Mas uma pergunta persiste: o que aconteceu realmente a estes personagens depois dos contos terem terminado? Os contos-de-fadas sempre acabaram com „…e viveram felizes para sempre“ („…and they lived happily ever after!“)

mas eu me pergunto, e se não há realmente o depois? Se ele não existe? Pensem: nunca alguém se preocupou em nos contar se Branca-de-Neve transformou-se numa neurótica em termos limpeza (algumas indicações ela já tinha deixado „transparecer“, limpando tão perfeitamenre a casa dos anoezinhos, muito „docinha“ mas comandando os animaizinhos… fingida! "safadinha"!),

se Rapunzel mandou cortar os cabelos bem curtinhos e virou uma „emancipada“ militante depois de ter ficado todos aqueles anos submissa na torre,

se Cinderella ficou obsecada, maníaca por fazer compras, gastando todo o dinheiro do cartão de crédito do príncipe (sua madastra nunca lhe deu uma roupinha nova… lembram?)

ou até se Aurora passou a sofrer de insonia, o que não seria improvável, depois de ter dormido cem anos, e ficou dependente de remédios para dormir… Não, nunca alguém nos contou o que aconteceu depois… Será que o depois existe?

Só G.B.Shaw nos relata, no epílogo de "Pygmalion" (um "conto-de-fadas moderno?) a triste vida que Eliza Doolitle levou depois de casar-se com Freddy Eynsford-Hill… de como ele gastava fútilmente o dinheiro que ela suava para ganhar na sua loja de flores, de como apesar de ela ter-se tornado uma „Dama“ sua caligrafia era terrível, seu inglês escrito muito deficiente e de como ela, por pura ignorancia, recorria ao Professor Higgins para que ele lhe ajudasse na contabilidade da loja. Ela não sabia como faze-la. Uma „Lady“ na aparencia mas sem o real Background de uma. Triste. Para quem tem a imagem de Eliza como Audrey uma outra „maldade“: Shaw conta como Eliza começou a envelhecer, perder a mocidade e a beleza antes do tempo… (John Tydeman escreveu: que a “made-over” Eliza não era nada além de "a doll who speaks beautifully, knows how to move and to wear fine clothes". Shaw, num período bem “pé-no-chão” e de muita observação social, adicionou ao seu livro este epílogo no qual está óbvio que Eliza ainda teria muito o que aprender para transformar-se realmente numa mulher fina… o “depois do final”).

Um “depois“ do final… este talvez não de um conto-de-fadas mas de uma estória que tem um lado „Cinderella“ que nos hipnotiza e sempre encanta e ENGANA. Uma fórmula aliás bem conhecida no cinema… pensem em „Funny Face“ com Fred Astaire e também Audrey, „Gigi“ com Leslie Caron ou até „Pretty Woman“ com Gere e Roberts. Todas acabam com o final feliz... and they lived happily ever after. Não é à toa que existe o livro „The Cinderella Complex“, que deve ter dado muitas dores de cabeça à muita gente... Nosso país (Brasil) é o "rei" em termos de incentivar estes "sonhos de Cinderella"... pensem só naqueles coitadinhos que íam para "A Buzina do Chacrinha" ou para o programa "Sílvio Santos". A migração constante do interior para a cidade... "lá eu ganho na loteria, viro cantor e fico famoso". Quantos coitadinhos, todo dia, chegam às chamadas "metrópoles" com estes sonhos dentro da mala... Mas por outro lado: ir tentar realizar seu sonho... quanta coragem... admirável...
Mas, de volta a „Pygmalion“: será que alguém já notou aqui que „My Fair Lady“ e „Frankenstein“ tem práticamente o mesmo conteúdo e (no cinema) o mesmo roteiro? Um „monstro“ é criado (na realidade por criar-se uma nova fala e novas maneiras para ela) e o „Cientista“ (Higgins era um ousado cientista, num ousado projeto) perde completamente o controle sobre ele… Cinderella, o monstro. Já tinham pensado nisto?
11 comentários:
Fabuloso raciocinar na "evolução" das nossas personagens de ficção, que invariavelmente deixamos numa situação de felicidade eterna...
É um exercício simultâneamente triste e estimulante, pois essas personagens irão "envelhecer" e terão as normais contrariedades da vida...
Abraço.
Adorei, Ricardo! Adorei essas últimas duas postagens. Fantástica a referência ao Shaw. Ele foi mesmo muito arguto ao explicar aos desavisados que o fim da Elisa estava muito longe de ser um conto de fadas... E as referências aos "sempres" que sucedem aos finais é também incrível. Você viu "O espelho tem duas faces" (The mirror has two faces - lindo filme que ainda não saiu em dvd por aqui)? Barbra Streisand é uma professora universitária de literatura. Ela discute com os alunos sobre as ilusões românticas criadas por essas histórias. Mas, no final, acaba dançando Puccini com Jeff Bridges no meio da rua. E isso em 1996!... Engraçado como essas ilusões fazem mais parte do nosso imaginário do que a gente imagina!
Não sei se sou uma romântica incurável, mas acho que estes finais felizes representam a esperança de que isto seja possível, ou, simplesmente, que seja ´infinito enquanto dure´...
Querido amigo Ricardo, sempre tive medo das histórias infantis, elas tem um que de maldade, e minha imaginação voava quando minha Bá contava.
Aqui o resto é pura cultura, não me canso de falar.
Desejo a você um bom domingo querido.
Nossa! Eu sempre penso nisso, Ricardo!
Sempre mesmo!
"como ficarão as personagens dos livros que eu devoro depois do 'happily after ever' e em que condições viveriam sem os vilões a atormentar sues juízos?"
Viajei aqui agora... Muito bom o post!
Saudades!
Bj!
O "Depois" do Final Feliz...
SOBERBO...
Eu ainda estou fora de casa, por isso levo um tempo a mais, para aparecer, mais levo sim, você dentro do coração, pois seu trabalho , sua distinta pessoa, marcam um caminho lindo,
beijos saudosos de sua amiga aqui do Brasil,
Efigênia Coutinho
Caro Ricardo,
Também te desejo um bom fim de semana, com saúde e paz.
http://panorama-direitoliteratura.blogspot.com
Pedro
Ricardo
Estas quetões nos incitam sempre, pois gostariamos que esses finais fossem possíveis e não percebemos que na realidade, eles só ocorrem nos amores curtos e não realizados, aqueles precocemente interrompidos como Romeu e Julieta~. Quase todo mundo teve um amor assim, que terminou por circunstancias externas e não pela vontade e que ficam na memória e servem de material dos nossos sonhos, acordados ou não.
Os amores que sobrevivem ao tempo são exemplos de tolerancia.
E bem cá entre nós as relações humanas nunca tem final feliz, ou as pessoas se separam ou morrem. O que dá é para construir uma história feliz e não um final.
Você me inspirou hoje com este post. Desculpe eu ter me estendido.
beijo
Nossa Angela, voce me impressionou comeste comentário... adorei a tua visao. que é mpre profunda...
Os contos-de-fadas não são simplesmente histórias gratuitas; há um propósito importante em cada um deles. Mesmo quando achamos que uma história para crianças mais parece um filme de terror, esquecemo-nos de que exercitar certas vivências é importante para a formação da personalidade e para colocar a criança em contato com tudo aquilo de bom e de ruim que ela tem dentro. Sim, porque uma criança não está livre de alimentar sentimentos mesquinhos - e precisa aprender a lidar com eles, administrá-los, situá-los. Nisso os contos-de-fadas ajudam muito. Ajudam também a lidar com a morte, por exemplo. Lembro-me do impacto que "Bambi" teve sobre mim, nesse particular. Da delicadeza com que os temas "morte" e "perda" são abordados.
O "felizes para sempre" dá, de fato, uma ideia de que o tempo da vida pára naquela felicidade. Mas eu particularmente não tenho nada contra, não. E tenho para mim que retrata muito mais uma escolha, uma vitória significativa para os personagens, do que um clima de felicidade eterna. Ficar junto com a pessoa amada, após grandes lutas, como acontece com tantos príncipes e princesas - e hoje em dia até ogros, como o adorável Shrek - constitui um importante rito de passagem, uma afirmação da nobreza de sentimentos. Mesmo que isso mude ao longo da vida, mas se a gente muda, por que os sentimentos não podem mudar? Uma vez uma amiga me disse algo marcante sobre um amigo nosso, que estava entrando no terceiro casamento: "Eu prefiro gente como ele, que apesar dos desencontros da vida, jamais desiste da possibilidade de ser feliz." Não há vidas perfeitas, mas há pessoas de coração aberto para viver as imperfeições e os percalços da convivência, tendo acima de tudo vontade de acertar. Quando vejo um desses "happy-endings" memoráveis do cinema, é sempre como da primeira vez. Fica marcado ali como uma possibilidade de felicidade que, mesmo passados 40, 50 ou até mais anos, está impressa no celulóide para nos lembrar de que não perdemos a capacidade de acreditar e de nos emocionar com a simples ideia de saber que aquela felicidade, ou outra parecida, é possível - ainda que transitória, "posto que é chama", como tão sábia e delicadamente disse o nosso poetinha maior. Que bom que os nossos filmes felizes, queridos do coração, conseguem sempre despertar em nós essa força e essa fé nas coisas belas, nos sentimentos nobres e em nossa capacidade de buscar viver, pelo menos, no rumo de ser felizes!
Beijo grande,
Maurette
Ricardo! Que maravilha de postagem... Estava um tanto quanto atrasado para visitar os blogs amigos, mas agora estou retornando livre de qualquer alcunha desmedida e infundada. Quanto ao post, se pararmos para pensar com afinco sobre o que vem depois de todos esse finais felizes... Daria uma outra estorinha, só que não mais um conto de fadas. Abraços meu caro.
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