Muito me admirou quando, há alguns anos, falei com um chamado diretor de musicais que estava encantado pois havia “descoberto” um musical.
Ele estava mais do que excitado e parecia Colombo descobrindo a América.
Já que tenho uma “relação” muito intensa com o “Musical” desde minha tenra infancia (Já contei que esta é também uma “herança” que recebi dos meus pais? Mais uma delas…) fiquei curioso e qual foi minha surpresa quando ele disse, com grave eloquencia, que tinha “descoberto” “Gypsy”!
No primeiro momento não pude acreditar que ele se referia à esta obra-prima do teatro musical, como se fosse uma grande novidade.
Perguntei ingenuamente se ele se referia ao disco da produção original com Ethel Merman ou ao filme com Rosalind "Roz" Russell e Natalie Wood. Seu olhar me revelou que ele não tinha a menor idéia a quem eu me referia…
- Não, não… o filme com Bette Midler!, respondeu
Vou ser muito sincero: se alguém me disser que não conhece e nunca assistiu “Gypsy”, não me importarei muito.
Mas ouvir esta exclamação vinda de um “pretenso diretor” de musicais realmente é uma coisa meio esquisita. Trabalhador, conheça o seu ofício!
Como querer declamar Shakespeare sem ter aprendido o ABC? Como tocar um prelúdio de Chopin sem conhecer as notas? Como querer dar piruetas sem conhecer uma quarta ou a segunda posição - como muitos russos? (Adoro, por sinal estas piruetas saídas de um "seconde"... ).
É como tentar andar sem ter aprendido a engatinhar…
Como uma pessoa relacionada à musicais não conhece um musical que por muitos críticos e escritores é considerado o melhor musical de todos os tempos (e que por “coincidencia” foi dirigido e coreografado originalmente por Jerome Robbins, one of the best) é para mim uma interrogação. Não. Me corrijo: Uma total falta de preparação.
(Infelizmente este não é um fato único. O teatro aqui na Europa está cheio de pessoas assim… qual o resultado? Produções de baixo nível em termos de direção, críticas horrendas, peças que são retiradas de cartaz antes da tempo, atores e bailarinos que perdem seus empregos… Sim, «Trabalhador, conheça o seu ofício”, mesmo que seja na província, e tenha mais responsabilidade com os destinos alheios…).
Bem, o "prólogo" acabou, aqui "Gypsy"
Bette Midler não é e nunca será “Mama Rose” (descrita como “one of the few truly complex characters in the American musical…”). Ela é Bette Midler querendo afastar-se da forte “persona” Bette Midler num filminho feito para a TV.
“Gypsy” foi baseada na auto-biografia da Striper “Gypsy Rose Lee” :
Uma mulher bem inteligente que além de se despir em público ("The Queen of Burlesque") também escreveu, entre outros, um livro chamado “The G-String Murders” (1941). Adoro!
Este livro inspirou o filme “The Lady of Burlesque” (1943): um filme “policial” e interessantíssimo, passado nos bastidores do burlesco, e que deu à seríssima Barbara Stanwick a chance de interpretar um papel bem diferente das suas “neuróticas” personagens. Fabulosa. E faz uns Spagats com uma facilidade louca... Uma coisa que era inesperada em Barbara...
Em “Gypsy” o personagem principal não é nem “Louise” nem sua irmã “Baby June” (que realmente fugiu das garras da mãe aos quinze anos para se casar com um rapazinho… Baby June, na realidade, transformou-se depois na atriz de razoável sucesso de musicais da 20th Century Fox nos anos 40 : June Harver). Toda a peça gira a redor de “Mama Rose”, a maior Show-Business-Mama da história, que não exita por um segundo, quando ve a chance de “estrelato”, mesmo que seja no Burlesco, em colocar a própria filha para fazer Stripteases na frente de uma platéia de homens nojentos, que mais parecem lobos famintos, babando… Aquele tipo de homem que tem que ver «shows» pois certas coisas lhes são negadas debaixo do próprio teto. Repito. “Mama Rose is one of the few truly complex characters in the American musical…”. Pano para muita manga. Motivo para “se descascar muitos abacaxis”.
Como eu gostaria de ter visto Ethel Merman neste papel… Sim, Merman, a primeira Mama Rose de uma longa linha de maravilhosas atrizes:
Rosalind Russell (fabulosa) na primeira versão cinematográfica, que no Brasil chamou-se “Em busca de um Sonho” (Mervin LeRoy, 1962) com Karl Malden e Natalie Wood (que corpinho!).
Angela Lansbury
Patti LuPone
E quebrando a tradição que Mama Rose só poderia ser encarnada por uma “belter”, aqui a minha querida Bernadette Peters na última produção que a Broadway viu de “Gypsy” há alguns anos atrás…
Liza sempre quiz interpretar Mama Rose…
Para finalizar desta vez DOIS vídeos do Youtube:
O primeiro mostrando a “ascenção ao estrelato” de Louise/Gypsy Rose Lee (ou, como outros também justamente interpretam, o “declínio de sua moral”) do filme de 1962.
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…e o segundo de um espetáculo de Gala em Londres mostrando o número das tres “Stripers” de Burlesco que mostram à Louise o que é necessário para um bom Striptease (You gotta have a Gimmick). Entre elas a própria Bernadette Peters como uma das Stripers (as outras duas as fabulosas Julia McKenzie e Ruthie Henschall nas pontas!!!!). Bernadette simplesmente "arrasa". Fabulosa!!!! "Once I was a "schleppa", now I'm Miss Mazeppa"... Que texto...
Este é definitivamente meu número preferido de toda a peça: grande trabalho de Jules Styne (que depois seria responsável por "Funny Girl" e pelo "carro-chefe" de Streisand: "People") – e pela primeira vez um trabalho de um jovem compositor… Stephen Sondheim, que admiro demais. Um genio!
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24 comentários:
What a bunch of come-backs... amazing! Mike
Ah!!! Só vc pra me fazer feliz! Leio o seu post em meio à um monte de contas que tenho pare fazer, presa em um laboratorio (em pleno verão carioca)... Que vontade grande de chegar em casa, tirar os sapatos e assistir à um filme como esse! Quanta coisa boa foi feita nos anos 40! Quantos diálogos maduros (tá, tinha filme besta, mas era matiné) e temas deliciosos...
Meus olhos agradecem por tertúlia tão deliciosamente burlesca e sutil.
O que é belter?
Bj
Mauri
Mauri, "a belter" é uma "gritadora" (existe esta palavra???) tipo Ethel Merman, Dolores Gray, Streisand (em início de carreira), Liza... Vozeiroes que gritam, enchem teatros...
Recentemente, tivemos, encenado aqui no Rio, o musical Gypsy, que infelizmente, não
foi grande coisa e por isso mesmo, não fez sucesso.
Encenar um musical,é coisa de "responsa"! Não é assim, vou fazer, vou colocar para cantar fulana ou fulano e fazer o mesmo com os dançarinos....
Não é saudosismo não, mas para quem assistiu Natalie Wood,fica na expectativa de ver
algo, pelo menos, semelhante... e aí...o desencanto.
Gostei das diversas apresentações da peça que V., tão gentilmente, enviou. Obrigada
Mary
Precioso e Prodigioso Amigo:
A sua surpresa é a minha quanto ao Musical Gypsy.
Registei pela pertinência:
"...É como tentar andar sem ter aprendido a engatinhar…
Como uma pessoa relacionada à musicais não conhece um musical que por muitos críticos e escritores é considerado o melhor musical de todos os tempos (e que por “coincidencia” foi dirigido e coreografado originalmente por Jerome Robbins, one of the best) é para mim uma interrogação. Não. Me corrijo: Uma total falta de preparação..."
Tem toda a razão de incredulidade e espanto.
MUITO OBRIGADO pela sua simpatia no meu blogue.
A sua genialidade e encanto expressam-se com simpatia e amabilidade.
MUITO OBRIGADO pela partilha de seu extraordinário sentir fantástico.
É um talento em arte seja em que domínio for.
Parabéns.
Abraço amigo de respeito pelo que concebe com brilhantismo de si.
Sempre a admirá-lo
pena
Excelente!
Bem-Haja, divinal amigo.
É fenómeno na atitude da arte sublime.
Adorei.
Amei! E que delícia o número das tres "garotas"! Quanto talento! Bjs
Claudia-Louise
Ricardo
Tive a adolescência embalada pelos musicais da sessão da tarde. Minha alma, literalmente,rodopiava. Os olhos presos aos passos, os ouvidos deliravam com o som da música. Alimento puro, combustível extra, teletransporte inevitável. Como é bom perceber que o tempo passou, mas o encantamento permanece o mesmo. Show de postagem! Adorei!!!
bjs e aplausos.
Vi o filme com a Rosalind, ela como sempre rouba a cena... E a Bette Midler fez um remake? Não sabia.
Quanto a Barbara Stanwyck, vc está enganado, ele atuou em diversas comédias (e muito bem). Foi dirigida por Capra, Sturges, Hawks...
"As Três Noites de Eva", por exemplo, é uma obra prima, ela está hilária...
Sim, em relação a "O Cisne", ainda não saiu em DVD. Tenho um conhecido que copiou-o da TV, mas parece impossível conseguir uma cópia... É o único filme de Grace que não tenho. Vi na TV e gostei muito.
Sem contar que tem o Louis Jourdan e a elegância de Charles Vidor.
Abraços
www.ofalcaomaltes.blogspot.com
Gypsy é tudo!!!Gosto das duas versões!!!
Ricardo, você fez uma fascinante contextualização de "Gypsy", que, confesso, conhecia apenas de nome. Ela foi realmente para S. Paulo, pelo que sei arrebatando a crítica e dando à Totia Meirelles o prêmio de público do ano passado. Não fui vê-la porque as adaptações brasileiras das canções estrangeiras não me entusiasmam muito.
De qualquer modo, aceito animada a intimação pra ver o filme, não só pela história mas porque eu adoro a Rosalind Russell. A Natalie Wood é mesmo uma graça, não? Pelo jeito é ela que solta a voz aqui, ao contrário do que aconteceu em West Side Story.
Agora, Ethel Merman, que mulher sensacional era aquela?! Trombei com ela pela primeira vez no Judy Garland show, quando ela, a Judy e a Streisand - três "belters" de mão cheia - cantam juntas a simbólica "That's entertainment". Infelizmente, ela não fez muito cinema.
Querido, vou ao Rio fazer pesquisa por uns dias, então não estranha se eu sumir, ok!
Beijocas
Dani
Esqueci de uma coisa: seu post veio num momento ótimo. Está para sair por aqui "Burlesque", com Cristina Aguilera e Cher, que parece uma bomba...
Beijocas
Dani
Sempre bom ler e ver suas postagens. Aprendo e me delicio.
beijos
Ricardo, um filme que eu gostei bastante foi o The Rose, com a Bette Midler fazendo uma cantora de rock inspirada claramente na Janis Joplin. Beijos floridos da Angela Ursa :))
Angela, eu também adoro as tuas - me sinto "em casa" quando as leio! Obrigado sempre pelas tuas palavras!
Angela (Ursa), pois é, boa lembranca... mais uma Rose, nao é? Só que nao tam absolutamente nada que ver com esta... aquela era a persona bette midler tentando se distanciar da persona Bette Midler imitando Janis Joplin... :-)
Oi,Ricardo
Belo post pra abrir o FDS. Adorei. Tks,amigo.
Bjs
Lícia
Por onde andas, sumido?
Abraços e apareça
www.ofalcaomaltes.blogspot.com
Perguntas muito pertinentes...
...às quais eu não sei responder!
É gostar de pintura e não conhecer Picasso...
Abraço,
António
Exatamente o que penso, amigo Antonio! "Gostar de pintura e nao conhecer Picasso" - Exatamente! Fico "furioso" quando vejo esta gente chamando-se de "profissionais" sem ter o menos direito de se chamar assim... Adorei teu comentário! Fostes o úncio a captar o "prefácio" desta postagem! Abraco, Ricardo
QUERIDO RICARDO PERDÃO POR "SUMIR", MAS AS COISAS ANDAM COMPLICADAS POR AQUI, DEIXEI DE SER "MADAME" E ASSUMI MUITAS COISAS DE MEU PAI, INCLUSIVE O HARAS.
TINHA ESQUECIDO QUE "VIR AQUI" É UMA AULA DE CULTURA, PRAZER E DIVERSÃO.
REALMENTE NÃO CONHECER PICASSO...É NÃO CONHECER MÓDI= MODIGLIANI O QUAL SOU COMPLETAMENTE APAIXONADA.
BEIJOS MEU QUERIDO TENHA UM BOA SEMANA.
Adorei a introdução; fez-me lembrar um conhecido "político" aqui da nossa praça, que há uns anos, sendo o titular da Cultura, afirmou adorar os concertos de violino de ... Chopin!
E chegou a Primeiro Ministro!!!! (O único destituído pelo Presidente da República, desde a nossa revolução).
Quanto ao tema, adorável Natalie Wood.
Meu amigo, esta agora foi o máximo: os concertos de violino de... Chopin! Ave-Maria! É, infelizmente é a este "nível" que muitos profissionais "das artes" estao trabalhando nos últimos tempos. Chocante, na verdade! Uma total falta de respeito pela profissao!
Martha querida, realmente estava MORTO de saudades tuas! Deves estar com a vida cheia de compromissos e obrigacoes, né? Por isto memso valorizo ainda mais as tuas vistas!!!!
Quem foi? Quem foi? Quem foi o diretor?
Bj
Mauri
Mauri, don't be curious... he he...
But I'll give you three guesses :-)
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