decisão“ pode ser reconsiderada e modificada – se deixar-mos nosso coração (e instinto) falar mais alto do que nossa racionalidade. Como a própria música, tema central da "trama" (composta por Noël) nos explica:
♫ ♪ Someday i'll find you Moonlight behind you True to the dream i am dreaming As i draw near you You'll smile a little smile; For a little while We shall stand Hand in hand I'll leave you never Love you for ever All our past sorrow redeeming Try to make it true Say you love me too Someday i'll find you again ♪ ♫
O branco no cinema também teve seus clássicos, eternos momentos... Pensem, por exemplo, em "Dancing in the dark" com Fred Astaire e Cyd Charisse (que abusava do direito de ser elegante!) de "The Band Wagon" (A Roda da Fortuna, MGM 1954).
Na linda produção de Max Reinhard em Hollywood, “ A Midsummer’s Night Dream” de Shakespeare (Sonho de uma Noite de Verão, Warner 1935) uma série de criaturas celestiais aparecem de branco. Titânia, interpretada pela cativante Anita Louise, nos impressiona com uma magia cinematográfica da qual o uso de um guarda-roupa branco é também muito responsável! Como que uma criatura assim tão mágica, etérea e tão cheia de luz pode apaixonar-se por um asno? Ele, o branco, na minha opinião, não foi usado no cinema tão “pura- e etériamente” como o branco no Ballet mas ele também teve seu simbolismo: ele definitivamente definiu o perfil do “bem” em comparação ao “mal”, ele colocou “rafinesse” em certos personagens, assim como deu a entender que estes possuíam certas virtudes. Ele levantou das massas outros e deu classe a muitos. Ele “elevou” moças simples à outras atmosferas mais finas, como o imortal exemplo de Vincente Minelli: Madame Bovary. Ema que sempre sonhou com o explendor dos romances que lia, encontrou-se como uma princesa usando um vestido branco... Sua cena bailando uma valsa com Louis Jourdan (Vincente Minelli com seus efeitos visuais), nos tira a respiração... O público fica estático, calado, só admirando a arte deste incrível diretor....
Este mesmo vestido acompanhará Ema a um sórdido hotel de terceira classe... mas a atmosfera é tão “baixa” que o vestido branco já não mais consegue criar sua magia.
Não é só o vestido, o branco que importa... Toda foto também tem que ter uma bela moldura... Pensem em um belo espelho de mão, com uma moldura de prata... It’s just a thought...
Penso também em Leslie Caron em Gigi, com uma elegancia digna de um quadro impressionista entrando no Maxim’s ao lado de Louis Jourdan (mais uma vez Jourdan aqui). Óbviamente a luz e direção de Vincente Minelli (mais uma vez Minelli e seus efeitos visuais aqui) só realçaram o guarda-roupa do magnífico e genial Cecil Beaton (sobre quem aliás quero um dia preparar uma série de postagens... que fotos ele fez!). Mas o branco no cinema tem muitos lados: A freira interpretada por Deborah Kerr em “Heaven knows, Mr. Allyson” (1957) que manteve-se imaculadamente limpa durante todo o filme apesar de estar escondendo-se dos japoneses numa ilha no Pacífico (!!!???) é um exemplo. O Branco elevando o espírito. De uma forma muito parecida o branco também deu à “Mrs Anna” de Kerr, a governante do lindo “The King and I” (1957) um ar ao mesmo tempo elevado, decente e honesto... e cheio de virtude! Até Lucille Ball, anos antes de ter encontrado sua persona cômica, seu alter-ego ruivo chamado “Lucy”, também desfilou elegantemente (e loira!), como um manequim da época, em “Roberta” (um veículo de Fred Astaire e Ginger Rogers). E por falar em Astaire & Rogers, aqui a primeira vez que Rogers usou “requinte” e não atuou ao lado de Fred como uma “Jazz-Babe” (acabando assim com o “slogan” que Katherine Hepburn tinha dado à dupla: “Fred gave Ginger class, Ginger gave Fred sex”). Aqui ela realmente usou sua própria classe e que cor usava? Branco naturalmente (Aliás um detalhe: o Branco era muito traiçoeiro nos filmes em prêto-e-branco do início dos anos 30, com uma iluminação ainda mais "básica" mais primitiva, que fazia-o refletir demais. Para conseguir-se o efeito de “branco” usava-se o azul claro. Este vestido, pelo qual Ginger lutou como uma leoa, já que todos na produção de “Top Hat” (O Piccolino, RKO 1935) estavam contra ele (e, irônicamente, é considerado, também pelo fato de ser feito com plumas de avestruz, como um dos mais “chiques” que ela usou) era na realidade azul claro !!!!! Lamont & Lockwood, os astros do Cinema Mudo de “Singin’ in the rain” (Gene Kelly e Jean Hagen – vejam minha postagem sobre esta interessantíssima atriz de 08.11.2008) são práticamente “elevados” da multidão ao entrar na Premiére de seu filme pelo fato de estarem usando branco. Eles são “Stars”. Intocáveis, de branco... Um dos espetáculos mais absurdamente “kitsch” (e dos mais maravilhosos!) da história do cinema foi o número “A Pretty Girl is like a Melody” – práticamente todo em branco e com uma atriz chamada Virginia Bruce (que também como Anita Louise – vide acima – sumiu!) – do filme “The great Ziegfeld” (MGM 1936). Este recebeu o Oscar de melhor filme do ano ( A MGM ganhou quatro por musicais: Broadway Melody (1929), The great Ziegfeld, An American in Paris (1951) e Gigi (1958). Os dois últimos dirigidos pelo mestre Minelli e estrelados por minha querida Leslie Caron...) Leslie com Gene Kelly em m “An American in Paris” (Sinfonia em Paris, MGM 1951), de branco, anos antes de tornar-se uma beleza... E, mais uma vez nesta postagem, em Gigi. A partir deste momento Leslie foi transformando-se numa mulher muito atraente... Não podemos esquecê-la de branco, como um triste e absurdo pierrot no Carnaval do Rio de Janeiro, num número chamado “Paris, Hong-Kong, Rio” de um filme “esquecível”, chamado “Daddy Long Legs” (Papai Pernilongo, Fox 1955). Como escrevo sobre Leslie Caron, não? Ainda há muito sobre ela “nas gavetas da memória”... Longos caminhos desde “An American” e “Lili” até “The L-shaped room” e “The Doctor’s Dilemma” (Veja minha postagem de 06.06.2008). Uma linda mulher!
Bergman dominou o filme (e ganhou um Oscar) como Paula, usando em algumas cenas branco. “Gaslight” (MGM 1944) - Vide minha postagem de 23.05.2008. Um grande filme com toda a sensibilidade de George Cukor... melhor dito, uma Obra-prima! Mas um dos usos mais “suntuosos” do branco aconteceu no filme “Marie Antoinette” (MGM 1938). Neste Baile Antoinette, “L’Autrichienne”, irá encontrar Madame DuBarry, que estará usando negro, diferenciando assim o “bem” do “mal” (isto tudo num diálogo que só aconteceu em Hollywood... Antoinette durante sua vida inteira só dirigiu 6 - sim seis! - palavras à DuBarry. E isto porque Louis XV a obrigou!). Norma Shearer – também uma rainha da Metro – esquecida hoje em dia... Outra linda mulher! Ah... e ainda faltam tantos de branco... lindas mulheres, charmosos galãs usando seus ternos e “Panamás”, números musicais, cenas inteiras, decórs... Tantos como Leigh, Garbo, Dietrich (muito interessante de branco no deserto do Sahara, no primeiro filme em Technicolor da história: The Garden of Allah, de 1936), Astaire, Tyrone Power, Shirley Temple e... Bem, outra vez continuamos... quem sabe...
Para finalizar esta postagem porém uma foto que junta de certa forma o Cinema à Danca: Vanessa Redgrave como Isadora Duncan em “Isadora” (1968). Uma bela aparição em branco... Eterna. Linda como é até hoje aos 70 e tantos anos... A pequenina, a primeira da fila ao lado esquerdo (de boquinha aberta) é Natascha Richardson, bela atriz e filha de Redgrave, que faleceu num acidente de Ski há poucas semanas no Canadá... Aqui ela como Deirdre, filha de Isadora, que morreu num desastre que fez o carro (junto com seu irmãozinho e o Chauffeur) cair no Sena...
O branco deveria transformar-se de novo na cor também do luto (Vejam a postagem anterior à esta). O luto, a perda, a tristeza... Sentimentos puros como o amor...