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sábado, 2 de fevereiro de 2013

A ingenua noção de Hollywood sobre psicanálise… Tres filmes e um final feliz...


Um destes dias revi „Spellbound“ de Hitchcock apesar de não ter boas memórias desse filme… E estas foram mais uma vez reconfirmadas.
O filme realmente não é do meu agrado.
Nele acho Ingrid Bergman extremamente inexpressiva ao mesmo tempo em que considero Gregory Peck um tanto exagerado, “overplaying” seu papel…


Durante o filme comecei a pensar em outros filmes de Hollywood que trataram do mesmo tema – Psicanálise – nos anos 40.
Este fato revela totalmente a extensão do meu interesse no trabalho de Hitchcock em “Spellbound”… Fiquei sonhando com outros coisas enquanto assistia o filme...
Fui levado por pensamentos, lembranças de outros filmes e até por idéias de como poderia resumir tanta informação para uma “tertúlia”…

Mas como era realmente a psicanálise tratada em Hollywood nos anos 40? Como se tentava enfocar o trabalho daquele “professor Vienense” (Freud) e aquela “ciencia” ainda tão nova e desconhecida?


“Lady in the Dark” (no Brasil “Senhora Escuro”), musical de 1944 estrelado por Ginger Rogers e Ray Milland, trata de Liza Elliot, uma bem sucedida editora de uma revista de moda. Apesar de Liza ser considerada no filme como uma mulher “masculinizada” (pois usa seu cabelo preso e veste sérios blazers clássicos e bem cortados) ela, para o standard atual, está linda. E com muita classe, tenho que adicionar (“Dizem as má línguas” que Ginger estava muito descontente com seu figurino – totalmente necessário para o papel de Eliza – de forma análoga à Kim Novak em “Vertigo” que quase causou uma úlcera a Hitchcock de tanto reclamar de seu figurino –"Vertigo" aliás é um filme que de certa forma lida também com um caso que muito necessitava de severa ajuda psiquiátrica.
Ginger e Kim estavam mais preocupadas com suas imagens do que com os papéis que desempenhavam… E as duas, «entre nous», nunca foram realmente conhecidas por classe e sim, bem mais, pelas suas tendencias à uma certa vulgaridade no setor de figurinos… Mas isto já é tema para uma tertúlia futura).


Baseado num musical da Broadway que foi dirigido por Moss Hart (que dirigiria no futuro Julie Andrews em “My Fair Lady”) e estrelado por Gertrude Lawrence (que seria interpretada por Julie Andrews em “Star!”, filme de 1968), “Lady” foi um grande sucesso.
Sua “fórmula” inovativa encontrou bastante aceitação com o publico da "East coast": quando Liza deitava-se no “divan” para ser analizada, as sequencias musicais começavam…
Nelas tomavam parte todos os personagens que trabalhavam com Liza na Editora e com os quais ela, de uma certa forma, estava envolvida…


O original na Broadway foi um grande sucesso, o filme ao contrário não fez nenhum sucesso... talvez pelo fato da maioria das canções de Kurt Weill (no seu primeiro trabalho nos U.S.A.) terem sido cortadas pelo director: Mitchell Leisen simplesmente odiava o trabalho de Weill… Não é também um prato feito para uma severa análise? Se ele tanto odiava a música de Weill, porque aceitou a direção de um filme que tinha as canções do compositor como tema central na sua estória?


“Spellbound” (1945, no Brasil “Quando fala o coração”) é um trabalho de “Hitch” que levou mais fama pela sequencia dos sonhos (e da análise destes pelo personagem de Bergman) do que pelo seu roteiro, valor e arte cinematográfica! O cenário do “sonho” foi “designed” por ninguém menos do que Salvador Dali (Dali no seu, pelo que me consta, único trabalho em Hollywood). Para quem gosta dele - I don’t - um prato cheio…

(Nota: para quem também gostou do fundo musical de “Rebecca” (Miklos Rozsa) uma ótima dica: o filme práticamente reusou, só 5 anos depois de “Rebecca”, a mesma trilha sonora… Estaria Mr. Selznick poupando?)


O filme começa com as seguintes palavras – certamente bem inovativas para a época:

“Our story deals with psychoanalysis, the method by which modern science treats the emotional problems of the sane. The analyst seeks only to endure the patient to talk about the hidden problems, to open the locker doors of his mind.
Once the complexes that have been disturbing the patient are uncovered and interpreted, the illness and confusion disappear… and the devils of unreason are driven from the human soul”

(Nossa estória trata de psicanálse, o método pelo qual a ciencia moderna trata dos problemas emocionais dos sãos. O analista procura sómente apoiar o paciente a falar dos seus problemas escondidos, a abrir as portas dos armários de sua mente.
Uma vez que os complexos que vem incomodando o paciente são descobertos e interpretados, a doença e a confusão desaparecem… e os demonios da falta de razão são dirigidos para fora da alma humana”) (tradução livre do autor deste Blog)

Não soa isto fácil e extremamente descomplicado? Além de parecer ser coisa rápida… (nos filmes dos anos 40 são rapidíssimas as recuperações… No momento em que o problema é reconhecido, Tcham-Tcham, o paciente está curado!).


Esta introdução de «Spellbound» parece traduzir perfeitamente o que todo o material cinematográfico dos anos 40 de Hollywood pretendia fazer da psicanálise…

Nossos “vizinhos” do hemisfério norte não são realmente conhecidos pela profundeza com as qual deveriam abordar certos temas… Ainda por cima a manipulação de Hollywood “criou” (históricamente provado) idéias e mudanças de comportamento… já escrevi uma vez aqui sobre isso.


“The Snake pit” (no Brasil “A cova da Serpente”, 1948), tem uma “tensão à mais” do que os filmes préviamente citados, já que nos dá a chance de estar com os pensamentos da “doente”, escutando tudo o que pensa, as vozes que ouve… Olivia de Havilland deu um bom desempenho para os padrões da época (pelo menos ela não é uma “paciente” glamourosa e produzida… o que não ficaria nada bem num hospício… mesmo assim: Hollywood sempre surpreendeu nestes casos… ).
Sua personagem é perseguida por fantasmas e interminávies, inexplicáveis torturas, perguntas...


Mas o final, como nos dois prévios filmes, é feliz!
A cura é supreendemente rápida e o final realmente feliz, até bem humorado…

E aí minha pergunta: porque nos tres casos acima citados são os tres finais iguais?
Todas as tres curas são relacionadas aos sentimentos de culpa que os personagens carregavam em si – dois deles (Ginger e Olivia) por terem brigado com “Papai” e este ter morrido brevemente em seguida do desentendimento, fazendo com que a crianca levasse esta «culpa» pela via… O teceiro (Gregory Peck) matou o irmãozinho acidentalente quando criança… um processo de culpa análogo aos dois outros casos.

O mesmo final é a “desvenda” dos problemas dos tres personagens, dos tres filmes.
Complexos de culpa provocados na infancia…

Falta de inventividade Hollywoodiana?
Ou simplesmente o reflexo de nossa sociedade que nos ensina desde a mais tenra idade a sentirmo-nos culpados?
Em casa (“se voce não come não vai crescer” ou “se voce não faz isto-ou-aquilo a mamãe vai ficar triste”… e por aí vai a lista das cobranças), na religião cristã (esta nos faz sentir culpa de tudo, quem faz "arte" não "vai para o céu"!), na escola (quem não “estuda” é “mau-aluno” e tem que sentar-se na última fila) e na sociedade em geral…


E além de tudo isso, a indústria cinematográfica, Hollywood ditando como deveríamos nos sentir?
Como deveríamos nos comportar?
Vamos ser sinceros… não é assim no Cinema até hoje?
Ando tão cansado de ver as pessoas assumindo “valores” para si porque os assistiram no Cinema ou na televisão…
Que bom prato também para umas sessões de análise…

Quo Vadis, personalidade?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A stolen Life (Warner 1946) ou "o roteiro original de " Mulheres de Areia" da TV Tupi"

Amazon na Inglaterra andou com umas ofertas „tão em conta“ que não pude resistir e em questão de 15 minutos gastei uns € 200… mas por quase 20 DVDs. Uma “pechincha”, if I may say so e se sou sincero…
Consegui filmes antiquíssimos da Fox com Alice Faye, Tyrone Power e Don Ameche… Clássicos do cinema britanico como “Genevieve” (com Kay Kendall – vide a postagem “Les Girls” de 28.06.2011), “The L-shaped room” (Leslie Caron), “The Pumpkin Eater” (Anne Bancroft) e “Blithe Spirit” (de Noel Coward) com (o marido de Kay Kendall) Rex Harrison e minha querida, amada Margaret Rutherford!

E comprei 5 DVDs de Bette Davis... como era o slogan?
"Nobody's good as Bette when she's bad".
Eu penso que se Bette Davis fosse uma bebida eu diria "Make it a double... or a tiny triple... and no ice, please!". Voces verão porque.


Me lembrava muito vagamente de “A stolen Life” (Warner, 1946) que já tinha visto alguma vez na minha vida am alguma “sessão das duas”. Alguns anos depois o mesmo tema foi desenvolvido para uma novela da TV TUPI, chamada "Mulheres de Areia", com Eva Wilma nos papéis principais como Ruth e Raquel.

Nesta suntuosa (e boníssima) versão a Warner prova mais uma ser um estúdio de „peso“. Além dos grandes dramas da Broadway que Hal Wallis comprava (a maioria para Bette Davis) vários outros filmes foram produzidos no que chamo de “os gloriosos anos 40 da Warner”. Tudo isso óbviamente contra a vontade de Jack Warner (“Quem quer assistir um filme sobre uma mulher morrendo de um tumor no cérebro?”. Toda a América quiz e “Dark Victory” tornou-se o maior sucesso de bilheteria de Davis até então)

Em “Vida roubada” Bette intrepreta as gemeas Kate, pessoa de ótimo caráter a quem falta um pouco de “sex-appeal” e Pat, mulher mais “sofisticada” a quem falta bastante moral.


Bette, danada e endiabrada como de costume, não optou por artifícios tal como usados por Olivia de Havilland em “Espelho d’alma” (Dark Mirror, International Pictures, também de 1946) para interpreter as gemeas. Refiro-me a “artíficios” como estilos de roupa opostos, penteados diferentes e até jóias penduradas em cordões com as (diferentes) iniciais dos nomes delas…
Bette usou só uma arma terrívelmente eficaz: seu talento como atriz.
Que “laboratório” deve ter feito.
Nao é à toa que esta mulher enlouquecia todos - dos camera men a Mr. Warner - no estúdio com seu perfeicionismo…

Escadarias nos famosos interiores da Warner (que adorava uma atmosfera, um “cheiro” de Boston, de New England – o que sempre foi infalível para dar classe a um filme), fabulosa fotografia, portos, gaivotas e barcos em New England, cheiro de mar, faróis, fog… Todos estes elementos dão ao filme uma atmosfera especial e envolvente no seu bem usado “preto-e-branco”.

Muitas cenas me impressionaram por serem de uma época em que a técnica era muito limitada… Principalmente quando as duas irmãs se encontram numa tempestade num pequeno barco no meio do oceano…
Interessante quando, sob este contexto, vemos a atriz filmando a cena só no barco… claro filmava ou Pat ou Kate… antes de serem unidas para sempre no reino do celulóide!


Como é bom sempre reencontrar Bette, aqueles olhos e aquele talento absurdamente grande…
E neste caso em dose dupla!!!!!!! Or let's make it a "tiny triple"?


Alguém já notou (e escreveu) que além de Kate e Pat existe uma terceira “mulher” interpretada por Davis neste filme: Kate, depois de assumir a vida de Pat, finge ser esta e confunde-se e machuca-se na vida atribulada de mentiras, traições, desamor, amantes e intrigas da irmã…


Além dessa „terceira“ encontrei a “metade“ de um quarta: relativamente no incío do filme, antes de Pat conquistar o „interesse romantico“ de sua irmã (um, deliciosamente jovem e bem apessoado Glenn Ford), ela passa-se por Kate… Mais uma faceta de Miss Davis!


Perdoe-me, Tio Walter (Clark) mas amo este "padrão Warner de qualidade"!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A „Folhinha“, a „Sessão das Duas“ e vários filmes esquecidos.

Gostei muito quando a querida Márcia (a "Paçoca") comentou que tinha gostado da postagem „tipo Sessão da Tarde“ (Judy e Mickey dançando a „Conga“). Esta sua exclamação espontânea trouxe-me, como um presente, boas lembranças.

Remexendo em recortes velhos de jornal, artigos de revistas, programas de teatro, fotos de cinema e muitas recordações dos anos 60, 70 da „famosa caixinha“ encontrei este recorte (acho que do „Jornal do Brasil“) que, creio eu, é dos anos 70: „Star!“ com Julie Andrews foi/ é um filme que adoro – apesar de ter sido um dos maiores fracassos da história do cinema e ter catapultado a carreira de Andrews para um poço de esquecimento durante muitos anos. Um dia falaremos sobre ele.

Deixando tantas recordações passarem por minhas mãos, lembrei-me de um fato gostoso: já nos anos 60 – digamos que com uns 8, 9 anos de idade – eu „colecionava“ estes „quadradinhos“ do jornal sobre os filmes que assistia e gostava. Cliquem no recorte de jornal para ve-los. Naquela época minha principal fonte de informação cinematográfica eram os maravilhosos cinemas do Rio (vide minha postagem de 17.12.2008) e a „Sessão das Duas“ (que sempre começava atrasada) muitos anos antes de ter-se transformado na „Sessão da Tarde“. Lembro-me de uma folhinha de papel (sim só uma) na qual eu colecionava e colava (dos dois lados) estes quadradinhos com o nome do filme (muitas vezes o título original em ingles estava mal escrito, com erros), elenco, a data e uma pequena descrição da estória. Eu colava aqueles recortezinhos de jornal com todo cuidado para nem sujar nem lambusar minha preciosa folhinha importante (usando cola „Polar“, lembram? Era branca, nada parecida à „Goma arábica“ ou „Araldite“ – tirei esta agora do fundo do baú, hein?). Se penso bem, há quarenta anos atrás, aquela folhinha foi o início da minha vida de colecionador, catalogador de coisas em referencia a cinema. Meu primeiro real „Arquivo“. Naquela idade eu já era descaradamente um amante do cinema! Não mudei muito... Este "state of mind", melhor, este "Love Affair" existe até hoje. Raras vezes quando revejo um filme que não "leio" alguma coisa nova nele.

Hoje em dia tenhos meus filmes, meus DVDs (alguns vídeos ainda), CDs (Long-Plays e compactos também; nunca me desfiz deles) e ainda recortes, programas, fotos etc.etc. minuciosamente organizados e catalogados. Encontro tudo.

Mas, aqui entre nós, fiquei com saudades daquela folhinha que foi perdida. Como seria bom te-la ainda… Saudades daquela simplicidade e ingenuidade de criança. Saudades do orgulho que tinha em ter uma folhinha dos MEUS filmes prediletos. Saudades dos tempos em que cada filme de Fred & Ginger era uma emocionante surpresa e descoberta. Saudades do dia em que descobri que já tinha assitido 9 dos 10 filmes que esta dupla tinha feito e de como fiquei orgulhoso. Saudades de chegar em casa do colégio e as vezes almoçar vendo um filme (na TV „Philco“, ainda em preto-e-branco). Saudades de não entender porque todos meus amiguinhos gostavam mais de Ié-ié-ié do que das baladas de Nat „King“ Cole, das Chansons de Jacqueline François, da música de Gershwin, Cole Porter e Irving Berlin ou dos sucessos mais populares de Doris Day. Ou porque preferiam assistir „Se meu Fusca falasse“ em vez de „Cantando na Chuva“…

Lembro-me ainda de alguns recortes que enchiam aquela folhinha:

Filmes antiquíssimos - quase que invariavelmente da RKO (porque?) – alguns dos quais nunca voltei a rever, como por exemplo:

„Em Pessoa“ (In Person, RKO 1935) com Ginger Rogers - foi dificílimo encontrar uma foto deste filme,

„O Corcunda de Notre Dame“ (RKO, 1939) com Charles Laughton e Maureen O’Hara como „Esmeralda“,
„O céu é o limite“ (The Sky’s the Limit, Columbia, 1943) com Fred Astaire e Joan Leslie,
„No Teatro da Vida“ (Stage Door, RKO, 1937) um „clássico“ de Gregory LaCava com Ginger, Katherine, Ann Miller, Eve Arden, Lucille Ball entre várias outras,
„Espelho d’alma“ (Dark Mirror, 1946) no qual Olivia de Havilland interpretava gêmeas. Um bom film-noir,
„O Covil das Serpentes“ (The Snake Pit, 1948) mais uma vez Olivia, desta vez num hospício (aqui na foto com a adorável Celeste Holm),
„A Mestiça“ (Spitfire, RKO 1934) – um dos mais ridículos títulos em português para um péssimo filme – com Katherine Hepburn,
„Dance, Girl, Dance“ (RKO, 1940) com O’Hara e Ball. Ótimo filme sobre Stripers... (veja minha postagem de 02.06.2008
e „Cleopatra“ (RKO, 1934), com a deliciosa Claudette Colbert no mesmo ano de "Aconteceu naquela Noite" (It happened one Night) e com muita „ousadia“ de Cecil B. de Mille (numa era anterior ao Hays-Code de censura – e isto na „Sessão das Duas“!).


Pena eu não lembrar-me de outros títulos... Sim havia um filme chamado "Stella", sobre uma mulher que foi presa... Do resto nao me lembro... quem eram os atores? Quando foi feito? Nenhuma idéia mais...

- Será que voces conhecem ou lembram-se de algum destes filmes acima?