Hoje em dia não se fala mais deste nome – mas ela foi uma das rainhas da Metro e dos seus gloriosos musicais.
Como vários outros «da casa» (Lana Turner, Mickey Rooney, Ava Gardner, Judy Garland) ela passou por um longo período de preparação para debutar em «Andy Hardy’s private Secretary» - série com Mickey Rooney que era usada como « escada », ou seja como o lugar para o Debut de várias atrizes (por exemplo também Esther Williams) como uma espécie de “teste”. Logo seguiram outros filmes como “Rio Rita”, “Thousands Cheer” e seu primeiro grande sucesso “Anchors Aweigh” (1945) com Gene Kelly e Frank Sinatra.
O «cliche» do «soprano» (Kathryn tinha uma linda coloratura, por sinal) não lhe poupou terríveis filmes e ela foi muitas vezes uma grande vítima da arrogancia dos chamados “filmes de prestígio” da Metro. Lembro-me de uma terrível “Je suis Titania” de “Mignon” num filme esquecido (e esquecível) ao lado de Mario Lanza e David Niven…
Seus tres últimos filmes, respectivamente de 1951, 52 e 53 foram seus melhores:
Como Magnolia em «Show Boat» ao lado de Howard Keel e Ava Gardner (detalhe, a esquecida Miss Grayson era o primeiro nome do elenco !) ela teve a incrível possibilidade de eternizar-se neste “Musical dos Musicais”, com a inolvidável musica de Jerome Kern!
Em «Lovely to look at» (com Red Skelton, Ann Miller, Zsa Zsa Gabor e mais uma vez Howard Keel), um “remake” de “Roberta”, ela teve não só um ótimo papel numa ótima produção mas eternizou uma linda música (Vejam o vídeo abaixo !).
Sua tempestuosa «Lilli Vanessi/Catarina” de “Kiss me Kate” (com Ann Miller, Bob Fosse, Tommy Rall e pela última vez Howard Keel, que provou ter, como Petruchio, um “corpo” neste filme!) acabou com o cliché de soprano, atriz comportada. Kathryn Grayson está simplesmente maravilhosa neste papel. Enfezada, agressiva, "felina"... Outra Kathryn!
Seu “I hate Men” é um dos momentos mais divertidos do cinema musical – e quanta técnica… Uma “megera realmente ainda nada domada”! (vejam minha postagem de 18.02.2009)
Mas a partir de 53 os musicais estavam começando a entrar em declínio, acabar. Seu contrato com a MGM também acabou. Ela ainda fez dois filmes em outros estúdios mas sua carreira havia realmente terminado. Uma pena este "timing" - exatamente quando teve seus melhores papéis!
Há alguns anos revi-a na TV, bem “Senhora” e gorda num episódio the “Murder, she wrote” com Angela Lansbury que sempre primou em trazer “antigas colegas” do cinema de volta às telas!
Kathryn Grayson morreu tranquilamente, dormindo aos 88 anos na noite de 17 de fevereiro passado.
Mais uma estrela para iluminar o céu…
Como disse na ocasião do falecimento de Cyd Charisse – sinto-me meio “viúvo” quando estas lendas do cinema morrem! Obrigado por tudo, Miss Grayson!
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14 comentários:
É, Ricardo, essa viuvez rola mesmo. Fiquei assim quando Marcello Mastroianni, o grande boa-praça, o amigão, a figura folclórica que era como parte da nossa vida, morreu. Para mim, era um eterno "garoto", na juventude que lhe brilhava nos olhos, mas quando faleceu descobri que tinha a idade do meu pai... e eu nunca tinha percebido isso!
Grayson era esplêndida. Que bom que desencarnou dormindo! Vidas plenas merecem encerrar-se com bênçãos. Também sou grata por tudo o que me proporcionou. Essa felicidade interior que a arte proporciona a tanta gente com certeza é relevante na contabilidade espiritual de cada pessoa. Que Miss Grayson esteja em paz!
Beijo
Maurette
Aconteceu pela primeira vez, Ricardo... acho que estou mais sensível hoje, sua postagem está nostálgica, chorei com a música... mas chorar assim até que é bom, é como se estivesse limpando o reservatório das emoções. Gostei de conhecer Miss Grayson. Espero que você esteja se sentindo melhor com as costelas... Carinho, Alice
Humm, que lindo, Ricardo!
Me apaixonei pela Kathryn e pelo Howard quando vi "Kiss me Kate", um dos primeiros musicais da minha coleção. É um deleite ouvi-la cantando ao lado dele - ou de Gene Kelly nos Marujos do Amor, outro musical favorito. Fiquei sabendo do falecimento da atriz dias atrás. Minha mãe e eu ficamos muito tristes. Adoramos vê-la no making of de "Kiss me Kate" falando sobre sua personagem - aquela velhinha emanava a mesma luminosidade que a jovem atriz emanara tantos anos antes. Ela merece mesmo uma homenagem bonita assim. A propósito, você me fez conhecer outro filme dela, "Lovely to look at". Remake de "Roberta"?! Uau, deve ser o máximo. Meu emule vai começar a funcionar agora...
A propósito, meus "Pigmaliões e Galateias" estão esperando pelo seu comentário. Você sabe como sua opinião é importante pra mim, não?
Beijinhos e bom domingo
Dani
Ricardo
Sempre me senti muito grata por todos que me presentearam com sua arte, A emoção de ver, assistir, ouvir, uma obra de arte é momento impagavel que só nos resta agradecer quem nos proporcionou te-los vivido.
Quando alguem assim morre a gente fica meio viuvo mesmo.
Espero que esteja bem e sem dores.
beijos
Oh; Sensível e Prodigioso Amigo:
Também fui um cinéfilo assumido quando era estudante. Chegava a faltar às aulas para ver Fellini, Bergman, Trauffaut, entre outros.
Registo do seu Post extraordinário de magia das telas dos sonhos:
"...Zelma Hedrick poderia ter sido um nome passável para quem nasceu em Winston-Salem, North Carolina mas não era o nome que a MGM queria colocar nas marquises dos cinemas para promover seu maior soprano dos anos 40. Então Kathryn Grayson nasceu!
Hoje em dia não se fala mais deste nome – mas ela foi uma das rainhas da Metro, dos gloriosos musicais da Metro. ..."
Perfeito. Brilhante.
Abraço amigo de imenso respeito e admiração.
Aqui faço uma constante actualização preciosa de filmes notáveis de deslumbre.
Bem-Haja, pela amabilidade gigante deixada no meu blogue.
pena
Excelente, amigo genial.
Adorei.
MUITO OBRIGADO pela sua amizade que é recíproca.
Quando personalidades tais como a Kathryn Grayson partem deste mundo, sentir-se viúvo, orfão, deserdado e desolado é somente justo, normal.
Que ela descanse em paz, e que você tenha uma boa semana, meu amigo.
Melhorando, Ricardo?
Caro Ricardo
Foi através deste seu excelente texto que tive conhecimento da morte de Kathryn Grayson.
Ela faz parte das minhas memórias de infância, pois um dos filmes que mais me marcou nessa época foi Show Boat e, embora eu virasse nesse filme todas as minhas atenções para Ava e para a inesquecível canção Ol'man river, nunca mais esqueci Kathryn Grayson.
Nessa época a televisão portuguesa passava todos os domingos os musicais americanos e em nossa casa havia uma predilecção especial pelos filmes de Jeanette MacDonald and Nelson Eddy, pela Judy Garland (eu na altura gostava particularmente da série de filmes Andy Hardy) e até ver Show Boat, Kathryn Grayson, tal como Deanna Durbin, pertenciam ao grupo das actrizes que achavamos de segunda categoria.
Contudo a partir de Show Boat e de ver Kathryn Grayson em dueto com Mário Lanza cantando BE MY LOVE, ela tornou-se uma das minhas referências preferidas desses tempos dos gloriosos musicais da METRO.
Lamento imenso a sua morte! É mais um elo do passado que se quebra. Ficam as memórias, que este texto fabuloso e muito belo fizeram despertar.
Ficam as memórias e a saudade de um tempo que parece ficar já longinquo no passado
Obrigado por trazer aqui de uma forma tão bela a doce Kathryn.
Um abraço
Caro Ricardo
quando era miúdo adorava fazer colecções de cromos, e de todas elas, as que mais me seduziam eram as de artistas de cinema; alguns deles acho até nunca ter visto nenhum filme deles, mas recordo perfeitamente alguns nomes; foi
"aí" que conheci Kathryn Grayson.
Não sei onde param hoje essas colecções, porventura perdidas para sempre, mas como gostava de as reencontrar.
Se isso acontecesse talvez o número de artistas vivos ainda hoje, não chegasse à dezena.
Mas o céu tem cada vez mais estrelas...
Também compartilho desta "viuvez" toda vez que um grande artista morre. Mas acredito que lembrar deles e referenciar as suas memórias - como você lindamente faz - é a melhor maneira deles continuarem "brilhando".
Bj.
Clarice B.
She was MGM's heiress to Jeanette MacDonald's throne. Yes, that's right (Jane Powell never achieved that status!). Unfortunately she has been completely forgotten. I cannot understand why... what about "Show Boat" and "Kiss me Kate"? Films that will live forever! Great films in fact!
Love Mike
Oi Ricardo, toda vez que passo por aqui fico impressionada com tuas aulas sobre os filmes, quanto conhecimento!
Belíssimo post.
Amigo vim te convidar para minha primeira coletiva em comemoração de um ano do Devaneios, o tema é nobre e sei que vais gostar.
Fiacrei honrada com tua presença nesta data importante para mim.
Passa lá no blog para ver os detalhes, ok!
Beijos na alma querido e tenh um dia de muita luz...
Oie, Ricardo!
Adorei seus comentários no meu post sobre os Pigmaliões e as Galateias. Escaneia o programa do My fair lady que vc tem, please, please, please!
Deixei uma resposta ao seu comentário!
Bjinhos e melhoras
Dani
Esses deliciosos musicais fizeram parte da minha infância, numa época em que saíamos do cinema "vivendo" aqueles momentos mágicos.
O "Barco das Ilusões" foi, talvez, a minha primeira paixão, quando o assisti aos 9 anos. O "Lovely to look at" encantou-me pela bela ambientação.
Cada "estrela" que fez parte da nossa vida, e que um dia se apaga, deixa um gosto de terna saudade.
Obrigada
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