
Nos anos 80, mais precisamente em 1987, estive lá. Viajei do Norte ao Sul mas o que mais me impressionou, me lembro nítidamente, foi Hiroshima.
Impressionante o Parque no Centro da cidade, bem próximo ao “T” onde a bomba caiu. Um Parque todo dedicado à Paz. Uma cidade repleta de cegos. Uma cidade fascinante pelo seu lado humano.
Lá visitei “o Sino da Paz” e me emocionei muito ao ler as seguintes frases (abaixo 3 fotos pessoais minhas no Japão):

Óbviamente subi e o toquei uma vez. Queria bate-lo fortemente para a Paz Mundial. Tão intensamente que queria que ouvissem-o até no Brasil... Me lembro de um grupo de russos que subiu logo após de mim. Estávamos ainda no auge da “guerra fria” e este grupo trocou comigo olhares da paz, de amizade, de entendimento, de fraternidade…

Quando me distancei um pouco do sino dei-me conta que estava em frente a um templo… e por todos os lados estavam penduradas garças feitas de papel, nas diferentes cores do arco-íris. Comecei a chorar.
Quando eu era menino recebi um livro que se chamava “Suzuki e as 1000 garças”. Era um livro em alemão (que na realidade chamava-se “Suzuki und die tausend Kraniche”). O livro contava a estória desta menininha que, doentinha como milhares de outras crianças depois da “bomba de Hiroshima” (e Nagazaki), era tratada num hospital. Como terapia ocupacional as crianças eram incentivadas a dobrar MIL pássaros de papel que depois seriam pendurados num templo (Shrine) com seus pedidos para curarem-se… Quem dobrasse e fizesse MIL pássaros ficaria sarado de sua doença. Até hoje acredita-se no Japão que dobrando mil, desejos serão atendidos (Minha amiga Lícia me explicou que esta arte em papel chama-se Origami. Eu não sabia).

Acompanhamos com muita curiosidade, apego e amizade os pensamentos, os fatos da vida, o dia-a-dia de nossa querida Suzuki. Éramos crianças, ela também. Logo nos tornamos os mais queridos dos companheiros, amigos. A leitura, para uma criança de seus 7, 8 anos de idade era difícil e o livro – para minha idade – relativamente longo.
Pois bem: Chegando ao último capítulo fomos confrontados com o destino de Suzuki… Ela dobrou e fez com todo amor 999 pássaros… e aí morreu. Não teve sua "chance" pois não dobrou 1000.
Que injusto. Que dor. Que triste.
Quando revi todos aqueles pássaros pendurados em frente ao templo e todas aquelas cartinhas dirigidas a Deus com pedidos, lembrei-me desta então esquecida amiga de infancia e de seu destino. Comecei a chorar e entre soluços consegui explicar ao meu acompanhante de viagem o porque daquela reação. Um momento de pura emoção. Quando penso em Suzuki ainda vejo o rosto que "ela tinha" enquanto eu lia o livro...

Hoje penso na tragédia que mais uma vez tomou conta daquela linda terra.
E paro para pensar nos livros que nos davam para ler quando éramos ainda tão «puros», tão «verdes» em relação ao mundo :
o tristíssimo «O meu pé de laranja lima»,

o trágico «Os meninos da Rua Paulo» (do mesmo Molnár de «O Cisne»).

Até uma novela chegou a ser cruel conosco: a “Pequena Orfã” (acho quera da “finada” TV Excelsior) na qual uma menininha (Patrícia Aires) era maltratada pela madrasta (a ótima atriz Riva Nimitz), que batia tanto na pobrezinha que esta vivia dizendo “Não me bate, não me bate!”. Coitadinha. Seu único amigo era o “Velho Gui” (Dionísio Azevedo).

Já então nos mostravam como cruel e injusta a vida pode ser.
Será que era esta a forma de quererem nos preparar para as “durezas e tristezas” da vida?
Se era, não acho que conseguiram. Os desastres neste nosso frágil e vulnerável mundo parecem agravar-se a cada dia. Preparados nunca estaremos…
Mesmo assim acredito num fato que o “passar dos anos” nos dá: com a idade descobrimos que somos capazes de sobreviver às dores, às injustiças e às decepções da vida…
Mas, como diz a canção? "Cada Garça que voa, me faz chorar..."
Pensando no Japão…

Lícia, minha amiga de toda a vida, a voce dedico hoje esta postagem. A voce, que me acompanhou lado a lado e dividiu, na época do primário, tudo isso… e que como um “presente” retornou à minha vida para trazer muita LUZ!
20 comentários:
Muito comovente, sem dúvida, meu amigo.
E pleno de significadopara quem quiser entender.
Obrigado e um abraço.
Fiquei emocionada. Claudia-Louise
Querido, voce tem uma sensibilidade incrível e consegue passá-la para nós, seus seguidores/leitores com toda intensidade.
O problema acontecendo no Japao é de um peso inigualável: o de CARÁTER HUMANITÁRIO. É para lá que devemos concentrar nossas atencoes e nao em acoes político-economicas como as que alguns políticos estao tentando desviar nossas atencoes lá para a Líbia.
Meu pensamento e minhas oracoes estao com o povo do Japao.
Ricardo me emocionei não só pelo texto, mas pelas lembranças! Meu pé de laranja Lima, A pequena orfã...
Adoro fazer tsuru, os faço para me acalmar, qualquer papel serve! Ñão tenho um pedido e nem sei se já fiz mil. Origami é uma arte belissíma, tenho dois livros sobre essa arte e um deles é em japonês.
bjs
Jussara
Oh, Prodigioso Amigo:
"...Quando me distancei um pouco do sino dei-me conta que estava em frente a um templo… e por todos os lados estavam penduradas garcas feitas de papel, nas diferentes cores do arco-íris. Comecei a chorar..."
Sabe, também era capaz de chorar.
Um Post perfeito feito por uma pessoa perfeita, entende? Magistral.
A bomba do mal fez e transformou o mundo nisto.
Parabéns pelo Ser Humano enorme, explendoroso e sensível que é.
Abraço amigo de respeito imenso pela sua grandeza de pensamentos e sentimentos.
Notável.
Sempre a admirá-lo e MUITO OBRIGADO pela partilha.
pena
Bem-Haja, majestoso amigo genial.
Adorei.
Para pensar.
Fiquei com uma peninha da Suzuki.....Que historinha triste!.....
Saiba que a minha filha, Ana Paula, quando era pequenininha, tinha o apelido de Suzuki, visto que seus olhos eram puxadinhos que nem uma japonesa. (não se assuste, ela NÃO é filha de japonês).
O que aconteceu no Japão me chocou incrivelmente! Custo a absorver uma tragédia como essa! Um horror! Para eles, um apocalipse!
Mary
Jussara querida, como era a musiquinha da pobrezinha da pequena orfa? "Mandei fazer um barquinho, de papel de papelao... ". Nao lembro do resto... Voce?
Oi,Ricardo
Lindo post.Muitos sinos ainda dobrarão pela Paz, assim como hoje batem pelas vítimas da falta dela em todo o mundo. A Líbia começou a ser bombardeada hoje, um Nobel da Paz foi apedrejado no Egito, e há o vazamento de radiação nas usinas nipônicas, o qual já chegou à água e aos alimentos do país e também à Califórnia, em forma de nuvem.
Não importa o viés político,porque muitas Suzukis ainda farão origamis, no Japão e fora dele, até que a Humanidade compreenda e respeite o valor da vida. A História se repete.
Rosa de Hiroshima (Vinícius de Moraes)
Pensem nas crianças/Mudas telepáticas
Pensem nas meninas/Cegas inexatas
Pensem nas mulheres/Rotas alteradas
Pensem nas feridas/Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima/A rosa hereditária
A rosa radioativa/Estúpida e inválida
A rosa com cirrose/A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume/Sem rosa sem nada
Considero “O Meu Pé de Laranja Lima”, ”Os Meninos da Rua Paulo”, “A Pequena Órfã” sequências de “A Gata Borralheira” e outros contos que certamente eram e ainda são alertas feitos a crianças e adultos sobre as crueldades do mundo, assim como “O Diário de Anne Frank” e, mais recentemente, “O Caçador de Pipas”, retratos da estupidez humana: muda a linguagem, mas a violência – sob as mais variadas formas - aumenta cada vez mais.
Concordo,Ricardo: “com a idade descobrimos que somos capazes de sobreviver às dores, às injustiças e às decepções da vida…
Mas, como diz a canção? "Cada Garça que voa, me faz chorar..."
Entre lágrimas, orações e muita torcida favorável, é preciso lembrar que o Japão se recuperou da IIª Guerra, deu a volta por cima e se desenvolveu econômica e tecnologicamente em seis décadas, a tal ponto que se tornou líder em diversas áreas; agora, novamente destruído, inicia a recuperação da ordem cotidiana, apesar da certeza de novos terremotos e tsunamis, entre outros graves problemas, porém a vida continua, e não há outra opção exceto enfrentá-los e resolvê-los.
O outono começará amanhã às 20h21 aqui no Brasil com a influência do fenômeno La Niña -resfriamento anômalo das águas superficiais do oceano Pacífico – e vamos ver o que acontece.
Meu caríssimo Ricardo, muito obrigada por sua amizade e por esse post tão especial, que tanto me honra e emociona. Acho que já comentei aqui que você é o meu único amigo de infância, um imenso privilégio para mim.
De fato, compartilhamos durante cinco anos o início da descoberta do mundo, num tempo agora tão distante no calendário, e que permanece dentro de nós em forma de ótimas lembranças, com muitas histórias divertidas e livros um tanto tenebrosos para aquela nossa tão pouca idade.
É até engraçado saber que desde então nunca mais nos encontramos pessoalmente – e lá se vão 40 anos – e hoje, via Internet, apesar da distância de Brasília a Viena, continuamos compartilhando experiências riquíssimas e trocando conhecimentos;isso é LUZ.
Eu não poderia desejar um presente melhor do que esse para a minha vida, porque uma amizade verdadeira é uma bênção. Rara, atualmente.
Beijos
Da velha amiga de sempre
Lícia
Gostei de ver que ainda existem pessoas com caráter nesse mundo do blog. Gostei de vir aqui. Me senti em casa. Voce estudou no Princesa Isabel?
Ricardo Novaes
Lícia, minha amiga. Só tenho uma palavra de resposta: SIM! :-)
Ricardo Novaes???? O surfista de longos cabelos louros? Sim, fomos muito chegados naquelas épocas do Princesa Isabel. Que delícia este reencontro!!
Ricardo
Duas simples notas.
A primeira para me juntar a ti nesta tua tão emocionada homenagem ao Japão e ao fabuloso povo japonês.
A segunda para te dizer que "O Meu Pé de Laranja Lima" foi dos livros que mais me encantou quando o li há muitos anos; quero relê-lo agora.
Oi,Ricardo
Que bom que você concorda :-)
É bem isso,caro amigo.
Uma ótima semana pra vc e os leitores de Tertúlias.
Bjs
Lícia
Ricardo, que lindas palavras! O tema desta tertúlia foi mais que bem escolhido e, se não bastasse, você o traz com a sensibilidade de quem já esteve no Japão e teve uma vivência intensa do país. Lindas as fotos e as histórias que você conta - especialmente as das pombas de origami - fundamentais, já que esses últimos 15 dias estamos vendo velhos fantasmas ressurgir (guerra, tsunami, ameaça nuclear).
Espero do fundo do coração que os japoneses saiam dessa. Que todos nós saiamos dessa.
Bjos, querido.
Dani
Danielle querida, as tuas palavras para os ouvidos de Deus!
Fuerza Japón.
Ricardo, fiquei emocionada com o seu relato sobre Hiroshima, o Sino da Paz, e a história triste, mas bela, da menina dos origamis. Beijos e muito carinho da Ursa!
Um texto escrito com as fibras do coração.
beijos
Angela - que coisa bonita isto que voce escreveu! Obrigado!!!!
Ah! neu amigo, plágio cósmico existe.Meu livro preferido que foi presente de um namorado o Zezé(coincidência) Meu pé de Laranja Lima,e os tsurus me lembram uma amiga ,a Eny, ela fêz isso 1000 dobraduras para ver se o filho deixava as drogas.Voce acredita, eu nunca consegui fazer este tal de tsuru ? Chego quase lá,mas não vira.
Tem coisas que a gente pensa que o tempo curou, e ai a ferida abre e sangue jorra ,ou lágrimas.São terapias para nos ajudar a suportar e ter esperança só isso.Emilly está me dando dor de cabeça.Ja li que ela era lésbica,agora descubro que ela amou um Pastor da Igreja Presbiteriana e que trocaram muitas cartas,ele com certeza a jogou nos infernos, pois a coitada após isso, nunca mais saiu do quarto dela,consegui fotos dele,do quarto e da casa dela, passa lá no meu blog para você ver, está no post Brevidade da Vida,até o túmulo dela eu postei lá.E te juro me deu uma dor de cabeça...Eu me transportei para aquele período e te falo não foi fácil ser uma Emily ,aliás todas as Emilias são polêmicas,são bonecas que criam vidas e põe pra quebrar!
Se você souber algo mais concreto sobre isso escreva tá?
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