
Luise Rainer pertence à categoria das atrizes que foram completamente esquecidas: como é a canção “I’m still here” (de
Follies – vide minha postagem de 6 de agosto de 2008) de
Stephen Sondheim?
“TOP BILLING MONDAY, TUESDAY YOU`RE TOURING IN STOCK“.Uma “diva” com dois Oscars, contemporânea de Garbo, Dietrich, Shearer, Leigh, Crawford, Hepburn, Loy, Bergman, Harlow e também de Gable, Tracy, Powell, Muni, Bogart entre tantos, ela é a única que ainda está viva... vivendo em Londres e com 98 anos!Luise é até hoje considerada “vienense” (nao só porque começou sua carreira teatral em Viena como atriz de
Max Reinhard mas também porque o tiranico, despótico
L.B.Mayer optou por fazer a publicidade em tôrno desta “nova Garbo” como uma vienens), Luise na realidade nasceu em Düsseldorf em 1910 mas - desculpem-me os alemaes -
ser vienense sempre foi, é e sempre será mais "chic" do que ser alemão... Em muitas biografias suas ela é citada como austríaca e acho que os alemães também esqueceram que ela nasceu em solo alemão... pois na realidade é a ínica atriz alemã até hoje a ter recebido um “Oscar” e ainda por cima a primeira atriz da história que ganhou dois Oscars sucessivamente (1936 e 1937) e ninguém na Europa se lembra disso: O primeiro pelo seu papel relativamente curto como Anna Held (no magnífico “The great Ziegfeld” com
William Powell e Mirna Loy, também vencedor do Oscar de melhor filme de 1936) e o segundo por sua legendária O-Lan em “A boa terra” (The good earth, 1937) do romance homonimo de
Pearl Buck (vencedor do Pullitzer Prize de 1932).

Ambos filmes da MGM. Rainer tinha chegado a Hollywood em 1935. De família judia, esta ida para os E.U.A. foi muito bem-vinda numa época em que a perseguição dos judeus já começara.O Oscar que recebeu por Anna Held causou muita polêmica na época... principalmente porque o papel era muito curto (estávamos aqui ainda a anos luz da revolução que aconteceria em Hollywood com o Oscar que Jane Wyman recebeu em 1948 por "Johny Belinda", no qual seu personagem era mudo!). Sua cena principal, a hoje antológica “cena do telefone” na qual ela, falando com “Flo” (Florenz Ziegfeld), recebe a notícia do seu casamento com Billie Burke (a linda Glinda, the good witch of the North de “O mágico de Oz”). Uma daquelas cenas bem típicas da época e que eu chamo de “Oscar winning scenes”; ela, atrás do seu sorriso escondendo suas lágrimas, com o queixo alto... A segunda razão da polêmica foi o fato de sua interpretação nao ter sido muito bem recebida em Hollywood. Eu, particularmente, acho-a muito exagerada como Anna.

No ano seguinte todas as opiniões a seu respeito em Hollywood mudariam com “A boa terra”. Primeiro ela recebeu o
New York Film Critics Circle Award. Depois seu segundo Oscar. O-Lang, a camponêsa chinesa, ex escrava, que luta ao lado do seu marido (
Paul Muni, êste realmente austríaco) tôda uma vida para acabar vendo-o casar com uma segunda esposa, Lotus (
Tilly Losch, outra austríaca que tinha dancado com
Fred Astaire na Broadway– porque tantos austríacos fazendo papel de chineses? Peter Lorre também em alguma época virou chinês... Nunca entenderei...) e perder tôda a fortuna de uma vida para uma praga de gafanhotos. Um desempenho não só para a época mas até hoje que só pode ser descrito com uma única palavra: MAGNÍFICO ! Eu, particularmente, considero-a fantástica neste filme e como O-Lan.
O filme demorou quase um ano para ser filmado, fato que abalou o casamento de Rainer com o (assumido) comunista Clifford Odets que, na época, estava montando sua peça “The golden Boy” na Broadway e tendo um caso amoroso com Frances Farmer. Para uma jovem geração ela é conhecida através de Jessica Lange, que a interpretou e também foi nominada para um Oscar de melhor atriz no genial “Frances” de 1982 (no mesmo ano em que recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por seu mais simples trabalho em “Tootsie”). Mas esta já é outra estória para uma postagem própria.
Há alguns anos assisti uma entrevista com Rainer no qual ela descrevia a forma como criou O-Lan. Ela estava com muitos problemas e nao conseguia entender e entrar na personagem. Um dia no estúdio, dia no qual muitos figurantes chineses e asiáticos estavam sendo testados, ela saiu do seu guarda-roupa e esbarrou com uma jovem chinesa, seu script caiu ao chão e as duas se abaixaram ao mesmo tempo para apanhá-lo. Bateram uma na outra com a cabeça. Ela se levantou e olhou para a chinesa, que ainda abaixada tinha um olhar de apreensão em sua direção. Ela sorriu para a chinesa que naquele momento nao só abriu-lhe um sorriso doce, terno como também “arrulhou” de prazer, felicidade, alívio... Como uma pombinha, uma rolinha feliz mas cheia de humildade. Naquêle momento O-Lan nasceu ou como disse Rainer lindamente: “Naquêle momento ela me presenteou com O-Lan”. Sempre que, por alguma razão, insegura com sua interpretação ela pensaria naquela chinêsa e O-Lan voltava a estar presente! 

Depois dêste segundo Oscar um brilhante futuro cinematográfico parecia estar assegurado para Luise Rainer. Mas não... Durante 1937 e 1938 ela fêz filmes triviais, no qual não se destacou de nenhuma forma. Sómente em “A grande valsa” (
The great waltz, 1938) ela conseguiu dar vida a um caráter de mais “carne e osso”: Poldi, a padeirinha vienense, a traída esposa de Strauss. Mais uma vez o “carma” de ser vienense.

Ela se afastou do cinema em 38. Sua carreira nos E.U.A. que tinha comecado em 1935 e tinha-lhe trazido dois Oscars (e muito dinheiro para a MGM), acabou tres anos depois. Uma tentativa frustrada de um “come-back” em 1943 (
The hostages) foi quase “embarassing”. Ela mudou-se para Londres aonde vive até hoje.
Mais uma vez a pergunta: como é a canção “I’m still here” de Stephen Sondheim? “TOP BILLING MONDAY, TUESDAY YOU`RE TOURING IN STOCK“. Nem esta sorte têve.
Ainda fez alguns trabalhos para a televisão e respectivamente em 1988, 1997 e 2003 (aos 93 anos) fez aparições no cinema (a última, lendo um poema, pela primeira vêz em alemão dêsde 1933!).Na cerimônia do Oscar em 2004 apareceu como a vencedora “Senior”, sentadinha ao lado de Julia Roberts (nunca tinha percebido que neste dia todos os ganhadores do Oscar estavam sentados em ordem alfabética quando a cortina abriu... atrás dela Jennifer Jones, Shirley Jones, ao seu lado Roberts e Cliff Robertson assim como na frente John Voight e Christopher Walken).
E ainda uma terceira vez:
"Top billing monday, Tuesday you're touring in stock! But I'm here!!!! E Luise definitivamente ainda está aqui para contar sua história e sua/s estória/s.