quinta-feira, 23 de junho de 2011

REMEMBERING: Leontyne Price

Viena, 18.6.2011

Ontem acordei com o que chamo de “My Leontyne Price-Mood”. Entre meus vários CDs busquei um (capa abaixo) com «A» gravação de «Chi il bel Sogno de Doretta» de «La Rondine» (Puccini). Uma de suas interpretações que mais prezo, mais admiro… E fiquei pensando, refletindo sobre a carreira desta excepcional artista…


Que longo caminho percorreu esta menina de Laurel, Mississipi…


Filha de uma parteira e de um marcineiro que a encheram de amor (esperaram 13 anos pela “chegada” dessa criança em 1927), já na tenra infancia Leontyne demonstrou seu talento em relação à música. Com tres anos de idade seus pais lhe deram um piano de brinquedo – para logo colocá-la em aulas sérias com uma professora local. O “gramofone”da família foi vendido para interar o “sinal” de um piano verdadeiro para a menina Leontyne. A patroa de uma tia sua (que era lavadeira), Mrs. Chisholm, figura de influencia local, incentivou não só seus estudos de piano como também sua extraordinária voz.
O resto é história.

Com a ajuda financeira dos Chisholm e do baixo Paul Robeson (que deu um concerto beneficente para ela) ela pode aceitar uma bolsa de estudos na Julliard – pois seu “alvo” era tornar-se uma professora…
Uma revival de “Porgy and Bess” de Gershwin em 1953 mudaria sua vida. Neste mesmo ano o “Met” convidou-a para cantar com o Ensemble no Ritz Theater da Broadway para uma Gala de fins caritativos. Ela foi então a primeira afro-americana a cantar “com” o Met (apesar de não ter sido a primeira a cantar “no” Met).

Mais anos de muito estudo, definição de repertório, aprendizado em recitais, tournées pelos U.S.A., India e Australia seguiram… Até que em setembro de 1957 ela debutou no palco da Ópera (“Dialogues de Carmélites” de Poulenc). Antes ela já tinha sido convidada por Herbert von Karajan para debutar no Scala (sob sua regencia) em “Salomé”, ela porém declinou. Não sei realmente porque…

Em 1958 mais uma vez von Karajan convidou-a para «Aida» na Staatsoper em Viena – palco que seria muito importante para todo o resto de sua carreira, palco no qual foi declarada “Prima Donna assoluta”. Leontyne Price virou a cabeça do público vienense, revolucionou o mundo da Ópera aqui e tornou-se o ídolo dos estudantes que a carregavam desde a entrada dos artistas da Staatsoper até o Hotel Sacher, onde se hospedava.


No ano seguinte ela retornaria à Viena não só para repetir seu sucesso como “Aida” mas também para debutar como Pamina em “A flauta mágica” de Mozart. Sua pura voz e um “entendimento” mais do que simplesmente “gramático” do idioma alemão deram-lhe a facilidade de entender a delicadeza e projetar a leveza de um Mozart, assim como anos mais tarde abririam-lhe as portas para a complexidade das perfeitas, poéticas frases musicais de um Richard Strauss

Depois de Viena seguiram-se “debuts” no Covent Garden, Arena di Verona e no “La Scala”.

Rudolf Bing, o temido diretor do Met, convidou-a para uma única performance de “Aida” no Met em 1958. Ela não aceitou, como lhe foi recomendado pelo seu “manager”: “Leontyne Price está destinada a ser uma grande artista. Quando ela debutar no Met, será como uma grande Dama, não como uma escrava”, disse ele.


Um ano mais tarde Bing a ouviu uma vez mais em Verona em “Il Trovatore” e a convidou para o Met – desta vez para vários papéis. Ela aceitou.
Ela debutou junto a Corelli em “Trovatore” (num, por ssim dizer “debut duplo”) e o público a ovacionou por 42 minutos! Um “record” até hoje na história dessa casa.


Entre os vários papéis que lhe foram oferecidos figurava também Cio-Cio-San de “Butterfly” que ao contrário da “lenda” foi interpretada SEM maquiagem branca .


Sua última “Ópera” foi “Aida” em 3 de janeiro de 1985. Uma carreira de 32 anos que ainda continuou em concertos e recitais em Hamburgo, Viena, Paris, Lucerna e no Festival de Salzburgo por mais 12 anos. Seu poder vocal foi fenomenal. Ela sempre alcançou os “High Cs” com muita facilidade – ela mesmo disse que, debaixo do chuveiro, alcançava regularmente também um “High F”. Fenomenal.

Inspiração de grandes artistas como Kiri Te Kanawa, admirada por «colegas de profissão» como Pavarotti (“Só poucas cantoras conseguem encher um “Hall” para um concerto ou um recital: Joan Sutherland, Leontyne Price e Marilyn Horne”), Placido Domingo (“O mais lindo Soprano de Verdi que até hoje ouvi”) e até Callas (“Eu ouço muito amor em sua voz”).


Leontyne recebeu muitas homenagens em sua bela carreira – a última em 2008 “Honoree at National Endowment for the Arts Opera Honors”.
Ela vive em Greenwich Village.

Gostaria de deixar aqui dois momentos, bem diferentes, de sua fase concertante. A ária de «La Rondine» ao qual me referi quando comecei a escrever esta postagem… o que ouvi ontem…
Que momento supremo!!!!



…e, já celebrando o (nosso) verão que entrará dia 21... “Summertime” de Gershwin. "Carro-chefe" que ela nunca esqueceu apesar de que técnicamente não se compara ao canto lírico que a tornou famosa em todo o mundo. Eu adoro...
Eterna Leontyne Price!!!

18 comentários:

pinguim disse...

Uma grande diva, sem sombra de dúvida.

Moyses Ferreira disse...

Que linda! Não conhecia!!!

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Que homenagem maravilhosa, Ricardo. A força vocal de Leontyne é sublime.

O Falcão Maltês

Anônimo disse...

Querido Ricardo,desejo que voçe melhora de seu problema rapidamente,e continua com suas Tertulias,para a felicidade de muitos,e seu intretimento,apezar do que Eu, pessoalmente usou meu Laptop para contatos amistosos,ou cartas em geral,
Melhoras!
Abraços,
Tatiana Leskova

Anônimo disse...

Devidamente avisado.

andré setaro

Anônimo disse...

Ricardo,

muito bom parabens!
tentei postar comentario mas nao sei se ficou
sao complicados estes blogos pra postar
bb

As Tertulías disse...

Sim, queridos todos... Leontyne é, como Antonio bem disse, sublime... aquela menina de Laurel, hein?

Anônimo disse...

Ótima matéria, Ricardo. Entendo perfeitamente essa dificuldade para
postar toda semana. Um abraço
Eliana

Anônimo disse...

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Leontyne... Maravilhosa! Confesso que não a conhecia... Gosto de música lírica, mas tenho pouco conhecimento.
Por isso é que adoro vir aqui! A cada visita, aprendo um pouco mais...


Beijos nesse coração tão sensível!

Zélia

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angela disse...

Magnífica e ao mesmo tempo tem uma simplicidade e uma simpatia enorme. Adorei conhece-la.
Obrigada pela apresentação.
beijos

Lícia Marques disse...

Oi,Ricardo

Muito obrigada por mais esse belíssimo post,que esquentou esse meu início de inverno.

Bjs

Lícia

PS: Tks pelo comentário no blog; bom,eu considero muito útil,pq sempre usei essa habilidade na profissão - assim como vc - mas com um plus: não sei se vc lembra,mas na infância eu costumava escrever da direita pra esquerda os ditados que considerava chatos,ou provas inteiras,só pelo prazer da molecagem...hahaha. Pior: até hoje faço isso.

Danielle Crepaldi Carvalho disse...

Oi, Ricardo.

Que lindo seu post! Linda apresentação da vida e carreira de Leontyne Price (que mulher bonita; que presença de palco e que voz!).
Você sabe que sou aprendiz no que toca à música clássica, então só posso dar opinião impressionista. Duas coisas me chamaram a atenção: ela não ter se pintado de branco para fazer a M. Butterfly e ter se recusado a se apresentar no Met de Aida. Isso denota uma força impressionante, considerando-se a perseguição racial da época. Aponta também a vitória da arte sobre o preconceito, o que é sensacional.

Adorei as cenas que você escolheu também!

Bjs
Dani

As Tertulías disse...

Dani querida, nao sei se compreendi corretamente... mas a razao dela nao debutar no Met com Aida nao foi por pensar que seria preconceito racial ou pelo papel ser de uma escrava... ela nao aceitou "se escravizar" como artista e fazer só UMA apresentacao... ela, que em Viena já era conhecida como Prima Donna Assoluta! Claro que sua cor de pele foi um motivo para "adiarem" tanto sua primeira apresentacao lá... outra coisa: é emocionante ler o relato dela contando sobre sua primeira apresentacao em Laurel... para sua mae, para o casal que ajudou-a. Ela naquele mometo sentiu-se realizada em sua carreira... Fascinante mulher, nao? Beijos
Ricardo

As Tertulías disse...

Lícia, querida amiga... será que o inverno aí está tao frio quanto o verao daqui??? :-)) Brincadeira a parte_ adorei que voce gostou. Leontyne é muito especial para mim... sim, como Callas disse: a gente ouve o amor que possui através de sua voz... Linda, linda!

Lícia Marques disse...

Querido Ricardo

Acredito q o verão daí é mais frio q o inverno daqui; afinal,tenho a sua palavra :-D.

Bom,agora sério: legal vc ter gostado.

Sei q vc em extremo bom-gosto,e Leontyne é super-fera,por isso obteve um lugar very special nisso.

Linda definição dada por Maria Callas.

Como sempre digo,suas Tertúlias formam um lugar ultra-diferenciado no blogosfera,em termos de qualidade e de Artes.

É por isso q daqui não saio...

Bjs

Da velha amiga de sempre

Lícia

As Tertulías disse...

Lícia querida, obrigado... só vce mesmo!!!!!!!! Beijos do amigo!

Meio e Imagem disse...

Ricardo, que emocionante postagem! Todas as reverências para Miss Price - pela voz, pelo talento, pela personalidade e por sua dignidade como artista. Sobre ela, tenho uma bela história "emprestada" do Antonio Bento; ele estava em NY numa época em que ela daria um concerto no Met e não conseguiu ingresso de jeito nenhum. Desesperado para vê-la, foi até o Met na hora, na esperança de conseguir uma desistência. E nada. Quando deixara a bilheteria, totalmente desiludido, um senhor que tinha observado suas tentativas aproximou-se e disse: - Olha, eu tenho um ingresso sobrando. Um amigo que vinha comigo cancelou há pouco. Tome! - e repeliu os esforços de um agradecido Antonio para comprar o ingresso. Deu mesmo pra ele! Você nem imagina com que emoção Antonio me contou isso, e com que brilhantismo particular Leontyne Price o brindou naquela noite. Segundo ele, a artista esteve simplesmente apoteótica. E ele só fazia chorar, chorar... Com certeza, este foi um dentre os milhares de momentos sublimes que a diva proporcionou aos seus fãs no mundo todo. Bravo, bravissimo!
Beijo
Maurette

As Tertulías disse...

Que lindo momento Maurette! Nossa... esse senhor, como um anjo, dando a entrada para o Antonio Bento. Essa imagem ficou agora gravada... Bonita...