
O nosso Theatro Municipal no Rio de Janeiro só completou 100 anos. Isto não é muito em termos de história. Principalmente aqui na Europa.

Mas ele, de qualquer forma simboliza e representa toda uma outra época e também a cultura internacional ainda tão prezada no Rio, muito da cidade "maravilhosa" e do pouco que restou dela… Penso como minha amiga Eliana Caminada: "Meu Rio de Janeiro começa no Centro da Cidade e vai até a Av. Niemeyer..." Nunca esquecerei o dia em ela disse isso - Estou de pleno acordo, o meu também!

Cartões postais maravilhosos estes mas ao mesmo tempo assustantes.


Como que numa questão de só 100 anos uma cidade pode mudar tanto? Como pode ter sido tão mutilada e destruída? E tudo isto em nome do chamado „progresso“? É realmente „progresso“ (e qualidade de vida) viver no alto de um prédio como num poleiro? É realmente „progresso“ cortar-se árvores e deixar de ver crianças brincando e rindo nas calçadas da cidade? Deixar de ver idosos nos bancos das praças? Ter que ir a um Shopping porque as casas de Chá, Leiterias, Confeitarias já não mais existem? Toda uma geração de engenheiros e arquitetos deve pensar assim. Vejam o que fizeram com nossas cidades. Vejam só que « cidades maravilhosas » temos hoje em dia no Brasil… Herdeiros do Sr. Niemeyer e seu amor pelo concreto? Infelizmente o trabalho de Niemeyer para mim (estudei também arquitetura) é como “Cinema-Novo”… Envelheceu rápido, antes do tempo, por ser muito vinculado à uma era e situação social muito especial... Se pensar-mos sériamente sobre Juscelino Kubitschek... Bem, meu pai amava o trabalho do Sr. Niemeyer. Este sempre foi um ponto sobre o qual discordávamos profundamente.

Admiro-me até que uma certa « elite » das cabeças « pensantes » do Rio de Janeiro (nota: esta não é minha opinião pessoal) ainda não quiz colocar nosso Theatro, este símbolo, o Museu Nacional de Belas-Artes, a Biblioteca Nacional abaixo como fez com o Palácio do Monroe (que „fechava“ perfeitamente a perspectiva da Cinelandia). Nossa, poderiam-se colocar tantos estacionamentos e Shoppings em todo aquele areal... ou será que pensam que o nosso Templo cultural deveria voltar a ser fechado para Bailes-de-Carnaval? A Ópera de Viena é fechada na mesma época para o Baile da Ópera... mas "Carnaval" como nos anos 60 (e 70?) no Rio, com as pessoas semi-nuas, suadas, bebadas ou vestidas de "hawaianos"? Pobre Theatro - os vexames pelos quais já passastes...
Outro assunto:
Aqui uma pequena e simples homenagem, não aos bailarinos, músicos, cantores, maestros, coréografos, estrelas que atuaram no nosso Theatro, mas sim aos que nunca são mencionados. Nunca. Em nenhum lugar. Todos aqueles que estão nos bastidores e fazem tudo possível. Todos aqueles talentos cheios de habilidades brasileiras.
Aqui, como um exemplo, um programa de 1978… só para citar alguns nomes! Cliquem na imagem para ampliá-la. MUITO OBRIGADO! Voces também fizeram TUDO tornar-se possível!
10 comentários:
Ricardo, essa página final diz tudo. Fiquei até pensando se o nosso Theatro não poderia ter uma galeria permanente onde se pudesse ler,um a um, os nomes dos técnicos todos, ao lado dos nomes de todos os artistas que já passaram por ali! Seria uma justa homenagem, além de deixar sempre claro tudo aquilo que faz acontecer um espetáculo.
Palácio Monroe... lembro-me bem dele. Lembro-me também da fortuna que a antiga Cia. do Metropolitano investiu para sustentá-lo por baixo da terra, de modo que o metrô não danificasse a edificação. E me lembro que uma das lendas da demolição - ocorrida depois de serem feitas as obras de sustentação - é que teria sido uma "pinimba" pessoal do então Presidente da República, General Ernesto Geisel, contra o Monroe. Consta que o Presidente teria ordenado sua demolição. Seja lá qual for a verdadeira história, o fato é que o centro do Rio ficou bem mais pobre com a falta de sua imponência branca a delimitar um verdadeiro corredor arquitetônico de vulto.
Imagina se o nosso querido "centro da cidade" tivesse sido mantido com a magnificência que tinha no final do século 19, hein? Aí sim não faltaria nada para sermos a mais linda cidade do mundo...
Bjs
Maurette
Como pode um presidente ordenar a demolicao de um prédio? Eu pensei que a ditadura tinha acabado e que o Brasil fosse uma democracia... estou errado, né?
Admirável Amigo:
Um texto fabuloso de pertinência e de registar os seus encantos mil de hospitaleira e convidativa cidade que nos revela por inteiro.
Perfeita.
Já sumariei.
Abraço de parabéns sinceros.
Adorei.
Com gigantesco respeito e estima.
Abraço amigo
pena
É uma honra sempre lê-lo.
MUITO OBRIGADO, fantástico amigo.
Ricardo, só um livro serviria para comentar uma postagem como essa. Porque ela é muito representativa das mazelas desse nosso Brasil, do que o Rio de Janeiro pode ser considerado o retrato mais fiel.
Creio que, defeitos e qualidades do nosso país são ampliados nessa cidade do Rio de Janeiro, tão bela quanto maltratada, uma das poucas que tem, de fato, importantes monumentos históricos ainda, apesar de tudo, preservados.
Confesso ter medo. Medo pelo Municipal, pela Biblioteca Nacional, por tantos prédios destruídos pela sandice de nossas autoridades, cada vez mais burras. Faz-se um MAM ou um MASP a qualquer tempo, basta verba, mas não se constroi um Museu Nacional de Belas-Artes. Ele, como o Municipal, mesmo nenê perto das casas de espetáculos européias, já carregam o peso da tradição e tradição não se planta, se conquista, é produto do tempo e guardam, os próprios prédios, uma memória que não sabemos explicar objetivamente.
Sim. Meu Rio acaba na Niemeyer - como você, implico com a arquitetura do Oscar também. Jamais viveria num lugar onde nada pode ser feito a pé, sem esquina, sem padaria, sem botequim, sem Colombo, sem Banco do Brasil com seu centro cultura, sem o burburinho da cidade que se desenvolveu meio caoticamente, mas não é, de uma vez por todas, de plástico.
Meu amor pelo Theatro Municipal impede uma análise mais lúcida. Sei, por tanto que tenho estudado, que apesar de tudo temos uma história. Uma bela e rica história. Com os Ballets Russes de Diaghilev - Nijinski ficou noivo aqui no Rio, comprou suas alianças na rua do Ouvidor, onde ainda está de pé o sobrado onde Louis Lacombe anunciou e ministrou, antes de ser nomeado Compositor de Danças da Casa Real, suas primeiras aulas de ballet; com Isadora Duncan, recebida com um entusiasmo que a levou a dizer que no Rio havia chegado ao paraíso; com inúmeros artistas e companhias que nos visitaram; com d. Tania, sob cuja direção foi encenado um ato da bela ópera-ballet de Rameau Les Indes Galantes, de Lander, que somente nós e a Ópera de Paris - talvez também o Teatro Colón - conheceram; com a montagem histórica de O Lago dos Cisnes na íntegra de Feodorova, num tempo em que o mundo ocidental, praticamente inteiro, não encenava ballets completos...Vai por aí.
Faço minhas as homenagens aos técnicos que estão nos bastidores, mas sem os quais os espetáculos não iriam à cena.
Ficaria aqui horas, que não disponho, falando desse prédio do meu amor, que fica nessa cidade da minha paixão.
Caminada
Ricardo
Eu sempre me surpreendo com a europa e como ela se mantém, mas os paises aí não tem esse crescimento populacional, essa migração doida atras de emprego que vai inchando as cidades e inviabilizando a civilidade, isso sem contar com os grandes equivócos dos nossos politicos que demoraram decádas para fazer o metro, acbaram com os bondes e os trens e encheram as ruas e as estradas de carros e caminhões e não vou falar das questões de política economica que não resoleram os problemas das regiões mais pobres do pais e do descaso pela nossa história e seus predios e obras de arte.
As vezes andando por São paulo, que é onde moro, tenho certeza que esta é uma cidade inviavel e pior, tem gente demais no mundo e este é um sentimento muito ruim.
Desculpe o momento depressivo, sua postagem ficou bem bonita, as fotos são lindas e sua homenagem muito digna, penso que não se ve mais por aqui uma lista como essa que você publicou.
Beijo
Ai amigo, minha época de ouro.Nem preciso dizer que recordar nesta hora híbrida de fim de inverno é uma delícia.
É Rick, tenho orgulho e muita tristeza ao mesmo tempo pelo q resta do Teatro Municipal, restaurado ou ñ. Mais uma vez, linda homenagem os artistas merecem. Bjus bem grandes no coração.
Dia 5 de setembro (sábado que vem) meu sogro faria 100 anos. E o que isto tem a ver com teatro. Calma, eu explico: Ele foi gerado e nasceu na cama que eu durmo. EH?...Bom esta cama pertencia, naturalmente aos pais dele e ficava no Teatro Lírico, onde ele morou e passou parte da sua juventude. Juventude riquíssima por sinal, (não falo de dinheiro e sim de cultura!!!) Meu sogro não perdia um espetáculo. Depois eu conto mais. Um beijo Paçoca
Ricardo,desde ontem estou tentando postar meu comentário,mas minha tristeza com este tema é tão grande que acho escreveria um livro...A única coisa que posso acrescentar ao que minha amiga Eliana disse,é que o
Brasil tem uma grave mania:adora imitar o que há de pior da "cultura"
americana e ignora o que há de melhor
na civilização européia.Realmente 100
anos é muito pouco ainda quando se fala em tradição,para nosso Theatro
estar em obras pela 3ª vez!
Afora tudo isto temos um povo criativo e amoroso,que tem preguiça
e falta de amor a sua cidade.
Cristina Martinelli
Querida Cristina, que sábio o que voce acrescrntou: "adora imitar o que há de pior da "cultura" americana... ". Voce acredita que até na Europa já falamos sobre isto???????
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