Nos anos 80, quando dancei no Theater an der Wien, lembro-me muito bem de uma maravilhosa “Hannah” (a viúva): Mirjana Irosch, um soprano austríaco de origem jugoslava.
“Frau” Irosch estava perfeitamente no seu elemento nesta opereta e, por assim dizer, no ápice de sua carreira. Naquela curta fase em que uma artista “desabrocha” por completo, no momento em que a beleza chega à sua fase mais resplandecente (Ela foi uma mulher de singular beleza e charme) e que a voz e a técnica alcançam uma maturidade antes não ouvida… Um belo momento. Curto porém muito belo! Eu estava lá. Presenciando todas as noites este milagre que acontece no palco chamado magia.
Lembro-me de ficar parado na coxia, noite após noite, ouvindo-a cantar “Vilja” reticente, como que envolvida num sonho, como num pensamento, como no espaço entre duas virgulas. Eu sentia-me completamente fascinado com aquela voz, com aquela presença cenica… eu me “recolhia” no escuro da coxia e gozava aquele instante. Seis vezes por semana… Ficava exatamente como no texto de uma musiquinha antiguinha de Rita Lee: “No escurinho do cinema, chupando drops de anil, longe de qualquer problema. Perto de um final feliz…” (Desculpem-me esta mistura tao eclética entre Franz Lehár e Rita Lee… mas não resisti!).
É exatamente esta qualidade que hoje em dia falta em “Witwe”. Novas produções aparecem contínuamente mas, apesar desta viúva ter passado a ser residente dos palcos “de Ópera”, o que ela realmente necessita são menores “salas”. A produção de 2000 no Metropolitan foi um fracasso. O tamanho do palco “comeu” a Opereta. Esta Viúva foi e é ainda uma criatura para palcos mais populares, na essencia da tradição da Opereta (A “mãe” dos Musicais)
Composta pelo austríaco Franz Lehár ,“Witwe” (A Viúva) estreiou em 1905 no “meu” Theater an der Wien aqui em Viena (Cliquem no arquivo aqui à direita e vejam minhas postagens de 09.04.2010 e de 28.08.2009 – que sorte tive de aparecer na “Viúva” no teatro onde estreiou mundialmente! ) e sua primeira “Hannah” foi um soprano chamado Mizzi Günther! Logo a obra foi traduzida para o ingles e estreiou em Londres com Lily Elsie (adoro este nome!).
De lá foi só um “pulo” para a Broadway. E em pouco tempo “A viúva” se alastrou pelo mundo (conta-se que em Buenos Aires em 1907 cinco produções em 5 diferentes idiomas estiveram em cartaz ao mesmo tempo!). Foram feitas certas adaptações (inclusive em Londres foram adicionadas duas novas músicas) mas a versão original ainda é a da língua alemã!
“Witwe” não tinha uma Ouverture. Lehár a compos 35 anos depois da estréia para a Filarmonica de Viena tocar no seu próprio aniversário de 70 anos em 1940!
As tres versões cinematográficas (todas da Metro) foram só muito longínquamente baseadas no original…
A primeira de 1925 (Imaginem um Opereta como filme mudo !) foi dirigida pelo genial, intelectual, complicado, temperamental e neurótico (austríaco) Erich von Stroheim (lembram do Chauffeur de Norma Desmond em “Sunset Boulevard”? Voilá !).
Ele transformou « Hannah » (que tinha um passado pobre, de camponesa) numa « bailarina » chamada Sally O’Hara ( !?!) e ex-prostituta (muito para o desgosto do produtor, o menino prodígio da Metro, Irving Thalberg e para a ex-atriz da Broadway, Mae Murray, aqui no seu único trabalho cinematográfico que foi relacionado à palavra “Arte”). As cenas de orgia são até hoje bastante fortes visualmente. Diz-se que Franz Lehár « was not amused ».
Mesmo assim o público adorou a “Valsa” e esta foi a única razão deste filme ter tido uma boa bilheteria… A orquestra tocando alguns pedaços da partitura original! O filme consolidou porém a fama de John Gilbert – que interpretava “Danilo” – como símbolo sexual!
A segunda versão, só alguns anos mais tarde (1934) com Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier também tem pouco que ver com a estória original e (apesar de todo meu respeito por Miss MacDonald) é na realidade chatérrima (interessante notar-se que o personagem pivot de « Valencienne » simplesmente sumiu nas tres versões !), possui porém um “Grandeur” e uma fotografia de dar inveja a jovens cineastas. Sim, o “segredo” do preto-e-branco e de inventivos truqes que foram completamente perdidos depois dos anos 40… Aqui Jeanette numa foto que considero simplesmente linda! Uma de suas melhores! A direção desta vez foi mais “clássica”: Ernst Lubitsch.
A terceira (MGM, 1952) é a pior das tres. Lana Turner (um “desafeto” cinematográfico meu) não cantava, seus (reduzidos) números foram dublados…
Esta produção só teve dois pontos positivos: Fernando Lamas provou que podia cantar (e muito bem por sinal) e na cena de Can-Can no “Maxim’s” (no original existe uma réplica do Maxim’s na casa de Hannah) o grupo de bailarinas é liderado por ninguém mais nem menos do que a fabulosa Gwen Verdon (Vide minha postagem de 23.04.2009) dançando loucamente! Quanta energia! Uma maravilha!
E falando-se em dança, devemos comentar que vários Ballets foram feitos sobre “A viúva alegre” e, senão me engano, o primeiro foi coreografado para Alicia Markova e chamou-se “Vilia”.
Lembro-me de Fonteyn dançando “The merry Widow”, que foi coreografado em 1975 por Robert Hellpman para o Australian Ballet, mas nunca ouvi nem detalhes nem críticas sobre ele!
Até Maurice Bejárt fez uma versão em 1963 que desapareceu e a linda Patricia MacBride e Peter Martins dançaram numa esquecida versão feita para a televisão em 1982.
Em 1980 falou-se muito de um projeto, precisamente de um filme, sobre “A Viúva” com Julie Andrews e Placido Domingo. Que pena este projeto nunca ter-se concretizado!
Elizabeth Schwarzkopf , uma das mais lindas "pequenas vozes" do século passado, nunca deu vida à „Hannah“ nos palcos. Gravou porém uma maravilhosa “Witwe” que é até hoje vendida. Aqui uma interpretação concertante de « Vilja », minha parte favorita… Recostem-se, coloquem os pés para cima e deixem-se levar… com Schwarzkopf, com a melodia… Lehár at his very best!
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Danielle querida, para voce! Sua sugestão desenvolveu-se e virou esta postagem! Obrigado!
11 comentários:
Tenho uma verdadeira paixão por esta opereta exactamente por causa de Viljia.
Este seu percurso pela história desta bela obra de Lehar foi magnifico e bastante completo.
Mais uma vez aprendi imenso e confesso que estou completamente de acordo consigo quanto à fantástica qualidade da versão de Elizabeth Shwarzkopf.
Anna Mofo, Beverly Sills, Kathleen Battle e La Stupenda Joan Sutherland foram óptimas nas suas Viljas, mas Shwarkpof põe-me de facto a cabeça nas nuvens.
Uma beleza este seu post. Como sempre aliás….
Que boa a sugestão de Danille, valeu esse post lindo.
beijos
Um belo post sobre uma das mais célebres operetas de sempre.
Desconhecia por completo a existência das três versões cinematográficas e até me arrepiei ao saber que a Lana Turner foi protagonista da última delas...
Ricardo, amei!! Obrigadíssima pela homenagem!
Quanta coisa você sabe sobre essa opereta. Aliás, só o fato de tê-la dançado já é fascinante!
Meu primeiro contato com ela foi, acredite, por meio do "Shadow of a doubt", do leitmotiv da valsa das viúvas que soava na cabeça da irmã maternal do personagem de Joseph Cotten, denunciando os crimes que ele tinha cometido no passado.
Depois, vi o Viúva Alegre da Jeanette & Maurice, o qual gosto muito (apesar de preferir os outros filmes mais "saidinhos" deles dirigidos pelo Lubitsch). E então, vi a opereta muda (paradoxo total) com o John Gilbert e a Mae Murray, tão diferente do primeiro falado que fiquei me perguntando o quanto eles modificaram da opereta do Lehár. Achei muito legal, também, a introdução da partitura da opereta no filme, que deu mais unidade a ele - isso não era muito comum na época.
A gravação que você anexou no post é linda de morrer! Que voz bonita ela tem - e é meio parecida com a Glen Close, não?
Muito interessante o que você disse sobre a popularidade da opereta. Ela era um gênero muito querido do grande público, e considerada por muitos intelectuais pouco artística. A introdução da peça no Metropolitan tira-a do seu elemento - é como se interpretar Ibsen no gigantesco Teatro Municipal do Rio de Janeiro - força a obra a uma grandiloquência que ela não tem.
Ah, como eu não dava tudo para ter a chance de ver um espetáculo teatral da Viúva Alegre!
Bjocas e inté logo (espero, se não afundar nos meus afazeres, rsrsrs).
Dani
Schwarzkopf was simply one of last century' finest voices. Not a big (ugly) one like Callas, just a fine musician instrument... as she herself described. What an impressive career... and what a bitch she was... Ha ha...
Love Mike
Ricardo, que pena não terem levado adiante A Viúva Alegre com Julie Andrews e Placido Domingo!
PS: Outro dia lembrei de você quando assisti estes dois filmes: Sunset Boulevard e The Whales of August.
Beijos!!
adoro opereta infelizmente meu marido nao gosta entao eu fico assistindo no DVD.Voce estar voltando ao meu estilo que bom gosto muito quando voce faz estas postagem ,tenho que esperar ate sexta para ler melhor o blog.,estou sem tempo agora.bjs Dja
Dicas maravilhosas...adorei!!
Abraços carinhosos
Leitner, adorei saber de vc e fico feliz pelas novas postagens.
O An Der Wien e' um marco na historia da arte e do mundo.
Ele abriu as portas a bailarinos como um todo. Uma delicia performatica. Possuia efeitos cenograficos super avancados: criavam maremotos em Evvivva Amicco e rolavam paredes em Massada. Qdo la trabalhei, meu apelido era Mtzy. Carinhoso e short p/ Maria. Foram os anos 76/77/78 de temporada farta; Moravamos ha 2 quadras de tudo e recebiamos em torno de 2800 a 3000 Shillings livres ao mes. As ferias eram sempre em Maio.Tinhamos aulas de Ballet Classico (2hrs diarias), Canto e lingua Alema de Segunda a Segunda; ensaiavamos a proxima temporada pela manha e garantiamos as performances toda soiree' de Segunda a Domingo (duas matines ao fim de semana). Maravilhoso.
No elenco: uma bailarina Egipcia, um Venezuelano, um Argentino, uma Brasileira, uma Alema, Uma Holandesa, uma Inglesa...o Maitre de Ballet era cubano....enfim...nos adoravamos a nossa diversidade!
Gosto de ler e observar suas divagacoes sobre interesses tao abrangentes. Fico sempre extasiada ao ler as Tertulias, sua escrita e' permeada de poesia e garante um free ticketc a qualquer pauta. Uma grande habilidade q vc tem, Ricardo. Vc escreve lindamente.
Gloria
Ricardo, vi no Brasil, no Municipal, a "Viúva Alegre" com Ruth Staerke no papel principal, creio que em 1994, e adorei. Aprecio particularmente uma interpretação de Battle numa versão de concerto, durante uma excursão do Met ao Japão, contracenando com Plácido Domingo. E adorei conhecer a versão de Schwartzkopf, aqui, graças a você... como sempre trazendo as mais seletas pérolas! Obrigada!
Beijo
Maurette
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