sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Profissão: Doméstica

Vivendo desde 1981 na Europa aprendi, no que diz respeito à „casa“, não só a fazer mil coisas que jamais teria aprendido no Rio de Janeiro mas também a dar um grande valor às empregadas, às domésticas, às "escravas" do século XXI, como bem documentado em „Profissão: Doméstica“, um fantástico documentário de 1993 de Sérgio Goldenberg, que recebeu o „North-South Award“ no Festival Nord-Sud em Genebra (Se alguém o tiver e tiver como fazer-me uma cópia… Um filme com muito humor e de uma sensibilidade fora do comum).

As pobrezinhas que chegaram de algum lugarejo do interior (onde deveriam ter permanecido), com uma trouxa ou, na melhor das hipóteses, com uma malinha, os sonhos de Cinderella, de „cidade grande“ dentro da bolsa a tiracolo de matéria plástica ao lado da revista „Amiga“… Muitas querem ser „artista da Globo“ ou até "modelo", mas com o passar do tempo e com a perda dos dentes, passam a ter um orgulho das casas onde trabalham, como se fossem suas… Maravilhosos diálogos deste documentário nos mostram como estes anjos pensam. Sim, estes „anjos“ que estão alí, dia após dia, com uma folga talvez por quinzena, limpando, arrumando, lavando, passando, levando as crianças à escola, tomando conta delas, levando o cachorro para passear, indo buscar cigarro no bar da esquina, fazendo compras e às vezes até cozinhando. Por um salário de fome. Como uma coitadinha, chamada Selma, que conheci uma vez numa casa da Urca. Nessa casa de classe média alta falida, onde tudo é de „razoável“ bom-gosto, leva-se um choque no momento em que se sai da sala e entra na cozinha: à partir d’aí tem-se a impressão de estar numa „Senzala“. Assim moram muitas destas pobrezinhas. E mesmo assim sabem sorrir.

E as „empregadas“ do Cinema?

Fico pensando nas atrizes que ao longo dos anos foram as „domésticas“ da sétima arte.
Durante uma longuíssima época a cor da pele definia quem faria os papéis das empregadas.

Hattie McDaniel foi uma destas atrizes que (apesar do Oscar que recebeu em 1939 por sua „Mammy“ servindo Vivien Leigh em „Gone with the Wind“ „…e o Vento levou!“) foi sempre condenada aos papéis de doméstica.

A engracadíssima Butterfly McQueen (Prissy, que também servia Vivien Leigh em GWTW)
foi outra que nunca conseguiu libertar-se deste tipo de papel. Aqui em „Mildred Pierce“ (Warner, 1944) filme no qual servia Joan Crawford.
E até Billie Holiday (em 1947 em seu único papel cinematográfico no esquecido „New Orleans“, junto a Louis Armstrong) deu vida à uma empregada: neste filme a tristeza de Billie é quase palpável. Ela estava completamente indignada com seu papel…
Em 1944 Marjorie Main servia a família de Judy Garland em „Meet me in St. Louis“ – uma engraçada, decidida e meio mal-humorada doméstica…
Mas foi a magnífica atriz Judith Anderson que elevou um „papel de doméstica“ a um papel secundário de vital importancia – mesmo que maléfico – em „Rebecca“ (1940), servindo (e odiando) Joan Fontaine.
Alguem ainda se lembra da eficiente "Rosinha" dos Jetsons?

e da Anastácia (Jacira Sampaio)de Monteiro Lobato no "Sítio do Picapau Amarelo"?

Para mim a doméstica eterna sempre será Thelma Ritter que deu vida à várias... Sempre engraçadas, espirituosas.

Como em „All about Eve“ (A Malvada, 1950) servindo Bette Davis

Ou em „Janela Indiscreta“ (The rear Window, 1954) servindo James Stewart e investigando ao lado de Grace Kelly
Ou até como uma doméstica bebada inveterada (ela sempre chegava pela manha de ressaca) em „Pillow Talk“ (Confidencias à meia-noite, 1959) ao lado de Rock Hudson e servindo Doris Day (que sempre lhe servia um Bloody Mary de manha!)

E para finalizar duas „domésticas“ de uma outra categoria: Glenda Jackson e Susannah York (duas das minhas atrizes preferidas) como Solange e Claire, no mórbido porém grande filme „The Maids“ (1974) baseado na peça de Jean Genet. Duas empregadas irmãs, completamente alucinadas que acabaram matando a patroa, Vivien Merchant
Admiro-me como isto não acontece com mais frequencia…

12 comentários:

linda lourenco disse...

Bonjour..Ricardo:)
Adorei sobretudo a parte final.

Verdade,repara que as domésticas no cinema a mioria tinham o papel principal!Na vida real também e bem merecem!
Eu sou domestica,pintora,jardineira,dona da casa,dona dos meus caozinhos.Com tantas ocupações,as vezes difícil de pintar!...e Agora com os meus blogs e Amigos virtuais que são mt simpáticos menos tempo!Mas confesso adoro o meu papel que é antes de todo doméstica!Beijinhos ,Ricardo e obrigada:)

angela disse...

Ricardo
Tem razão, também não sei como não aconteceu mais vezes da empregada matar a patroa. Na realidade temos uma situação parecida com todos aqueles que de alguma forma nos auxiliam na vida diária, como o Zelador, o motorista, o lixeirom etc.
deve ser um resto da mentalidade escravagista que ainda passeia por aqui e que os pobres de espirito utilizam para sentirem-se melhores, mais importantes. É feio.
Bom fim de semana.
beijos

Gian Fabra disse...

q delicia, vc transpira cinema...

Lorena F. Pimentel disse...

Ricardo, que coisa mais boa de se ler... Existem empregadas para a vida e que merecem tudo o que há de melhor da vida para se oferecer pela dedicação dessas pessoas, não é mesmo?

A relação de "empregadas" do Cinema que você citou está di-vi-na! De Mammy à Anastacia, todas conquistaram seus lugares nos corações do público.

Tongzhi disse...

É sempre um prazer enorme ler os teus posts. De facto, apresentas sempre perspectivas muito curiosas sobre o tema escolhido.
Este foi mais um que contribuiu para uma melhor visão sobre o cinema e as suas realidades!

Anônimo disse...

Ótima essa postagem Rick, a gente esquece de alguns personagens como esses sem importancia aparente, boa lembrança.Bjusssssssssss Silvinha.

Danielle disse...

kkkkk! Muito bom, Ricardo! Definitivamente uma justa ode às empregadas, e com uma hilariante chave de ouro! Se eu encontrar esse documentário, que nunca vi mas fiquei curiosa pra ver, pode deixar que o mando pra você. Fiquei também curiosa pra ver uma porção desses filmes que você citou, especialmente o último. Adoro ver a Telma Ritter fazendo papéis de empregada. O filme da Doris é impagável, tão espirituoso!

Bjinhos e até logo

breugel disse...

Ricardo que documentario lindo!!!!!!!!destas pessoas que trabalham na sua casa e terminam fazendo parte da familia.Eu tenho uma senhora que trabalha a 30 anos no apartamento,ela foi para lá quando minha filha tinha 4 meses e continua la cuidando da minha neta agora.Mais a diferenca e grande porque eu pague os direitos trabalista a ela,e sei que muitas familias nao fazem isto.bjs Dja

caminada disse...

Ricardo, tivemos, em casa, três gerações de empregadas maravilhosas.
A primeira foi Miluca - Emília - que viveu e morreu no seio da família. Falava inglês, já que acompanhou minhas primas à Inglaterra, e mandava mais que os donos da casa. De chapéu, em Londres, ela lembrava a empregada de E o vento levou.
A segunda foi Fija - Efigênia - que nos mimou a ponto de eu, por exemplo, não saber fazer nem ovo frito. Quando papai morreu ela enviuvou. Chorou meses. Ele costumava dizer que sua terrível dieta, sem sal e sem açúcar, era possível por causa da mão da Fija na cozinha. E, pobres de nós, nunca mais comemos o nhoque com carne assada, as empadinhas de queijo de minas, a feijoada com direito a tira-gosto, caipirinha e quindins mínimos, que derretiam na boca, e tantas outras coisas que só ela sabia fazer. Certa feita Richard Cragun comeu 7 quindins depois de um desses almoços. Morreu cedo, com grave problema mental.
A terceira era Pinilha - Maria Petronilha - babá do Roberto. Pinilha levantava às 22:30h para fazer batata frita prô Roberto. E dizia: "Deixa o menino, d'Aliana, ele gosta." Roberto descobriu o número do telefone que ligando do quarto tocava na sala. Então ligava e pedia água. Pinilha achava que ele estava na rua, ficava aflitíssima, dizia que não podia deixar a casa naquele momento e levar água onde ele estivesse; e Roberto, bem mauzinho, morrendo de rir dentro do quarto.
Da Pininlha e seu dialeto tem coisas engraçadíssimas, mas exigiria, no mínimo, uma tarde para escrever.
Concluo apenas dizendo que as três tinham um ciúme doentio de nós, nos disputavam com um amor que não pareciam ter nem pelos próprios filhos.
Elas foram nossas primeiras grandes perdas. Queridas empregadas, nossas mães negras e generosas. Bjsss.

X disse...

Chego aquí desde a Galicia vía "Robinson en Ithaca" e atopo esta marabilla de post.
Encantoume.
Se mo permite voulle indicar un outro caso de doméstica no cinema.
Trátase da doméstica aparecida en Imitación á vida (Imitation of life) interpretada por Louise Beavers na versión de 1934 protagonizada por Claudette Colbert e dirixida por John M. Stahl. Posteriormente no ano 1959 Douglas Sirk fixo unha segunda versión na que Juanita Moore interpretada a doméstica que nesta ocasión se chamaba Annie, aquí a protagonista do filme era Lana Turner. Fronte a outras domesticas, pódese dicir que en Imitation of Life a domestica, así como pasaba en Rebeca, adquire papel coprotagonista, é especialmente emotiva a escena do enterro cando a filla arrepentida se bota ao coche de cabalos brancos onde vai o corpo morto de súa nai.
Saúdos.

Tertúlias... disse...

Olá "X"! É mesmo, havia-me esquecido de Imitation of Life (só assisti a versao de 1959) com Lana Turner, Sandra Dee, Juanita Moore e um jovem John Gavin. Uma maravilh de papel... Obrigado por ter-me lembrado! Vou procurar a versao com Claudette Colbert!!!!!

X disse...

http://www.youtube.com/view_play_list?p=DA7CA17DE47ED0EE
Velaí a ten no youtube.