„Everyone comes to Rick’s“, uma peça teatral criada por Murray Bennett e Joan Allison, foi a inspiração para o filme „Casablanca“ (Warner, 1942). Apesar de ser em vários pontos completamente diferente do roteiro final do filme, a maioria dos personagens e o „plot“ básico são os mesmos. Bennett e Allison receberam $ 20.000 da Warner pela sua peça - que nunca foi produzida – e até o final de suas vidas arrependeram-se amargamente por terem vendido os direitos autorais por tão pouco.
“Casablanca”, um filme eterno, que não envelhece (e pelo menos no momento, ainda um filme sobre o qual não se está planejando um “remake”). Alguém pode esquecer do "Rick's Café Américain"????
Difícil escrever sobre este clássico. Aqui alguns detalhes sobre a estória deste eterno milagre cinematográfico, que ainda nos fascina.
Rick Blaine (no original um advogado expatriado, divorciado, que não é uma figura nada heróica, possui um Night Club em Casablanca, no qual se apresenta uma "Band“ de jazz composta por negros, e que tem uma amizade bem cínica com o chefe da polícia) transformou-se, no filme, num homem íntegro que se envolvia em causas políticas liberais, que lutava pela paz – um ativista político que até lutou na Guerra Civil Espanhola contra Francisco Franco. Um papel definitivo para Humphrey Bogart, que transformou-se num Astro de primeira magnitude depois deste filme.
Lois Marshall, uma „aventureira com um passado“, uma mulher americana, cínica e amoral, que estava disposta a dormir com Rick para obter os „vistos de saída“ para ela e seu marido, Victor Lazlo, transformou-se em Ilsa Lund – óbviamenrte uma européia – uma mulher correta, não tão engajada políticamente mas óbviamente corajosa. Personagem perfeito para a jovem Ingrid Bergman (Detalhe: no original Rick havia-se divorciado por causa de Lois – esta depois deixou-o por Lazlo… Rick a amava e a odiava por isto. Nada daqueles personagens com “mais moral” como conhecemos do filme…).
O original Victor Lazlo, um homem sem força foi transformado num brilhante e corajoso trabalhador da Resistencia – interpretado pelo austríaco Paul Henreid (Mas se ele era tão respeitado e admirado, qual a razão dos franceses terem começado a cantar „La Marseillaise“ – para abafar o „Die Wacht am Rhein“ dos Nazistas – só depois de Rick ter dado seu „OK“? Henreid reclamou muito desta cena, tirava a credibilidade de seu personagem).
O “Comissário” foi extremamente desenvolvido para o filme – um papel cheio de sarcasmo e ironia. Claude Rains deu “um banho” como Louis (que no original seria « Rinaldo »).
O Strasser (o comandante “Nazi”) da peça não era tao antipático como no filme. Quando a peça foi escrita os U.S.A. ainda não tinham entrado na II Guerra Mundial e a necessidade de uma propaganda anti-nazista ainda não existia (incrível pensar que Hitler foi votado “O Homem do Ano” nos U.S.A. pelo "Times Magazine" em 1938… Fato este que não é tocado mais hoje em dia... mais um capítulo esquecido da história americana, como tantos outros). Engraçado pensar que este protótipo do Nazista (Strasser) foi interpretado justamente pelo alemão Conrad Veit, grande ator por sinal, que era um grande oponente, na realidade um inimigo, do Nacional Socialismo e tinha deixado a Alemanha exatamente por este motivo. Na foto acima o sarcasmo deste filme: o alemão e o frances – quando é hora de ser oportunista esquece-se até de que lado se está…
Num pequeno papel, daqueles inesquecíveis, o magnífico ator Peter Lorre (outro austríaco) interpretando um “pequeno ladrão” – Lorre comecou sua carreira internacional na Alemanha no (assustante) “M, o Vampiro de Düsseldorf” e já tinha trabalho com Bogart em “The Maltese Falcon” (Adoro-o bailando no número "Siberia" do maravilhoso “Silk Stockings” como um dos “camaradas”).
Um terceiro austríaco trabalhou neste filme: o incrível e simpático comico S.Z.Sakall que tem uma cena inesquecível... Falando um péssimo ingles (como a maioria dos austríacos e alemaes que jamais perdem o "acento" e falam como que com uma batata quente na boca; isto além dos erros gramaticais... imperdoáveis! ), ele explica a Rick que já fala muito bem e que nao terao problemas na América, para onde querem imigrar - e pergunta demonstrativamente à sua esposa, indicando com o dedo o relógio: "Mama, which watch?" e ela responde, super orgulhosa: "Papa, four watch"...
Quase que o personagem de Sam (Dooley Wilson, que canta “As times goes by” – uma canção aliás ODIADA por Max Steiner, compositor do fundo musical), transformava-se numa “Samantha”. A Warner pensava em colocar esta canção interpretada por uma cantora negra e considerou Lena Horne e até Ella Fitzgerald para o papel. Imaginem…
Interessantíssimo detalhe:
Acima mencionei os « vistos de saída » (Exit Visas) : este detalhe passa quase desapercebido mas Exit Visas nunca existiram, em nenhum lugar do mundo!!! Isto é só uma “invenção” hollywoodiana para ajudar o plot do filme a desenvolver-se.
Bergman não foi a primeira atriz a ser considerada para Ilsa:
Hedy Lamarr, atriz austríaca que tinha, escandalosamente, aparecido nua no filme tcheco “Extase” (1938) e que na época era chamada „The most beautiful Woman in the World“ – invenção de Louis B.Mayer - foi a primeira opção mas não aceitou o papel (Lamarr não aceitaria no futuro outro filme que foi depois passado para Bergman e no qual esta recebeu um Oscar: Luz de Gás -vide minha postagem de 23.05.2008 sobre um “Drama vitoriano e claustrofóbico” - Pobre Hedy… nunca foi muito bem aconselhada). A bela bailarina Tamara Toumanova (que não fotografava bem e por ser péssima atriz nunca alcançou nenhum sucesso em Hollywood) e até Ann Sheridan, a „Ooohmph-Girl“ (ninguém até hoje conseguiu exlicar-me o que significa isto) foram também consideradas No último momento a francesa Michele Morgan quase ficou com o papel de Ilsa mas como pediu US$ 55.000 a Warner decidiu-se rápidamente por Ingrid Bergman que por meros US$ 25.000 estava à disposição (ela era contratada de Selznick que emprestou-a à Warner. e deve ter ficado com metade do salário dela).
O roteiro nunca foi realmente finalizado. Ninguém sabia como o filme acabaria. Os atores estavam criando seus personagens de um dia para o outro – como na vida real… Também não sabemos o que nos vai acontecer amanha, não é? Bergman reclamou muito do fato de não saber se teria seu „Final feliz“ com Rick ou com Victor Lazlo. Eu acho que este fato é um fator decisivo na finalização deste filme e de sua interpretção. Nao há „hints“ de nenhuma forma – Nem os expectadores nem os atores estão sabendo, escondendo alguma coisa uns dos outros. Os atores recebiam páginas de roteiro, escritas à mão, quase que diáriamente… Um processo de criação em conjunto, vital !
O final original (Rick seria preso) era muito súbito para Hollywood. O final no qual Ilsa deixaria seu marido para ficar com Rick nada “bem-vindo” pelo Hayes-Code. Já o final no qual Victor Lazlo era morto (para possibilitar o “Happy-End” de Ilsa e Rick) não seria ideal, principalmente numa época em que o mundo passava pela ameaça do Nazismo era necessário divulgar grandes homens: os “Victor Lazlos” da vida, os lutadores pela paz, os queperderam a vida lutando.
Na realidade foi David O.Selznick (…e o vento levou!) que aconselhou o húngaro Michael Curtiz a manter o final no qual Ilsa vai embora com Lazlo e Rick, conversando com o chefe de policia (o magnífico Claude Rains), diz: "Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship."
Estou destruindo aqui várias lendas e estórias sobre um segundo final, no qual Ilsa ficava em Casablanca com Rick e Victor Lazlo voava só e que foi recusado pelo público. Nunca foi filmado.
Quando, finalmente, algumas decisões foram tomadas para filmar sequencias extras e refilmar outras, Ingrid Bergman já tinha cortado seus cabelos para intepretar Maria no clássico “Por quem os sinos dobram” (For whom the Bell tolls, 1943).
Este corte de cabelo também salvou outra cena: a sequencia em que a eterna “As Time goes by” era cantado por Sam, por exigencia de Max Steiner, teria que ser refilmada com outra canção. Ingrid, voce destruiu a vida de muitas mulheres com seu penteado (Vide minha postagem de 08.10.2009) mas, do fundo do meu coração : OBRIGADO!
19 comentários:
Absolutamente fascinantes estes "extras" de um filme, já de si, completamente fascinante.
Abraço.
Ricardo
Que bonito ficou esse texto. Um filme que é um classíco, não envelheceu. O mais interessante é que de acordo com os dados que você acrescentou o filme saiu assim por que algumas coisas não deram certo.
Continuo achando que deveria
escrever um livro.
beijos
querido, esse seu blog me desestressa totalmente. Vc está prestando um serviço de utilidade pública. Não lembro de nenhum blog assim em português, com essa linguagem deliciosamente caseira do seu e com tanta qualidade de informação sobre coisas que parecem esquecidas.
obrigada, é uma delícia :)
beijos
Suely
Adorei... mas o que é uma "linguagem caseira"? :-))
Ricardo, você sempre acrescenta, os assuntos têm qualidade e os seus comentários idem. Vou instituir um premio pra você, é o Q+Q, ´Quality + Quality´ rsssss... Quanto aos ´exit visas´ eu acho que eles existiam/existem sim em alguns países (Arábia Saudita, Rússia, etc)... Bjs dominicais.
Muito bom, Ricardo! Eu não conhecia uma porção desses "extras" relacionados ao filme, mesmo tendo uma versão super garibada dele vendida por aqui: dvd duplo, com documentário, pôster e uma latinha para a qual estou olhando agora. Incrível sua explicação sobre o final: a mocinha teria que acabar junto com o marido, mesmo! Se bem que a história é razoavelmente conduzida no sentido do amor de Ilsa por Rick e na admiração pela causa defendida pelo marido. Eu acho... Adorei!
Bjinhos
Olá Ricardo, quanto tempo não venho aqui, mas é sempre um grande prazer estar aqui quando posso, acredite!!!
Amei essa postagem, vc como sempre espetacular no seu jeito de narrar suas postagens de uma forma doce, envolvente e mto esclarecedora.
Realmente este filme, é um "clássico" que será visto sempre como uma "obra de Arte", em todos os sentidos,o qual nos transporta a um tempo onde o "romantismo" existia de fato.
Bjos e apareça quando puder.
Waleria Lima.
Olá, encontrei o seu blog por acaso quando procurava um vídeo com a canção 'The way you look tonight' e dei de cara com o seu belíssimo post com a Audrey Hepburn, não consegui para de ler! Ótimas estórias de Casablanca...
Bjo e até mais!!!
Casablanca é um dos meus filmes de referência. Já o vi monte de vezes. Este post é um excelente complemento.
Abraço
Ricardo, adorei as estórias sobre o Casablanca. É um dos meus filmes prediletos. Beijos da Ursa! :))
ainda não te li hoje, mas passei para dar um alô, depois comento. um beijo da Paçoca
Ricardo,
já disse aqui que o seu ótimo blog é de utilidade pública para cinéfilos e mesmo para não-adoradores da chamada sétima arte.
Eu conheço algumas histórias sobre Casablanca, mas agora fiquei sabendo de bem mais. O que mais acho interessante foi o fato deles começarem a filmar, nos anos 40!, sem um roteiro estabelecido. Acredito que seja um caso único na história da cinematografia da época. Os realizadores dos anos 50/60 fizeram muitos filmes com uma idéia na cabeça e uma câmera na mão, mas dos anos 40 para trás, acho meio improvável.
Amo Casablanca especialmente por seus diálogos maravilhosamente bem criados. A frase final do chefe de polícia "prendam os suspeitos de costume" é simplesmente antológica.
Parabéns por mais esta pequena jóia de post.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.
que belo blog, além do extremo bom gosto, ainda é educativo. love it.
e que belo nome: tertúlias, palavra q eu deconhecia.
reunião de amigos vc diz, mas podia ser um nome de flor.
na nossa sala, um vaso de tertúlias... até q combina, mesmo no significado real.
um prazer conhece-lo
abs
Mi querido Ricardo: paso a dejarte un beso y un fuerte abrazo, y a decirte que no te olvido para nada. Ultimamente, están sucediendo desastres de salud en mis seres más queridos y eso me tiene alejada de los blogs y del canto. Ya vendrán tiempos mejores.
Te quiero mucho
Ricardo, que fantásticas histórias sobre Casablanca! Devo dizer que, ao contrário de Max Steiner, eu AMO "As time goes by". A primeira vez que a ouvi, era uma pré-adolescente (que gostava de clacissismos). Estava incluída no primeiro LP que adquiri da Barbra Streisand (que tinha a capa do "My name is Barbra 1", que mais tarde vim a conhecer, mas se chamava "People" no Brasil e era uma espécie de coletânea de sucessos). Ficou na alma desde então. A interpretação original do filme só chegou com o próprio filme, anos depois. Tenho particular gosto pela estética quase "noir", por uma certa tristeza permanente nos olhos de Ilsa e pela ansiedade contida e constante de Rick - Bogart e sua elegância.
Gostei de saber esses detalhes sobre a forma "experimental" como foi conduzido o filme, com atores recebendo o roteiro a cada dia e ninguém sabendo ao certo o que iria acontecer. Decerto o grande carisma de Casablanca se deve a isso, somado ao estupendo elenco. E o resto é história! História que passa a ficar ainda mais bela após as suas maravilhosas pinceladas de informação, perfeitas para torná-lo um filme ainda mais especial no coração da gente!
Bj
Maurette
Ricardo, cadê você? Volte, não nos abandone!
Bjos
Dani
Dez dias sem te ler é tempo pacas!!!
Saudades.
Estou na Alemanha a trabalho desde o dia 02.11. volto amanha a noite para Viena e já estou "preparando" uma postagem...
Só você para escrever algo tão soberbo sobre este filme que marca gerações e gerações.
Quanto ao meu passeio vou demorar sim, devo retornar em fevereiro.mas se estiver muito bom...vou ficando!
beijossssss
te amo querido!
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