sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Vamos hoje rir com "Millie" ?????

Thoroughly modern Millie...

Eu estava com “outros planos » e ía postar uma coisa muito diferente, que ficará para outra vez. Hoje o dia foi bom, leve… o fim-de-semana começa e eu sinto-me bem, de muito bom humor, feliz… ora, então porque não postar uma coisa risonha? Voilá…

Thoroughly modern Millie (“Positivamente Millie”, 1967, George Roy-Hill) foi o filme que iniciou a moda “Anos 20. Nostalgia” que foi muito popular no Brasil e que chegaria ao seu ponto máximo com o filme “O grande Gatsby”.

Detalhe: Esta terceira “versão” do poster do filme é meio estranha. Se repararem bem, Mary Tyler Moore está com uma mini-saia "swinging london" dos anos 60… e não vestida como uma “Flapper” dos anos 20! (Se voces repararem bem, mais ou menos em baixo da perna levantada de Julie verao Mary, mais uma vez, com um bailarino de terno e gravata dos anos sessenta... numa espécie de ié-ié-ié... o que nao tem nada que ver com o filme! Que falha, principalmente por que a direcao de arte é tao perfeita em todo o filme!)


“Millie” é um filme divertissímo, engraçado, animado, rápido, crítico, inteligente, bem-humorado, de um “tempo” fora do comum (ótima direção) e com um elenco maravilhoso: Julie Andrews, Mary Tyler Moore, James Fox, Carol Channing, John Gavin e Beatrice Lillie!!!! (além de ótimos coadjuvantes como Pat Morita). « Millie » foi um incrível sucesso de bilheteria. Uma brincadeira cinematográfica (até com uma cena que era só para brincar com as platéias judias das “matinées” da “East Coast” – esta cena não tem realmente um “porque” de estar no filme, é só uma brincadeira… muito gostosa aliás! - “Trink la Chaim”, um ótimo número: Julie cantando em jidisch, mais uma vez deliciosa).
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Julie está deliciosamente bem como uma moça do interior (que tem um sotaque britanico… ah, quem se importa?) que deseja transformar-se numa “moderna” para casar com seu chefe (que ela ainda não conhece pois ainda não tem emprego).
Mary Tyler Moore um tipo mais “Lillian Gish”, a fina… James Fox nos conquista imediatamente quando começa a sapatear, tarefa não muito normal para um ator shakespeareano… Carol Channing enche a tela de energia
(Imagino a “Dolly” que ela foi no teatro. Sim, ela criou este papel… Detalhe: Julie, que tinha perdido “Eliza” para Audrey Hepburn mandou o seguinte telegrama para Carol quando esta perdeu “Dolly” para Streisand: Don’t worry, you’ll get your Mary Poppins) e Beatrice Lillie (como a “vilã” e conecção com a “máfia” chinesa que raptava “escravas brancas” – Ave, quanta loucura - Mrs. Meers) nos “assusta” quando diz “Sad… to be all alone in the world”! (Detalhe: durante a filmagem, Bea Lillie já estava num grau muito avançado de Alzheimer e perguntava todos os dias “Quem é aquela mocinha que canta tão bem? – já sabem a quem se referia, não?)

Uma comédia irresistívelmente gostosa que simplesmente diverte (Meu pai a odiava e a chamava de “Chanchada”, minha mãe a adora e morre de rir quando a reve. Sempre!). “Millie” é infelizmente um filme meio esquecido, meio “injustiçado”. Uma comédia musical cheia de cliches, besteiras. MARAVILHOSA!


O início do filme já nos “pega”. O cliché da transformação da mocinha do interior (Se bem que, justiça seja feita, ela diz numa certa parte do filme: “You can take the girl out of the small Town but you cannot take the small Town out of the girl!”).
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Minha cena preferida: o elevador temperamental que foi danificado por culpa de umas coristas que nele praticavam. Ele só funciona se sapateia-se… Adoro o comentário da rica herdeira, Miss Dorothy (Tyler Moore"): "Oh I love it, in the Ritz elevator all you do is go up and down!"
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E “TAPioca”, uma dança criada para Millie por Jimmie (James Fox) baseada no “Menú” que ela comeu nesta determinada noite: “Franks” (salsichas) não funcionou, “Sauerkrat” (chucrute) óbviamente muito menos… mas quando ele ouviu “Tapioca, the pudding” já teve a visão desta “dança”, deste número de sapateado… Tap, tap, Tapioca… Que delícia!
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E para finalizar Millie apresentando-se para um emprego e apaixonando-se pelo “chefe”. Que atriz de musical mais perfeita !!!!!
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E agora? Minha "dica" para o fim-de-semana: Vamos assistir (ou reassistir) este delicioso filme?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Private Lives (Noël Coward)


Invariávelmente chega-se a um certo momento do inverno na qual o frio, o vento, a neve ficam tao intensos que nosso único desejo, além de querer que a primavera logo chegue, é o adicional calorzinho gostoso de uma lareira, o aconchego de uma manta de lã sobre nossas pernas e velas, velas e ainda mais velas por toda a casa.
Este „temido“ ponto do inverno chegou. De terça para quarta-feira (27.01.) foram registrados em Viena 18 graus negativos (numa cidadezinha do norte da Austria a temperatura chegou à -27 graus), saí de casa para o escritório na quarta à 08.30 da manhã com 14 abaixo de zero e meu carro demorou tanto para se aquecer que eu já estava práticamente no escritório quando a temperatura interna ficou boa. À Noite cheguei feliz em casa. Sim, no momento, voltar-se à privacidade da própria casa é o momento mais gostoso do dia. Voltar à vida privada e ficar à vontade com uma roupa quentinha, e casual, de flanela e meias de lã depois de um gostoso banho quente…
Nestes particulares dias alegro-me muito quando uma encomenda qualquer chega. Na quinta-feira, dia 28, como que para iluminar minha noite, abri a caixa do correio e encontrei o esperado pacote da „Amazon“ com „Private Lives“ (MGM, 1931).

A peça de Noël Coward (a primeira foto desta postagem è de uma “revival” de 1936 com o Mestre Coward e sua querida amiga Gertrude Lawrence) é uma das minhas „all-time-favourites“ desde que comprei este livro numa second-hand bookshop da Broadway chamada „Theatre Books“ em N.Y. em 1983 (Não esqueço da cara do dono da loja e do fato dele ter-me contado que Joan Fontaine tinha ido ao seu casamento!?! Não sei mais porque ela foi ao seu casamento e o porque dele me contar isto… ). Nunca assisti „Private Lives“ mas o trabalho em conjunto e a grande amizade entre Noël e Gertie (Gertrude Lawrence), para quem a peça foi concebida, começou a fascinar-me já em 1989 quando numa outra „second-hand bookshop“ (desta vez em Singapura) comprei uma biografia chamada „A bright particular Star“ – que como toda BOA biografia inglêsa exerce sobre nós o charme do „low profile“ britanico (bem em contraste com as biografias „flamboyant“ americanas, que dominam o mercado): Como que, se perguntando sobre o porque do talento imenso destas imensas personalidades, a biografia simplesmente respondesse: „Of course, my Deah… What else could you have expected?“

Eu tinha assistido duas cenas, relativamente curtas e bastante „condensadas“ de „Private Lives“ com Julie Andrews (como Gertrude Lawrence interpretando Amanda) e Daniel Massey (como Noël Coward interpretando Elyot) no (infelizmente) fracassado „Star!“ (20th Century Fox, 1968), uma biografia sobre Gertie. Amanda e Elyot são divertidíssimos personagens!

Outras „Amandas“ no palco foram Tallulah Bankhead, Tamy Grines, Joan Collins, Elizabeth Taylor (com Burton como Elyot), Elaine Stritch e minha querida Dame Maggie Smith. Lembro-me bem do dia em que, em Londres no início dos anos 80, não consegui entradas para esta produção (ou eu não tinha dinheiro?) e fiquei na porta esperando Maggie e Michael Caine entrarem no teatro. Que pena que não os vi no palco.



Não sei exatamente o que estava esperando desta versão da MGM de 1931 (feita só meses após a fulminante estréia da peça na Broadway, com Gertie e Noël, depois de terem terminado a temporada londrina), não sei o que esperava de Norma Shearer (que como esposa de Thalberg era na época, junto à Garbo, „rainha da MGM“) e do estático Robert Montgomery. Sabia que nem Reginald Denny nem Una Merkel me convenceriam como Victor e Sybil. Ele por estar „no lugar“ de Laurence Olivier (que fez este papel secundário no início de sua carreira – vide foto abaixo) e Douglas Fairbanks Jr., ambos bonitos rapazes. Ela por não ser uma „comediante“ (Sempre penso na fabulosa e sofisticada Rosalind „Roz“ Russell quando penso em comédia sofisticada) porém uma „cômica“.
A decepção com Shearer foi imensa (gosto muito de vários trabalhos dela e acho-a uma das mulheres mais bonitas do cinema mas ela é a atriz errada para Amanda. Falta-lhe um certo „glamour“. Qualidade que Gertie tinha de sobra), a com Montgomery mais ou menos esperada – ele estava ainda mais estático do que de costume. Em resumo: dois ingleses com sotaques americanos? (Grande falha da produção – quando Victor pergunta a Elyot „Are you English?“, me perguntei o porque dele ter feito tal indagação). Duas pessoas, que deveriam emanar „Savoir-faire“ e classe, resumidos a dois personagens que não mostram o menor vestígio de ser „upper crust“ e de ter experiencia „continental“? Dois atores trabalhando na mais sofisticada de todas as comédias com um ar monótono e estereotipado? Dois atores numa engraçadíssima comédia com ares de quem estão com dor de cabeça e achando a situação muito „aborrecida“?

Fiquei refazendo o filme, a peça na minha cabeça (onde estava de certa forma já há anos „pronta“) com Gertie e Noël e todo seu „wit“, charme, sofisticação e british manners and accents… Um desejo? Sim, adoraria dirigi-los…
„Private Lives“, uma declaração de amor, ainda é uma das grandes comédias sobre o amor que nos mostra que toda e qualquer „decisão“ pode ser reconsiderada e modificada – se deixar-mos nosso coração (e instinto) falar mais alto do que nossa racionalidade.
Como a própria música, tema central da "trama" (composta por Noël) nos explica:

♫ ♪ Someday i'll find you
Moonlight behind you
True to the dream i am dreaming
As i draw near you
You'll smile a little smile;
For a little while
We shall stand
Hand in hand
I'll leave you never
Love you for ever
All our past sorrow redeeming
Try to make it true
Say you love me too
Someday i'll find you again
♪ ♫

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Gelsey e Misha: Swanilda e Franz... Coppélia


A gente „viaja“ por tantos mundos e acaba esquecendo aquilo de bom que estava no “nosso quintal”: Nossa! Soei agora como Dorothy do “O Mágico de Oz” depois de ter viajado por “OZ” e ter-se dado conta que poderia ser feliz no seu próprio “backyard”.

Falando sério: Este conhecido “vídeo” tenho ainda em VHS. E agora encontreio-o no youtube.

SEI que Silvinha, Rodolfo, Eliana, Eric, Antonio, Fernando, Aurea, Rosangela, Claudia, César e tantos outros vão gostar de se relembrar de Gelsey e Misha em “Coppélia”.

Além de sua perfeita performance, fico emocionado com a exatidão da musicalidade de Gelsey. Chama-me porém muito a atencão a precisão do “Balance” de Gelsey na primeira "diagonal" (apesar dela ter confessado que nestas épocas estava com problemas terríveis de bulemia - ou era anorexia ? - e não tinha forca para bailar) Em alguns momentos parece que ela poderia “ficar ali” para sempre. O que, aliás, me lembra um episódio, que ouvi do bailarino (meu querido amigo) Antonio Negreiros sobre (minha querida amiga) Cristina Martinelli. Episódio esse que um dia contarei aqui – o que falta é encontrar a “tal pessoa” para fazer o comentário… Bem, aqui Gelsey e Misha… Divirtam-se!
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

La cousine Bette (Balzac): um clássico muito menosprezado...

Considerado o último grande trabalho de Balzac „A prima Bette“ (La Cousine Bette) não parece ter um lugar de honra e destaque quando se discute o trabalho de Balzac... Foi muito esquecido.

Descreve o caminho de vingança que uma costureira solteirona de meia-idade segue para „aniquilar“ todos que não deixaram-a realizar seus sonhos.
O amor que perdeu para a sua jovem prima, o „artista“, o escultor Wenceslas, que representa o genio artístico que sucumbe à uma certa falta de motivação e preguiça, é morto. Sua esposa, a prima mais jovem de Bette, Hortense, mata-o (Bette armou esta armadilha) e é presa. A „amante“ dele (por sinal, a „melhor“ amiga de Bette), Valérie é levada a um vale de lágrimas enquanto o patriarca da família Hulot (ou seja, o pai de Hortense) sofre um derrame ao pegar „in flagranti“ Valérie (que amava e que tinha sido sua amante) com Wenceslas, seu genro.
Uma trama complicada e de alta-voltagem…
Bette, ao final, assume o poder sobre a casa na qual um dia foi recusada (quando sua prima Adeline morreu ela pensou que Hector Hulot iria casar-se com ela… Não! Ele queria-a só como uma espécie de governanta), tornando-se a responsável „oficial“ não só de seu „primo por afinidade“ Hector, como também, do que resta da sua fortuna e do filho de Hortense e Wenceslas, seu „amor“. Ela triunfa.

O livro, que foi comparado a „Othello“ de Shakesperare e a „Guerra e Paz“ de Tolstoy ("Guerra e Paz " porque? Nao compreendo!), explora temas de uma imensa densidade: maldade e virtude, paixão, mentira e „doença“ ( a fixação práticamente patológica que Bette tinha por Venceslas), sexo e fidelidade e, acima de tudo, a influencia que o dinheiro exercia sobre a sociedade francesa. Reparem que eu não penso que o livro explore o tema „amor“. Nenhum dos personagens realmente "ama"...

Balzac, numa das mais longas „novelas“ (escrita num curtíssimo período de só dois meses) de sua inteira carreira (incrível pensar-se na quantidade de livros que Honoré de Balzac escreveu em sua curta vida. Ele morreu aos 51 anos de idade) descreve realistícamente a trama diabólica que Bette pouco a pouco desenvolve para conseguir o seu maior objetivo: a vingança! E tudo levado pela inveja – que sentimento perigoso e destruidor. Tenho realmente „medo“ da inveja.

Os críticos chamam muita atenção à falta de beleza de Bette, a quem Balzac se refere até com „…quelques verrues dans sa face longue et simiesque“ (…aquelas verrugas em sua face longa e símia). Outra passagem a descreve como „elle ressemblait aux singes habillés en femmes“ (ela tinha semelhanca com os macacos vestidos de mulheres) ou até com „une jalousie de tigre“ (um ciúme de tigre). Características que transformam-a, para o leitor, no que ela é. Uma mulher de terrível caráter, de 42 anos, e muito diabólica. Quando ela toma conhecimento do noivado de Wenceslas e Hortense, começa „a pegar fogo, como se a fumaça das chamas que a acendiam, saíssem das suas rugas assim como as que saem das fissuras causadas por uma erupção vulcanica“. Incrível as figuras, as metáforas empregadas por Balzac! Ele „usou e abusou“ do seu poder de escritor para transformar Bette realmente no monstro que é.

Num filme de nenhum sucesso, feito em 1998 e dirigido por Des McAnuff, o personagem de Valérie foi eliminado, dando lugar à „Jenny“, uma atriz. O motivo para mim é até hoje desconhecido (ou inexplicável… ou será pelo „pudor“? ). No filme, Jenny tinha dois amantes ao mesmo tempo antes de se abandonar nos braços do exilado polones Wenceslas. Valérie (livro), por sua vez, teve até 5 amantes ao mesmo tempo (e quando ficou grávida disse para cada um deles, inclusive um nobre brasileiro chamado Mendés (?!?), que eram todos os pais da criança!). Ou seria o motivo o fato da “amizade” entre Bette e Valéria nao ser vista por Balzac como tão platonica? A com Jenny é…

Mesmo assim, com seus erros, acho o filme muito bem construído. Não é fácil tarefa colocar em 1 hora e 45 minutos todo um mundo de material que Balzac nos presenteia no livro. Imaginem só que após 150 páginas ele nos diz: „Agora a introdução à estória está definitivamente acabada“ (!?!).

Jessica Lange, neste filme que recomendo – não tão horrenda como Bette deveria ser mas, mesmo assim, longe de estar atraente como foi em anos passados – transforma em carne, sangue e osso um dos personagens mais temidos e interiormenre feios da literatura francesa/mundial. Um dos personagens que considero, em termos literários, ser um dos melhor construídos por um autor.

E, não podemos esquece deste fato, o quem mais incomoda neste filme/ livro? O fato dela „vencer“ no final.

Conversamos muito em casa sobre o final do filme (reli até em voz alta o final do livro) e lembro-me muito claramente da opinião de minha mãe: „Pessoas assim não são felizes… „

Será verdade ?

Eu considero que a felicidade está muito relacionada ao fato de ter-se uma consciência limpa… Mas uma pessoa que trouxe desgraça, morte, injustiça, doença e loucura para outros, propositalmente, tem consciência?

Será?


P.S. Diz-se que Ruth Elizabeth Davis escolheu o "nom de guerre" Bette (Davis) por causa deste livro... Se isto é verdade, então a "Bette" de Balzac encheu-lhe de inspiração para interpretar outras "malvadas" (que eram, na maioria das vezes, "punidas" no final dos roteiros da Warner - falaremos delas em breve, OK?).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

REMEMBERING: Frances Farmer (ou Frances, Hollywood, Lúcifer e o Inferno: de „Aura Lee“ a „Love me Tender“)



Uma das personalidades cinematográficas que mais me intriga até hoje é Frances Farmer (1913 – 1970).


Foi difícil escolher Frances como tema. Mais ainda fazer um relato sobre ela. Tanto já foi escrito, dito, interpretado sobre ela. E de certa forma é quase impossível encontrar material „neutro“ sobre sua vida. A maioria é influenciada por Hollywood e transforma-a numa espécie de Lúcifer cinematográfico, um anjo caído das grandes produções. Sua própria auto-biografia é de um „tom“ meio extra-terrestre. Lê-se nas entrelinhas que uma pessoa já não mais muito „normal“ (bem, o que é na realidade normal?) escreveu-a. E como poderia depois de todas as „surpresas“ que a vida lhe trouxe?
Muitos talvez ouviram seu nome, outros assistitam o filme que foi feito nos anos 80 sobre sua vida. Poucos ainda se lembram de sua imagem nas telas (minha mãe confessou lembrar-se bem do „nome“ Frances Farmer). Na realidade sua trajetória pelo cinema americano foi curta (1936-42) e foi, por motivos que leremos abaixo, práticamente „apagada“ da história. Não fosse pelo filme de 1936 (dirigido por Howard Hawks e William Wyler) que lançou-a ao estrelato (e no qual foi comparada pela crítica à uma „nova Garbo“), „Come and get it“, práticamente não teríamos um testemunho deste imenso talento.


Pergunto-me se algum dia seram redescobertos/relançados em DVD seus filmes com atores e partners famosos como Bing Crosby, Tyrone Power, John Hall, John Barrymore, Ray Milland, Fred MacMurray e Cary Grant (foto abaixo).
Mas Frances não é bem-vinda na memória de Hollywood: a história desesperada de Frances não é realmente uma que enfoque Hollywood pelo seu melhor e mais humano lado. Na opinião de muitos ela „traiu“ Hollywood ao, de certa forma, ter possibilitado uma visão mais „profunda“ sobre a fábrica de sonhos. Mas ela não foi a culpada, ela foi a vítima.
Frances havia sido descoberta pela Paramount em 1935. Foi muito bem sucedida nos seus primeiros anos no cinema mas sua incansável recusa em deixar-se fotografar em maillot (algumas indesejadas fotos existem) no que se chamaria „cheese cake“,
seu desejo de fazer teatro (Ela foi uma época para N.Y. onde trabalhou no sucesso „Golden Boy“ e tornou-se amante do autor, Clifford Odetts, que era na época casado com Luise Rainer)
e seus boicotes contra a Paramount logo a transformaram em „persona non grata“ no estúdio. Quando voltou, obrigada pelos advogados da Paramount, de N.Y., foi relegada à papeis secundários em produções „B“ como uma espécie de castigo.
Frances Elena Farmer, uma mulher inteligente e altamente crítica, incomodava Hollywood com seu jeito de ser e pensar. Acho que de certa forma até hoje incomoda já que não foi possível eliminar completamente todos os vestígios de sua existencia. Sua recusa a „cooperar“ (e a leve surra, ou tapa, que deu numa cabelereira durante a filmagem de „No escape“) transformaram-a num „outcast“ na Mecca do cinema. Ela foi presa por agressão física à cabelereira acima mencionada. Ela estava completamente bebada num quarto do "Knickerbocker Hotel", lugar decadente para o qual foi "mandada" quando o estúdio tomou-lhe a casa onde morava.

Sua fulminante e assustadoramente rápida caída em direção ao inferno havia começado


(Nota: Quando chegou à chefatura de polícia perguntaram-lhe seu nome, ela respondeu: „Voces arrombam meu quarto de hotel, me trazem para aqui à força no meio da noite e não sabem o meu nome?“. Em seguida perguntaram-lhe sua profissão. Ela ponderou por um curto instante e disse seca- e desafiadoramente: „Cocksucker“).
Que „coincidencia“ que repórters e cameras à esperavam na chefatura para retratar um grande escandalo.

Mas o tapa dado na cabelereira durante as filmagens da produção B „No Escape“ seria muito mais fatal do que um processo por uma pura agressão física.

Paramount, Hollywood (e, detalhe, sua mãe) usaram o „famoso“ tapa para „tirá-la de circulação“ durante algum tempo. Sendo porém a razão principal sua ideologia política. Frances era comunista e muito radical em suas idéias, o que nada agradava os chefes do estúdio.

Ela foi colocada num hospício. Primeiro em boas instituições mas com o passar do tempo e à medida que SEU dinheiro foi acabando (Hollywood não lhe oferecia papéis), sua mãe foi obrigada a colocá-la num manicomio do estado. Nestas instituições ela passou os próximos 11 anos de sua vida. É até cogitado que ela foi um dos primeiros pacientes a sofrer uma „Lobotomia“ (operação já há muitos anos proibida).

Sim, o inferno tinha definitivamente aberto suas portas para Lúcifer.

Frances não era de nenhuma forma „louca“; era uma „angry woman“ que tudo questionava, uma mulher angustiada que tinha encontrado a tequilla como substituta ao amor, como ombro para chorar suas mágoas. Uma vez ela pode ir para casa. Quando disse à sua mãe que jamais voltaria a Hollywood e que não mais queria ser atriz, foi mais uma vez internada. Foi considerada louca por recusar Hollywood.

O filme com Jessica Lange (abaixo) sobre sua vida („Frances“, 1982) é um ótimo trabalho. Principalmente por só contar com um „trunfo“ nas suas mãos: Um bom diretor com bons atores.


Ele é porém, apesar de ser MUITO forte, quase um „conto de fadas“ em comparação aos fatos de sua auto-biografia „Will there really be a morning?“ que conta sua luta para sobreviver aos maltratos, humilhações e sofrimentos num manicomio (isto sem contar os estrupos quase diários. Sim, ela era „vendida“ pelo "staff" para soldados por ser uma „Hollywood Star“ e para se afastar, pelo menos em espírito da sórdida situação, recitava em voz alta as poesias de Walt Withman enquanto era estrupada, muitas vezes por vários soldados em questão de uma hora).

Nos anos 50 ela saiu finalmente do manicomio: Frances viveu o resto de sua vida práticamente bebada, nunca tendo „resolvido“ seus 11 anos nos manicomios (Alguém se admira?). Ela fez durante anos um programa de TV em Indianapolis durante o dia (durante as noites ela bebia) e tentou até, sem sucesso, voltar ao cinema. Ela, que tinha crescido odiando Deus (vejam minha postagem de 03.06.2009 na qual traduzi um trabalho seu ainda durante sua época de estudante), acabou sua vida como uma fervorosa católica (!?).
Nossa!!!! Como me distanciei do caminho que estava „traçado“ para esta postagem. Comecei a „tertuliar“ comigo mesmo e uma coisa leva à outra…
O título desta postagem de certa forma „revela“ o que queria contar: „Aura Lee“ (ou às vezes „Lea“), uma canção original da Guerra Civil americana, foi interpretada por Frances em „Come and get it“ em 1936. Seu personagem, a mulher „com um passado“, Lotta Morgan canta-a num Saloon. Lotta, um dos personagens que Frances interpreta neste filme (ela também é a outra „Lotta“, a filha de Lotta Morgan) não é como as estereotipadas „mulheres da vida“ da época (Pensem em Mae West) mas sim uma mulher de voz grave, olhar intenso e de carne e osso. Detalhe: estamos falando de 1937!
A fotografia é um ponto fascinante desta produção. Só o efeito à la „venetian Blind“ que a sombra do parasol (ou sombrinha?) causa sobre seu rosto, já é em si magnífico. Técnica artesanal no cinema. Sim, deste material é que se criava estrelas.
A música virou realmente um sucesso só 20 anos depois, com outro texto e cantada por Elvis. Voces reconhecerão!

Aqui, Ladies and Gentlemen, uma bela e talentosa atriz: a esquecida Frances Farmer.