
"The artist is the creator of beautiful things. To reveal art and conceal the artist is art’s aim. The critic is he who can translate into another manner or a new material his impression of beautiful things." (“O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte. O crítico é aquele que pode traduzir para uma outra forma ou para um novo material, a sua impressão das coisas belas”)
Oscar Wilde, Prefácio de “O retrato de Dorian Gray”
Assisti no sábado passado a nova versão de „Dorian Gray“ de Oliver Parker, o jovem (1960) e muito britanico diretor de "Othelo" (1995), "An ideal Husband" (1999) e "The importance of being Earnest" (2002) - os dois últimos com o genial Rupert Everett.
Achei este novo trabalho interessante, bem feito e quase fiel à obra de Wilde. Diferente de versões já vistas… como por exemplo a com Hurd Hatfield

ou a com Helmut Berger.

O jovem Ben Barnes não nos encanta a partir do primeiro momento.

A célebre “Beleza” de Dorian “falta” de certa forma. Mas Barnes é um bom ator e com o passar do tempo acreditamos no seu personagem – principalmente pela forma como sua libertinagem e vida sexual dissoluta nos é mostrada – o que não teria sido possível na versão da MGM de 1945… apesar desta ter “acabado” com a carreira de Hurd Hatfield pelas sugestões sobre a bissexualidade de Dorian… Lembram-se quem foi seu primeiro amor, Sybill Vane? Angela Lansbury. Sim, ela também foi jovem um dia…

Muitos “erros” foram, em comparação às versões anteriores, “concertados”, retificados. Por exemplo sua «noiva» não é filha do pintor do retrato e sim de Lord Henry Wotton, que colocou toda uma noção hedonística na cabeça de Dorian (da qual ele nunca se libertou). Por outro lado o pintor, que na realidade é apaixonado por Dorian e por sua “beleza”, recebe até um “agradecimento” deste em forma sexual.
O filme porém falha terrívelmente no final. Não vemos um desesperado Doriam querendo se "redimir", querendo acabar com o quadro e enfiando-lhe uma faca – a fonte de todo seu sofrimento que provávelmente se tornaria eterno. Vemos porém Lord Henry incendiando-o… o que não tem nada que ver com a obra de Oscar Wilde e tira muito do "caráter" do personagem “Dorian”.
Um detalhe chamou-me demais a atenção (Achei-o por sinal magnífico): Muitas vezes se vê o sótão (onde o retrato de Dorian ficou escondido) do ponto de vista da pintura. Sim, a luz é mais clara, “branca” e ao mesmo tempo difusa – diferenciando assim a forma com que o quadro “vê” em comparação à forma com a qual os personagens “vêm”. Temos a sensação que o quadro “vive” e presencia toda a tragédia.

Outro ponto fascinante para mim é a forma como o “Millieu” baixo e sórdido, no qual Dorian circulava e “vivia” todas suas perversidades, “cheira” mal e lembra demais o ambiente sujo e vezes nojento criado por Wilde no seu romance pornográfico “Teleny” (ainda hoje discute-se se a Wilde é realmente o autor). Por falar-se em pervesidade… aqui uma definição do próprio Wilde:
"perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros têm de curiosamente atractivo".
Me resta só dizer que acho “Dorian” e sua estória, hoje em dia, em tempos de um enlouquecido “culto” à juventude e inconsiderada “cobiça de viver” cada vez mais rápida- e intensivamente, mais do que relevantes.
Hoje Botox & Plásticas apagam os rastros da vida de qualquer face – e suas «vítimas» não perdem suas «almas» como Dorian, mas talvez o juízo…

Estudos começam a provar que Botox não só paraliza a “mímica” do rosto com também o cérebro…
23 comentários:
Oi,Ricardo
Parabéns pelo excelente texto e a análise perfeita.
Engraçado é que à medida em que lia, fui me lembrando da letra de "Forever Young",dos Anos 80,e recentemente remixada com uma levada funk-rap.
Coisas,certamente,de jovens.
Bjs
Lícia
Apreciei a sua análise.
Tudo muito bem comparado.
Obrigado.
Um abraço.
a procura de juventude eterna...
um tema que, como muito bem assinala no post, parece preocupar demasiadas pessoas durante demasiado tempo!
acho que faz parte da condição humana "das leis da morte se ir libertando"!
nos enredamos nestas teias quando devíamos, digo eu, "investir" mais na construção da felicidade terrena.
abs
Exatamenre Ricardo,este culto ao imediatismo da beleza(????)resulta numa máscara disforme,apagam os rastros de vida como voce bem disse.
Gostei muito da imagem do quadro no sótão...me proporcionou uma viagem de rara beleza...
Amo Oscar Wilde por sua ironia,Uma fina ironia,talento dos inteligentes....Gostaria de ver este filme...taí,me interessou bastante esta nova versão...
Bela postagem como sempre.Elucidativa.AMEI!
Um belo post, com idéias muito claras e muito lúcidas. Uma ironia muito fina e precisa.
beijos
Quem é este "anonimo" que escreveu que gostaria de ver esse filme?????
Ricardo!!!gostei muito desta postagem e ao mesmo tempo muito feliz porque cheguei aos meus 65 anos sem Botox sem plasticas ,cada idade tem sua juventude e a beleza estar no interior e não na face.bjs Dja
Olá Ricardo, conheci seu blog hoje e adorei tudo!
Sou apaixonada por cinema e sempre estou em busca de boas sugestões para ver! E vi que aqui encontrarei boas inspirações...
Vou começar assistindo hoje o Dorian Gray!
abçs,
Olá, Ricardo! Por coincidência, há pouco tempo, assisti a nova versão do Dorian Gray. Gostaria muito de assistir as versões anteriores que você citou, principalmente a com o grande ator Helmut Berger.
No final, o filme criou um clima de terror. Eu gostaria de saber se, nas versões anteriores, o final também tem esse clima ou é mais psicológico?
Beijos da Angela Ursa!
Conheci seu blog agora e nem sei como vim parar aqui. Mais um desses mistérios inexplicáveis da vida. Não importa. Vim, vi... e gostei. Ah, Dorian Gray, jamais vi alguém falar assim sobre ele e mergulhei em velhas reminiscências. Incontáveis vezes vi esse filme. Adorei o conjunto da sua obra! Certamente voltarei para suas tertúlias.
"Estudos começam a provar que Botox não só paraliza a “mímica” do rosto com também o cérebro…" é bom demais...
Caro Amigo
De Wilde para além de ter lido o Retrato de Dorian Gray e de me ter deliciado inúmeras vezes com The importance of being Earnest (que passou mais de uma duzia de vezes na televisão portuguesa), especialmente por causa da espantosa Edith Evans, não conheço muito mais obras.
Julgo também que li em tempos o De Profundis (mas era jovem demais para apreender todo o seu significado e penso que nem sequer o acabei.
Dorian Gray é na verdade uma obra plena de imaginação e poesia, que me levou depois, ainda na adolescencia, a me interessar pela biografia de Wilde e especialmente pelos os aspectos mais complexos do seu julgamento.
Não sabia da versão recente do "Retrato" que me deixou curioso e fiquei a conhecer aqui o percurso desta obra na história do cinema.
Grato por mais esta magnifica lição de cinema que mais uma vez me trouxe!
Um abraço
Meu amigo passei para conhecer seu blog ele é not°10, fantástico desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
Um grande abraço e tudo de bom
Ass:Rodrigo Rocha
Hi Ricardo,
I saw once a british tv production which is not mentioned here. But I can't remember who played the part of Dorian...
This new film is quite good and Parker has been doing tremendously good works since years!
I recommend it! Mike
Olá, Ricardo!
Acredita que acabei de ler o Dorian Gray (pela primeira vez) no início dessa semana? Eita coincidência!
Adorei as indicações dos filmes - nunca vi nenhuma adaptação da obra. Fico curiosa pra saber o quanto eles conseguem captar da extraordinária dramaticidade da obra. É fascinante ver o personagem sendo o único espectador de sua própria miséria - extremamente sádico e moderno (considerando o desenvolvimento dos meios de comunicação que tornou possível a existência da praga dos reality shows).
A ideia de se viver artisticamente a existência esbarra no desejo da sociedade de consumo de possuir coisas pra ser feliz. Porém, aqueles que refazem os rostos no máximo conseguem viver a beleza exteriormente...
Beijinhos e até logo!
Dani
Olá!
Amei o blog!
Te seguindo...
Belo como sempre!
Eu já sabia que haveria qualquer coisa de errado com o botox...
rsrsrs
Abraço,
António
Oi Ricardo,
Fantástica postagem.Além de seu critério em nos oferecer o melhor em vivência e crítica voce abordou a mumificação humana em vida pelo maléfico Botox que despersonaliza.
Vi uma foto de Ursula Andrews que me penalizou,ela esta deformada pela rigidez plástica.
Sempre é muito bom ler vc e ter um tempinho para comentar.
Com carinho,
Cris
Olá, Ricardo.
Interessante esta sua teoria que liga o botox e os atuais esforços para se manter eternamente jovem ao "Retrato de Dorian Grey", inesquecível obra de Oscar Wilde. De fato, há muitos que não hesitariam e fazer trato com o "coisa ruim" (que nem o Fausto) para permanecer com a aparência rejuvenecida. E que também gostariam de ocultar seus erros, jogando-os numa imagem fixa. De certa forma, metaforicamente, tem gente que faz de sua imagem pública uma espécie de "Retrato de Dorian" às avessas, permanecendo com a cara limpa diante do público, e, longe das câmeras, deixa ver toda a sua essência.
Bela postagem.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.
Fiquei curiosíssima para ver este filme, ótima dica!! Bom fim de semana...
"O Retrato de Dorian Gray" é sem dúvida a mais conhecida obra de O.Wilde e muitas vezes adaptada ao cinema. Vi várias e uma delas, a que vi há dois ou três anos, não gostei mesmo nada (acho que era de Duncan Roy), e por isso estou curioso por ver esta.
Mas Wilde,quanto a mim, é memorável pelas suas peças de teatro, já bastantes vezes transpostas para o cinema e algumas vezes com brilhantismo; e principalmente pelo livro, que na minha visão pessoal, é o melhor de toda a sua obra: "De Profundis", um livro amargo, escrito na prisão e em que Wilde se revela um fabuloso narrador das suas desgraças.
Querido Ricardo,
Wilde era um esteta, uma personalidade artística, amava a beleza mas não se deixava enganar facilmente por ela. Era o mais ácido e, ao mesmo tempo, o mais terno crítico dos costumes de sua época. Vivia a arte na pele, nas roupas, na postura contundente. Era um dos autores teatrais de maior sucesso em sua Inglaterra e nada parecia poder atingi-lo - até Sir Alfred Douglas aparecer e arrastá-lo para a desgraça, o infortúnio e a miséria que o perseguiram para o resto da vida. Nada disso foi simples para um homem que pagou um preço absurdo por ser coerente com aquilo em que acreditava.
Em Dorian, fica evidente a sua lucidez em relação ao efêmero e ao profundo, ao que perdura e o que se esvai. Sem ilusões quanto às armadilhas do caráter humano. Em alguns momentos, confesso, a trama me remete a Ligações Perigosas. Wilde nos desnuda a decomposição moral do personagem Dorian sem nenhum artifício. Não é difícil pressentir até onde uma luta interna aparentemente muda iria levá-lo. A acidez e a lucidez de Wilde nos encaminham para o beco sem saída ao qual nossas escolhas podem nos conduzir. Sem falso moralismo, sem disfarces, de forma objetivamente trágica.
Com que genialidade e, ao mesmo tempo, com que inocência essencial ele enxergava isso tudo ao seu redor! Tão fascinante e tão profundo que foi destruído. Falar de inocência, aqui, não é falar de ingenuidade e sim da capacidade de acreditar na vida, no amor, no objeto do seu amor. A forma brutal como Oscar Wilde foi destituído e espoliado de tudo o que mais prezava retrata bem a face hipócrita e obscena de uma sociedade decadente e corroída. A face do retrato que vive de si mesmo. Lamento imensamente que um homem como Oscar Wilde tenha sido reduzido a pó para que essa decadência conseguisse se manter em pé. E em toda essa derrocada, apesar de ter sido exposto e condenado num dos "julgamentos" mais cruéis da História, privado de ver os filhos, com sua casa invadida e saqueada e seu nome apagado, jamais deixou de crer na humanidade, de denunciar maus tratos nas prisões por que passou e de reconhecer o outro como um ser que tem direito à dignidade - dignidade esta que lhe foi cruelmente roubada. Toda essa grandeza sempre mereceu o respeito e o apoio de sua ex-mulher, que, dentro das suas limitações, esteve do seu lado até a morte. Dorian, mas que uma vã ilusão, é o retrato de uma sociedade que, para se perdoar, teve de sacrificar seu maior gênio.
Beijo,
Maurette
Maurette... o que seriam as "tertúlias" sem voce?
Olá Ricardo,
Como sempre muito comedido e perspicaz em seus comentários.
Sempre que posso entro no site para ler e apreciar as entrelinhas do que escreve.
Abraços
Jussara
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