“Thaïs-Pas de Deux” é um trabalho maravilhosamente rico, denso… também em sua atmosfera exótica… Pensando nos trabalhos em que foi inspirado, gostaria de tentar aqui uma análise mais próxima, já que, apesar de um pouco esquecido e talvez até um pouco “ empoeirado”, é uma maravilha em termos coreográficos, históricos e mais do que digno de uma curta pesquisa.
A Ópera “Thaïs” (1894) de Massenet foi baseada no livro homonimo de Anatole France. Apesar de estar em terceiro lugar como obra mais encenada de Massenet (depois de “Manon” e «Werther») é para muitos desconhecida. Em sua estréia mundial, na Ópera Garnier, chamou mais a atenção do público e crítica pelo simples fato de sua intérprete principal, o soprano californiano Sybil Sanderson, estar extremamente “levemente” vestido, principalmente ao redor dos seios – o que chocou as platéias da época… Só em 1903, no Scala, foi pela primeira vez realmente aceita e de certa forma admirada pela sua genial musicalidade. Sua estréia no Novo Mundo teve lugar em 1907 em N.Y. com o soprano Mary Garden.
“Thaïs” não é realmente parte do repertório “standard” da maioria das casas de Ópera mundo afora. Não é «naturamente conhecida» e "popular" como uma “La Bohéme”, uma “Butterfly”, uma “La Traviata”. Talvez pela sua dificuldade técina (poucas cantoras “atuais” atreveram-se a cantar a parte de Thaïs… Leontyne Price -querida Leontyne!-sucedeu-se maravilhosamente e recentemente em 2008
a maravilhosamente talentosa (e linda) Renée Flemming - foto acima- recebeu belíssimas críticas) mas também talvez pelo seu tema e colocação histórica no tempo, delatando a «suposta» verdade, a «forma oportunista da afirmação» do Cristianismo (como interpretado na época e, talvez, até hoje em muitos países do terceiro mundo), não da religião em si... Um difícil papel… essa „dualidade” entre o passado e o presente, entre o ser profano (e até entre o "crer") e ser (supostamente) religioso…
O enredo de “Thaïs” tem seu lugar no Egito, no quarto século depois de Cristo, durante a ocupação bizantina. Em Alexandria um monge chamado Athanaël tenta, a qualquer preço, converter a linda cortesã (e profanamente devota de Venus) Thaïs ao Cristianismo. Isso só para descobrir que sua obsessão por ela está baseada no simples e primitivo desejo carnal. O “clímax” da Ópera está para mim na cena em que Athanaël reconhece para si mesmo a razão de sua louca obsessão enquanto, ao mesmo tempo, a pureza angelical de coração desta ex-cortesã nos é revelada…
“Thaïs” é uma obra muitas vezes descrita como contendo um certo “eroticismo religioso”. Acho que o “ápice” desta afirmaão está no Entr’acte para Orquestra e solo de violino, o famoso “Méditation” (entre as cenas do segundo ato). Logo falaremos mais sobre ele – pois ele é a real razão deste escrito…
(acima: Viviana Durante e Stuart Cassidy)
Momentos, como no início do segundo ato, nos quais Thaïs expressa uma profunda disatisfação com sua vida, inútil e vazia, e com seu futuro (que acabará qundo perder sua beleza), são de uma eloquencia enlouquecedora e fascinante. Seguem momentos inolvidáveis como quando, por exemplo, Thaïs decide acompanhar o sacerdorte para o deserto e ele lhe pede que destrua todos seus bens queimando seu palácio, como para liberar-se completamente do seu passado, dos seus “pecados”. Ela concorda mas lhe pede um único favor: poder levar uma estátua de “Eros”, Deus do Amor, explicando-lhe que “pecou mais pelo amor do que por causa dele » (uma sutíl diferença, n’est-ce pas?). Ele, radicalmente, não aceita seu pedido e os dois mal tem o tempo necessário para escapar já que estão sendo apedrejados pelo povo “pagão” (que nao quer que ele leve-a ao deserto).
Eles escapam.
Exaustos chegam a um oásis. Os pés de Thaïs sangram, ela está quase morrendo (lembram de como «Manon Lescaut» morre nos braços de Des-Grieux nos desertos de New Orleans ?). Mesmo assim eles se referem a momentos idílicos e platonicos de companheirismo… E assim chegam ao Monastério onde Thaïs será enclausurada para o resto de sua vida…
Um momento, que quase esqueci, e que é de extrema importancia para o entendimento desta obra, é também inesquecível: No primeiro ato Athanaël fala a Thaïs de seu amor. Espiritual. Para a eternidade. Ela discorda e fala do lado carnal de seus desejos… Depois do “Entr’acte” (Méditation) ELA muda de idéia… e para quem quizer saber : o final do terceiro ato nos revela um Athanaël chegando à cama-de-morte de Thaïs. Mudado, arrependido. Ele lhe conta que tudo que lhe ensinou (lembram da viagem pelo deserto?) foi uma mentira. Que na verdade é a vida entre dois seres humanos, o aor carnal, o que conta…
Ela só lhe descreve o que está vendo naquele momento: como os céus estão abrindo suas portas para recebe-la e como os anjos estão voando em sua direção para escortá-la ao paraíso…
para então morrer…
«Thaïs-Pas de Deux» é, para mim, um resumée de toda uma mega de emoções que tem lugar nos dois primeiros atos da Ópera de Massenet e nos primeiros capítulos do livro de De France.
(acima: Nino Gogua e Lasha Kozahshvili)
Sir Frederick Ashton, talvez o maior coreógrafo do século XX, usou brilhantemente “Méditation” ( o já mencionado « Entr’acte ») para o seu «Thaïs-Pas de Deux». Muitos falam que ele reflete de certa forma a imersão de Ashton no “entertaimment” popular de seus jovens anos… Nascido em 1904, Ashton cresceu numa época em que o Ballet também fazia parte das Pantomimas (típicamente inglesas… como p.e na época do Natal “Cinderella”) e programas de Music-Hall. Principalmente os últimos atraíam platéia de diferentes camadas sociais e poder monetário – e por esse motivo tinham que ter temas “da atualidade” (de então) para os espetáculos. Incrívelmente, tanto na infancia/juventude de Ashton até a minha própria infancia/juventude (na década de 60) todos éramos levados por “mundos de sonhos” e estórias do Oriente Médio. Pensem p.e. em Ali Baba… ou na quantidade de véus que caíram ao chão, em algum harém, para revelar lindas e misteriosas mulheres que lá estavam emprisionadas… Idéia, imagens, protótipos do Oriente (médio) povoavam nossas imaginações… e os véus, definitivamente, exerciam um grande papel… principalmente misterioso e sensual…
«Thaïs-Pas de Deux» teve sua premiére mundial em Londres, em março de 1971, com (os lindos) Antoinette Sibley e Anthony Dowell. Inevitávelmente esse Pas de Deux reflete a época e o lugar em que foi criado (por isso a «sugestão» sobre a “imersão de Ashton no Entertaimment popular dos seus jovens anos») por ter eternizado o tempo em que Londres e uma grande parte das capitais européias estavam presenciando uma espécie de «Revival» da) cultura oriental (média), da qual «Thaïs» - seja livro, Ópera ou Pas de Deux – é um «Pastiche» (Detalhe: o Pas de Deux sublinhou e perpetuou o status de «Super Stars» de Sibley e Dowell como «Casal de Sonho» do Royal Ballet das décadas de 60 e 70… já que o Ballet foi concebido por Ashton para eles - foto acima).
Bem… 2011… na nossa atualidade – e não sei se por motivos só políticos, ou éticos, ou influenciados pelo oportunismo (nao sei mesmo e não quero opinar, já que é um tema muito sensível e que não tem realmente lugar nas «Tertúlias») o papel da cultutal oriental (média) está sendo, ou já foi, completamente esquecido. Pensem nos «véus» das estorinhas que lemos como crianças… eram misteriosos e eróticos. Hoje simbolizam, pelo menos nas nossas mentes “ocidentais” opressão sobre o sexo feminino, Fanatismo religioso, Radicalismo… Em França estão proibidos… como nos distanciamos dos valores mais «naïve» e descomplicados de nossa vida de « jovens». Como a amiga Eliana Caminada escreveu comentando minha postagem anterior : «é tão bom relembrar que já fomos ingênuos”
(acima: Lucia Lacarra e Marlon Dino)
Mas esta postagem está transformando.se numa longa estória e esta não é minha intenção… Pensemos só em como Ashton conseguiu resumir uma tendencia da “Swinging London” com música dos Beatles, leituras de Khalil Gibram, do início dos anos 70, com sua curiosidade sobre e cultura do Oriente Médio, num momento de uma beleza patética como aqui em «Thaïs-Pas de Deux».
Fato é que «Thaïs-Pas de Deux», apesar de Thaïs ter sinalizado sua vontade de «cooperar» ao retirar o véu, acaba no momento em que os dois se beijam, como se ela – livre de desejo – não «respondesse» a atitudes tão «humanas, mortais»…
Divirtam-se com Sibley e Dowell (com o "bonus" de testemunhar o magnífico Ashton os ensaiando)
e (numa versão mais atual, na qual me falta infelizmente muito da "mágica" de Sibley e Dowell) Leanne Benjamin e Thiago Soares. Soares não entendeu aqui o que está fazendo. Acho que Roland Petit também coreografou "Médiation" mas não estou muito certo... Senão me engano assisti Dominique Khalfouni uma vez bailando-o... Eliana, voce sabe... conte-nos!
e a divina Anne-Sophie Mutter!






27 comentários:
Fantastico o artigo Ricardo pois eu nao sabia da historia ...emocionante e ja estou me sentindo hoje a Thais..continue nos ensinando e nps ajudando na nossa cultura!
bjs Zanza om.
Para quem nao sabe: "Zanza" é Rosangela Calheiros, uma das mais lindas bailarinas que nosso Theatro Municipal já viu!!!! OK???
Zanza, o que é isso? Como se voce precisasse de cultura... Nao seja "coy", OK???
Love
Ricardo
Só o último filme abriu, o do violino mágico
Mauri
Estranho... revi as configuracoes dos videos colocados... estao como sempre... Tente de novo, menino... acho que voce gostaria particularmente do primeiro...
Oi,Ricardo
Que viagem fantástica esse seu post.
Adorei! Tks,amigo,por tanta cultura e beleza juntas.
Bjs
Lícia
Lícia querida, será que vale mesmo tanto a pena o tempo que envisto aqui???? Comeco a questionar isso... pois o tempo está cada vez mais raro...
Funny. I don't like Dowell here. Too affected. Don't know what Ashton saw on him to promote him so much. I'm more into real men as danseurs. Richard Cragun for example. Mike
Que momento maravilhoso,Ricardo!!!!
Como eu gosto desta música e dos diversos pas de deux!!!
Lindo,inesquecível!!!
Bjs
Genial e Fabuloso Amigo:
"...A Ópera “Thaïs” (1894) de Massenet foi baseada no livro homonimo de Anatole France. Apesar de estar em terceiro lugar como obra mais encenada de Massenet (depois de “Manon” e «Werther») é para muitos desconhecida..."
Uma pesquisa imensa de talento seu extraordinária.
Parabéns. Um Excelente brotar da cultura mágica que possui em si e no que é.
Fabuloso.
Abraço amigo de respeito pelo que concebe de maravilhar.
Sempre a admirá-lo.
Agradeço a sua visita fantástica.
pena
Conhecia apenas o pas de deux com a Lacarra... não a história tão comovente e bela. A música, agora, faz mais sentido.
Gosto de passar por aqui, é sempre um aprendizado.
Bises
Karin
espetacular!!!!
Como sempre!
vc e fantastico!
Agradeco as maravilhas que vc posta.
Oi,Ricardo
Querido amigo-irmão,é claro que o tempo investido em qualquer coisa que lhe faça feliz vale mesmo a pena,sim.
Só vai perder a validade se vc estiver entediado ou deseje fazer outras coisas, real e/ou virtualmente.
O importante é vc fazer algo que lhe dê alegria,que ponha alma nisso; caso contrário,é hora de dar um tempo indefinido.
Ah,tks pelos comentários lá no blog (o qual uma vez até programei pra ser deletado,mas recebi tantos pedidos pra mantê-lo,que revi minha decisão,reverti o processo e redescobri o quanto me divirto ao selecionar e postar tantas besteiras; é u caso bem diferente do seu,mas...medite a respeito, pls).
Beijos
Da velha amiga de sempre
Lícia
Que belo! Não conheço essa ópera, mas é um gênero musical que me delicia. Ontem mesmo comprei CREPÚSCULO DOS DEUSES, de Wagner...
Abração
O Falcão Maltês
Adorei, Ricardo. Adorei de verdade!Não conheço a Ópera, mas conheço alguma coisa de Thais, principalmente a Meditação.Você, um verdadeiro Mestre, dá uma aula completa e encanta com seus comentários super pertinentes.Se não for abuso, peço que continue, continue e continue.......Beijinhos da Prima e Fã. Mary
Agora, abriram. Realmente, não vi personagem no Thiago. E mesmo nos cumprimentos, parece perdido... Não é “signalizado”. É sinalizado. bj
Mauri
Mauri, meu eterno professor, já retirei... hi hi!!!! Foi bom eu perguntar... Mais um dqueles erros de brasileiro que vive fora do Brasil há 30 anos... Obrigado!!!!
Queridos todos, nao vou responder individualmente pois assim teria que escrever muitos comentários! Obrigado pelas palavras, pelo tempo que voces tomam para ler meus escritos e pesquisas... Faz um bem muito grande esse "dividir" (com pessoas que dao valor às artes e sao abertas para todas suas formas... sejam elas ballet, cinema, teatro, música, estórias em quadrinhos, literatura ou pinturas... )! Um "brinde" aos "Tertuliadores"! Que "safra" de amigos sensíveis tenho!!!! Ricardo
Que extraordinário texto de cultura musical e não só.
Obrigado pela partilha.
Meu querido amigo, vim aqui é sempre um momento de beleza e banho de cultura. Não conhecia essa ópera,mas seu talento e sensibilidade em descrever e nos encantar é maravilhoso. o violino é lindo, lindo!
Beijos e LUz!
Uma preciosidade de história, Ricardo.
bjs Claudia-Louise
Ricardo querido, como vai?
Bem, hoje consegui ver os dois pas-de-deux vagarosamente. É lindo, um pedacinho de delicadeza. Chamei o Eric e discordamos de você apenas no que diz respeito a Thiago. Nós o achamos lindo. É outro bailarino, sente de outra maneira, mas tem um refinamente ao tocar a bailarina, faz um contraste tão bonito entre o carnal e o divino que, quem sabe, merece ser revisto por você novamente. Até porque, Dowell gosta muito dele e muitas vezes o orienta particularmente.
Com uma observação: você pode tê-los visto ao vivo e isso faz muita diferença. Mas, cuidado. Eu tendo a ser saudosista. Khalfouni, por exemplo, custo a esquecer dela para gostar de outra bailarina. E o ballet segue seu caminho e assim se mantém sempre atualizado. É o bailarino que atualiza as criações dos coreógrafos. Mesmo os grandes.
Roland Petit fez outra maravilha com Meditação de Thais. Abstraiu-se totalmente da história, fez um duo abstrato belíssimo, que não consigo ver com outra bailarina que não Khalfouni. O pas-de-deux faz parte de um ballet feito para o Ballet de Marseille - Ma Pavlova, de 1986 - e algumas partes dele são pouco felizes. Outras, ao contrário, são maravilhosas. Coisa de gênio, de gente que não tem medo de experimentar. Segue o link para você.
http://www.youtube.com/watch?v=AWEXhGN61Vs&feature=related
Um beijo da Cami e Eric, ousando discordar de você.
Eliana, minha querida amiga, que "ousar discordar" o que :)???? "Tertuliar" é isso memso... e, entre nós, como vou eu aprender algo na vida senao for ouvindo (e lendo) opinioes diferentes das minhas? Adoro, valorizo e respeito tuas opinioes pois vem de uma pessoa inteligente, cultíssima e sensível... P.S. Voce sabia que tenho "Ma Pavlova" em video e nunca tinha me dado conta que Meditation lá está...???? Pode???? Vai ser meu programa televisivo para depois do almoco!!! Depois te conto!!!!
P.S.2 E como por voce sugerido, vou rever Meditation com Thiago!!!!
Um Beijo e muito carinho!!!! E MUITO OBRIGADO!!!!!
Ricardo
Gosto mesmo de ver, ler e ouvir seus posts. Além de claros e sinceros você é simpático na sua escrita.
beijos
Angela, simpática é voce, com esses jeito sempre gentil, aberto, sincero! É para mim um grande prazer saber que voce disfruta daqui... Obrigado!
Que presente ganhei hoje!!!Sublime...Ricardo, continue investindo no tempo, na cultura, na magia da vida...Cultura pura esse Blog! A-MEI!!!Sensibilezei-me(mais uma vez) com Meditation de Thais...Maravilhoso te reencontrar! Bjs,bjs.Claudia
Gostei!,nao é das melhores obras de Ashton,já vi L.Benjamin em Manon no C.Garden em Sept.de 2008,Maravilhosa!,desta vez nao foi tao bom,achei Thiago bem,apesarde so tem de carregara Ballerina,os 8 compassos que teve solo,foi bem, Ashston se repete muito ,em Pas de Deux especialmente,os Ballets Dramaticos dele sao bem acima, como MONTH in THE COUNTRY,ENIGMA VARIATIONS, etc,.......
Gostaria entrar em contato c/ZANZA,gostou muito dela ,que dé o filho ?tao lindo en criança,Beijos para Ela
Um Abraço,
Tatiana
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