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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Schumann & Katharine Hepburn: Träumerei e a simplicidade...


Mesmo usada (e abusada) para fins comerciais, piegas, baratos (vezes até grotescos), esta "simples" melodia sobrevive...

Sua simplicidade é o que a torna mais fascinante, inimitável, conquistadora e, ao meu ver, muito difícil!


Aquela "simplicidade" sobre as coisas essenciais da vida, extremamente presentes no trabalho de Robert Schumann: honestidade, calor humano, sorrisos, apego e amor. As coisas "pequenas" da vida, como alguém uma vez colocou muito inteligentemente (e ironicamente) em palavras.

Quantas vezes na minha vida já ouvi: "Ah, isso é muito fácil de tocar"
Sim, verdade, encarando-se só o lado técnico... mas fácil de "sentir" e "interpretar"? Jamais.
Para mim este "sentir" é parte essencial da própria técnica e sem ele, nem o mais técnico dos técnicos nos emocionaria.
Na música, no teatro, no Ballet, no Cinema, nas Artes plásticas, na literatura...

Gosto do momento deste video: aqui "dublado" (o magnífico Arthur Rubinstein tocou) por ninguém menos do que nossa maravilhosa, querida, eterna Katharine Hepburn (Song of love, MGM, 1949).

Ela saía finalmente da longa fase de trejeitos dos anos 30 & 40 e tranformava sua arte numa coisa mais simples, translúcida, transparente, universal.

Esta é a Kate que nos encanta até hoje. Poucas desenvolveram como Kate esta virtude, este talento infinito... até o final de sua vida... aprimorando-se a cada dia até chegar aos momentos nos quais bastavam sómente um olhar - sim, um único - para delatar toneladas e toneladas de sentimentos... e simplesmente nos "emocionar simplesmente".



quinta-feira, 6 de junho de 2013

REMEMBERING: Bing & Grace - TRUE LOVE...



Ahhh… Vozes…

Desde que, há algumas semanas, „redescobri“ Richard Burton cantando em “Camelot”, tenho me ocupado com estas “vozes“ que povoam a memória da minha infancia e que, de certa forma, ainda povoam minha vida – ou voces acham que eu não aproveito a ida e e volta do trabalho todos os dias para reescutar no carro músicas e vozes que há muito tempo não ouço e desta forma “relaxar”? Tenho a "obrigação" comigo de fazer o máximo para que a vida ao meu redor seja bonita...



O último filme de Grace Kelly em Hollywood foi „High Society“ (MGM, 1956).

Uma deliciosa comédia, que porém não pode ser comparada à maestria do original “The Philadelphia Story” (MGM, 1940).
Este, dirigido pelo magnífico George Cukor e com os talentosíssimos Katharine Hepburn, Cary Grant e Jimmy Stewart nos papéis que vieram ser interpretados (inclusive musicalmente pois o original não era um musical) pela própria Grace, Bing Crosby e Frank Sinatra.



Na versão de 1956, Grace e Bing, interpretam a eterna “True Love”. Música inesquecível, Cole Porter "at his very best", romantica, de uma melodia apaixonante, de um texto simples e – exatamente por este motivo – universal. Quem conhece o amor o compreende perfeitamente…

Texto daqueles que “nos levam numa viagem” (Penso em Tanja Blixen e sua descricao de um “Traveller of Mind”).
Poderia existir filmagem mais apropriada para este amor, para este verdadeiro amor do que esta “viagem” na qual ela vivencia o passado, ainda existente?

Linda a metáfora: eles deslizando pela vida, sendo levados pelo amor verdadeiro (que é também o nome do barco!).



Numa entrevista dos anos 70 Grace Kelly conta (quando já era Gracia Patricia do Monaco) que um dos premios pelo qual ela mais orgulho nutria era um disco de ouro que recebeu por sua interpretação ao lado de Bing Crosby, pois, ao contrário da lenda, ela mesmo cantou!

Também confessa ter tido “algumas aulinhas” de canto de sua carreira e de muito ter-se admirado ao receber tal premio pelo seus poucos segundos na tela cantando, por sua inexperiencia e “pequena voz”. Na minha opinião acho que ela muito se subestima: sua “segunda voz” é encantadora, de agradável sonoridade e de afinação precisa… Além do fato dela merecer o premio só pelo fato de - como "não-cantora" - ter tido a coragem de cantar com Bing... uma das maiores vozes da história!

Espero que voces desfrutem desta canção de amor e a compreendam assim como eu.
Sim, acreditem-me. É o que mais vale na vida: True Love…



Sun-tanned, Wind-blown
Honeymooners at last alone.
Feeling far above par.
Oh, how lucky we are!

While I give to you and you give to me,
True love, true love.
So on and on it'll always be,
True love, true love.

For you and I
Have a guardian angel on high,
With nothin' to do.
But to give to you and to give to me,
Love forever true.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

REMEMBERING "Isadora": Vanessa Redgrave - perfeita!

Vanessa Redgrave não é uma bailarina e “Isadora” também não é um filme sobre Dança.

Ele usa a Dança da americana Isadora Duncan (1877 - 1927) para pontear, cronológica- e precisamente a vida desta alma livre que até hoje fascina o mundo das Artes, o mundo de muita gente… inclusive o meu.

Mesmo que a linguagem seja um pouco antiquada por delinear suas memórias num “Flash-Back” da exata, precisa duração de todo o filme, ele capturou em celulóide o movimento e o espírito tão peculiar deste genero de Dança…


Eu gosto deste filme.
E não só pela fabulosa e, na época, linda Vanessa Redgrave.

Pensemos que existem sómente alguns segundos de registro «em celulóide» da Arte de Duncan (dançando numa Garden-Party em Londres) e que toda sua “escola”, seu “estilo” foi transmitido por suas alunas (As «Isadorables» ?) através de gerações.


Muito ao contrário do que muitos dizem, não considero Duncan a “mãe da Dança contemporanea”. Sua dança evocava vasos e Afrescos da velha Grécia. O mundo "clássico" (!!!!).
Eu prefiro deixar este título acima, esta honra para outros personagens da Dança do século XX.

Mas Duncan criava liberdade ao dançar… Não havia uma técnica no sentido clássico da palavra (Falo de Ballet e ela abominava-o) e com o passar dos anos a “Diva”, que foi envelhecendo rápidamente por causa de uma vida muito bohemia e desregrada, foi adaptando sua dança às condições de seu corpo: à perda de elasticidade, às suas coxas e a seus braços mais “roliços”… num puro movimento organico de mudança, de adaptação à novas situações, talvez barreiras, mesmo que estas tenham sido trazidas pela idade.

Existe coisa mais natural do que envelhecer? É o ciclo da vida – e Isadora adaptou-o muito bem à sua carreira. Gosto deste pensamento, desta atitude.

O filme nos leva de San Francisco à Europa, pelo seu Debùt nos grandes palcos (descalça e mostrado as pernas nuas… imaginem só; um escandalo na época!), pela sua primeira gravidez, pelas suas dúvidas sobre ser “mãe solteira” em 1906, pelos seus sucessos, por sua fase mais burguesa (quado esteve ligada a Paris Singer – sim o milionário, herdeiro das máquinas de costura),


pela morte de seus filhinhos num trágico acidente no Seine em 1913, pela sua fase vermelha na Rússia, pelo seu casamento mal-sucedido com o poeta russo Sergei Jessenin, sua “volta” à uma America que lhe “acusou” de comunismo (o que ela realmente era) e a cruelmente repudiou (e para a qual ela mostrou seus seios nus, conseguindo chocar as mais "tradicionais" almas de Boston), sua triste derrocada psicológica e física em companhia íntima do alcóol, de muito alcóol e, depois, sua morte brutal, só poucos momentos após ter gritado : "Adieu, mes amis. Je vais à la gloire!" (apesar de existir uma versão de uma amiga que clama que ela haveria dito «Je vais à l’Amour», comentário muito «ousado» para a época já que ela se encontrava na companhia de um belo italiano e em Nice haviam muitos «hotéis de hora». E o que importa ? What the hell. As duas versões são bonitas… Morrer "a caminho do Amor"... Ora, belíssimo! Bastante mais "humano" e real do que a "Glória", à qual ela supostamente se referiu...).

“Isadora” (1968) foi dirigido por Karel Reisz e foi um “pequeno” sucesso de bilheteria. Mesmo a nomeação de Redgrave para o Oscar de melhor atriz naquele ano (Katharine Hepburn e Barbra Streisand “empataram”) não ajudou muito à bilheteria... O filme realmente não foi concebido para a “massa” por tratar muito especialmente de um tema muito especial sobre uma pessoa extremamente especial...

Confiram o Trailer:



Ele foi “rebatizado” em “The loves of Isadora” tentando assim que esta “sugestão” de “sexo e pecado” melhorasse a bilheteria. Não melhorou.


Vanessa passou por um lindo trabalho de corpo para este filme. Nunca devemos nos esquecer: ela é uma ATRIZ, não uma bailarina !


Num dos momentos, para mim, mais lindos do filme ela faz sua «Première» em Londres ao som do segundo movimento (o Allegretto) da sétima Sinfonia de Beethoven. Amo-a naquela "correria" pelo palco, toda soltinha, relaxada, linda…



E para quem tiver interesse em imagens da verdadeira Isadora e nos seus poucos segundos registrados em filme, aqui um interessante vídeo!



Correção: as últimas imagens (de um carro) não são do carro em que Isadora faleceu - como erroneamente dito no video - porém do carro em que suas crianças se acidentaram no desastre no Seine.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Entrando num Cinema... Uma boa lembrança... Uma gostosa lembrança...

Um dia desses fiz uma pergunta ao Antonio (do excelente Blog “O Falcão maltês”): „Voce se lembra da primeira vez em que entrou num cinema?”


Talvez para gerações mais novas seja um pouco “arcaico” e irrelevante o que quiz sugerir mas eu ainda me lembro muito bem do “acontecimento” de “ir-se ao cinema” e na minha cabeça passa um filme no qual vejo salas e saguões de cinemas como o “Roxy”, “Copacabana”, “Rian”, “Caruso”, “Bruni” mas principalmente o “Metro Copacabana”. Sim o meu querido Metro; aquele “templo” da sétima arte com seu tapete macio e alto, suas paredes de mogno, suas fotos das “estrelas” da Metro, seus espelhos, seu “baleiro” elegante e o melhor ar-condicionado do Rio de Janeiro. Nesse templo assisti “festivais” de Operetas, de Garbo… e nos primeiros domingos do mes o festival «Tom and Jerry» às dez da manhã.

Lá assisti pela primeira vez “O Mágico de Oz”, “Lili” (só esses dois já são dois "marcos" na minha vida), "A grande Valsa", "Oh! Marietta", "Rosemarie" (sendo filho de autríaco assisti, melhor, tive que assistir toda e qualquer Operetta já produzida nesse planeta!) e tantos, tantos outros... até “The Boyfriend” com Twiggy no início dos anos 70… Que templo…


O Metro não "cheirava" a Rio de Janeiro e sim a uma Hollywood enfeitada de sorrisos de Jeanette MacDonald, de olhares afetados de Miliza Korjus, de notas maravilhosas e bem cantadas de Ilona Massey (como p.e. em "Balalaika"), do mistério de Garbo, do glamour de Billie Burke como "Glinda" no "O Mágico de Oz", dos sons de Luis Gravet fazendo-se de Strauss na "A Grande Valsa" ao lado da austríaca Luise Rainer, da inocencia (no grande desempenho) de Caron em "Lili"... de "Cinema"....


Esta cena de “Radio Days” traduz em imagens tudo o que tento dizer: esta sensação maravilhosa e inesquecível de entrar num Cinema…
Estas imagens (do Radio City Music Hall, esta preciosidade do Art Deco) me fazem “voar” de volta a um tempo em que a vida parecia ser mais descomplicada, bem... para mim, pelo menos... Saudades!

Muito Obrigado, Woody Allen, por ter eternizado esta sensação, este momento aqui! No Radio City ou no Metro Copacabana a emoção era a mesma!

Eu e milhões de outras pessoas "com mais de quarenta" ainda podem se identificar com estes momentos preciosos... sim, o "Cinema", um templo...



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Summertime (1955): Hepburn e seu rosto translúcido...

Que falta nos faz o verão este ano… o verão que ainda não se fez presente na Austria.


Desde ontem ando “doentinho” em casa e ouvi não só “Summertime” de Gershwin como também assisti o sincero, poético “Summertime” de David Lean (1955), filme que considero e amo muito… Deve ser pela falta que o verão me faz…

Estranho iniciar uma postagem exatamente com a cena final de um filme... Mas sinto que Hepburn despediu-se de muitos maneirismos à partir deste filme... como que dando início à uma nova fase de sua carreira... quantas obras primas ainda estariam por vir...


Hepburn num desempenho de “olhar translúcido”. Sim, refiro-me aos olhares profundos, transparentes que dá, durante os quais todo seu rosto se ilumina, como que translúcido mostrando todos seus sentimentos, toda a beleza interior e extremo talento que esta grande atriz carregava consigo. Quanta aura.


Os primeiros olhares assim que pude constatar nela foram em «Song of Love» e depois em «The African Queen”… Mas "sombras" ainda destes olhares... ainda muito distante da magnitude destes e de muitos outros... Como se "ve" o desenvolvimento interior desta atriz - como ser humano - com o passar dos anos... Que beleza!

Mas aqui estou eu de novo, com dificuldades para escrever sobre ela.
Kate sempre me deixou boquiaberto demais, sem palavras para poder sequer sugerir o que vejo e sinto na sua arte… Acho dificílimo expressar o que sinto com seu desempenho… Um bloqueio gramatical completo.
Talvez esse seja o real motivo de escrever tão pouco sobre ela…




Que rosto… eterno...


Não vou falar muito sobre esta obra-prima sobre esta “declaração de amor” de Lean à Itália. Admiro demais a atmosfera frágil, de profundo amor, de realização desta pequena obra-prima (que parece ser meio esquecida!) que foi totalmente filmada em Veneza.


Reassistam, assistam… Eu prometo: Vale a pena!!!

Tres detalhes:
O primeiro se refere ao nome do personagem de Kate… Jane Hudson. Jane a solteirona, querendo realizar, viver um grande amor… Tão predestinada e disposta a amar, tão diferente de outra Jane (Hudson) do Cinema… estão todos ainda lembrados de Bette Davis em «Whatever happened to Baby Jane ?” Sim… a outra Jane Hudson… tão diferente desta!

O segundo reúne toda a elegancia do Cinema… O simbolismo de fogos de artifício explodindo e de um sapato esquecido num pequeno balcão enquanto os dois amantes desaparecem pela primeira vez para dentro de um quarto…


O terceiro: “Graças” à cena em que cai num Canal, Hepburn ficou com uma infecção cronica nos olhos… Fato que deve ter sido bem deconfortável até o final de sua vida mas que em futuros anos lhe daria um certo olhar “aguado”, “choroso” que foi muito bem utilizado por ela...


Bem, se Kate conseguiu até encorporar seu “Parkinson” e tremor de cabeça aos seus personangens…
O que poderia se esperar desse genio?

sábado, 27 de março de 2010

Ginger and Yam? (Gengibre e Inhame?)

„Fred gave Ginger class, Ginger gave Fred sex“. Este comentário de Katherine Hepburn (que aliás, também na realidade - não só em "Stage Door" - nada simpatizava com Ginger) entrou para a história do cinema. De certa forma ela tem razão. Mas não há dúvida que, como meu pai diria, Ginger era realmente um “mimo”. Que figurinha mais linda!



Ginger e Fred, quando começaram sua “partnership”, sempre lançavam “Danças” novas nos seus filmes (Os estúdios lucravam muito com a venda de discos, partituras etc.).
No seu primeiro filme juntos (em papéis secundários), “Flying down to Rio”, eles roubaram o filme dançando “The Carioca”.


Em “The gay Divorce” eles introduziram “The Continental”.



Em “Top-Hat” bailaram “The Piccolino” (que era porém muito “sofisticado” para tornar-se moda popular). Aqui duas fotos de um livro meu, já que não é nada fácil encontrar-se boas fotos deste número… Cliquem para ampliar, vale a pena! Ginger já deixando a fase "Muffin face" (o que também aconteceu com Vivien Leigh) e tornando-se bonita e sofisticada!



Mas todos estes números eram números «de Fred». Ginger era sua «acompanhante» (o coreógrafo Hermes Pan – muito consciente das limitações de Ginger em termos de dança – limitou, ainda mais do que necessário, a movimentação de Ginger nos primeiros trabalhos em conjunto).

Finalmente um dia, em «Carefree», 1938 (um filme adorado e venerado na Espanha!), Ginger dominou não só um número («The Yam») como TODO o filme. Ela está ótima. Toda soltinha, esfuziante, deliciosa e cheia de energia!



Sim, os dias “verdes” como atriz já tinham passado e em dois anos ela ganharia o Oscar como “Kitty Foyle”. Época na qual sua carreira destacou-se em Hollywood e a de Fred estagnou, quase por uma década…



Aqui, esta delícia chamada “The Yam” (na realidade “Inhame”… imaginem só em portugues: “Oi bem, vamos dançar o “Inhame”?). Divirtam-se! Sim, Ginger and Yam (Gengibre e Inhame) combinam, e muito!

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E, se voces querem ler o melhor livro, com as estórias mais engraçadas e simpáticas sobre esta linda dupla (que se odiava mútuamente, na realidade), aqui uma dica… Uma maravilha de livro… Está na minha estante!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A „Folhinha“, a „Sessão das Duas“ e vários filmes esquecidos.

Gostei muito quando a querida Márcia (a "Paçoca") comentou que tinha gostado da postagem „tipo Sessão da Tarde“ (Judy e Mickey dançando a „Conga“). Esta sua exclamação espontânea trouxe-me, como um presente, boas lembranças.

Remexendo em recortes velhos de jornal, artigos de revistas, programas de teatro, fotos de cinema e muitas recordações dos anos 60, 70 da „famosa caixinha“ encontrei este recorte (acho que do „Jornal do Brasil“) que, creio eu, é dos anos 70: „Star!“ com Julie Andrews foi/ é um filme que adoro – apesar de ter sido um dos maiores fracassos da história do cinema e ter catapultado a carreira de Andrews para um poço de esquecimento durante muitos anos. Um dia falaremos sobre ele.

Deixando tantas recordações passarem por minhas mãos, lembrei-me de um fato gostoso: já nos anos 60 – digamos que com uns 8, 9 anos de idade – eu „colecionava“ estes „quadradinhos“ do jornal sobre os filmes que assistia e gostava. Cliquem no recorte de jornal para ve-los. Naquela época minha principal fonte de informação cinematográfica eram os maravilhosos cinemas do Rio (vide minha postagem de 17.12.2008) e a „Sessão das Duas“ (que sempre começava atrasada) muitos anos antes de ter-se transformado na „Sessão da Tarde“. Lembro-me de uma folhinha de papel (sim só uma) na qual eu colecionava e colava (dos dois lados) estes quadradinhos com o nome do filme (muitas vezes o título original em ingles estava mal escrito, com erros), elenco, a data e uma pequena descrição da estória. Eu colava aqueles recortezinhos de jornal com todo cuidado para nem sujar nem lambusar minha preciosa folhinha importante (usando cola „Polar“, lembram? Era branca, nada parecida à „Goma arábica“ ou „Araldite“ – tirei esta agora do fundo do baú, hein?). Se penso bem, há quarenta anos atrás, aquela folhinha foi o início da minha vida de colecionador, catalogador de coisas em referencia a cinema. Meu primeiro real „Arquivo“. Naquela idade eu já era descaradamente um amante do cinema! Não mudei muito... Este "state of mind", melhor, este "Love Affair" existe até hoje. Raras vezes quando revejo um filme que não "leio" alguma coisa nova nele.

Hoje em dia tenhos meus filmes, meus DVDs (alguns vídeos ainda), CDs (Long-Plays e compactos também; nunca me desfiz deles) e ainda recortes, programas, fotos etc.etc. minuciosamente organizados e catalogados. Encontro tudo.

Mas, aqui entre nós, fiquei com saudades daquela folhinha que foi perdida. Como seria bom te-la ainda… Saudades daquela simplicidade e ingenuidade de criança. Saudades do orgulho que tinha em ter uma folhinha dos MEUS filmes prediletos. Saudades dos tempos em que cada filme de Fred & Ginger era uma emocionante surpresa e descoberta. Saudades do dia em que descobri que já tinha assitido 9 dos 10 filmes que esta dupla tinha feito e de como fiquei orgulhoso. Saudades de chegar em casa do colégio e as vezes almoçar vendo um filme (na TV „Philco“, ainda em preto-e-branco). Saudades de não entender porque todos meus amiguinhos gostavam mais de Ié-ié-ié do que das baladas de Nat „King“ Cole, das Chansons de Jacqueline François, da música de Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin ou dos sucessos mais populares de Doris Day. Ou porque preferiam assistir „Se meu Fusca falasse“ em vez de „Cantando na Chuva“…

Lembro-me ainda de alguns recortes que enchiam aquela folhinha:

Filmes antiquíssimos - quase que invariavelmente da RKO (porque?) – alguns dos quais nunca voltei a rever, como por exemplo:

„Em Pessoa“ (In Person, RKO 1935) com Ginger Rogers - foi dificílimo encontrar uma foto deste filme,

„O Corcunda de Notre Dame“ (RKO, 1939) com Charles Laughton e Maureen O’Hara como „Esmeralda“,
„O céu é o limite“ (The Sky’s the Limit, Columbia, 1943) com Fred Astaire e Joan Leslie,
„No Teatro da Vida“ (Stage Door, RKO, 1937) um „clássico“ de Gregory LaCava com Ginger, Katherine, Ann Miller, Eve Arden, Lucille Ball entre várias outras,
„Espelho d’alma“ (Dark Mirror, 1946) no qual Olivia de Havilland interpretava gêmeas. Um bom film-noir,
„O Covil das Serpentes“ (The Snake Pit, 1948) mais uma vez Olivia, desta vez num hospício (aqui na foto com a adorável Celeste Holm),
„A Mestiça“ (Spitfire, RKO 1934) – um dos mais ridículos títulos em português para um péssimo filme – com Katherine Hepburn,
„Dance, Girl, Dance“ (RKO, 1940) com O’Hara e Ball. Ótimo filme sobre Stripers... (veja minha postagem de 02.06.2008
e „Cleopatra“ (RKO, 1934), com a deliciosa Claudette Colbert no mesmo ano de "Aconteceu naquela Noite" (It happened one Night) e com muita „ousadia“ de Cecil B. de Mille (numa era anterior ao Hays-Code de censura – e isto na „Sessão das Duas“!).


Pena eu não lembrar-me de outros títulos... Sim havia um filme chamado "Stella", sobre uma mulher que foi presa... Do resto nao me lembro... quem eram os atores? Quando foi feito? Nenhuma idéia mais...

- Será que voces conhecem ou lembram-se de algum destes filmes acima?

domingo, 9 de agosto de 2009

Widmung… Dedicatória… Clara Schumann mais uma vez aqui... e um pouco de Jessye Norman!

Num domingo cheio de paz e encantos... uns pensamentos sobre Robert & Clara Schumann...

Esta apaixonada e eterna „Lied“ de Schumann foi composta em 1840, ano de seu casamento com a grande pianista Clara Wieck, e abre seu ciclo „Myrthen“ Op.25. Esta imortal canção foi inspirada no poema homônimo de Friedrich Rückert. Ninguém está realmente 100% certo se Robert Schumann realmente compos esta „Dedicatória“ para sua noiva por não ter meios de presentear-lhe outra coisa… Bem, lenda ou não, este fato foi usado no roteiro de „Song of Love“ (1947) que, como já mencionado no domingo passado, tomou muitas liberdades com as biografias de todos envolvidos… Esta „Lied“ é a „Song“ do título… apesar de não ter sido „cantada“ no filme e dar (como título) um certo ar de musical ao filme (talvez pela palavra „Song“ não ter o peso de „Lied“, não acham?).

Tema central do filme, „Widmung“ é tocada tres vezes durante ele.

A primeira vez quando os noivos chegam ao seu pobre apartamento no alto de um prédio (sim… os pobres moravam no alto… tinham que levar não só suas compras mas também tapetes , que eram batidos no quintal uma vez por semana, alimentos, carvão e madeira para os andares mais altos). Aqui, na noite de núocias, ele dedica esta „Lied“ à Clara (e ela, sabidíssima, já toca com ele!).

A segunda vez, anos depois, é uma demonstração da Virtuosidade absoluta de Liszt que, como Clara diz ao seu marido, transformou "Widmung" numa dedicatória „com fogos de artifício“…

A terceira vez é minha predileta: Clara aceita o convite de Liszt para tocar e lhe descreve „Widmung“ mais uma vez, do SEU ponto de vista… Primeiro deixando bem claro que ela tem profunda admiração pela forma „bravurosa“, como se diria em italiano, e virtuosa com a qual Liszt transforma fatos tão corriqueiros, e até banais, nestas „apoteoses“ musicais… ou como ela diz: transformar o „lugar-comum“ em tao grandes experiencias. Mas às vezes estas formas parecem-se contradizer às coisas básicas e simples… e como ela bem formula para ele: as coisinhas sem importancia, Franz, as coisas pequenas, as coisas sem importancia… nada de tormentas em alto-mar, nada de barulhos de saias de seda, nenhum sentimento de culpa, nenhum brilho… só o amor! Simples, como ele é… sem « adoracao ». Dois coracoes que batem um para o outro… As coisas se importancia...“ (E nao é esta a essencia da música de Schumann?).

E ela mesmo diz a Liszt após terminar sua interpretacao: "Or do you know what I mean?"

Reparem como Liszt omite os acordes finais que sugerem „Ave-Maria“. Fato muito sutíl este, que transforma-o para o expectador num „bruto“ apesar de toda sua virtuosidade!

Personagens fascinantes da história da música: Robert, toda sua extrema sensibilidade que transformou-se numa agressiva bipolaridade que o levou à loucura e à morte aos 46 anos,

Clara, muito mais „prática“ com a vida, também sua sensibilidade que transformou-se em força, cuidando de vários filhos (8 ao total), também compondo (seus trabalhos são interessantes apesar de nunca terem sido „reconhecidos“), retomando a carreira de pianista para poder sobreviver e recusando (dizem) o amor de Johannes Brahms… Pelo fato dos dois, de comum acordo, terem queimado toda a sua correspondência, ficaram muitas perguntas em aberto… Houve realmente um amor entre eles? Da parte de Brahms sim… mas ela o correspondeu?

Aqui as tres cenas mencionadas acima:
Eu sei… são bem „açucaradas“. Mas não seria maravilhoso se a vida fosse assim?

Refiro-me também ao fato de Clara poder dar esta „bofetada com luvas de pelica“ em Liszt (Acho que todos nós já sonhamos alguma vez em nossas vidas com uma situação assim) sob o olhar assustado de Johannes Brahms (Detalhe: aqui interpretado pelo talentoso Robert Walker… que aliás muito prometia mas acabou-se por causa do alcóol em 1951… quando ele chegou a Hollywood era casado com a atriz Phylis Flora Isley , que depois ficou bem mais famosa do que ele, transformou-se em Jennifer Jones, casou-se com David O.Selznick – e está viva até hoje, com 90 anos! Mas esta já é uma outra estória, nao é verdade? Voltemos a „Song of Love“…).

Açucaradas ou não, como comentaram minha outra postagem sobre Clara: „Para a Beleza todas as licenças poéticas são permitidas!“.
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Eu gosto deste nome... Clara... minha avó chamava-se assim... a filhinha de minha querida prima Glenda também... Este nome tem um encanto único!

E aqui Jessye Norman cantando "Widmung" a "Song of love" do título do filme...

Widmung
Friedrich Rückert

Du meine Seele, du mein Herz,
Du meine Wonn', o du mein Schmerz,
Du meine Welt, in der ich lebe,
Mein Himmel du, darein ich schwebe,
O du mein Grab, in das hinab
Ich ewig meinen Kummer gab

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Du bist die Ruh, du bist der Frieden,
Du bist vom Himmel mir beschieden.
Daß du mich liebst, macht mich mir wert,
Dein Blick hat mich vor mir verklärt,
Du hebst mich liebend über mich,
Mein guter Geist, mein beßres Ich!