Considero „Funny Girl“ uma pequena preciosidade.
Uma peça, um filme único sobre a vida de Fanny Brice que lançou um talento único: Streisand (em 1964, na data que estreiou "Funny Girl" Streisand ainda era uma "menina" de 21 anos de idade... )
(para quem não sabe: eu NÃO sou fã de Streisand… acho que com o passar dos anos ela deixou para trás a “menina Jiddish” para transformar-se numa persona “larger than life”, associadíssima à California e muito chata… mas a Streisand dos primeiros anos, dos primeiros discos, dos primeiros shows de televisão, dos primeiros filmes, era adorável… como em “Funny Girl”, uma biografia bem “criativa” sobre a vida de Fanny Brice, seu primeiro filme).
O final do filme deixa porém, para mim, algo a desejar e quando me refiro a um final nada feliz, não estou referindo-me à triste estória de amor entre Fanny e Nick…
Na versão da Broadway o show terminava com uma repetição de “Don’t rain on my parade”, mostrando que esta mulher era forte, corajosa, cheia de energia…
Na versão para o Cinema esta música foi trocada por um velho sucesso de Fanny Brice: My Man… Para meu gosto, uma típica canção de “vítima”. Uma canção cantada por uma mulher dependente, burra (“Two or three girls has he, that he likes as well as me… But I love him” Ora, que absurdo… Oh, Nick, "vá plantar batatas!"), oprimida… O desempenho de Streisand neste número pode ser singular e espetacular mas esta canção transforma o personagem Fanny, no final do filme, numa mulher completamente oposta ao que tinhamos visto nas duas horas prévias…
Um final nada feliz para o filme…
Acho, porém, que uma outra mudança “da Broadway para Hollywood” foi ainda bem mais trágica. Ela está relacionada também ao final do filme, já que involve a troca da canção anterior a “My Man”. No filme Streisand canta um curto, sincero número chamado “Funny Girl”, que foi composto especialmente para o filme (para justificar o título do filme… como se isto fosse necessário… ). Gosto muito desta canção… mas é um monólogo que ela faz sobre si mesma. Não questionando o amor que sente por “Nick” e sim indagando se ela é realmente uma “funny girl”. Uma direção completamente oposta ao roteiro original faz com que o personagem perca totalmente sua “força”:
A canção que estava neste “Spot” da peça é uma outra preciosidade que ficou, por assim dizer, “perdida”. Não fez parte de nenhum disco de Streisand (com exceção do disco da gravação do elenco original em 1964), do seu repertório…
Só depois de bem mais velha Streisand redescobiu este tesouro que havia perdido, há muito tempo… mas com sua (criada) afetação californiana não deu mais a “rendition” que dava, quando era ainda a “menina Jiddish” do início de sua carreira … Esta música é como uma moldura sobre o caráter de Fanny e seu (descabido) amor por Nick – mas em nenhum ponto ela transforma-se na vítima sofredora e dependente em que se transformou cantando “My Man”.
Sim... um final nada feliz para o filme…
Procurando na Internet não consegui encontrar uma foto sequer deste número – que ela cantava no seu camarim de teatro… por isto, aqui o interior da capa do disco, escaneado hoje… a foto abaixo é a da mencionada cena:
“The Music that makes me dance”.
Como só existem videos mais recentes de Streisand cantando esta música (que nada me agradam), decidi colocar aqui uma outra “funny girl”: Liza Minneli (ao lado de Mikhail Baryshnikov) no empoeirado “Baryshnikov on Broadway”.
Liza sensacional dando vida à esta beleza de melodia (e texto):
(HIS IS THE ONLY) MUSIC THAT MAKES ME DANCE…
...e para quem ainda tiver a paciencia de "ouvir" (inclusive "introduction"), aqui a menina Streisand em 1964 cantando esta maravilha!







25 comentários:
QUERIDO COMO ADORO A BARABARA ...nem me encomodo na verdade o que ela canta...como Touro e Cavalo me sinto muioto perto dela jajajaja quer dizer sem voz e sem nem a metade do talento dela mas se pudesse escolher teria cantado tambem , mas fica para proxima vida !!
Mas adorei sua reportagem sem com muita precisao e cultura !!!
Paabens e tenha um final feliz no seu fim de semana
Beijos
ROSANGELA CALHEIROS OM.
Ahhhhhhhhhhh.... Você acaba de tocar na corda exata que me faz dançar, sonhar, cantar, sentir, encontrar-me comigo em toda a plenitude.
Nada poderia ter me feito tanto bem quanto esta gravação de The Music That Makes Me Dance!
Reencontrei a menina judia que me fascinou na vida um pouquinho mais tarde - em 1967-68 - e à qual me rendo até hoje. Perdoo qualquer chatice, qualquer momento brega, a fase discoteca, até o fato de ter cantado com Céline Dion... Perdoo qualquer coisa diante desse talento sem tamanho, dessa descoberta, dessa originalidade que só ela tem. Streisand não tem covers... nem mesmo uma irritante Laura Fabian que apareceu recentemente conseguiu se firmar no seu território. É única, inimitável, absoluta em seus domínios. Concordo inteiramente que a judiazinha do Brooklyn era muito mais encantadora, mas o meu amor é o mesmo hoje. Streisand embalou todos os meus sonhos de adolescente, numa época em que eu economizava qualquer dinheiro que ganhasse no aniversário, no Dia da Criança ou em qualquer data para comprar seus discos importados, que um amigo trazia da então longínqua Modern Sound ou da Billboard, as lojas top de uma igualmente longínqua Copacabana. Os primeiros discos são preciosos e meus exemplares continuam absolutamente tocáveis, audíveis, melhores do que qualquer CD (como se pode ver, o mesmo se passa com essa sua trilha original, que deve estar num belo long-play).
Li muito sobre ela a vida toda, tenho-lhe uma consideração e um carinho de parente, de vizinho, de colega de escola. Sei que o começo não foi fácil, veio de uma estrutura familiar complexa, que se casou cedo etc., e que passou por muitas coisas. Não a explico nem a defendo, sou simplesmente e absolutamente apaixonada por sua voz, seu repertório, seu talento, por sua marca no mundo, que sempre me afetou profundamente. Não sei o que lhe diria, se nos cruzássemos de verdade um dia: talvez apenas um fundo "Thank you, Barbra", por tudo o que sempre significou em minha vida.
Estou aqui derretida, repetindo vinte mil vezes a gravação, transportada em cheiros e percepções àquela época cheia de esperanças, dúvidas e questões, quando ela brilhava nos palcos e a juventude do mundo mergulhava em caminhos importantíssimos, quase todos sem volta.
Um disco que adoro é o do show My Name is Barbra, Two, em que ela canta coisas como "The Best Things In Life Are Free", "He Touched Me", "It's Spring Again" e outras maravilhas. Eu a reconheço totalmente ouvindo esta gravação e me reencontro com aquela garota completamente romântica que eu era, que sonhava com viagens e mal sabia decifrar o inglês com ligeiro sotaque que a gloriosa Barbra Streisand pronunciava com tanto charme e poesia. Esta será sempre a "minha" Barbra, a que vive dentro do meu coração para sempre e convive com suas vidas subsequentes sem conflitos, apenas com amor e uma grande, enorme admiração.
Obrigada mil vezes!
Maurette
Maurette minha querida, eu entendo... mas meu tema nao era na realidade Barbra porém a forma como o filme foi feito... como o fina dele é... e sobre o personagem "Fanny".... acho que voce me entendeu mal...
Adiciono: a postagem chama-se "um final nada feliz" e nao "Barbra"
Ricardo, eu entendi, claro... mas me encantei com a raridade da gravação da peça, que me transportou a toda uma vida de lembranças. Adoraria que essa canção estivesse no filme e fiquei sensibilizada ao ouvi-la.
Foi o que mais me tocou da postagem. O filme "Funny Girl" também me é caro e eu não sabia desses detalhes todos. Como não sabia, não me caiu mal o final com "My Man", apesar de concordar que a letra da canção retrata um tipo de mulher com baixa auto-estima e dependente da figura masculina, do "homem" que dá sentido à sua vida. Se me permite, na minha visão Fanny passa por esse conflito: de um lado, a poderosa artista que conquista multidões; no íntimo, uma mulher que valoriza o casamento e a presença de um homem ao seu lado. Nick foi, efetivamente, o grande amor de sua vida e ela, na moldura de sua época, desejaria permanecer ao lado dele a vida inteira, mesmo com todos os problemas. A música "Sadie, Sadie" - que fala do fato de "estar casada" - retrata um pouco essa visão da época. Quando interpreta "My Man" ao final, ela dá vazão a esse lado dependente, mas ao mesmo tempo sabe que tem de tocar a vida e tomar decisões diferentes, sabe que tem que ser forte. Mas não nega que está dividida. Acho interessante esse final. Bem, é apenas uma interpretação pessoal minha, nem sei se essa foi a intenção da direção, mas foi assim que senti.
Beijos
Maurette
Eu também gosto muito da Barbra, mas o tema musical de que mais gosto dela, é um bocado esquecido, pois não pertence a um musical, mas sim a um filme romântico, mas que eu vi há muitos anos com uma certa pessoa que me levou a adorar essa canção. Trata-se de "The way we were", do filme do mesmo nome, com o Robert Redford.
O amor tem destas coisas...
Há uns 2 anos ou 3, fui ver o Lago do Cisne no Municipal. No final, o cisne ressucitava. Me disseram que era uma versão da Tatiana Leskowa, tipo década de 70, idéia de que “ o amor sobrevive”. Eu achei detestável. O que vc acha?
(Falando de finais ruins....)
bj
Amo ler o q vc escreve...bjs
Ninguém gostou da Liza??? :-(
Eu a adorei, Ricardo! Ah, a Liza é demais - e você sabe como eu concordo contigo no que diz respeito à californice da Barbra nesses últimos tempos. Desde meu ponto de vista, o que de melhor ela fez está aqui: em Funny Girl, ou então em Hello Dolly e What's up doc. Por isso que acho que a melhor homenagem que você poderia fazer à Barbra agora é colocar a Liza cantando desse modo tão arrebatado a canção que Barbra consagrou.
Também acho que Funny Girl termina num anticlimax. A Funny Brice de Barbra estava tão esvoaçante durante a história toda que merecia um final menos "Amélia".
Bjs, querido.
E Maurette, querida, você arrasou no seu comentário. Caramba, como você escreve bem :D
Dani
Tem toda razão, Ricardo: é injustificável ser indelicada com uma artista como Liza Minelli, que tem tanta força e ao mesmo tempo incontáveis sutilezas, quando canta ou quando interpreta ou com tudo isso junto. Ela está uma menina nesse musical, que também não conhecia! Uma carinha ótima! Tenho de confessar que ontem não ouvi a sua interpretação; deixei-me ficar pela Broadway em 1964 mesmo. Mas você me espertou, então fui lá. E gostei! Aliás, nem sei se há como não gostar de algo que Liza faça. Achei engraçado o joguinho interpretativo com Baryshnikov, ela dizendo que precisava de uma orquestra e ele fazendo mágica... Uma bonita interpretação, em outra linha, em outro contexto, mas com a força de Liza, que é incontestável. Não sei se esse final com "Shall we dance" (apesar de simpático) não nos afasta um pouco do clima da canção, mas de todo modo estamos falando de uma grande artista interpretando uma grande canção. Liza sempre comove, é inevitável!
Bjs
Maurette
Such a wonderful song. I had forgotten, really forgotten. Thank you so much! Mike
Oi,Ricardo
Bem lembrado,amigo: o amor descabido muitas vezes detona uma Funny Girl pra sempre, e dá a um filme um final muito triste.
Ainda bem que Liza Minelli pode fazer o melhor contraste, talvez para frisar que o amor existe pra fortalecer uma Funny Woman.
Bjs
Lícia
Maurette queid, ontem eu fui "duro" com voce. Perdoe-me e curta sua Barbra... se a postagem te levou a outros "lugares", ora bolas, enao é assim... quem sou eu para estar ecrevendo aqui sobre o que se deve comentar ou nao... perdoe-me pois eu mesmo feri o princípio essencial das "Tertúlias" em fazer um comentário tao bobo para voce!!!! Beijo Ricardo
Mike, Thanks! You are always my "visceral" friend and know what I mean... Thanks. We are brothers!
Mauri, os absurdos feitos com "O Lago" realmente dariam para fazer um livro sobre finais (bem) infelizes. Nao sei te dizer se essa "versao" foi revisada por Dona tania ou nao... Às vezes eu acho que nao entendo mais nada de Ballet :-))
Ouvi as duas, Ricardo. Tive paciência, sim. Saiba que gostei de ambas. Nem sei te dizer direito se preferi a Lizaou a Barbra Streisand.......Funny Girl é uma gracinha! Aqui no Rio, assisti uma versão dapeça, encenada não me lembro mais por quem. Foi há muito tempo.Mas não correspondeu às expectativas. Talvez seja por isso que me esqueci da protagonista.Mas o filme, eu me lembro bem e gostei demais. Então, por aí está formigando de turistas? Ri, muito com a falta de educação dos russos.Beijinhos
Mary
Concordo com vc, a Barbra tinha um carisma emocionante até o início dos anos 70, depois se tornou uma chata...
O Falcão Maltês
Adorei conhecer essa música. Nunca tinha ouvido. Uma beleza, cheia do personagem da Fanny, né? Gostaria de ter visto "La" Streisand nisso, no palco, em funny girl. Claudia-Louise
Para quem notou: alguma pessoa maluca está colocando mensagens indecorosas, uma atrás das outras, aqui... e eu estou-as deletando... Para que isso? Quanta baixaria... Ave... struz!!!!
Outra coisa para a Maurette, claro que "Shall we dance" tira todo o clima. Te dou toda a razao. Só que o outro video do Youtube (onde só constava "Music") estava de péssima qualidade... that's why!!! :-)
Humm, Funny Girl é uma delícia de filme, e a Barbra novinha, ainda com um ar de menina. Lembrei-me da apresentação que ela fez no programa da Judy Garland, cantando Hello Dolly. Ela (Barbra) comentou certa vez que Judy tremia enquanto segurava sua mão. Judy, uma cantora experiente, tremia e segurava a mão de Barbra, que naquele momento iniciava uma carreira e era quem deveria estar nervosa. Eita, essas tuas postagens nos fazem viajar e lembrar de vários fatos e outros e tantos e por aí vai. Muito bom isso. Particularmenet não consigo ouvir a Barbra, a não ser em uma ou outra música e continuo preferindo a do início da carreira.
Proposta: que tal escrever um post sobre Liza e Judy? Mais precisamente, aquela apresentação que as duas fazem juntas? O que acha?
Filme triste mesmo...Me lembro deste filme como se fosse hoje.bela recordacao.E o personagem e significativamente forte.Belo,muito belo.
As duas cantam demais. Fiquei vendo a Liza novinha e pensando como a juventude é bonita e as vozes...dispensam comentários tão claras, tão limpa.
Gostei da abordagem a respeito do filme, acho importante a reflexão sobre o que estão nos dizendo, principalmente quando as palavras chegam embaladas em vozes tão bonitas.
beijos
Postar um comentário