“A Nave dos Deseperados” (The Ship of Fools, 1965) nos revela, como nenhum outro trabalho de Vivien no cinema, uma faceta real desta fabulosa atriz. Até então suas neuroses pessoais tinham ficado longe da tela. Nada é tão revelador como a cena no corredor do navio na qual ela bebada e enlouquecida começa a dançar um Charleston, que só “toca” na sua cabeça…
Esta cena, de certa forma, incomoda mas é ao mesmo tempo engraçada, ironica e, como colocado pela própria Vivien, revela “uma mulher que sabe que o tempo está passando e se recusa a reclamar”. Como a própria Leigh. De alguma forma ela, Mary Treadwell, lembra-me vagamente aqui uma Scarlett num baile em Atlanta, viúva, de preto, dançando atrás de uma balcão de caridade ao som da orquestra. A mesma que à mesa diz para o personagem de Lee Marvin (quando este diz que na Alemanha estão “fazendo coisas” com os judeus): “E qual é o esporte de moda no Sul dos Estados Unidos este ano? Ainda linchar negros?”)
Stanley Krammer, o diretor deste magnífico filme, comentou que Vivien estava em condições muito precárias durante a filmagem de “Ship” (para quem não sabe: Vivien era maníaca-depressiva, doença que hoje em dia é chamada de “bipolaridade” e que começou logo depois de “Vento” em 1940 durante uma temporada na Broadway, com seu então marido Laurence Olivier, em 1940. Sua vida a partir de então foi uma série de ataques, estadias em instituições psiquiátricas, humilhações, terapias de choque, de banhos de gelo…).
Tenessee Williams disse: "Having known madness, she knew how it was to be drawing close to death".
Krammer comentou que ela vivia num estado de constantes “palpitações” e nervosismo, literalmente tremendo, enquanto esperava pelos seus “takes”. Quando era chamada, levantava-se, ía para a frente das cameras e completamente recomposta, desempenhava suas cenas com bravura para voltar então para sua cadeira e para suas palpitações e tremedeiras!
Viv estava ainda recuperando-se da exaustão da árdua temporada da Broadway na qual tinha feito o musical (Yes!) “Tovarich” (leia-se em russo “taváritchi” – o que significava no comunismo “camarada”!). Sim Viv fazia tudo! Danadinha!
A atriz Elizabeth Ashley comentou um fato bonito que percebeu durante a fimagem de “Ship”. O rosto, o sorriso jovem de Vivien… Apesar de toda sua doença havia uma jovialidade nela.
“There are people who get old, there are people who just age” ela disse. Vivien tinha 52 anos ao fazer “Ship” e desde “Anna Karenina” em 1948 (quando tinha só 35 anos) tinha únicamente interpretado papéis de caráter – desfazendo-se e desfigurando-se ao mais extremo em frente às cameras como “Blanche” em “Um Bonde chamado Desejo”, no Brasil às vezes chamada estranhamente de "Uma Rua chamada Pecado" (A Streetcar named Desire, 1950) de Tenessee Williams com só 37 anos… As vezes penso que Viv quiz envelhecer antes do tempo, para alcançar outras possibilidades no teatro… como talvez esta foto de 1958 nos revele: esta “Senhora” tinha só 45 anos.
Ashley também comenta sobre a extrema profissionalidade de Viv: “Só o fato de eu não ter percebido nada, não saber de sua doença, diz tudo”,
A mesma Leigh, tinha estado também muito mal durante uma Tournée pela Australia do “Old Vic” no qual ela interpretou um dos papéis mais agressivos e cruéis (para a atriz que o interpreta, quero dizer) da história do teatro: “Lavinia” em “Titus Andronicus” (supostamente Shakespeare) – no qual, depois de ser estuprada pelo pai, sua língua e mãos são cortadas e seus olhos furados – e nunca perdeu uma apresentação!
Viv fez, na realidade, pouquíssimos filmes… só 8 entre «…e o Vento levou» (GWTW,1939) e «A Nave dos Desesperados» (1965), seu último antes de falecer em 1967. E quando se pensa que ela é uma das atrizes mais consideradas da história do Cinema…
Sim, Vivien Leigh, magnífica, e realmente à beira de um ataque de nervos. Aqui Mary Treadwell/Viv na mencionada, nada comum cena…
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15 comentários:
This was another "pointe" of yours, wasn't it? I'm standing up and screaming "Bravo"! Mike
Uma doença que aparece por volta dos 30 anos e que judia demais e naquela época os tratamentos eram verdadeiras torturas. No meio artístico temos muitos bipolares. Conhecer o céu e o inferno não é para qualquer um, mas paga-se um preço alto por isso.
Bonita postagem e o trecho escolhido é bem emblemático.
Beijos
Oi,Ricardo
Muito interessante saber todos esses fatos,que confirmam o quanto o talento pode sobrepujar a dor.
Ótima semana pra v6. Bjs,Lícia
Ricardo,
Assisti Ship of Fools há três meses, talvez, no TCM, e o que ficou mais gritante foi exatamente a sensação de estar chegando “too close to home”, no que diz respeito à sua personagem.
É interessante que você tenha comentado sobre as escolhas destas personagens, pois todas elas possuem algum grau de descontrole emocional, dando um ar de vaga lembrança àqueles que sabiam dos problemas de Vivien; além disso, as suas transformações físicas parecem, ao meu ver, uma forma de destruição daquela beleza que ela, por muitas vezes, considerava uma distração para o público, em comparação a sua capacidade de atuação e seu grandíssimo talento.
Ótimo post, querido. Estava com saudades! Tenha uma ótima semana.
Como eu gostei deste filme!
Aliás considero Stanley Kramer um dos melhores cineastas de sempre.
Angela, como voce muito bem colocou: conhecer o céu e o inferno nao é para qualquer um. Pegou exatamente na medula desta postagem! Adorei!
Ricardo
Realmente, Vivien Leigh foi e será sempre uma "lady" do cinema. Sua Scarlet foi perfeita.
Ninguém teria feito melhor do que ela. Mas, esse estado emocional em constante desordem,certamente acelerou o seu fim. O que foi uma pena....
Gostava imensamente dela e procurava não perder suas impecáveis representações.
Essa, em especial,no navio, me deixou consternada.Parecia ela mesma e, como V.diz, a beira de um ataque de nervos.
Tadinha... Mary
Ricardo querido,
só uma pessoa dotada de uma extrema sensibilidade pode ter este teu dom de encontrar estas sutilezas que voce nos conta... o que voce le nas entrelinhas dos sentimentos, das vidas... que rico! Sim, este teu "contar estórias" já é antigo, me lembro disso no científico. Voce um menino ainda mas já muito eloquente. Isto, menino, é o que se chamma de talento! Jamais pararei de ouvir - e quando leio estas tuas "Tertúlias" escuto a tua voz. Sonora e com aquele sotaque todo individual - nunca de carioca - que voce tinha e que eu achava muito internacional. Vá em frente menino, conte-nos mais! bjs Claudia-Louise
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...naquela época, a mídia não era tão cruel... Não eram muitos os que sabiam das agruras dos nossos mitos.
Maravilhosa Vivien Leigh!
Obrigada, Ricardo...
Beijos de luz e o meu especial carinho!!!
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Ricardo, querido, primeiro quero agradecer suas visitas ao meu último post e o ultra elogio - imagine, Billy lendo-o! Você é muito gentil.
E agora, preciso te agradecer por seu post, pois embora admire o trabalho de Vivien Leigh, não sabia nem de detalhes de sua vida pessoal, nem que ela tinha diversificado tanto em sua carreira como atriz.
Vivien era uma atriz visceral. Ela está tão absolutamente perfeita como a prostituta de meia idade e já sem esperanças de "A streetcar named desire" que nunca havia me dado conta de que ela tinha apenas 37 anos quando desempenhou o papel.
Não tinha ideia também de que Vivien apenas fez 8 filmes. Fico feliz que ela tenha resolvido imprimir sua marca na tela grande e que a Academia a tenha premiado por duas grandes atuações.
Bjinhos.
Dani
Precioso Amigo:
"...Vivien Leigh à beira de um ataque de nervos?..."
VOCÊ só consegue maravilha e deslumbre ao recordar a "arte" em todo o seu explendor.
Bem-Haja, pela riqueza artística com que nos presenteia.
Abraço agradecido pela beleza que origina em todos nós.
OBRIGADO pela sua preciosa e extraordinária amizade.
Grato. Imenso. Pela linda visita que adorei.
Sempre a admirá-lo, mas SEMPRE!
pena
MUITO OBRIGADO sincero.
É genial e sublime no que cria.
Parabéns.
Querida Danielle, Viv fez 8 filmes entre GWTW e sua morte. Antes, na Inglaterra tinha trabalhado em mais filmes... "Storm in a teacup" (uma comédia com Rex Harrison), "Fire over England" (com Olivier e Flora Robson) e "A yankee in Oxford" (com Robert Taylor e Maureen O'Sullivan) - producao da metro americana filmada na Inglaterra, só para citar alguns... Numa coisa descordo de voce: nao considero "Blanche" uma prostituta - sim uma mulher que de moral questionável... uma ninfo talvez? e qualquer forma completamente irrealizada - lembra da morte do primeiro marido dela? Mas voce tem razao: VIV era uma atriz visceral! Maravilhosa, né? Voce já assistiu "Ship of fools"???? Recomendo...
Brava guerreira! Ter que se recompor a cada take é uma tarefa que beira o impossível. Realmente não é todo mundo que consegue tal façanha.Adorei o post e a cena!!!
Bjs
Toda atriz é neurótica! E são maravilhosas por isso!!! Fica lindo na tela... na vida real deve ser um saco aturar uma dessas :)
LINDA! LINDO POST!!
Concordo... ou porque voce acha que Laurencce Olivier a deixou? Nao conseguia mais aturá-la...
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